A APOSTASIA DE JOÃO PAULO II: UMA RESPOSTA CATÓLICA
Dom Daniel L. Dolan (†2022)
Tradutor do texto: Elvira Mattoso.
Descrição: O texto é um longo discurso crítico que interpreta o governo de João Paulo II como uma apostasia completa, e não mera heresia, em razão do ecumenismo do Concílio Vaticano II, entendido como relativização dos dogmas católicos. Sustenta que essa apostasia implicaria a perda da autoridade papal e a impossibilidade teológica de reconhecer João Paulo II, Paulo VI e João Paulo I como verdadeiros papas. Monsenhor Dolan rejeita duas respostas consideradas inadequadas à crise: a da Fraternidade de São Pedro, vista como acomodação ao modernismo, e a da Fraternidade de São Pio X, acusada de incoerência e espírito cismático. Ele sustenta que resistir seletivamente ao magistério destrói a indefectibilidade e a autoridade da Igreja. Conclui exortando à formação de uma frente católica unida, fiel à doutrina tradicional, rejeitando tanto o modernismo ecumênico do Novus Ordo quanto o espírito galicano de livre-exame da Tradição.
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Texto de um discurso proferido em St-Maurice, Bretanha (França) em 13 de agosto de 2000.
É para mim uma alegria singular vir à França neste grande dia de festa da Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria, a convite do Padre Guépin. A Assunção é a maior de todas as festas da Santíssima Virgem, e é na França que este esplêndido triunfo de Nossa Senhora é celebrado com a maior solenidade. Pois, como sabeis, vosso Rei, Luís XIII, fez deste dia o dia de festa nacional da França e convocou uma consagração anual da França à Nossa Senhora. A piedade e a devoção dos franceses à Bem-Aventurada Virgem Maria são bem conhecidas em todo o mundo.
Mas, como todos vós sabeis muito bem, nossa alegria é temperada pela tristeza que devemos suportar todos os dias devido à crise na Igreja Católica. Já suportamos esta tristeza por trinta e cinco anos e perguntamos: Domine, usquequo? (“Senhor, até quando?”).
O que aumenta incomensuravelmente nossa tristeza nestes tempos é o fracasso dos católicos fiéis em montar uma frente unida e consistente contra o inimigo. Quando olhamos ao redor para o campo da resistência católica, quão perturbados ficamos ao ver sua falta de unidade! O que é ainda mais inquietante é que a maioria daqueles que resistem não reconhece o inimigo como o inimigo, mas antes como a própria autoridade de Cristo. Assim, percebendo os modernistas como a verdadeira autoridade de Cristo e de Sua Igreja, colocaram-se sob a obediência dos modernistas, como no caso da Fraternidade de São Pedro, ou desejam estar em comunhão com os modernistas, sujeitar-se a eles e trabalhar com eles, como é o caso da Fraternidade de São Pio X.
Portanto, percebo que minha missão como bispo é a tarefa de alertar os católicos para a resposta verdadeiramente católica à presente crise na Igreja. Além disso, espero ordenar jovens ao sacerdócio que tenham sido formados de maneira plenamente católica e que não respondam à apostasia de João Paulo II com um espírito de cisma.
Esses são os dois tópicos que abordarei hoje: primeiro, a apostasia de João Paulo II e suas consequências teológicas; e segundo, a resposta verdadeiramente católica a essa apostasia.
A APOSTASIA DE JOÃO PAULO II
Observai que não escolhi a palavra heresia, mas sim apostasia. Os erros de João Paulo constituem verdadeiramente uma apostasia, e não meramente uma heresia.
Heresia é duvidar ou negar uma verdade particular da fé, ou talvez algumas verdades da fé, por exemplo, a divindade de Cristo, a presença real de Cristo na Sagrada Eucaristia, o nascimento virginal, etc. Provavelmente estais familiarizados com alguns dos heréticos bem conhecidos da história: Ário, Lutero, Calvino.
A apostasia, por outro lado, é rejeitar completamente a fé cristã. Por exemplo, o imperador no século IV, Juliano, repudiou totalmente a fé e tornou-se um apóstata, abraçando o culto aos antigos deuses romanos. Ele é conhecido como Juliano, o Apóstata.
Então, por que uso esta palavra forte em relação a João Paulo II, que professa ser católico e que, de tempos em tempos, até diz coisas edificantes e piedosas?
É porque ele não adere a nenhum dos artigos de fé que professa crer. Ele não adere a eles porque, para ele, essas verdades sagradas não excluem o que se opõe a elas. Aquilo que contradiz essas verdades não é, para ele, falso.
Por que ele não as considera falsas? Porque, primeiro e acima de tudo, João Paulo II é um ecumenista, e não um católico. Um ecumenista é alguém que acredita que todas as religiões contêm uma certa medida da verdade, algumas mais, outras menos, e que todas elas têm, portanto, um certo valor. Todas as religiões, para o ecumenista, são religiões verdadeiras. Algumas são meramente melhores que outras.
O máximo que concedem à Igreja Católica é que ela possui a “plenitude da verdade”, enquanto as outras têm apenas a “verdade parcial”. Mas quando falam sobre a Igreja Católica, estão falando sobre a Igreja Católica que vós e eu conhecemos? Não, eles estão se referindo a esse catolicismo reformado, essa nova religião do Vaticano II, uma falsificação grotesca da verdadeira fé.
Eles também distinguem entre “A Igreja” e a “Igreja Católica”. “A Igreja” para eles é toda a humanidade, pois, como disse o Vaticano II na Gaudium et Spes, Cristo uniu-se de alguma forma a cada homem por causa de Sua Encarnação:
“A natureza humana, pelo fato de ter sido assumida, e não absorvida, n’Ele [Cristo], foi elevada em nós também a uma dignidade incomparável. Pois, pela sua Encarnação, Ele, o Filho de Deus, uniu-se de certo modo a cada homem.” (Gaudium et Spes, nº 22).
João Paulo repetiu isso em sua primeira encíclica e, de fato, tornou-o o tema central de sua doutrina. Ouçamos outros textos de João Paulo. Ele fala sobre o dia ecumênico pancristão de Assis (27 de outubro de 1986) e diz que:
“Tal dia pareceu exprimir, de modo visível, a unidade oculta mas radical que o Verbo estabeleceu entre os homens e mulheres deste mundo… o fato de terem vindo juntos a Assis é como um sinal da profunda unidade daqueles que buscam valores espirituais na religião… O Concílio estabeleceu uma conexão entre a identidade da Igreja e a unidade da raça humana.” (Lumen Gentium 1 e 9; Gaudium et Spes, 42).
Portanto, todo homem, na medida em que está unido ao Verbo apenas em virtude de Sua Encarnação, é membro da Igreja de Cristo. A Igreja de Cristo nada mais é do que a totalidade do gênero humano, sem qualquer exceção. No mesmo discurso, ele continua esse tema explicando que a ordem divina das coisas é a unidade de todos os homens que buscam valores religiosos. As diferenças de fé e moral que existem entre as várias religiões são efeito de seres humanos que corromperam a ordem divina. Assim, o objetivo, para João Paulo, é fazer desaparecer as diferenças religiosas e fazer prevalecer a ordem divina — isto é, a ordem panteísta. Citemos seu discurso:
“As diferenças religiosas revelam-se como pertencentes a outra ordem. Se a ordem da unidade é divina, as diferenças religiosas são um fazer humano e devem ser superadas no processo em direção à realização do grandioso desígnio de unidade que preside à criação. É possível que os homens não tenham consciência de sua unidade radical de origem e de sua inserção no mesmíssimo plano divino. Mas, apesar de tais divisões, eles estão incluídos no grande e único desígnio de Deus em Jesus Cristo, que se uniu de certo modo a cada homem (Gaudium et Spes, 22), mesmo que este não tenha consciência disso.”
A partir dessas palavras percebemos a apostasia de João Paulo: todos os homens pertencem a um Cristo panteísta que está unido a cada homem, saiba ele ou não, em virtude de sua Encarnação. Escutai novamente João Paulo II:
“A esta unidade católica do povo de Deus todos os homens são chamados, a esta unidade pertencem, de diversas formas, os fiéis católicos e aqueles que olham com fé para Cristo e finalmente todos os homens sem exceção.”
Essas palavras de João Paulo nos dão a chave para entender o enigma desse homem: por um lado, professar as verdades da fé católica, recitar o Credo católico; mas, por outro lado, professar ao mesmo tempo um repúdio completo da fé por atos abomináveis contra o Primeiro Mandamento.
João Paulo II vê o valor e a utilidade da fé católica e da Igreja Católica como o instrumento de unificação da humanidade, não por levá-la ao verdadeiro Salvador, mas antes a esse Cristo panteísta que abraça todos os homens apesar de suas diferenças religiosas. Ele, em suma, criou uma Igreja sem dogmas que busca unir a humanidade sob um Cristo sem dogmas. Como a Igreja Católica é tão útil para esse fim, transformada como foi pelo Vaticano II, João Paulo II professa muitas doutrinas católicas. Mas ele adere a essas doutrinas com a certeza e firmeza da fé divina? De modo algum! Pois quem quer que tenha verdadeiramente a fé católica não poderia:
- beijar o Alcorão, a “Bíblia” maometana;
- dizer que todos os homens estão unidos a Cristo apenas em virtude da Encarnação;[1]
- dizer que todos os homens são salvos;[2]
- dizer que a Igreja una, santa, católica e apostólica do Credo está presente, em todos os seus elementos essenciais, em seitas não católicas;[3]
- dizer que a Igreja Católica está em comunhão com seitas não católicas;[4]
- dizer que a Igreja Católica é incapaz de dar credibilidade ao Evangelho, a menos que haja uma “reunião dos cristãos”;[5]
- dizer que a Igreja Católica compartilha uma fé apostólica comum com as seitas não católicas;[6]
- dizer que seitas não católicas têm uma missão apostólica;[7]
- dizer que o Espírito Santo usa seitas não católicas como meios de salvação;[8]
- dizer que é divinamente revelado que os homens têm direito à liberdade religiosa e à liberdade de consciência;[9]
- dizer que uma sociedade devidamente ordenada é aquela em que todas as religiões têm rédea solta para praticar, fazer proselitismo e propagar-se;[10]
- dizer que a descida de Nosso Senhor ao inferno significa simplesmente que Ele foi sepultado;[11]
- participar de todas as formas de culto não católico, incluindo o de luteranos, judeus, hindus, índios americanos, polinésios, para mencionar apenas alguns;
- louvar a religião vodu;
- permitir a abominação de Assis, na qual uma estátua dourada de Buda foi colocada sobre um altar e incensada por um sacerdote budista;
- permitir as abominações ecumênicas contidas no Diretório Ecumênico;
- aprovar o sacrilégio ao Santíssimo Sacramento permitindo que não católicos o recebam;
- sustentar e ensinar a noção blasfema e herética da Igreja segundo a qual a Igreja de Cristo não é exatamente a mesma coisa que a Igreja Católica, mas meramente subsiste nela. Essa doutrina herética foi ensinada pelo Vaticano II na Lumen Gentium, e seu significado herético foi defendido por João Paulo muitas vezes, particularmente no Diretório Ecumênico;
- dizer que muçulmanos e católicos adoram o mesmo Deus;[12]
- dar aprovação pública à Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação, que contém muitas heresias explícitas e contradiz totalmente o ensino solene do Concílio de Trento sobre a justificação.
Essas são apenas algumas das heresias de João Paulo II. Nunca devemos esquecer que alguém pode manifestar uma adesão à heresia não apenas por palavras, mas também por atos. Assim, seus muitos atos ecumênicos que são uma afronta ao único Deus verdadeiro são manifestações de uma adesão interior à heresia.
Todos esses erros e heresias são mantidos e ensinados por João Paulo II em nome do ecumenismo. É esse ecumenismo que constitui a apostasia de João Paulo II. O ecumenismo é apostasia porque reduz todos os dogmas da fé católica à relatividade. No sistema ecumênico, todas as religiões são vistas como tendo uma certa parte da verdade, e todas as religiões são vistas, portanto, como tendo um certo valor. Por essa razão, João Paulo II repetiu frequentemente a heresia do Vaticano II: que o Espírito Santo não hesitou em usar religiões não católicas como meios de salvação.
Mas tratar os dogmas da Igreja Católica de tal maneira é, no entanto, privá-los de todo o seu valor. O ecumenista abandona todos os dogmas da Igreja Católica, visto que não dá o assentimento de fé a nenhum deles.
A fé é uma adesão a um dogma baseada na autoridade de Deus que se revela. Por isso, o que cremos pela virtude da fé é absoluto e imutável. Os mártires professam sua adesão a esses dogmas imutáveis dando suas vidas, às vezes após terem suportado torturas atrozes. Portanto, a virtude da fé não pode tolerar o ecumenismo. O ecumenismo é diretamente contrário ao assentimento da fé e, portanto, é uma violação grave do Primeiro Mandamento de Deus: Eu sou o Senhor teu Deus; não terás deuses estranhos diante de mim.
O ecumenista, deve-se lembrar, está construindo a grande religião ecumênica, um grande templo ecumênico, no qual todas as religiões poderão coexistir, não importa quais sejam suas crenças internas, desde que nenhuma delas sustente que suas crenças são absolutamente verdadeiras e exclusivas de crenças que lhe sejam opostas.
Esse fato explica por que João Paulo II ocasionalmente fala sobre a doutrina católica: para ele, é falar sobre nossos assuntos internos, nossa experiência religiosa, nossos dogmas; porém, esses dogmas, para ele, são mantidos e ensinados no contexto do ecumenismo, isto é, onde são despojados de qualquer significado absoluto.
Isso pode ser comparado à culinária local das várias regiões da França: cada região tem seus próprios pratos, seus próprios vinhos, seus próprios queijos. Todos são bons em si mesmos, e a culinária de uma região não exclui as especialidades de outra região.
João Paulo vê a religião sob uma luz semelhante. Todas as religiões são o efeito do trabalho de Deus na alma; todas as religiões têm uma certa verdade. É missão da Igreja apagar as divisões entre as várias religiões e trazer todos os homens para uma grande religião mundial, sem, contudo, eliminar a legítima diversidade de dogmas.
Isso é uma apostasia. Sabemos disso não pelo nosso próprio julgamento, mas pelo ensinamento da Igreja Católica. O Papa Pio XI em sua encíclica Mortalium animos, referindo-se aos congressos ecumênicos, disse:
“Claramente, os católicos não podem aprovar esses empreendimentos de forma alguma, pois eles se baseiam naquela falsa opinião daqueles que pensam que todas as religiões são mais ou menos boas e louváveis, as quais, embora não da mesma forma, igualmente manifestam e atestam aquele sentido inato que está implantado em nós, pelo qual somos atraídos para Deus e para o reconhecimento devoto de Sua soberania. Aqueles que sustentam essa opinião não apenas erram e estão enganados, mas também, visto que repudiam a verdadeira religião distorcendo a noção dela, gradualmente se voltam para o naturalismo e o ateísmo. Por essa razão, segue-se claramente que quem quer que adira a tais coisas, ou tome parte em seus empreendimentos, abandona totalmente a religião revelada por Deus.”
AS CONSEQUÊNCIAS DA APOSTASIA DE JOÃO PAULO II
É evidente que a apostasia, que é o pior pecado contra a fé, tem consequências terríveis na Igreja, que é uma organização fundada sobre a fé.
Nosso “bilhete” para entrar na Igreja Católica é a profissão da verdadeira fé. No batismo, antes mesmo de entrar no edifício da igreja, o padre pergunta: “O que pedes à Igreja de Deus?”. A resposta é: “A fé”. Sem essa profissão de fé, o sacerdote não consentiria em nos admitir na Igreja.
Assim, a perda da fé, seja por heresia ou apostasia, tem a consequência imediata e automática de nos separar da Igreja Católica. Para que isso aconteça, no entanto, nossa heresia ou apostasia deve ser pertinaz. Nossa heresia ou apostasia é pertinaz se estivermos conscientemente e voluntariamente nos opondo ao ensinamento da Igreja Católica. O único fator que escusa o herético da pertinácia é a ignorância do fato de que a doutrina que ele está professando é contrária ao ensinamento da Igreja Católica.
Podemos escusar João Paulo II por motivo de ignorância? É claro que não. Seria absurdo dizer que um homem com tanta formação na fé pré-Vaticano II pudesse ser ignorante do ensinamento da Igreja Católica. Embora possamos conceber a ignorância em um leigo simples, é impossível conceber a ignorância em um ex-professor de seminário como João Paulo II, que possui doutorado pela Pontifícia Universidade do Angelicum. Se a ignorância fosse possível em tal homem, então quem poderia possivelmente ser culpado de heresia ou apostasia?
Sentimo-nos seguros da pertinácia de João Paulo II quando consideramos que, durante sua ocupação do Vaticano por mais de vinte anos, houve um verdadeiro reinado de destruição da fé em todas as instituições da Igreja. Se ele não fosse pertinaz, ficaria ao menos horrorizado com essa perda de fé e tomaria medidas contra ela. As únicas medidas que ele tomou, porém, foram contra a preservação da fé tradicional, e estas ele tomou com grande vigor e particular severidade.
I. Separação da Igreja e perda de autoridade
Assim, a primeira consequência da apostasia de João Paulo é sua separação da Igreja Católica.
A conclusão óbvia, que brota diretamente da natureza da fé católica e da Igreja Católica, é que João Paulo II não é, de fato não pode ser, um verdadeiro Pontífice Romano. Pois não é preciso dizer que alguém não pode ser a cabeça de algo do qual nem sequer é membro.
O problema que enfrentamos é que sua separação da Igreja Católica e, portanto, sua não-papalidade, não foi legalmente declarada. Se um concílio geral ou um conclave declarasse sua apostasia e suas consequências, a crise na Igreja cessaria subitamente. A confusão estaria terminada. Ele estaria na mesma posição de Martinho Lutero. Mas o problema agonizante que enfrentamos é que essa declaração legal falta e ele, portanto, tem a aparência de ser um verdadeiro papa, enquanto adere e promulga uma religião falsa. Não há nada que se harmonize mais naturalmente com o papado do que a verdadeira fé, e não há nada que seja mais oposto ao papado do que a profissão e promulgação de uma falsa religião. A autoridade do papado foi dada por Cristo à Igreja a fim de nos confirmar na verdade revelada. Assim, não há maior perversão dessa autoridade do que nos confirmar na apostasia.
II. Promulgação da apostasia como regra de fé e disciplina
A segunda consequência da apostasia de João Paulo é ainda mais importante. Devemos ressaltar que João Paulo não caiu meramente no pecado pessoal de heresia e apostasia, mas, o que é infinitamente mais pernicioso, ele está promulgando essa apostasia como regra de crença e disciplina da Igreja Católica Romana.
João Paulo, em suma, está exigindo que todos os católicos se tornem apóstatas ecumênicos com ele.
Isso é o mais importante, pois essa tentativa de alterar a crença e a disciplina da Igreja Católica toca na indefectibilidade da Igreja e na sua assistência constante por Cristo através dos tempos. “Eis que estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos”.
Assim, Paulo VI e seus sucessores promulgaram as falsas doutrinas do Vaticano II e sua subsequente falsa liturgia e falsas disciplinas.
Podemos dizer que essas falsas doutrinas, essa falsa liturgia e essas falsas disciplinas nos são dadas pela autoridade de Cristo?
Podemos admitir que a Igreja Católica autorizou a promulgação e o uso universal de tais coisas?
Absolutamente, não. Pois, se associarmos toda essa defecção à Igreja Católica e, consequentemente, à autoridade de Cristo, então como podemos dizer que a Igreja é indefectível? Como ela é assistida por Cristo?
Visto que somos obrigados pela santa fé a não proferir tais blasfêmias sobre Cristo e Sua Igreja, somos obrigados a concluir que, de algum modo, as pessoas que promulgaram essas coisas não possuem a autoridade de Cristo ou da Igreja. A conclusão é óbvia: a fé que temos na assistência divina à Igreja nos compele a dizer que é impossível que Paulo VI, João Paulo I ou João Paulo II sejam verdadeiros papas católicos.
A RESPOSTA CATÓLICA
Em resumo, portanto, a resposta católica à apostasia de João Paulo II é clara: ele não pode ser o verdadeiro Papa. É claro por dois motivos e por dois argumentos distintos:
- Pela sua queda pessoal e pública da verdadeira fé, o que o coloca fora da Igreja; e
- pela sua promulgação de falsas doutrinas, liturgia e disciplinas, o que prova que lhe falta a assistência de Cristo que é prometida à verdadeira autoridade da Igreja.
RESPOSTAS NÃO-CATÓLICAS
I. A Fraternidade de São Pedro e os seguidores do Indulto
A Fraternidade de São Pedro e aqueles que seguem o Indulto aceitam a hierarquia do Novus Ordo como a hierarquia católica, e aceitam o Vaticano II e todas as reformas oficiais feitas em consequência dele. Foi-lhes concedido pelos modernistas o direito de manter a Missa de João XXIII e de operar um seminário e um instituto de acordo com linhas mais ou menos anteriores ao Vaticano II. A solução deles, portanto, é aderir à tradição sob os auspícios do Novus Ordo e em obediência a ele. Sua adesão à tradição, consequentemente, não é vista como uma defesa da Fé contra os modernistas, mas sim como uma preferência, algo como a High Church na comunhão anglicana.
Pelo que dissemos acima, vemos que isso não é, de modo algum, uma solução. Uma vez que aceitaram o Novus Ordo como católico, reduziram sua adesão à tradição a uma mera nostalgia. Tornaram-se uma High Church dentro da religião ecumênica de João Paulo II — uma religião que admite até o vodu, o culto a Shiva, ao Grande Polegar e a Buda, e o louvor a heresiarcas como Martinho Lutero.
Mas uma coisa deve ser dita em favor daqueles que seguem a Fraternidade de São Pedro: eles são, ao menos, coerentes e lógicos em seu pensamento, na medida em que veem que não se pode aceitar João Paulo II como papa e, ao mesmo tempo, ignorar sua doutrina e autoridade disciplinar. No entanto, é absolutamente deplorável que essas pessoas se permitam ser tão cegas a ponto de estarem em comunhão — isto é, de serem correligionárias — com os modernistas, os quais São Pio X disse que “deveriam ser combatidos a socos”.
II. A Fraternidade de São Pio X e outros
A resposta da Fraternidade de São Pio X (FSSPX) tem sido a de opor-se à apostasia de João Paulo II com o espírito de cisma. Muitos outros seguem um caminho semelhante.
A solução lefebvrista, declarada de forma simples, é esta: reconhecer a autoridade de João Paulo II, mas não segui-lo em seus erros. O Arcebispo Marcel Lefebvre insistia que todos dentro da Fraternidade de São Pio X considerassem João Paulo II como papa, e expurgou da Fraternidade todos aqueles que publicamente sustentavam que ele não o era. Ele sempre tratou os modernistas romanos como se tivessem autoridade, buscando deles aprovação para sua fraternidade. Ele via como solução para a crise modernista um movimento tradicional popular que, em cada diocese do mundo, clamasse por padres tradicionais e rejeitasse os modernistas. Ele supunha que a solução sedevacantista arruinaria tal movimento popular, pois julgava que dizer que João Paulo II não era o papa seria algo pesado demais para uma pessoa comum suportar.
Diante do óbvio problema de obediência que sua posição impunha, Arcebispo Lefebvre respondia que nenhuma autoridade, incluindo a do papa, tem o direito de nos ordenar algo errado. Ora, o Novus Ordo é errado. Portanto, o papa não pode nos obrigar a aceitar o Novus Ordo. Esse raciocínio levou à necessidade de peneirar o Novus Ordo em busca de catolicismo. Tal como o homem que garimpa grãos de ouro escondidos na lama, assim o católico teria que peneirar o magistério e os decretos de Paulo VI e João Paulo II em busca de grãos da verdadeira fé. O que quer que aparecesse como tradicional seria aceito; o que fosse modernista, rejeitado. E como Dom Lefebvre era o mais proeminente daqueles que aderiam à tradição, sua palavra tornou-se a norma próxima de crença e obediência para centenas de padres e dezenas de milhares de católicos. Assim, a suposta autoridade de João Paulo II não era suficiente para mover as mentes e vontades dos católicos fiéis à tradição, mas precisava ser aumentada pela aprovação de Dom Lefebvre. Esse papel de “peneirador” que a Fraternidade assumiu foi zelosamente guardado, e qualquer um que ousasse ignorá-lo era considerado subversivo e, em última instância, expulso.
A Fraternidade usa frequentemente a analogia de um pai de família que diz aos filhos para fazerem algo errado. Os filhos, em tal caso, devem desobedecer ao pai para serem obedientes à lei superior de Deus. Mas, ao mesmo tempo, o pai sempre permanece o pai. Do mesmo modo, argumentam eles, o Papa é nosso pai e está nos mandando fazer algo errado, isto é, aceitar o Vaticano II e suas reformas. Devemos desobedecer, argumentam, pois essas coisas são contrários à lei divina. Mas, não obstante, João Paulo II continuaria sendo o papa.
Infelizmente, essa analogia não pode ser aplicada. Em primeiro lugar, ser o pai natural de alguém nunca pode mudar porque se baseia na geração física. Mas ser o pai espiritual de alguém pode mudar porque se baseia em uma geração espiritual. Portanto, um papa poderia renunciar e não ser mais o pai espiritual dos católicos.
Mas há uma razão mais importante pela qual esse argumento é falso. Se um papa desse a uma pessoa específica um comando específico que fosse mau (ex: profanar um crucifixo), o argumento se aplicaria. Pois, em tal caso, o papa não estaria empenhando toda a prática da Igreja e, portanto, não comprometeria a indefectibilidade da Igreja. Mas se ele promulgasse uma lei geral estabelecendo que todos os católicos deveriam profanar crucifixos, então a própria indefectibilidade da Igreja estaria em jogo. Pois como poderia a Igreja de Cristo fazer tal lei? Não estaria ela, então, conduzindo todas as almas ao inferno? O fato de João Paulo II ter promulgado leis gerais que prescrevem ou mesmo permitem o mal constitui uma violação da indefectibilidade da Igreja.
Portanto, o argumento da Fraternidade não pode ser aplicado à presente crise na Igreja.
Se João Paulo II é papa, devemos obedecer-lhe. Admitir sequer a possibilidade de que um papa possa promulgar doutrinas falsas e decretar disciplinas universais que sejam más é, em si mesmo, uma heresia contra o ensinamento de que a Igreja Católica é infalível nessas matérias. É inconcebível que, ao seguir os ensinamentos universais da Igreja ou suas disciplinas universais, alguém possa ser desviado e ir para o inferno. Se isso fosse possível, ter-se-ia que concluir que a Igreja Católica Romana não é a verdadeira Igreja, mas uma instituição humana como qualquer outra falsa igreja.
Além disso, peneirar os ensinamentos da Igreja é colocar-se a si mesmo como papa, pois sua adesão a esses ensinamentos não seria baseada na autoridade da Igreja, mas sim na sua própria “peneira” desses ensinamentos.
Um dos Superiores de Distrito da Fraternidade escreveu numa carta denunciando as reformas do Vaticano II: “É por isso que insistimos em reconhecer o Papado e a hierarquia, apesar do fato de não nos sentirmos de modo algum um com eles”. Essa frase descreve perfeitamente a posição deles, que combina duas coisas intrinsecamente incompatíveis: reconhecer João Paulo II como papa, mas não ser um com ele.
É imediatamente evidente que a posição deles envolve contradições labirínticas do ponto de vista da eclesiologia católica. Em primeiro lugar, eles de alguma forma veem o Vaticano II e suas reformas como sendo ao mesmo tempo católicos e não-católicos e, por essa razão, “peneiram” os ensinamentos e disciplinas do Novus Ordo a fim de colher da massa apodrecida aquilo que porventura seja católico. Eles, portanto, associam o Novus Ordo à Igreja Católica. Consideram a hierarquia do Novus Ordo como a hierarquia católica, tendo a autoridade de Cristo para ensinar, governar e santificar os fiéis. Contudo, ao mesmo tempo, são excomungados por essa mesma autoridade, uma vez que agem como se ela não existisse, chegando ao ponto de sagrar bispos em desafio a uma ordem “papal” direta.
A posição lefebvrista é completamente incoerente e faz picadinho da indefectibilidade da Igreja Católica, pois identifica com a Igreja Católica a defecção doutrinária e disciplinar do Vaticano II e suas reformas subsequentes. Nossa posição é que o Vaticano II e suas reformas não são católicos e que, portanto, aqueles que os promulgaram não podem ser portadores da autoridade católica. Se fossem a verdadeira autoridade católica, teriam a assistência de Cristo e seriam incapazes de promulgar doutrina e disciplina defeituosas para a Igreja Católica.
Os lefebvristas, porém, estão na posição impossível de resistir à autoridade da Igreja Católica em questões de doutrina, disciplina e culto, que são os efeitos das três funções essenciais da hierarquia católica (ensinar, governar e santificar) e que constituem a base da tríplice unidade da Igreja Católica: unidade de fé, unidade de governo e unidade de comunhão. Resistir à Igreja Católica nessas questões é um suicídio espiritual, já que a adesão à Igreja Católica é necessária para a salvação. Se é permitido resistir à Igreja na doutrina, na disciplina e no culto, então em que a Igreja deve ser obedecida? Qual é a autoridade de São Pedro, se ela pode ser ignorada nessas questões?
Em resumo, portanto, a Fraternidade de São Pio X reconhece a autoridade de João Paulo II, mas ao mesmo tempo rejeita as prerrogativas de sua autoridade. Nesse ponto, infelizmente, ela se assemelha aos galicanos, jansenistas e outras seitas de rito oriental que fizeram exatamente a mesma coisa, isto é, que “filtraram” as doutrinas e decretos dos Pontífices Romanos de acordo com seu gosto.
Segundo essas seitas, o magistério não era vinculante a menos que fosse considerado em conformidade com a Tradição. Os ensinamentos e decretos dos Pontífices Romanos estavam, portanto, sujeitos à revisão dessas seitas, ou seja, eles “peneiravam” os atos dos Papas. Os jansenistas, em particular, diziam que, para determinar se uma doutrina era tradicional ou não, era necessário realizar um estudo histórico. É exatamente isso o que diz a Fraternidade: que os atos do magistério devem ser rejeitados se, historicamente, os católicos nunca acreditaram em tais coisas.
Mas quem é o árbitro da Tradição? Não é o magistério? Não é a autoridade de Cristo investida no Papa? É claro que sim. Por isso, a doutrina jansenista da “peneira” era apenas um disfarce pobre para o livre-exame protestante. A única diferença entre os protestantes e os jansenistas era que os primeiros aplicavam seu julgamento privado à Sagrada Escritura, enquanto os segundos aplicavam seu julgamento privado à Tradição. A posição da Fraternidade de São Pio X em relação ao magistério e à tradição não difere em nada da dos jansenistas. Enquanto os protestantes defendem o livre exame das Escrituras, a Fraternidade defende o livre exame do Denzinger.[13]
Assim, a Fraternidade opôs-se à apostasia de João Paulo II não com uma resposta verdadeiramente católica, mas com a resposta do juízo privado, pela qual as doutrinas, decretos e disciplinas universais daquilo que eles percebem como a Igreja são submetidos ao seu escrutínio privado.
Quão oposto ao espírito do catolicismo é o juízo privado! “Quem vos ouve, a mim ouve”, disse Nosso Senhor. “Tudo o que ligares na terra será ligado também no céu, e tudo o que desligares na terra será desligado também no céu”, disse Ele a São Pedro. A autoridade de Deus confiada a São Pedro por Nosso Senhor Jesus Cristo é o que faz a Igreja Católica ser o que ela é.
A atitude da Fraternidade de São Pio X reduz a missão apostólica da Igreja, confiada a São Pedro, a algo pouco mais que acidental. Mas é essa mesma autoridade, e sua posse e transmissão legítimas, que faz a Igreja Católica ser católica. É a forma, o espírito da Igreja Católica, ou seja, aquilo pelo qual ela é o que é. Nada poderia ser mais substancial para a Igreja Católica do que essa autoridade.
Deve-se ressaltar, além disso, que exercer o poder de ordem sem a aprovação da hierarquia da Igreja Católica é um pecado mortal gravíssimo, e é cismático quando feito de modo sistemático e permanente. Justificamos nosso apostolado citando o princípio da epiqueia. Por esse princípio, presumimos que a autoridade da Igreja, um verdadeiro papa, se estivesse presente, desejaria que celebrássemos a Missa e distribuíssemos os sacramentos. Sabemos que nossa presunção é razoável, pois de outra forma os fiéis não teriam verdadeira Missa nem sacramentos. Só se pode invocar o princípio da epiqueia quando o legislador está ausente. Usar esse princípio contra um papa reinante, que possui jurisdição sobre os sacramentos, destrói toda a Igreja Católica. É afundar no protestantismo, no qual cada ministro recebe seu poder “diretamente de Deus”. Para que ter uma hierarquia, para que ter jurisdição, se todos podem decidir que têm o direito de exercer suas ordens baseados em sua própria suposição de que a Igreja as fornece diretamente a eles? Em tal caso, a hierarquia seria puramente acidental, e cada sacerdote individual, como os ministros protestantes, poderia conduzir seu próprio apostolado.
O espírito de cisma na Fraternidade de São Pio X é evidente pela oferta da Missa una cum [em união com o Papa]. Pois, ou João Paulo II é o Papa, ou não é. Se João Paulo é papa, então a Missa una cum da Fraternidade é cismática, pois é celebrada fora e contra sua autoridade. É altar contra altar, porque suas missas não são autorizadas pelo Pontífice Romano. Mas se ele não é o papa, então a Missa una cum deles também é cismática, pois é oferecida fora da Igreja, em união com um falso papa.
Em outras palavras, ou o altar do sacerdote tradicional é o verdadeiro altar de Deus, ou o altar de João Paulo II é o verdadeiro altar de Deus. Como o padre tradicional ergue seu altar e realiza seu apostolado contra o apostolado do Novus Ordo — que é o de João Paulo II — é evidente que ambos os altares não podem ser ao mesmo tempo altares católicos legítimos, e que ambos os apostolados não podem ser ao mesmo tempo verdadeiros apostolados católicos. Cristo não poderia autorizar tanto o altar do Novus Ordo quanto o altar tradicional. Um é legítimo e o outro é ilegítimo.
Porque dizemos que nosso altar é legítimo, estamos logicamente obrigados a dizer que o altar do Novus Ordo e, portanto, seu sacerdócio e apostolado, são ilegítimos.
Mas se o padre se une ao altar, sacerdócio e apostolado ilegítimos de João Paulo II e do Novus Ordo, ele torna seu próprio altar, sacerdócio e apostolado ilegítimos e, portanto, cismáticos.
Assim, embora eu pense que aqueles que estão envolvidos no grupo de Lefebvre sejam de boa vontade e desejem de todo o coração o bem da Igreja, eles estão, no entanto, trabalhando sob o espírito de cisma. Sua política de peneirar o magistério é, na verdade, herética.
Se caíram nesses erros, foi por falta de boa formação. Como seminaristas, apresentaram-se à Fraternidade e, não conhecendo mais nada, imbuíram-se desses erros durante seus anos no seminário. Tenho certeza de que, se tivessem sido formados corretamente, não adeririam a esses erros. Estou apontando seus erros, graves como são, não para atacá-los pessoalmente ou para lançar dúvidas sobre seus motivos, mas por respeito à verdade. Tenho certeza de que eles também amam a verdade, e é minha sincera esperança que ouçam essas críticas no espírito de caridade em que são feitas.
CONCLUSÃO
Como bispo, estou profundamente preocupado com a má influência da Fraternidade de São Pio X. Em vez de apresentar uma resposta católica à apostasia de João Paulo II, eles semearam as sementes do espírito de cisma em muitas, muitas almas. Os jovens criados na Fraternidade terão uma idéia totalmente deformada do que é realmente a autoridade católica, a autoridade do Romano Pontífice. Eles talvez nunca conheçam a santa e profunda reverência que os católicos sempre tiveram por essa autoridade augustíssima confiada aos homens. É a nossa fé católica nessa autoridade que nos compele a dizer que os autores do Novus Ordo não podem, de modo algum, possuí-la.
Quão maravilhoso seria, ademais, se os católicos pudessem formar uma frente unida contra os modernistas! Se todos disséssemos a uma só voz que a defecção do Vaticano II não vem da autoridade de Cristo! Isso seria uma profissão de fé magnífica entre os verdadeiros católicos. Em vez disso, a maior parte dos católicos respondeu ou como anglicanos da High Church — a Fraternidade de São Pedro — ou como os cismáticos galicanos e jansenistas — a Fraternidade de São Pio X. De fato, os inimigos da Igreja devem estar rindo de que, após dois mil anos de profissão de fé e após tantos martírios gloriosos, isso seja tudo o que os católicos conseguem reunir diante do pior de todos os inimigos da Igreja Católica.
Exorto-vos, portanto, a não permanecerdes indiferentes a essas questões. A necessidade de uma resposta católica é muito importante. É muito importante que evitemos substituir a apostasia de João Paulo II pelo espírito de cisma, juízo privado e desprezo pela autoridade papal, o que é evidente na posição da Fraternidade de São Pio X.
Também vos exorto a rezar pelos membros dessa Fraternidade que, como já disse, são de boa vontade e desejam ser bons católicos. Eles são desviados pelo medo de que dizer a verdade sobre João Paulo II esvazie suas igrejas. É de conhecimento comum que muitos de seus padres são, privadamente, de nossa posição. Mas temem o que lhes acontecerá se saírem. Devem, porém, ser encorajados a sair, e deve-se dizer-lhes que sua posição não está em conformidade com a fé católica.
Nossa experiência na América é que os fiéis apoiam fortemente os padres que assumiram uma posição pública contra o papado de João Paulo II. Quando ouvem estas explicações, como as que dei aqui, veem que estão em conformidade com os princípios católicos e abraçam nossa posição de todo o coração. Mas, mesmo que não o fizessem, mesmo que o padre fosse reduzido à penúria, todo padre deve saber que deve amar a verdade católica mais do que a si mesmo.
Temos diante de nós o exemplo maravilhoso do Padre Guépin, que em 1980 defendeu corajosamente os princípios que aqui expus e foi, em consequência, expulso abruptamente da Fraternidade. Embora tivesse dado sua vida ao sacerdócio, foi, no entanto, sumariamente jogado na rua. Mas ele permaneceu impávido diante dessa cruz e a carregou generosamente, sabendo, por sua fé forte e ardente amor a Deus, que seria melhor morrer do que comprometer a fé católica. Que outros padres da Fraternidade aprendam com seu exemplo corajoso e compreendam que Deus abençoará o apostolado do padre que ama a Sua verdade mais do que o conforto de seu corpo.
Lembremo-nos também da alma de Dom Lefebvre em nossas orações, que, apesar da inconsistência de suas posições, fez tanto pela preservação da verdadeira Missa.
Finalmente, não deixemos de rezar à Nossa Senhora, que sozinha esmaga todas as heresias, como diz a sagrada liturgia, e a São José, o patrono da Igreja universal.
(Boletim St. Gertrude the Great 52, Suplemento, Outono de 2000)
[1] Redemptor Hominis, 13.3.
[2] Homilia em Santa Maria em Trastevere, 27 de abril de 1980.
[3] Letter to the Bishops of the Catholic Church on Some Aspects of the Church Understood as Communion (1992).
[4] Ibid.
[5] Osservatore Romano, 20 de maio de 1980.
[6] Ibid.
[7] Osservatore Romano, 10 de junho de 1980.
[8] Catechesi Tradendae, 16 de outubro de 1979.
[9] Redemptor Hominis, 12.2 e Dives in Misericordia, e seu discurso às Nações Unidas em 2 de outubro de 1979 e em muitos outros lugares.
[10] Vaticano II, Dignitatis Humanae, um documento que João Paulo II afirma ter uma força vinculativa particular.
[11] Audiência geral, 11 de janeiro de 1989.
[12] 31 de maio de 1980, em um discurso aos muçulmanos em Paris.
[13] O Denzinger é o livro que contém os ensinamentos dos papas e dos concílios gerais.
