BORGES

Wladimir Caetano de Sousa, 27 de julho de 2024 (versão final: 9 de maio de 2025)

A Leonardo Quintanilha

Ler Jorge Luis Borges é uma experiência estranha — e não será exagero dizer que essa estranheza também se impôs aos seus contemporâneos. Umberto Eco declarou ter enlouquecido ao entrar em contato com sua obra: foi amor à primeira leitura. Em seus contos, encontramos o ensaio filosófico revestido de ficção, tratado com um estilo conciso e austero, mas nunca desagradável. Há, ainda, uma erudição transbordante, presente nas referências e alusões históricas que povoam quase todas as narrativas. A magia borgiana está justamente na fusão entre ficção e realidade, de modo que o leitor permanece em estado de permanente suspensão: não sabe se a citação é autêntica ou pura invenção. Borges cria livros, autores e tradições inexistentes, e os insere com naturalidade nas notas de rodapé ou nos posfácios, partes também da composição. Confesso que, por um momento, fui enganado, o que apenas aumentou minha admiração pela genialidade do artifício.

Borges recorre com frequência à sobreposição ou intercalamento de histórias, à obsessão por estruturas labirínticas e especulares, à duplicidade do ser — ser o outro, ver-se no outro, confundir-se com o outro —, à ambiguidade, à circularidade do tempo, à tensão entre memória e esquecimento — em suma, à experiência do infinito. São temas que retornam com força em contos como O Aleph, O Imortal, Os Teólogos, A Outra Morte, A Procura de Averróis, O Zahir, A Escrita do Deus e Abenjacan El Bojari, morto em seu labirinto, além do próprio conto-título, textos que julguei melhor elaborados. Em Ficções, destaco quase todas as narrativas da seção O Jardim de Veredas que se Bifurcam. O ponto mais fraco de sua produção, a meu ver, é o conto Deutsches Requiem, mero panfleto germanofóbico com verniz literário — tributo desnecessário pago à mentira oficial do dia.

A leitura de Borges permite compreender, com clareza impressionante, a mentalidade pós-moderna. Quase todas as problemáticas lançadas pelas teorias literárias a partir dos anos 1960 já estão ali, enunciadas poeticamente: a historicidade da interpretação, a fala autorizada, a morte do autor, a apropriação da obra, a estética da recepção, o desplazamiento do sujeito enunciador, a identificação/desidentificação com o autor, a falsificação dos gêneros literários, etc. Pierre Menard, autor do Quixote marca um ponto de inflexão em sua trajetória. Borges o escreveu durante uma internação hospitalar, após uma infecção grave resultante de um traumatismo craniano. Temeroso de ter perdido a criatividade necessária à escrita ensaística, propôs-se o desafio de compor algo fora dos moldes habituais. Assim nasceu Pierre Menard, conto exemplar, em que o argumento é conduzido com tamanha astúcia que o leitor permanece desorientado até o último parágrafo — quando, enfim, tudo converge para um ponto central invisível — como se o labirinto, de repente, revelasse seu desenho por inteiro. Nele Borges não apenas parodia a crítica literária como antecipa, em chave poética, a desconstrução da autoria e da originalidade que viriam a ser temas centrais das vanguardas teóricas pós-estruturalistas.

Há algo de encantamento onírico na leitura de Borges: seus contos não se fixam na memória. Mal os termino e já me esqueço dos detalhes; eles se dissipam como sonhos ao despertar.

Seu universo ficcional configura um panteísmo literário irônico, em que o sagrado e o simulacro se espelham mutuamente. Axiomas metafísicos, intuições teológicas, reconstruções historiográficas, tratados científicos — tudo se converte em matéria de imaginação, desprovida de pretensão dogmática. Não haveria um Derrida, por certo, sem essa autonomia fundante do universo textual borgiano, no qual um texto remete sempre a outro texto, a realidade se dissolve na ficção, e tudo, no fim, se torna linguagem. No mundo borgiano, o símbolo é identificado com o simbolizado: livros, bibliotecas, espelhos, labirintos — todos passam a figurar como imagens do absoluto, do conhecimento, da divindade, da vida. O fantástico brota desse absurdo lógico, dessa aporia elevada ao status de poética. Borges é, acima de tudo, obcecado pelo infinito — concebido como série aberta — e pela perplexidade do indivíduo ante a multiplicidade dissolvente do espaço e do tempo.

É o drama do homem moderno, o do tempo de Borges: um homem lançado na nova era da informação, sob o impacto de uma explosão inédita dos registros de conhecimento, ao mesmo tempo em que assiste, atônito, ao espetáculo global da destruição, encenado nas grandes guerras. A literatura de Borges é, de certo modo, resposta a essa era de velocidade, simultaneidade e crise.

Para ser sincero, eu preferiria não tê-lo lido. Borges não é apenas inesquecível — ele é inesquecivelmente perturbador. Sua literatura altera o olhar, contamina o juízo, reconfigura os parâmetros do imaginável. A experiência se assemelha à mordida em um fruto proibido: uma vez provado, não há como ignorar seu sabor. Vi, li — e agora não posso mais desver, nem desler. A literatura, para mim, não será mais a mesma.

***

Quando o comentário é melhor que o artigo. Faço questão de reproduzir abaixo a resposta de Quintanilha:

Assino embaixo.

Pode soar meio cafona, mas realmente Borges é um mundo inteiro. Isso se aplica a outros escritores, mas a ele de uma forma especial, como o Wladimir bem disse ali: um panteísmo literário. Tem seus próprios deuses e demônios, símbolos e palavras sagradas. Borges é fundador e sumo-sacerdote da sua própria religião literária. Eu diria algo ainda mais extremo, mas parei para pensar e seria blasfêmia.

Ele é assim na prosa, e ainda mais na poesia. É realmente fascinante o quanto ele seduz. Sua figura nos hipnotiza pela cegueira progressiva, o passado glorioso de sua família (e para nós brasileiros a ascendência portuguesa dá um tempero a mais de interesse) e essa erudição praticamente imbatível. Poucas figuras da literatura são tão glamourosas.

Ele pareceu ler de tudo e mais um pouco. Ele se pinta como um Homero, e de certa forma é realmente um. Um oráculo pagão, um antigo profeta hebreu, um druida celta. Todos esses arquétipos se encaixam nele.

Todos os símbolos pelos quais ele tem obsessão representam a própria forma como ficamos depois do contato com ele. O labirinto nos dá noção de infinito: quando se pensa que achamos a saída, mais um corredor longo, escuro e pegajoso se abre.

O espelho porque, assim como ele faz em vários momentos, não somos um, mas muitos.

O tigre talvez seja o mais icônico. É um animal glamouroso como ele: bonito de longe, mas perigoso e potencialmente letal de perto. E foi isso aí que Eco e o próprio Wlad sentiram. Pegaram perto demais, cutucando o tigre com vara curta, e foram mordidos. Agora estão febris e procurando o remédio no próprio labirinto que os envenenou.

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