LONGE DE CÉSAR,
PERTO DE TUPÃ
Wladimir Caetano de Sousa, 12 de outubro de 2025
A Murilo Resende Ferreira
Nos últimos meses, estive em conversas virtuais com o Padre Luan Guidoni a respeito dos problemas fundamentais do Brasil. E chegamos à mesma conclusão contundente: jamais houve, neste país, verdadeiro catolicismo. A raiz desse fenômeno reside em um déficit civilizatório: esta terra jamais experimentou um processo amplo e profundo de romanização.
Com efeito, tomemos as grandes figuras da teologia católica, os doutores da Igreja, que constituem o pico do pensamento cristão. Quem são eles? Agostinho de Hipona, Jerônimo de Estridão, Gregório Magno, Leão Magno, Boaventura de Bagnoregio, Tomás de Aquino, Roberto Belarmino, Afonso de Ligório… O que todos têm em comum? São, sem exceção, romanos ou profundamente romanizados. Essa coincidência não é fortuita. Significa que o mais alto pensamento teológico e filosófico da nossa civilização, imprescindível para a preservação da fé e salvação das almas, está indelevelmente fixado na língua e no espírito da civilização que o próprio Deus escolheu para se encarnar. A salvação, portanto, passa pela assimilação genuína dessa mentalidade ou forma de racionalidade, por uma interiorização do espírito latino que ordene a mente e o corpo à medida dessa razão e dessa forma. Sem essa impregnação espiritual e intelectual, nenhuma sociedade pode dizer-se verdadeiramente católica romana.
Ora, o Brasil jamais passou por essa experiência formativa. É certo que os jesuítas se empenharam numa paidéia brasílica, um projeto de educação cristã gestado em conformidade com o fundo cósmico americano. Mas sua obra sucumbiu, e mesmo entre eles não se encontrava um zelo consistente pela romanização, o que explica seus conflitos frequentes com outras ordens religiosas. O resultado é que o brasileiro permaneceu um ser incorrigivelmente irracional: para ele, a racionalidade é uma camisa-de-força. Donde o descaso, neste país, por assuntos como teologia moral, direito canônico, metafísica escolástica, etc. O pensamento de Santo Tomás aqui é mero discurso, blá-blá-blá academicista, instrumento de legitimação intelectual para quem está à procura de um diploma rentável, ou do rótulo de “tomista”. Não há verdadeira incorporação do método escolástico, nem conversão do espírito. Vigora a lógica das aparências.
Nesse contexto, o catolicismo praticado no Brasil não passa de uma forma sofisticada de macumba. A relação do brasileiro com o sagrado é essencialmente mágica: opera por simpatias e antipatias, afetos e repulsas, e não por uma adesão firme, sólida, luminosa, enfim racional à fé, de tal modo que não há diferença substancial entre um “continuísta” e um “tradicionalista”: ambos se movem pela mesma lógica mágica, apenas variando os símbolos e os ritos. O segundo prefere a missa tridentina, não por compreender-lhe a teologia, mas porque a julga mais adequada ao seu sistema de crenças meramente formais. O substrato mágico permanece porém o mesmo.
Essa mentalidade religiosa profundamente afetiva e pré-racional explica o predomínio das devoções femininas no imaginário espiritual brasileiro. É também o motivo do enorme sucesso, entre nós, de figuras como Santa Teresinha — sem, com isso, desmerecer sua vida e santidade. A relação do brasileiro com o sagrado é fundamentalmente feminina, no sentido de ser intuitiva, sentimental e subjetiva. No entanto, é evidente que não se constrói uma civilização com base apenas em experiências místicas individuais. Pois quando se busca solucionar uma questão moral ou doutrinal, como dissipar dúvidas sobre o pecado da usura, por exemplo, ninguém consulta a História de uma Alma de Santa Teresinha, mas abre a Suma Teológica; ou para dirimir dúvidas a respeito da natureza do Papado, ninguém recorre ao Castelo Interior de Santa Teresa de Ávila, mas ao De Romano Pontifice de Belarmino.
Mas em tempos de confusão espiritual e crise de autoridade, o óbvio tornou-se algo esotérico. Em lugar da doutrina reta e objetiva, o homem moderno volta-se para si mesmo, buscando consolo na “mística”, na literatura de “espiritualidade”, negligenciando as questões filosóficas e teológicas cuja resolução é absolutamente necessária para a salvação de sua alma, pois a estabilidade e perpetuação da própria religião depende de clareza e precisão no domínio filosófico-teológico. Essa evasão sentimental é, em si mesma, um sintoma da decadência civilizacional.
Digo-te tudo isso com a consciência de que estas palavras soam como grego, hebraico ou a língua do Avatar para o afegão médio brasileiro, mas sei que compreenderás ao menos uma centelha das minhas idéias. É necessário dizê-las. A relação mágica, irracional e afetiva com a religião neste país precisa chegar ao fim, se quisermos que esta terra um dia conheça algo que se possa chamar, com propriedade, de catolicismo.
