Epístola a John Gabriel
Wladimir Caetano de Sousa, 25 de janeiro de 2025
Oi, John.
Encontro-me quase ao término da seção dedicada aos jesuítas na obra Infinitesimal: a teoria matemática que mudou o mundo, de Amir Alexander (Zahar, 2016). Como era de se esperar, Alexander apresenta os eventos sob a ótica dos defensores da doutrina dos infinitesimais, distorcendo, em certa medida, a história da Igreja no período moderno — o que não surpreende, dada sua filiação judaica; seria como esperar que um torcedor do Panathinaikos narrasse com imparcialidade a história do Olympiacos.
O que eu posso afirmar, com certo pesar, é que, caso a cabala judaico-maçônica que hoje domina o mundo e impõe sua mitologia sobre a nossa civilização não tivesse conspirado para a supressão da Companhia de Jesus, talvez a história das ciências exatas (ou até mesmo das ciências humanas) tivesse seguido outro curso.
Os jesuítas, profundamente familiarizados com os escritos de Aristóteles e de Santo Tomás de Aquino, estavam cientes das contradições inerentes à doutrina do infinitesimal. Em sua Física, Aristóteles afirma que nenhum contínuo é divisível em entes sem partes. Consequentemente, a mera sugestão de que uma grandeza contínua pudesse ser composta de unidades indivisíveis era, para os revisores da Companhia, filosoficamente inaceitável.
Os superiores da Companhia de Jesus emitiram nada menos que quatro condenações formais à doutrina dos infinitesimais. Em 1651, publicou-se uma série de teses filosóficas definitivamente banidas do ensino nos colégios jesuíticos, entre as quais figuravam proposições relativas à natureza do continuum. Para os jesuítas, a teoria do infinitesimal não passava de uma reedição do atomismo filosófico, agora transposto para o campo da matemática — uma posição absolutamente inconciliável com a metafísica aristotélica e, sobretudo, com a doutrina católica.
O próprio superior-geral Vincenzo Carafa, ao ser informado do ensino de tais ideias em alguns colégios, escreveu indignado ao provincial da Baixa Alemanha, Nithard Biberus: “Quando vim a saber que há alguns na Companhia que seguem [a doutrina de] Zenão e pronunciaram, num curso de filosofia, que uma grandeza é composta de meros pontos, fiz saber que isso não tem a minha aprovação”. A referida carta, bem como as teses condenadas, podem ser consultadas em Georg Pachtler, Ratio studiorum et institutiones scholasticae Societatis Jesu, vol. 3, 1887, p. 76 e 90–97.
Serei franco contigo, John: ignoro se crês em Deus, se és ateu ou agnóstico. O que sei é que o conflito em questão está longe de se limitar à resistência de um grupo de escolásticos tacanhos frente a uma suposta teoria revolucionária inofensiva. Eu sou católico, e conheço, com alguma clareza, a batalha travada no âmago da nossa civilização há séculos. O problema é de outra ordem, muito mais profunda. É inconcebível que os sumos-sacerdotes da religião cientificista moderna ignorem a verdade — eles a conhecem. Mas não podem ceder, não querem ceder, pois sabem que as consequências seriam irreversíveis. Sabem o risco existencial a que estariam expostos se reconhecessem o equívoco.
A supressão da velha Companhia de Jesus — que nada tem em comum com a atual, inteiramente cooptada pelos servidores da Nova Ordem Mundial — foi condição sine qua non para o avanço dessa agenda.
Lamentavelmente, os jesuítas não nos legaram uma alternativa positiva à doutrina do infinitesimal. Sabiam que ela era metafisicamente errônea, mas não ofereceram uma resposta sistemática à altura. E eis aqui, John, o paradoxo: foste tu o primeiro a fazê-lo. Teu infortúnio é ter nascido trezentos anos depois do auge desse combate. Se tivesses vivido naquele contexto, propondo teu The New Calculus, não tenho dúvida de que serias celebrado como um verdadeiro gênio por aqueles doutíssimos padres, pois tua obra alinha-se perfeitamente à tradição geométrica clássica promovida pelos jesuítas — tradição que sucumbiu com a supressão da Companhia e a ascensão da Pérfida Albion como potência econômica e cultural.
O próprio matemático jesuíta André Tacquet (1612–1660) antecipou as consequências funestas da aceitação dessa doutrina. Em seu Cylindricorum et annularium libri IV (1651), declarou: “Os infinitesimais devem ser destruídos, ou então a matemática será destruída”.
Que Deus, em sua infinita misericórdia, nos livre o quanto antes dessa assembleia de vigaristas e pseudo-sábios metidos a matemáticos.
