ESCOTOMA
Wladimir Caetano de Sousa, 26 de agosto de 2024 (versão final: 6 de maio de 2025)
A Guilherme de Berredo Peixoto
Em uma década de efervescência cultural e tagarelice olavista, registrou-se apenas uma contribuição realmente significativa ao debate público brasileiro: a reintrodução do problema da usura, agora reformulada a partir de uma perspectiva histórica, social e antropológica abrangente, graças aos trabalhos de E. Michael Jones, Michael Hoffman, Michael Hudson, David Graeber, entre outros — autores cujas ideias foram notavelmente sistematizadas e inseridas numa moldura meta-histórica pelo principal divulgador de tais estudos no Brasil, o professor Murilo Resende Ferreira.
Já se passaram quatro anos desde suas primeiras exposições públicas sobre o tema, veiculadas em podcasts e programas de rádio. Desde então, qual foi o impacto dessa abordagem nos círculos highbrow do olavismo? A resposta é simples: praticamente nenhum. Isso se deve, em grande medida, ao fato de que o próprio Olavo de Carvalho jamais reconheceu qualquer problema na prática da cobrança de juros — como declarou abertamente em uma de suas últimas aulas do Curso Online de Filosofia. Assim, o que possivelmente constitui o mais grave problema de nosso tempo — com implicações sociais, políticas, filosóficas e até teológicas — era simplesmente ignorado pela principal referência intelectual de toda uma geração de brasileiros. Trata-se de um imenso escotoma, uma lacuna considerável no repertório do movimento.
Alexandre Costa, é verdade, chega a pressentir algo da seriedade e da complexidade do tema, mas permanece limitado pela moldura teórica legada por Olavo. Percebe a fumaça, mas não consegue localizar o foco do incêndio, pois nem tudo se resume a “presuma banqueiro”.
Fora essa única contribuição, nada mais digno de nota foi produzido. Houve, por parte dos chamados “paraolavettes” — aqueles que não se declaram discípulos diretos, mas ainda assim nutrem admiração pela obra do falecido — uma ou outra colaboração relevante. Contudo, para não alimentar ressentimentos, abstenho-me aqui de abordá-las. O restante do movimento reduziu-se a agitação cultural e política, e a mera propaganda, que serve apenas para manter a engrenagem em funcionamento, pois sabemos que os boletos se acumulam e não existe almoço grátis.
