DE BOOMERS A ZOOMERS

Gustavo Petrônio Toledo, 1 de maio de 2025

A mim fica claro, contemplando os atritos ocorridos nos grupos sedevacantistas, que nós vivemos tempos em que o abismo entre gerações já não é apenas etário, mas ontológico. O confronto entre as gerações mais antigas — sobretudo os chamados boomers, aqueles nascidos entre 1945 e meados dos anos 60 — e as novas gerações, formadas por milennials tardios e sobretudo zoomers, revela-se uma batalha espiritual: de um lado, a indiferença ou ignorância doutrinária, a confusão mental, o conformismo morno dos que foram educados num contexto de dissolução do catolicismo como framework social e de emergência de um tipo funesto de mentalidade, de um novo modo de agir no mundo e sentir as coisas, moldado pela Rede Globo de Televisão e pelo discurso esquerdista; de outro, a angústia incendiária dos que tateiam por um sentido que ultrapasse os slogans morais gastos e certa vivência religiosa que é mera junção dominical de individualidades, expressão tacanha de um espírito derrotista. 

Os boomers, criados numa era de relativa estabilidade econômica e institucional, são hoje os representantes inconscientes de um status quo espiritual que desmorona. Sua cosmovisão é marcada por uma ignorância doutrinária crônica: vivem do consenso herdado, não de convicções detidamente examinadas. Substituíram a fé pura e integral por segurança, a busca da verdade por uma ética da conveniência ante os hereges e os apóstatas — o que inclui reconhecer ação do Espírito Santo onde não há —, e a política pela administração do possível.

Já os mais jovens, ainda que mergulhados num caos informacional e afetivo sem precedentes, são filhos do colapso. Cresceram num mundo em ruínas: culturalmente decadente, espiritualmente anêmico. Para eles, o mal-estar não é exceção, é condição. Por isso, sua inquietação não é apenas crítica, mas escatológica. Onde os mais velhos veem “exagero”, os jovens percebem sintomas; onde os primeiros falam de “moderação” e “prudência”, os últimos veem covardia e cumplicidade. Não se trata de rebeldia adolescente, mas de uma sede teológica: querem doutrina, querem mapa, querem verdade — mesmo que isso custe a demolição de tudo que os precedeu.

Esse desejo, porém, não é acolhido. A resposta dos mais velhos é sempre a mesma: desqualificação, sarcasmo e patologização. Chamam de radicalismo — ou talibanismo — o que é, na verdade, uma procura pela vivência católica plena de sentido. Reagem com desprezo ao que não compreendem, pois sua imaginação já não concebe maior transcendência.

Todavia os jovens continuam a buscar. Buscam na tradição integral e inegociável o que lhes foi negado pela família, pela escola e pela mídia. Buscam na reta e plena doutrina uma âncora contra o dilúvio da confusão. Os boomers, ao contrário, já não buscam: apenas repetem o que acreditam que seja a tradição demolida pelos demônios de Vaticano II.

O conflito entre essas gerações é, portanto, mais do que cultural: é metafísico. Talvez só reste esperar que, ao fim deste ciclo, a casa construída sobre a areia ceda lugar à fundação de pedra.

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