A BELEZA SALVARÁ O MUNDO?

Wladimir Caetano de Sousa, 3 de maio de 2023

Ao Rev.º Pe. Luan Guidoni

Cunhada por Fiódor Dostoiévski, a expressão “A beleza salvará o mundo”, posta na boca do protagonista de O Idiota (1869), o príncipe Míchkin, figura de pureza evangélica em um mundo degradado, permanece como enigma e provocação. Repetida à exaustão, essa máxima viria a ser retomada, reinterpretada e, em muitos casos, trivializada. Desde Hans Urs von Balthasar, para quem o esplendor da forma participa da revelação divina (Herrlichkeit, 1961), até Aleksandr Solzhenitsyn, que via na arte uma resistência espiritual contra o totalitarismo, a frase foi mobilizada para afirmar o valor soteriológico da beleza, ou ao menos sua capacidade de elevar, inquietar e purificar a alma humana.

Contudo, como não raramente ocorre em culturas de superfície, também essa idéia foi capturada e remodelada pelo imaginário da sociedade do espetáculo. No Brasil contemporâneo, por exemplo, onde até mesmo as idéias mais complexas e elevadas são rapidamente transformadas em hambúrguer para consumo das massas, o sentido dessa expressão, ainda que ambíguo em seu contexto original, é reinterpretado e acomodado segundo as aspirações sociais e econômicas de uma classe emergente, a dos influencers da nova direita. Lida por esse especialista na arte de não entender nada — o brasileiro —, a máxima dostoiévskiana é reconfigurada: a beleza deixa de ser via ascética para tornar-se estética de marca pessoal, uma espécie de branding espiritualizado.

Sob o pretexto de restaurar a “civilização ocidental”, esses influencers, muitas vezes nutridos mais por algoritmos do que por cultura, promovem um culto à forma esvaziada de conteúdo. O belo, para eles, parece se confundir com o que é fotogênico, com poses femininas sob o filtro barroco do Instagram, com a insistência de que “a mulher virtuosa deve estar sempre bela para o seu varão” — um simulacro de moralidade que converte a redenção estética em mercado afetivo.

Eu mesmo conheci uma jovem infectada por esse imaginário, que, sem fonte estável de renda, optou por viver em um condomínio cujo aluguel superava os três mil reais. Quando questionada sobre o desequilíbrio entre sua condição financeira e suas escolhas de vida, respondeu que não suportava a ideia de viver em um lugar “feio” — como se estética compensasse a imprudência de ter contraído dívidas de maneira irresponsável.

E nem falarei aqui das tais “obras de arte” produzidas sob essa ótica — filmes, romances, pinturas e documentários que pretendem encarnar uma estética restauradora, mas que, na prática, resvalam em kitsch, doutrinarismo ou formalismo besta. Melhor poupar o leitor de qualquer juízo específico: o silêncio é a crítica mais eloqüente.

A pergunta que então se impõe é: qual é o fundamento da beleza que salva?

Santo Agostinho, ao refletir sobre os transcendentais — o Bem, o Verdadeiro e o Belo —, associa cada um deles a uma das Pessoas da Santíssima Trindade: o Pai como o Bem supremo; o Filho como a Verdade eterna; e o Espírito Santo como a Beleza perfeita. Ora, por que se afirma que Jesus Cristo é o Mediador? Porque não se chega ao Pai nem ao Espírito Santo senão por Ele. Nesta chave teológica, Cristo, o Logos encarnado, é o Mediador que unifica os transcendentais numa coerência ontológica e soteriológica. Não se chega ao Bem senão pela Verdade, nem se participa da Beleza senão por meio do Logos que a revela e a funda. Fora disso, a beleza degenera em esteticismo oco: forma sem alma, aparência sem enraizamento, harmonia sem logos.

Essa é, aliás, a crítica que se pode fazer tanto à arte moderna quanto a certos formalismos religiosos contemporâneos. A dissociação entre beleza e verdade produz não apenas decadência artística, mas idolatria estética.[1] Em alguns meios eclesiais, como entre os chamados ratzingerianos e lefebvrianos, a crítica à Novus Ordo Missae às vezes se reduz à queixa contra sua “feiúra litúrgica” — ignorando, por vezes, que a forma deve ser expressão da verdade e não simples gosto estético. Sem o eixo da verdade, a beleza litúrgica também se corrompe.

De igual modo, não há bondade genuína sem verdade, assim como não há caridade sem fé; fora disso só há sentimentalismo bocó, filantropia estéril. A bondade, se dissociada do Logos, converte-se em sacrifício inútil.[2] A verdade, portanto, é a medida do belo e do bom, e Cristo é o ponto arquimédico que os sustenta e os transfigura.

Mas afinal, a beleza pode salvar? Sim, mas somente se for verdadeira, e, portanto, participada do Logos. A beleza que salva não é a do marketing religioso nem a do idealismo estético de redes sociais, mas a do Cordeiro imolado, cuja forma deformada é a mais alta revelação do esplendor divino (Is 53). Sem consciência desse vínculo necessário entre beleza e verdade, o legado da máxima “a beleza salvará o mundo” se resume a uma idolatria da forma desprovida de substância, um verniz de civilização que, ao menor confronto com a realidade das coisas, revela sua completa vacuidade.

Notas:

[1] O falecido Padre Anthony Cekada (1951–2020) denominou esse desvio de missa-latinismo — uma espécie de culto à missa tridentina enquanto tal, abstraída das verdades de fé que lhe dão sentido e legitimidade.

[2] É sempre bom recordar as palavras imorredouras de SS. Papa Eugênio IV, Concílio de Florença, “Cantate Domino”, 1441, ex cathedra: “A Santa Igreja Romana crê firmemente, professa e prega que nenhum dos que estão fora da Igreja Católica, não só pagãos como também judeus, heréticos e cismáticos, poderá participar na vida eterna; mas que irão para o fogo eterno que foi preparado para o demônio e os seus anjos, a não ser que a Ela se unam antes de morrer; e que é tão importante a unicidade do corpo da Igreja que só aos que nela permanecem lhe aproveitam, para a salvação, os sacramentos da Igreja e [lhes] dão prêmios eternos os jejuns, as esmolas e as demais obras de piedade e os exercícios do dever cristão. E que ninguém, por mais esmolas que dê, ainda que derrame seu sangue pelo Nome de Cristo, pode salvar-se se não permanecer no seio e na unidade da Igreja Católica.” (Decrees of the Ecumenical Councils, vol. 1, pág. 578; Denzinger 714).

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