A EVANGELIZAÇÃO APOSTÓLICA DA CHINA E PAÍSES VIZINHOS
Monsenhor Jean-Joseph Gaume (†1879)
Fontes: (1) A Evangelização Apostólica do Globo, p. 57–75. Triregnum, 2022. (2) L. Anneo Floro, Epitome e frammenti, p. 619–620. UTET, 1991. (3) Amiano Marcelino, Historia, p. 539–540. Ediciones Akal, 2002. (4) Antonio Selem (ed.), Ammiano Marcellino, Le storie, p. 636. UTET, 1965.
Descrição: Com o intuito de demonstrar que a evangelização de todos os povos do orbe terrestre ocorreu já durante a geração dos Apóstolos, Monsenhor Gaume, nestes capítulos, trata da conversão do povo chinês e seus vizinhos.
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CAPÍTULO VI
Passemos da África ao Extremo Oriente, e mostremos, com as provas nas mãos, a evangelização apostólica da China, da Índia e dos países em volta.
Não cessemos de repetir o que foi dito no começo do capítulo precedente. O Filho de Deus, a verdade infalível, predisse, em termos mais claros possíveis, que antes da ruína de Jerusalém seu evangelho seria pregado no globo inteiro, a todas as nações: in universo orbe, omnibus gentibus.
Os Apóstolos declararam que o fato aconteceu.
Testemunhas irrecusáveis, todos os Padres da Igreja sem nenhuma exceção, falaram como os Apóstolos e provaram que todas as nações conhecidas ou desconhecidas pelos romanos, submetidas ou não a seu império, receberam, no espaço de tempo marcado pelo Divino Redentor, o conhecimento da religião cristã. Aquele que diz tudo não exclui nada; então, é lógico, e muito lógico, concluir que a China e os países vizinhos não foram mais esquecidos que a América ou a Oceania (se estes últimos países fossem [de fato] habitados [àquela época]).
A China, em particular, não é um ponto imperceptível sobre a superfície do globo; pelo contrário. Por sua antiguidade, por sua extensão, por sua população de três a quatro centenas de milhões de habitantes, assim como por sua civilização material, o império chinês ocupa um grandíssimo lugar entre os povos do mundo antigo.
Como supor que os Apóstolos não tenham sabido da existência deste império ou que, tendo sabido, tenham negligenciado de levar a tocha da fé a estas imensas regiões?
Por acaso a missão deles não era iluminar o globo inteiro?
Os vestígios de sua passagem encontrados nas diferentes partes da terra não atestam que eles cumpriram fielmente seu mandato? Tendo partido do Oriente, eles teriam, como sabemos, evangelizado as mais escondidas regiões da Europa, habitadas pelos citas e sármatas, mas haveriam esquecido a nação mais importante da Ásia?! A priori, a evangelização apostólica da China é, então, mais que verossímil.
Sim, mais que verossímil. No texto já citado dos Atos dos Apóstolos, não está dito que no dia de Pentecostes se encontravam em Jerusalém moradores de todas as nações que estão abaixo do céu? Quem diz tudo não exclui nada.
Visto que havia lá medos e partas, vizinhos mais próximos da China, por que não haveria chineses?
Acrescentemos que a evangelização apostólica da China é certa. Monumentos autênticos não permitem dúvidas. Eis alguns: Primeiramente, observemos que os chineses não viviam, como nos tempos modernos, isolados dos outros povos. Eles conheciam o Ocidente e o Ocidente os conhecia. As guerras dos romanos contra os partas (seus vizinhos) e as conquistas dos primeiros povos na Alta Ásia os advertiram sobre os negócios da Europa.
Sob Augusto, seus embaixadores vieram a Roma para pedir a amizade dos romanos:
“Com efeito, até mesmo os citas e os sármatas enviaram embaixadores, pedindo amizade; e ainda os seras (chineses) e os indianos que habitam propriamente sob o sol, os quais vinham trazendo entre os presentes, juntamente com gemas e pérolas, também elefantes, e nada mais faziam notar senão a extensão da viagem — haviam empregado quatro anos nela; e, contudo, a própria cor daqueles homens já testemunhava que vinham de terras situadas sob outro céu.” (Lúcio Aneo Floro, Epitome e frammenti, livro II, cap. 34 (12), §62, UTET, 1991, p. 619–620).
Na mesma época, eles enviaram uma embaixada solene para procurar o SANTO [i.e, Nosso Senhor Jesus Cristo], anunciado pelas antigas tradições, o qual apareceria no Ocidente.
Mais tarde, podemos ver o famoso Sapor, rei dos persas, enviar a Constantino uma numerosa embaixada com ricos presentes, a fim de solicitar sua amizade. O rei persa possuía, então, entre as províncias de seu império, o país dos seras (a China), com suas altas calçadas e seus dois grandes rios. Esse fato, para nós de uma importância capital, é contado por Amiano Marcelino (c. 330-332–Roma, depois de 397 e antes de 401), autor contemporâneo:
“64. Para além dessas regiões que constituem as duas Cítias,[1] a oriente as cumeadas de altas muralhas, unidas em forma circular, encerram os seras, bem conhecidos pela fertilidade e pela extensão de suas terras; pelo lado ocidental estão ligados aos citas; ao norte e ao oriente confinam com desertos nevados; para o sul estendem-se até a Índia e o Ganges. Ali os montes chamam-se Anniba, Nazavício, Asmira, Emódon e Opurocorra.
“65. Essa planície, portanto, cercada por todos os lados por encostas abruptas e terras que se dilatam em larga extensão, é atravessada por dois rios célebres, duo famosi nominis flumina, o Oecártis e o Bautis,[2] que correm com curso mais lento. E diversa é a natureza das distintas zonas: aqui aberta e extensa, ali suavemente inclinada, razão pela qual abunda em cereais, rebanhos e árvores.
“66. Habitam essa terra fertilíssima diversas gentes, entre as quais os antropófagos, os aníbios, os siziges e os cardos, expostos aos ventos do norte e às geadas. Para o nascente do sol encontram-se os rabannas e os asmiras, e os essedones, os mais ilustres de todos; a estes se unem, pelo lado ocidental, os atágoras e os aspacaras. Os betas (ou beti), inclinados para as encostas meridionais das altas montanhas, embora não possuam muitas cidades, são célebres por serem grandes e opulentas; entre elas, as mais notáveis e esplêndidas são Asmira, Essedon, Asparata e Sera.
“67. Os seras propriamente ditos levam uma vida bastante pacífica, sempre alheios às armas e às guerras; e, como convém a homens pacatos e plácidos, o ócio lhes é agradável, não causando incômodo a nenhum de seus vizinhos. O clima entre eles é ameno e salubre, o céu é claro e o sopro dos ventos suaves é bastante favorável. Há abundância de bosques luminosos, dos quais, aspergindo frequentemente as árvores com água, como que amolecendo certos velos, extraem da mistura molhada uma penugem de extrema suavidade, que cardam e fiam, confeccionando tecidos de seda, outrora destinados ao uso dos nobres, mas agora também ao das classes mais humildes, sem distinção alguma.” (Amiano Marcelino, Le storie, Livro XXIII, cap. 6, §§64–67, UTET, 1965, p. 637).
A grande empresa de Juliano, o Apóstata, foi a guerra contra os persas. Ora, entre as oito grandes províncias das quais se compunha o império persa, o mesmo historiador nomeia expressamente o país dos seras, dita também China, e a descrição que ele faz não deixa nenhuma dúvida que esse imenso império fôra uma província do imenso império dos persas. Acrescentemos que, nessa época, o grande oficial da Armênia era um príncipe chinês, cuja família lá se refugiou depois de uma revolução política.[3]
Os latinos e os gregos conheciam os chineses sob o nome de seras, porque a seda, que veio originalmente deles, era chamada (e ainda o é) pelo mesmo nome, ou por um nome próximo, em uma grande parte da Ásia.
Os partas serviam de intermediários para esse comércio entre os romanos e os chineses. Assim, os Apóstolos e seus discípulos puderam facilmente fazer penetrar a luz do Evangelho até à Alta Ásia: na Índia pelo Egito, e na China pela Índia. A propagação da fé na Alta Ásia foi pouco estudada. Acostumou-se a pensar que o Evangelho foi levado para ela somente nestes últimos séculos. No entanto, é certo que a doutrina de Jesus Cristo foi pregada, desde o começo, a estes povos do Extremo Oriente.[4]
No século III, Arnóbio de Sica colocou os chineses entre os povos que, pela voz dos Apóstolos, tornaram-se cristãos. “Tal foi”, diz ele, “o poder do Filho de Deus, que a unidade de crença se generalizou rapidamente entre as nações e os povos mais diferentes nos costumes. Cada qual sabe o que foi feito na Índia, na China, na terra dos persas e na dos medos” (Adversus Gentes, livro XI, cap. XII). Arnóbio, célebre professor de retórica na África, floresceu sob o governo de Diocleciano.
Se o texto de Arnóbio pudesse deixar alguma dúvida sobre a evangelização da China pelos Apóstolos em pessoa, toda incerteza desapareceria diante dos seguintes testemunhos. O primeiro é o de Teodoreto de Ciro: “Nossos pescadores”, diz ele, “nossos publicanos e Paulo levaram a lei evangélica a todas as nações. Por eles, não só os romanos e todos aqueles que vivem sob seu império receberam as leis do Crucificado, mas também os citas, sármatas, indianos, etíopes, persas, chineses, hircanianos, bactrianos, bretões, cimbros e germanos; e, para dizer tudo com uma só palavra, todo o gênero humano e todas as nações” (Theodoretus Cyrensis, Graecarum affectionum curatio, IX, de Legibus, PG Migne 83, Paris, 1859, p. 775–1152).
Por conseguinte, não se deve espantar ao ver sob o reinado de Constantino (274–337), no comecinho do século IV, a China cheia de igrejas e de multidões de fiéis. O piedoso imperador aproveitou-se dessa notícia (que recebeu com grande alegria) para prestar serviço a essas cristandades longínquas, recomendando-as a Sapor. Essas embaixadas de Constantino e de Sapor devem ser observadas. Vemos pela história da China que, sessenta anos antes da vinda do Salvador, o Império Romano e o império chinês se tocavam no mar Cáspio; os chineses chamavam o Império Romano de Ta-Tsin (“grande China”); eis aí o tamanho de sua consideração por esse império; receberam embaixadas da parte do imperador Antonino Pio (86–161); eles mesmos, como eu disse, enviaram embaixadas para Augusto (63 a.C.–14). E eis que sob Constantino, no momento no qual o cristianismo triunfou na Europa, na África e até no Eufrates, a Ásia ulterior e a China, reunidas sob o domínio do rei persa, nos descobrem, em seu seio, cristandades numerosas.[5]
O capítulo seguinte conterá novos testemunhos. Serão ainda mais explícitos que os de Teodoreto, no sentido de que nos farão conhecer o apóstolo ao qual a China foi devedora pelo dom da fé.
CAPÍTULO VII
A Índia e a China pertencem ao mesmo continente (asiático). Ainda hoje, muitas relações de comércio unem esses dois vastos territórios, e os unem também aos países intermediários. Os acontecimentos importantes que se passam em um território não poderiam ser por longo tempo ignorado pelo outro. Em todos os acontecimentos, o mais extraordinário, sem objeção, foi a pregação do Evangelho, acompanhada de milagres brilhantes e numerosos.
O ministro dessa pregação foi São Tomé, que anunciava em voz alta a doutrina do SANTO por excelência, o qual a China esperava por volta dessa época. Quanto ao fato de São Tomé ter sido apóstolo da Índia, nada é mais certo. Contando as viagens dos apóstolos, o bispo Doroteu, nascido em 254, fala assim de São Tomé: “Tendo o apóstolo Tomé anunciado o Evangelho aos partas, medos, persas, germanianos (povo agricultor da Pérsia), bactrianos e magos, sofreu o martírio em Calamita, cidade da Índia” (Chronicon Paschale ad exemplar Vaticanum recensuit Ludovicus Dindorfius, vol. 2, Bonnae, 1832, p. 138–139). No século VI, nossos missionários encontraram ainda, em uma parte da Índia, cristãos de São Tomé.
As liturgias dos jacobitas e dos nestorianos, que remontam aos primeiros séculos, perpetuam a lembrança do apostolado de São Tomé na Índia e na Alta Ásia. Na festa de São Tomé (3 de julho), o ofício siríaco dos jacobitas se exprime assim: “Tomé, cuja memória celebramos hoje, tendo sido enviado à Índia pelo Senhor… obteve a coroa do martírio”. Pode-se ler no ofício dos nestorianos: “Graças à vossa pregação, ó Tomé, os indianos respiraram o perfume da vida, e após terem abandonado os costumes pagãos, fizeram florescer entre eles o pudor”.
Confirmando os testemunhos das liturgias orientais, o Breviário Romano diz: “O apóstolo Tomé, chamado Dídimo, original da Galiléia, pregou o Evangelho de Cristo num grande número de províncias. Ele anunciou a fé aos partas, medos, persas, hircanianos e bactrianos. Enfim, viajou para a terra dos indianos e os instruiu segundo a religião cristã”. Apóstolo da Índia e dos países vizinhos da China (Pártia, Média, Pérsia) São Tomé foi também do império chinês. Como admitir que, estando nos confins desse imenso país, não tenha penetrado nele? Ademais, não nos esqueçamos de que a China fazia parte do império persa. Uma tal suposição é contrária à razão e à história.
A prova se encontra no antigo Breviário Caldeano da Igreja de Malabar. Uma das lições do segundo noturno do ofício de São Tomé contém as seguintes palavras:
“Por São Tomé, o erro da idolatria foi dissipado na Índia.[6]
“Por São Tomé, os chineses e os etíopes foram convertidos à verdade.
“Por São Tomé, receberam o batismo. Creram e confessaram o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
“Por São Tomé, o reino dos céus subiu até à China.”[7]
Acrescentemos esta antífona do mesmo ofício: “Os indianos, os chineses e os outros habitantes das ilhas oferecem suas adorações a vosso Santo Nome, em memória de São Tomé”.[8]
No começo do século V, já se encontrava — o que em outro lugar dificilmente se encontraria — oito metropolitanos estabelecidos na China e nas províncias intermediárias entre a China e a Índia. A criação de um tal número de metrópoles supõe, evidentemente, igrejas solidamente constituídas e resplandecentes, o que só pode acontecer após um tempo considerável: nova prova da Tradição que faz com que a evangelização da China remonte a São Tomé.
Visto que o incansável apóstolo passara da Índia à China, os metropolitanos da Índia tomaram o título de metropolitanos da Índia e da China. Na chegada dos portugueses, os bispos de Malabar diziam: “Tiago, José, metropolitano de toda a Índia e da China”. Com efeito, o motivo da prioridade das sedes é tirado da prioridade do tempo em que viveram os que as fundaram”.[9]
As igrejas da Índia e da China, ambas filhas de São Tomé, permaneciam unidas; mas a igreja da China era a caçula; daí vem o que se lê nos cânones sinodais da igreja indiana: “Os metropolitanos da China e da Samarcanda (…) que estão muito afastados e impedidos de passar como querem pelas montanhas altíssimas e pelos mares turbulentos, enviarão de seis em seis anos cartas de comunicação ao patriarca da Índia”.[10]
Como as outras partes do globo, a China foi, então, iluminada pelos primeiros raios do Sol da justiça. Durante longo tempo a fé, mais ou menos alterada pelos nestorianos, conservou-se brilhante nesse vasto império. A província permitiu que se encontrasse a prova na célebre inscrição [ou estela] de Si-Ngnan-Fu [também grafada como Si-Ngan-fou, Xi’an-fu], descoberta em 1623.[11] Essa inscrição foi traduzida várias vezes e sabiamente comentada. É deveras longa e muito interessante. Citaremos somente a passagem que se refere diretamente a nosso estudo.



“O grande imperador Kao-Tsung (que subiu ao trono em 650) seguiu respeitosamente as pegadas dos seus ancestrais. Ele fecundou a verdade, lhe deu resplendor e edificou templos luminosos[12] em todas as províncias. Cumulou Olopen[13] de novos títulos e o instituiu guardião do império e senhor da grande Lei. A fé foi, assim, espalhada nas dez vias.[14] O império teve sementes fecundas de grande alegria. Os templos encheram cem cidades, e as famílias foram enriquecidas por uma admirável felicidade.”
Tal era o estado florescente do cristianismo na China em meados do século VII.
Aqui cabe um detalhe interessante, relativo à célebre inscrição: recebemo-lo de um bispo missionário no país: Diante do templo perto do qual foi encontrada a inscrição, elevam-se duas altas colunas de pedra, cuja origem se perde na antiguidade. Segundo a tradição local, ninguém pôde subir no topo destas colunas. Todos os que tentaram foram derrubados, mortos, ou gravemente machucados.
Esse fato singular chegou ao conhecimento de Dom Rizzolati, o qual quis tentar subir. “Das duas coisas uma” dizia ele, “ou é o demônio que derruba os que sobem, ou sua queda é o resultado de uma falta de precaução. Se for imprudência, saberei tomar minhas medidas; se for o demônio, vim para combatê-lo e sou mais forte que ele”.
Os cristãos, assustados, tentaram fazer com que o bispo desistisse de seu projeto. O bispo mesmo se dirigiu ao subprefeito da cidade, que o suplicou a não se expor a uma queda certa. O prelado insistiu, e o magistrado pagão lhe deu a autorização pedida, mas afastando sua própria responsabilidade.
O dia chegado e o povo todo reunido, o bispo exorcizou as duas colunas, mandou pôr uma escada e chegou sem acidente ao topo da primeira coluna, depois no topo da segunda. O espanto dos pagãos se igualava à felicidade dos cristãos: ambos imensos.
As colunas eram cobertas de espécies de tendas de pedra. Por ordem do prelado, três outras escadas foram trazidas, e três catequistas foram ao encontro do bispo, demasiadamente fraco para levantar as pesadas “tendas”. Foram removidas, e viu-se que eram ocas. E o que se encontrou na abertura? Paramentos sacerdotais muito bem conservados: prova infrangível da existência do cristianismo no império celeste, no século VII.
O demônio, que tinha muito interesse em apagar a lembrança, tornara impossível a subida.[15]
No século XIV, encontrou-se, ainda, o cristianismo brilhando no império celeste. Nessa época havia um bispo em Pequim, com sete bispos auxiliares espalhados nas províncias, onde contavam-se muitos fiéis.[16]
CAPÍTULO VIII
A fim de recompensar a cada um segundo suas obras, é justo dizer que a glória da evangelização da China no século XIV deve ser atribuída aos filhos de São Francisco: não é a única. Visto que a ocasião se apresenta, digamos uma palavra sobre a abundante colheita em todas as partes do universo, por esses ardentes e incansáveis operários: alguns números, muito certos, dão uma ideia.
Da segunda metade do século XIII ao fim do século XVIII, os conventos de São Francisco, na Europa como na Terra Santa, na Ásia e no Novo Mundo, sempre contaram, em média, de 200.000 a 300.000 religiosos. Desde o fim do século XIII, os Frades Menores ou Franciscanos se encontravam em toda parte nas missões, mesmo nas mais distantes, da China, Tibete e Tartária.
Sua ação nas missões do Extremo Oriente era tal, que no século XIV o superior de uma delas não hesitou em pedir de uma só vez, em um capítulo geral, 4.000 missionários; e o capítulo geral não achou este pedido exorbitante.
Mais tarde, na época das grandes descobertas dos séculos XV e XVI, os filhos de São Francisco seguiram, em milhares, os espanhóis e portugueses.
Também, quando São Francisco Xavier abordou a Índia, encontrou 318 nações franciscanas precedentemente estabelecidas. Após a revolução de 93, o número dos religiosos que reconheciam São Francisco como pai diminuíra indubitavelmente. Contudo, hoje ele ainda é pai de 30.000; e, como nos séculos passados, acha-se esses religiosos em todas as regiões do mundo e nas mais distantes missões.
Graças à nossa educação, os gigantescos trabalhos de nossos ancestrais, assim como as maravilhosas instituições da Idade Média, são para nós de suma importância.
Se acontecesse de faltarem provas do fato do qual falamos, ainda assim sobrariam duas poderosas razões para crermos na evangelização apostólica da China. A primeira é a impossibilidade de admitir, em presença das palavras de Nosso Senhor, o abandono quinze vezes secular nas trevas da idolatria, de um império tão extenso, que a população forma o terço da população geral do globo, a qual conta, aproximadamente, um bilhão e duzentos milhões de habitantes, e a China conta de trezentos a quatrocentos milhões de habitantes.
O Filho de Deus veio — disse-nos Ele mesmo — para desfazer a obra do diabo, ut dissolvat opera diaboli. A obra do diabo é seu império nas almas, império cujas imensas fronteiras abraçam o mundo inteiro, exceto o pequeno canto de terra chamado Judéia: Notus in Judaea Deus.
É crível, ou seja, conforme ao objetivo de sua redenção, que Nosso Senhor tenha querido deixar, durante dezoito ou vinte séculos, o demônio pacífico possessor de mais da metade do globo? Com efeito, o que dizemos da China vale, também, para os inumeráveis povos da Ásia, da África, da América e da Oceania, cuja evangelização teria supostamente sido deixada de lado até os tempos modernos e ainda nem estaria terminada! Se considerássemos essa hipótese, qual seria o valor da promessa várias vezes renovada aos apóstolos por seu Divino Mestre: que eles lhe renderiam testemunho diante de todas as nações, omnibus gentibus, até às extremidades da terra, usque ad ultimum terrae?
Pode-se conceber que o Redentor do mundo fez-se esperar durante quatro mil anos. Era preciso, por um lado, que a Providência preparasse sua vinda por uma longa sequência de milagres e de acontecimentos, a fim de mostrar e tornar milagroso ao primeiro chefe o estabelecimento do seu reino. Era preciso, por um outro lado, que o homem experimentasse longamente sua profunda degradação e a irremediável impotência da qual sairia. Mas após a experiência e a vinda do Redentor, qual seria o motivo de novos atrasos, e de atrasos de quase dois mil anos? Como conciliá-los com o zelo todo-poderoso d’Aquele que disse: Ignem veni mittere in terram, et quid volo, nisi ut accendatur? (“Vim pôr o fogo na terra: e qual é minha vontade, senão de vê-lo aceso?)?
Uma segunda prova, assaz sólida a nossos olhos, da evangelização primitiva e da cristianização da China é a obstinação excepcional dos chineses em sua idolatria. Nenhum povo sob o céu é tão refratário às luzes da fé. Eis mais de trezentos anos que a Europa derrama rios de ouro e de sangue para converter essa nação; e de três a quatro centenas de milhões de habitantes, a China não conta seiscentos mil católicos, aproximadamente o terço de Paris! E se os missionários europeus desaparecessem, com eles desapareceria logo o cristianismo.
Donde pode vir uma tal resistência? Salvo engano, por acaso não se pode dizer que ela vem em grande parte do abuso de graças? Filha de Noé como todas as outras nações, a China, afastando-se do berço primitivo durante a duração dos séculos, levara consigo as tradições paternas. Em vez de conservá-las intactas, ela as alterou consideravelmente, como um filho pródigo. Contudo, um fato que hoje é posto em evidência: seus antigos livros conservam vestígios em grande número das revelações bíblicas, do Antigo ou do Novo Testamento. A respeito disso, recomendamos a instrutiva obra do padre Prémare, recentemente publicada em Annales de Philosophie Chrétienne, de M. Bounetoy.

Ademais, a China recebeu o dom da fé desde o começo do cristianismo, conservou-o durante longo tempo e o perdeu. Reencontrá-lo é mais difícil do que se ela nunca o tivesse recebido. A conversão da China, digamo-lo de passagem, se algum dia tiver de acontecer, não será mais necessária, ao menos em proporções muito consideráveis, para justificar a Providência e retardar indefinidamente a hora do último dia. Tal é, também, o pensamento de Suárez.[17]
O fato de que a lembrança do cristianismo seja mais ou menos perdida entres as populações chinesas não é uma objeção. Sabemos que uma característica particular dos chineses é que não inscrevem em seus anais algo que seja contrário às suas idéias ou que humilha o orgulho da nação: de modo muito meticuloso guardam segredo sobre os fatos históricos. “A tal ponto”, nos dizia há pouco um bispo missionário há trinta anos no império celeste, “que antes de alguns séculos, a tomada de Pequim pelos franceses e ingleses será esquecida ou apresentada sob uma luz tão falsa, que os chineses se envaidecerão por este acontecimento”.
[1] Européia e asiática (Nota ed. UTET 1991).
[2] Isto é, os rios Yangtzé (Azul) e Huang He (Amarelo). (Nota d’O Recolhedor).
[3] Cf. René-François Rohrbarcher, Histoire universelle de l’Église Catholique, 3 ed., vol. 6, p. 550. Paris, 1857–1861.
[4] Cf. Évariste Régis Huc, C.M., Le Christianisme en Chine, vol. 1, p. 13–34. Paris, 1857.
[5] Cf. René-François Rohrbarcher, Histoire universelle de l’Église Catholique, ubi supra.
[6] No Concílio de Nicéia, em 325, um dos patriarcas presentes levava o título de Patriarca da Grande Índia.
[7] Provavelmente o ofício faz alusão ao fato de que Roma está geograficamente “abaixo” da China (N.T.).
[8] Cf. Nicolas Trigault, S.J., Histoire de l’expedition Chrestienne au royaume de la Chine, livro I, ed. in-12, Paris, 1618, p. 191.
[9] Assemani, vol. 3, p. 346.
[10] Trigault, S.J., ubi supra, p. 192.
[11] Observemos que essa cidade citada foi, durante séculos, a capital da China.
[12] Luminoso é sinônimo de cristão.
[13] “O Missionário”.
[14] O império estava dividido em dez grandes províncias.
[15] Ver a tradução da inscrição de Si-Ngnan-Fu por M. Dabry de Thiersant, cônsul francês na China, em Le Catholicisme en Chine au VIII siècle de notre ère, avec une nouvelle traduction de l’inscription de Sy-Ngan-Fou accompagnée d’une grande Planche. Paris, 1877.
[16] Trigault, S.J., ubi supra.
[17] “Não parece necessário que, por causa deste sinal do juízo futuro, digamos que, antes que Cristo venha para julgar, o Evangelho deva ser pregado novamente em toda a Ásia ou África, e que todas aquelas nações devam ser primeiramente convertidas à fé. Pois, uma vez que o Evangelho já foi pregado nessas províncias, a Igreja foi fundada e muitos daquelas nações alcançaram a salvação, de nenhuma profecia ou testemunho da Escritura se pode concluir que ali se deva pregar novamente, ou que aquelas nações devam ser convertidas à fé uma segunda vez.” (Francisco Suárez, S.J., De signis ultimi judicii, II, 12).
