A EVANGELIZAÇÃO APOSTÓLICA DAS AMÉRICAS
Monsenhor Jean-Joseph Gaume (†1879)
Fontes: (1) A Evangelização Apostólica do Globo, p. 77–114. Triregnum, 2022. (2) Padre Manuel da Nóbrega, S.J., Cartas do Brasil do padre Manoel Danobrega (1549–1560). Imprensa Nacional, 1886. (3) Antonio Ruiz de Montoya, S.J., Conquista espiritual hecha por los religiosos de la Compañia de Iesus, en las prouincias del Paraguay, Parana, Vruguay y Tape. Madrid, 1639. (4) Sebastião da Rocha Pita, História da América Portuguesa. Fundação Darcy Ribeiro, 2012. (5) Wikipédia em várias línguas.
Descrição: Com o intuito de demonstrar que a evangelização de todos os povos do orbe terrestre ocorreu já durante a geração dos Apóstolos, Monsenhor Gaume, nestes capítulos, trata da conversão dos povos americanos.
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CAPÍTULO IX
O que dissemos da China podemos dizer das nações idólatras. Antes de tudo, indagamos: é admissível que o Redentor, que veio para salvar o que perecera, ou seja, todo o gênero humano, e desfazer, como ele mesmo disse, a obra universal do diabo, ut dissolvat opera diaboli, só tenha desfeito essa obra pela metade, e que tenha esperado mil e quinhentos anos para fazer-se conhecer aos três quartos do gênero humano? Se fosse assim, que significariam a promessa da evangelização universal do globo antes da ruína de Jerusalém, e as palavras dos Apóstolos afirmando que isso aconteceu? Elas significariam: “Meu evangelho será pregado no mundo inteiro, exceto nos três quartos do globo”, e as palavras dos Apóstolos seria uma hipérbole mentirosa!
Então, depois de ter estabelecido a evangelização apostólica do Velho Mundo, falta examinar a seguinte questão: O Novo Mundo, ou seja, a América e os numerosos arquipélagos do Grande Oceano [Pacífico], que constituem quase metade do globo, receberam, desde o princípio, as luzes da fé? Ou ficaram, até aos tempos mais próximos, nas penumbras da morte? Eis a resposta:
1° É possível que no momento em que Nosso Senhor falava da rápida e universal evangelização do globo, a América e os arquipélagos do Grande Oceano ainda não fossem habitados. Nesse caso, a questão está resolvida.
2° No caso contrário, como é de fé, não somente religiosa como também científica, que todos os homens descendem do mesmo pai e que o berço do gênero humano foi a Ásia, é certo que o Novo Mundo recebeu seus primeiros habitantes do Velho Mundo. Não importa saber por qual via, já que o fato é incontestável.
3° Admitindo-se esse fato, quem poderia provar que os primeiros habitantes do Novo Mundo e suas dependências não foram contemporâneos dos Apóstolos e não receberam deles o conhecimento do Evangelho, o qual levavam em suas migrações?
4° Se o Novo Mundo fosse habitado antes da pregação do Evangelho, quem poderia provar que os Apóstolos não penetraram nele e não fizeram o que fizeram por toda parte? Lembrando o pensamento que exprimíamos falando da China, diremos: É credível que Nosso Senhor, que veio à terra para salvar toda a raça humana e destruir em todo lugar o império do demônio, tenha deixado subsistir esse império durante mais de mil anos na metade do globo? Por acaso isso é conforme ao objetivo de sua missão, conforme às suas palavras, conforme à ordem dada aos Apóstolos de pregar o Evangelho a toda criatura, conforme, por fim, à obediência dos Apóstolos e a seus testemunhos?
5° Onde está a impossibilidade de crer que alguns dos Apóstolos tenham estado na América e nos arquipélagos do Grande Oceano? Sem falar das comunicações naturais, não só possíveis, mas também prováveis, entre o Velho e o Novo Mundo. Os Apóstolos tinham em abundância o dom dos milagres. Por qual autoridade lhes seria recusada a locomoção instantânea? Para efetuar sua pregação, o Divino Mestre não poderia fazer para eles o que um anjo fizera para o profeta Habacuque, em favor de Daniel?[1]
O que digo? Ele o fez positivamente em favor da pregação evangélica, quando transportou num piscar de olhos o diácono Felipe, da estrada de Jerusalém até Gaza, na cidade de Azot (cf. At 8,26–40). Não vemos nas vidas dos santos de diferentes séculos, e, ainda recentemente, na de Santo Afonso de Ligório, o milagre da translação instantânea e mesmo da bilocação?
É necessário acrescentar que a lembrança desses transportes miraculosos dos Apóstolos se perpetuou mesmo nos povos pagãos? Conserva-se em Cantão, num templo de bonzos, um bloco de pedra quadrado que é objeto de uma grande veneração. Sobre esse bloco está impresso o passo de um homem. Segundo a tradição, é o passo de São Tomé, o qual, em pé sobre essa pedra, pregava a Cantão, no momento em que o anjo de Deus veio pegá-lo para transportá-lo à Palestina e permitir-lhe assistir, com os outros Apóstolos, à dormição da Santíssima Virgem.[2]
Ademais, repetimos que o Filho de Deus anunciou que seu Evangelho daria a volta ao mundo antes da ruína de Jerusalém; então ele o fez. Os apóstolos São Paulo, São Marcos e São Lucas afirmam: seu testemunho é infalível. Ora, quem quer o fim quer os meios. Por conseguinte, Nosso Senhor deu aos Apóstolos a possibilidade de se transportar, em pessoa, a todas as partes da terra, in universo orbe.
Mas, sem outras provas, não temos o direito de afirmar que o milagre da translação instantânea é justificado pela missão mesma da qual eram os Apóstolos encarregados? Qual era essa missão? Combater o demônio em todos os pontos do globo. Ora, o demônio se transporta, diz Santo Tomás, de um lugar a outro instantaneamente, sine intervallo temporis intermedio. Para equilibrar a luta, não era necessário que, em muitas circunstâncias, os Apóstolos gozassem da mesma prerrogativa? Por fim, Nosso Senhor não prometera aos Apóstolos que fariam milagres maiores que os seus?
6° De qualquer modo, existem vários tipos de provas da civilização antiga, material e cristã do Novo Mundo. A primeira é uma prova de razão, já alegada tratando-se dos povos africanos.
O homem não nasceu em estado selvagem, morando em florestas, comendo castanhas ou seu próximo. No entanto, assim foram encontrados, em grande número, pelos europeus, os habitantes da América. Assim se encontram ainda os povos da Oceania. Essas populações não são povos primitivos no estado normal da criação: são incontestavelmente raças degradadas.[3]
A degradação é a queda de um estado mais perfeito a um estado menos perfeito. Visto que a queda se mede a partir da altura da qual se cai, deve-se concluir que os ancestrais desses povos tão profundamente degradados abusaram de grandes graças e de grandes luzes. Quais são essas graças e essas luzes superiores a todas as outras? Não há duas respostas: citamos as graças e as luzes do cristianismo. Os ancestrais desses povos teriam, então, recebido o dom da fé e criminalmente perdido. Como punição, sua prosperidade e até eles mesmos teriam caído no fundo do abismo da degradação.
7° A segunda prova da civilização primitiva da América é uma prova de fato. Como os fósseis, descobertos recentemente, são medalhas imortais de um mundo gigantesco que não existe mais, assim as ruínas imponentes, as instituições singulares encontradas pelos viajantes modernos confirmam o raciocínio precedente, e atestam a antiga civilização de uma grande parte do Novo Mundo.
Na ordem material: Do norte ao sul, o solo americano se encontrou coberto de ruínas de cidades consideráveis, de templos colossais, de palácios em grande número e de monumentos imponentes, que, sob mais de um aspecto, apresentam rivalidade com aqueles do Egito Antigo. Assim os espanhóis encontraram um desses edifícios que os habitantes chamavam de Oxmuta, o qual não tinha menos de seiscentos pés em cada fachada e era ornado por estátuas de homens segurando palmas na mão, e com atitude de alguém que dança ao som do tambor.[4]
Sobre esse monumento, um testemunho irrecusável de uma civilização material muito avançada é a descrição nas viagens de Alexander von Humboldt, as instrutivas obras do Padre Charles-Étienne Brasseur de Bourbourg e em muitos outros escritos. Evidentemente, aqueles que os construíram não eram selvagens que viviam isolados nas florestas.
Na ordem intelectual: Uma literatura gigante, na qual se vê que, muito tempo antes da descoberta espanhola, os astecas conheciam a Europa. Da mesma forma, os hábeis arquitetos dos templos, das cidades e dos palácios, aqueles que escreveram esses manuscritos em grande número, que são lidos ainda hoje, não eram selvagens, vivendo como lobos em cavernas, ou pulando feito macacos de uma árvore à outra.
Na ordem social: O grande império de Montezuma no México, e o dos Incas no Peru. Concordar-se-á sem dificuldade: grandes impérios, com suas capitais, sua organização, seus tesouros, seus exércitos, suas administrações e suas leis são incompatíveis com o estado selvagem, no sentido ordinário da palavra.
No próximo capítulo, falaremos da civilização primitiva da América na ordem religiosa.
CAPÍTULO X
Na ordem religiosa: Deus nunca se deixou ficar sem testemunho. A salvação nunca foi impossível a nenhuma pessoa, homem ou nação. A salvação nunca foi possível senão por Jesus Cristo, ou seja, pela fé explícita ou implícita n’Ele e em sua Redenção. Tal é a doutrina da teologia católica, ensinada pela boca de Santo Tomás de Aquino.[5]
Então a lembrança, mais ou menos confusa, do “Desejado de todas as gentes” [Nosso Senhor Jesus Cristo], desideratus cunctis gentibus, nunca se perdeu inteiramente, nem mesmo nos povos mais degradados da América e nos povos da África ou da Oceania. Mesmo que mais ou menos alterada, a conservação desse dogma necessário é uma prova da Revelação primitiva. Os fatos confirmam esse raciocínio com uma lógica elementar: citemos alguns desses fatos tradicionais, dos quais devemos o conhecimento não só aos antigos exploradores do Novo Mundo, como também aos mais sábios viajantes modernos.
As tribos que povoaram a América tinham levado da casa paterna um patrimônio de verdades suficiente para sua vida social e religiosa. Mas, como filhos pródigos, como os chineses, os africanos e os outros povos pagãos, elas deixaram perecer uma porção considerável. Todavia, conservaram algumas, cujos vestígios ainda são reconhecíveis, apesar das alterações de todo tipo que as desfiguram. Falemos, antes de tudo, das tradições primitivas (ou patriarcais), e das tradições bíblicas do Antigo Testamento.
Assim, na época da descoberta da América pelo imortal Cristóvão Colombo, encontrou-se em diferentes povos, no Norte como no Sul, o dogma mais ou menos correto da existência de Deus e dos espíritos; a lembrança da criação do mundo, da mulher à serpente e do dilúvio universal; o uso da oração e dos sacrifícios; a distinção, mais ou menos exata mas real do bem e do mal; a santificação do sétimo dia; a prática da circuncisão; a fé na imortalidade da alma; o culto dos mortos; e, mesmo, o costume invariável da oração para a refeição.[6]
Das verdades do Antigo Testamento, esses povos guardaram, além de várias tradições que acabamos de descrever, a observação do jubileu comemorado de cinquenta em cinquenta anos e os principais traços da história de Moisés.[7]
Na região dos selvagens que moram na parte mais setentrional da América, perpetuam-se tradições bíblicas cuja origem se perde na noite dos tempos. Devemos hoje esse conhecimento ao Padre Émile Petitot, oblato de Maria e desde muitos anos missionário em Mackenzie. Mesmo que desfigurada, a história de Moisés se conserva muito reconhecível na memória dos montanheses, dos chippewayanos, dos couteaux-jaunes, dos peaux-de-lièvre, dos esquimós e de outras tribos vizinhas do polo.
“Alguns leitores”, diz o missionário, “terão a tentação de considerar essas tradições como uma reminiscência confusa dos escritos dos missionários. Responderemos dizendo que nossos indianos só nos possuem há no máximo quinze anos; que fomos os seus primeiros apóstolos e que essas tradições se encontram sobretudo na boca dos idosos”.
Essas reminiscências são anteriores à chegada dos missionários. A qual época deve-se remontar para mostrar sua origem? Deve-se, por acaso, atribuí-las ao contato que essas tribos teriam tido com os judeus, dispersos nos quatro cantos do mundo, antes da vinda de Nosso Senhor? Não parece, porventura, mais racional crer que ela é contemporânea da evangelização apostólica, ainda mais se considerarmos que foram encontradas nas tribos do Novo Mundo tradições puramente cristãs? De toda forma, eis um resumo da tradição relativa a Moisés.
Em tempos muito antigos, houve um grande período de fome. Por isso, os homens deixaram suas pátrias para morar na beira do mar, em terra estrangeira, a fim de salvarem suas vidas. Um dia, enquanto caminhavam, uma velha mulher ouviu os gritos de uma criança na beira da água. Ela procurou com atenção e encontrou uma pequena criança, que lhe disse: “Senhora, pega-me; vim à terra para fazer bem aos homens, meus irmãos”. A velha mulher pegou o menino e o educou cuidadosamente:
Quando atingiu uma certa idade, ele operou prodígios usando um bastão mágico. “Os homens, meus irmãos”, disse ele um dia, “são muito infelizes; quero ir ao encontro deles; eles têm fome, quero arranjar-lhes alimento”. Ele ficou, com efeito, um longo tempo com seus irmãos, e nunca lhes faltava carne. Combatendo em favor de seu povo, ele imolou durante a noite uma cadela branca e pintou, com seu sangue, a tenda, molhando, no sangue, um feixe de mato. E nessa noite os inimigos de seu povo foram destruídos.
Um dia, o Grande Inimigo capturou suas duas irmãs. “Tu não és um homem”, disse-lhe alguém, “pois deixas que teus parentes sejam capturados”. Então, encolerizou-se contra seu adversário, bateu nele e, sem querer, o matou. Depois desse golpe, ele se levantou e disse: “É necessário que eu liberte minhas duas irmãs. Logo partiu com seu irmão para procurá-las. Chegaram à tenda do Grande Inimigo. Na tenda, as duas irmãs estavam desoladas na prisão, e seus maridos estavam caçando. Por isso, ele e seu irmão as pegaram e saíram logo de lá.
O Grande Inimigo era um mágico poderoso, que havia preparado armadilhas para os fugitivos. Uma manhã, quando acordaram, estavam no fundo de um precipício. Pelo poder de seu bastão, a criança fez com que o fundo subisse ao nível do solo que os cercava e eles atravessaram o lago com os pés secos.
Chegaram a uma região na qual os moradores só viviam de uma goma branca. Não puderam ficar nesse lugar, pois essa comida lhes enojava. Tendo partido, chegaram a um país no qual o povo se alimentava de tordo [tipo de ave]. Ele mesmo lançou para essa gente a rede, e de uma só vez capturou quantidades prodigiosas.
“Um dia, em um deserto, sem árvores, caçávamos com dificuldade, pois não havia água, e morríamos de sede. ‘Esperai’, disse o menino poderoso já adulto, e, tendo fabricado uma flecha mágica, fincou-a na terra, jorrando, no mesmo momento e naquele lugar, água em abundância. Depois disso, ele disse a seu irmão: ‘Vem comigo, vou matar todos os homens inimigos’”.
Dirigiram-se para uma montanha e subiram. Trovejava espantosamente. No meio dos raios, ele catou duas pedras planas, duas pedras de “trovão”, e, tendo lançado sobre seus inimigos, caíram imediatamente sem movimento e sem vida.
Então desceram da montanha; embaixo, o menino encontrou sua velha mãe, que o educara, sem fôlego; cantava e dançava como uma louca.
(Eis aí os israelitas dançando em volta do Bezerro de ouro, enquanto Moisés estava na montanha.)
Enfim, envelhecendo, o homem, com seu bastão, subiu a montanha. “Logo vou morrer”, disse ele a seus irmãos, “mas não vos abandonarei; quando estiverdes em sofrimento, invocai-me, e virei ajudar-vos”. Então, mandou construir naquele lugar uma casa de medicina, e, tendo entrado nela, evocou seu espírito. Como não saiu da casa, o povo foi para o pavilhão a fim de que vissem o que acontecera com ele; mas ele não estava mais lá. Desde então, não se sabe o que aconteceu com ele.[8]
CAPÍTULO XI
A mesma tradição é conservada pelos kutchins (gwich’in) no Alasca, outra tribo selvagem do extremo setentrional americano. Através de um tecido de fábulas infantis, entrevêem-se nessa tradição certos detalhes que tornam a história de Moisés cada vez mais transparente.
Ela diz: “Etsiege (o nome do herói) foi encontrado na beira da água, em uma cesta de madeira, por uma velha mulher da nação dos dhoenans (povo inimigo), a qual o educou e adotou. Quando ele cresceu, ficou muito poderoso, todavia permaneceu o homem mais plácido. Ele produzia maravilhas com um bastão de salgueiro ou um chifre de rena.
“Ora, naquele tempo, ficávamos no meio de uma nação estrangeira que nos escravizou. Nós a chamávamos de nação dos dhoenans. Esse povo era rico, possuía metal, tecidos e animais, mas queria a nossa destruição. Etsiege decidiu lutar contra os dhoenans, depois fugir ao deserto que borda o mar glacial. Atou dois chifres em seus sapatos de neve, e deixou a velha senhora que o educara; abandonou sua mulher, sua tenda e tudo o que possuía na terra dos dhoenans, e se dirigiu para onde se encontravam seus irmãos.
“‘Mãe’, disse ele, ‘esta terra é habitada por um povo muito mau, por isso em pouco tempo perecerão; meus pais adotivos são duros demais para comigo; vou embora. Mas segue estas prescrições, mãe: Nesta noite, fixai e fechai bem vossa tenda. Quando fordes comer, tomai um ombro de rena, assai-o, cortai-o em pedaços e tirai toda a carne. Mas tomai cuidado para não romper os ossos. Depois de comer, se colocardes este ombro para mim fora da tenda, como um tributo e um oferecimento, nunca lhes faltará rena”.
“Obedeceu-se rigorosamente. Quando a noite caiu, a tenda foi cuidadosamente fixada com cordas; o sangue do animal morto foi colocado em um saquinho e suspendido em cima da porta. O ombro da rena foi assado e cortado, sem que os ossos fossem rompidos, e assim foi comido. Depois, viu-se elevar imediatamente no topo da tenda uma fumaça grossa; a lua ficou pálida; o menino poderoso desapareceu e um vento forte percorreu todo o acampamento. Então todos os homens foram lançados no topo das árvores ou chocados contra as rochas. Seus cadáveres jaziam por toda parte, e todos os seus animais pereceram também.
“Etsiege encontrou um homem muito bonito, e disse: ‘Vou matá-lo’. Começou a andar furtivamente com ele, e logo após bateu nele com um torrão de terra que quebrou sua espinha dorsal; e ele deitou o morto na terra. ‘Porque fizestes isso’, disseram-lhe seus pais, ‘todos os dhoenans te matarão; salva-te’.
“Depois de o ter matado, Etsiege fugiu do país dos dhoenans, na companhia de seu irmão. Mas antes de partir, enquanto os dhoenans dormiam, Etsiege e seus irmãos roubaram uma soma extraordinária de riquezas. Infelizmente saíram um pouco tarde, dando assim tempo ao grande chefe dos dhoenans de os perseguir.
“Durante a caminhada, o mar estando à frente e o inimigo atrás, disseram eles: ‘O que está acontecendo com o mar? E um grande vento que se levanta e que divide o mar, ondas altas como pinheiros aparecem, e a água toda se agita, subindo e deixando o fundo seco. ‘Por aqui, por aqui, pela terra, meus irmãos, pela terra’, gritou Etsiege. Todos o seguiram e ele os fez atravessar o mar com os pés secos. Chegaram sãos e salvos ao outro lado e retomaram a terra. Então ele, na beira do mar, toma novamente o bastão e bate no chão. Logo a terra cai e desmorona, a água sobe e, recobrindo a terra, mata o resto dos dhoenans.
“À noite, Etsiege disse a seus irmãos: ‘Nossa pátria ainda está bem longe; mas coragem! Vou aproximá-la’. Depois dessas palavras, pegou um cervo, imolou-o, e arrancando-lhe o nervo da perna, disse a seus irmãos: ‘Não comereis isto’. Por essa operação mágica, a terra e seus ancestrais se aproximaram um pouco.
“Contudo, no deserto árido onde morávamos em tendas de musgo, foi encontrada uma nação de homens poderosos, com chapéus de madeira, e, sobre o peito, uma roupa semelhante à ramagem dos pinheiros, composta de pedrinhas aglutinadas; um grande escudo pendia do ombro esquerdo, e traziam consigo facas formadas a partir de uma pedra ligada à ponta de um cabo de madeira. Não era fácil, por conseguinte, desfazer-se deles, mas mesmo assim decidiram combatê-los.
“Como Etsiege não podia combater por causa de sua idade avançada, mandou que seus dois filhos o levassem a uma montanha. Etsiege tinha um irmão caçula que era um jovem mágico, revestido com a roupa branca dos mágicos. Junto com Etsiege, ele massacrava nossos inimigos sem combatê-los. Revestido com uma grande roupa de arminho branco, balançava sem cessar um instrumento suspenso por uma alça, e falava enquanto balançava; mas não sabemos mais o que ele dizia. ‘A primeira vez em que vos vimos, ó pais, balançando vossos incensos e falando em voz baixa, pensamos que fazíeis algo análogo’. E então, por essa palavra e esse movimento, ele massacrou nossos inimigos.
“Um dia, reuniu-se um grande número de pessoas: os esquimós. Eram tantos, que o espanto tomou conta dele. Contudo, colocamo-nos em defesa, mas estávamos em desvantagem, e começávamos a fugir. Quando Etsiege percebeu como ia a batalha, subiu na montanha e começou a pronunciar as palavras mágicas de seu costume. Seu irmão caçula, com a roupa branca de arminho, balançava seu instrumento falando em voz baixa.
“De uma hora para outra Etsiege começou a pular e a passar em forma de cruz de um ombro a outro de seu irmão, pronunciando, cada vez, esta única palavra: ‘Isch’, e, cada vez que a proferia, um inimigo ‘mordia poeira’. Pereceram assim todos, até o último; pois durante o dia inteiro um irmão só balançava seu instrumento rezando e o outro passava por cima dele em forma de cruz.
“É por isso que na festa que celebramos na renovação da lua, no terceiro mês do ano, em honra de Etsiege, rezamos para que passe por cima da terra em forma de cruz, a fim de que renove a maravilha que operara naquele tempo e a fim de que nos consiga, pela morte de nossos inimigos, um grande número de renas”.[9]
Reunindo os traços separados desse quadro, vemos que é fácil reconstruir com exatidão toda a história de Moisés. Como explicar a origem dessa tradição e de outras do mesmo gênero, que se encontram ainda hoje mesmo nos povos idólatras do mundo todo? A resposta não parece ser discutível.
O homem não inventa nada: ele recebe. Tudo o que é vem do que foi. Em toda ordem das coisas, a verdade é sempre a primeira. O erro só vem depois, o qual é a alteração da verdade. Então, essas tradições vêm do conhecimento primitivo de fatos verdadeiros e retumbantes, alterados pela imaginação ou ignorância, fazendo deles fábulas adaptadas ao jeito de cada povo e tentando agregá-las a seu nível de civilização, ou, melhor dizendo, de degradação.
A essa caricatura da verdade, o pai da mentira não fica de lado. Como macaco de Deus, desfigurou essas tradições e, pela boca de seus padres, fez com que fossem aceitas como se viessem dele mesmo, de forma a ficar no lugar de Deus. Isso é, diz Santo Tomás, o objetivo constante de seus esforços.
CAPÍTULO XII
Depois de ter mostrado algumas tradições primitivas e bíblicas, conservadas pelos povos do Novo Mundo, passemos às lembranças da evangelização cristã.
Um dos sólidos historiadores da descoberta da América, da qual, por ter nascido em 1455, era contemporâneo, e, por sua posição na corte de Ferdinando, estava em um bom lugar para conhecer o que acontecia, Pietro Martire d’Anghiera diz: “Alguns sacerdotes americanos, no reino mexicano além do Darién [istmo do Panamá], foram vistos batizando meninos e meninas de pouca idade nos templos, derramando sobre eles, com um pequeno jarro, água em forma de cruz. Outros julgaram ter encontrado ali prefigurações da Santíssima Ceia, e até mesmo certos rudimentos da adorável Trindade”.[10]
Quando os espanhóis penetraram mais profundamente na América do Norte, eles encontraram, entre outros monumentos cristãos, o célebre templo de Palanco no Yucatán.[11] Nesse templo havia uma grande e magnífica cruz de pedra esculpida, a qual era objeto de veneração dos selvagens. O mesmo sinal de salvação, rodeado pelas mesmas homenagens, foi encontrado em vários outros lugares.
A Providência não permitira que a significação religiosa desse sinal adorável e a lembrança mais ou menos confusa dos dogmas que ele representa fossem completamente esquecidas. Em 1452, pouco tempo antes da chegada dos espanhóis em Yucatán, o sacerdote dos ídolos Chilam-Ballam fez a seus patriotas esta espantosa predição: “No fim da décima terceira idade, estando Itzá em sua prosperidade, assim como a cidade chamada Tancab (que fica entre Jacmàn e Tichaquillo, e que hoje se chama Ichpaa, isto é, castelo fortificado), virá o sinal de um Deus que está nos céus (nas alturas), e a cruz pela qual o universo foi iluminado se manifestará ao mundo. Haverá divisão nas vontades quando esse sinal for dado nos tempos futuros. Antes que os sacerdotes tenham percorrido uma légua e mesmo apenas um quarto de légua, vereis a cruz que vos aparecerá matutina de um polo ao outro. O culto dos falsos deuses cessará. Vosso pai vem, ó Itzalanos! Eis o vosso irmão, ó Tantunitas! Recebei vossos hóspedes barbudos do Oriente que vos trazem o sinal de Deus. Deus é aquele que nos vem manso e piedoso; chegou o tempo de nossa vida; nada mais tendes a temer do mundo. Tu és o Deus vivo que nos criou piedosos. Boas são as palavras de Deus. Bendizemos o seu sinal nos céus; louvemo-lo para adorá-lo e contemplá-lo. Devemos incensar a cruz; ela aparece hoje em oposição à mentira, é mostrada ao mundo em contraposição à primeira árvore do mundo; ela é o sinal de Deus nos céus. Adorai-a, ó Itzalanos, com vontade reta. Adoremos aquele que é nosso Deus e o verdadeiro Deus. Recebei a palavra do verdadeiro Deus, que vem do céu e nos fala; retomai vossos sentidos e sede dos de Itzá. Aqueles que crerem serão iluminados na idade futura. Vede se o que vos digo vos importa. Eu vos advirto e vos ordeno, eu, vosso intérprete e mestre, Ballam; e agora terminei de dizer o que o verdadeiro Deus me havia ordenado, para que o mundo o ouvisse”.[12]
Ou o sacerdote americano era o intérprete das tradições cristãs de seu país — o que parece natural — ou era uma sibila. Nos dois casos, sua pregação é uma prova de que Deus nunca ficou sem testemunho em nenhum ponto do globo.[13] Ademais, sua linguagem não é mais impressionante do que a da sibila de Cumes, traduzida por Virgílio.
Por fim, eis alguns fatos que confirmam a predição de Ballam e a pregação do Evangelho na América do Norte, bem antes da conquista espanhola. O primeiro se encontra no texto do Padre Chrétien Leclercq, O.M.R., apóstolo da Gaspésia e da Acádia, vastas regiões do Canadá. Após doze anos de estadia entre os selvagens do rio Miramachi (de 1575 a 1687), o corajoso missionário escrevia o que vira com seus próprios olhos e ouvira com seus próprios ouvidos, não uma vez, mas centenas de vezes.
Deixemo-lo falar: “O culto antigo e o costume religioso da cruz, admirados ainda hoje pelos selvagens do rio Miramachi (ou Miramichi), poderia, de certa forma, nos persuadir de que esses povos receberam outrora o conhecimento do Evangelho e do cristianismo, o qual perdeu-se pela negligência e libertinagem de seus ancestrais. Encontrei na terra de certos selvagens, que chamamos de porte-croix (‘porta-cruz’), um motivo suficiente que nos provava e nos fazia crer que estes povos não fecharam os ouvidos à voz dos Apóstolos, cujo som soou em toda parte, visto que, mesmo sendo infiéis, têm a cruz com singular veneração; eles levam sua imagem em suas roupas e na pele; eles a levam em todas as viagens, segurando-a na mão, por mar ou por terra, e a põem dentro e fora das cabanas, como um sinal de honra que os distingue das outras nações do Canadá”.
Ele era recebido entre eles: “Levaremos sempre a cruz, sem deixar de lado as criancinhas. Nenhum selvagem ousou aparecer diante dos outros, sem ter na mão, na pele ou na roupa, esse sagrado sinal de sua salvação. Quando era necessário decidir algo cuja consequência atingiria a nação, o chefe convocava os anciãos, que iam ao lugar do conselho, onde, reunidos, elevavam uma cruz alta de nove a dez pés; faziam um círculo e tomavam seus lugares, cada um com sua cruz na mão, deixando a do conselho no meio da assembléia”.
Discutia-se em presença da cruz: “Quando era necessário enviar algum deputado às nações vizinhas, ou a alguma nação estrangeira, o chefe chamava, no círculo, o jovem que julgava mais digno de executar o projeto, e tirava, em seguida, de seu peito uma cruz bem talhada, envolta no que havia de mais precioso; e ele a estendia respeitosamente à assembleia; depois ordenava ao deputado que se aproximasse e a recebesse com reverência. Pondo-a no pescoço, ele dizia: ‘Vai, guarda esta cruz, que ela te preservará de todo perigo daqueles aos quais te enviamos’.
“Os anciãos aprovavam o que dizia o chefe com aclamações ordinárias de hoo, hoo, hoo. O embaixador saía do conselho, com a cruz suspensa no pescoço, e só a tirava à noite para colocá-la sob sua cabeça a fim de expulsar todos os maus espíritos durante seu repouso. Guardava-a com cuidado, e na volta da missão a estendia às mãos do chefe em presença do conselho, ao qual dava contas de sua comissão.
“Por fim, nada efetuavam sem a cruz. Punham-na sobre os túmulos, e seus cemitérios pareciam mais cristãos que selvagens. Em uma palavra, eles estimavam tanto a cruz que pediam para que ela fosse enterrada no mesmo caixão, crendo que esta cruz lhes faria companhia no outro mundo e que não seriam reconhecidos por seus ancestrais se não levassem consigo este sinal honroso”.[14]
CAPÍTULO XIII
Ao testemunho tão claro do Venerável Padre Leclercq acrescenta-se, em favor da evangelização apostólica da América do Norte, o seguinte fato não menos significativo.
O célebre Bartolomeu de Las Casas desembarcou, em 1552, na costa de Yucatán, e quis atravessar esse reino para chegar à diocese de Chiapas, para a qual foi nomeado bispo. No caminho, ele encontrou um eclesiástico digno de respeito e bastante idoso, o qual falava muito bem a língua do país. Las Casas pediu ao eclesiástico que fizesse um reconhecimento melhor do país e que nele pregasse a fé.
Um ano depois esse missionário escreveu ao bispo: “Conversei com um dos principais chefes do país sobre a crença da antiga religião desses povos. Esse indígena assegurou-me de que todos eles acreditavam em Deus, Pai, Filho e Espírito Santo; que o Filho, nascido de uma virgem, morrera na cruz por causa da malícia dos homens, os quais o coroaram de espinhos, embora tenha morrido para salvar os homens; que três dias depois ressuscitara e subira ao céu; que havia enviado o Espírito Santo à terra para que fossem felizes. É verdade que o indígena dava nomes bastante bárbaros para as três pessoas divinas.[15] Assim, chamavam a primeira pessoa de Ycona; a segunda de Bacab; a terceira de Echuah. Ele acrescentava que essa doutrina fôra transmitida de geração em geração, vinda da mais longínqua antiguidade, pela atenção dos anciãos que a transmitiram sucessivamente a seus descendentes”.
O sábio historiador Torquemada cita, para garantir o fato, uma apologia de Dom Bartolomeu de São Domingos, no México. O mesmo historiador mostra em seguida duas ou três outras tradições parecidas, contadas por três veneráveis missionários de sua ordem: Padre Diego de Mercado, Padre Jerónimo de Mendieta e Padre Francisco Gómez. Este último, vindo da Guatemala e passando por Guaxaca, visitou o convento dos dominicanos dessa cidade, onde foram-lhe apresentadas pinturas muito antigas, encontradas nesse país, que representavam de uma maneira simples a crucificação, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo.
É bom saber que o Yucatán é uma região de mais de trezentas léguas de circunferência. Eis, então, um grande país que conservava mais ou menos confusas, desde a mais longínqua antiguidade, verdadeiras tradições cristãs. De quem as receberam? A Tradição logo nos responderá.
A América do Sul oferece os mesmos vestígios de uma evangelização primitiva. Tendo chegado ao Peru, em 1555,[16] os Agostinianos perguntaram aos sacerdotes indígenas qual Deus adoravam; responderam: “Adoramos Ataguju, que criou todas as coisas, fez o céu e aterra, mora no céu; mas, vendo-se só, criou dois outros deuses que governam o mundo com ele; e os três têm uma só vontade e não têm esposas. Os dois segundos deuses se chamam Sagad-Savra e Vaungabrad”.
“Como sabeis disso?”, perguntaram-lhes os religiosos. “Os sacerdotes ensinam a seus filhos há um tempo imemorável”. Tal foi a resposta dos selvagens.
Os mesmos religiosos encontraram ainda uma estátua de pedra, a qual, segundo eles, representava um apóstolo com a tonsura e barba longa, coisa estranha entre os indígenas, quase sem barba, o que prova que esse missionário era um personagem estrangeiro. Os peruanos tinham também uma espécie de batismo e até confissão auricular.[17]
Além das crenças tradicionais que acabamos de citar, e das práticas muito impressionantes contadas pelo sábio autor protestante Alexander von Humboldt, há outros fatos não menos interessantes e não menos convincentes, em favor da evangelização primitiva do continente americano.
O México tinha muitos templos, onde vivia uma multidão de moças religiosas que se consagravam à penitência. Sua maneira de viver era tão austera, que nenhum convento da Europa se aproxima delas. Elas se levantavam durante a madrugada e iam ao coro, como nossas religiosas em Matinas. Tinham cuidado de varrer o templo e de mantê-lo limpo. Faziam todos os dias pães que eram apresentados aos ídolos, e só os sacerdotes tinham o direito de alimentá-los. Mas exerciam uma grande função em uma festa solene celebrada todo ano. Parece-nos impossível não ver, por um lado, a lembrança tradicional do mais brilhante de nossos mistérios, e, por outro lado, a odiosa falsificação que o demônio fizera a seu proveito.
“A relação dessa festa”, diz o autor dos Moeurs des sauvages ameriquains (‘Costumes dos Selvagens Americanos’) [Joseph-François Lafitau, S.J.], “com a Santa Eucaristia mostra quanto o demônio cuidou, em todas as coisas, que os idólatras lhe rendessem os mesmos deveres que são devidos somente a Deus. Dois dias antes da festa, as moças consagradas no templo preparavam uma grande quantidade de fubá torrado. Elas a sovavam em uma água melada e formavam um ídolo do tamanho e forma do ídolo de madeira adorado no templo. Preparavam também, com a mesma farinha, pequenos pães, no formato de ossos humanos, os quais chamavam de ossos do Deus Vitziliputzili.
“No dia da cerimônia, o ídolo feito com a massa do fubá era levado em procissão desde a aurora, com pompa e magnificência. Na volta da procissão, levavam ao templo (onde colocavam o ídolo) todos os pães no formato de ossos. Depois de muitos sacrifícios de vítimas humanas, e depois de muitos cantos e danças, o povo todo, de jejum, criancinhas e idosos, vestiam as roupas mais caras, a fim de dar mais brilho à festa.
“Enquanto isso, os sacerdotes cortavam o ídolo em pedaços, e também os pães no formato de ossos, os quais eram tão sagrados quanto o ídolo mesmo. Quando o povo voltava, todos se apresentavam à mesma fila, homens e mulheres, grandes e pequenos, ricos e pobres; e eram-lhes distribuídos pedaços dos pães, os quais recebiam com um profundo respeito, dizendo: ‘Como a carne e os ossos de Deus, e considero-me indigno de tão grande mercê’”.[18]
Nesse fato surpreendente parece-nos haver mais do que uma tradição evangélica: há uma grande lição para os cristãos.
Terminemos essa demonstração das tradições do Novo Mundo por alguns detalhes sobre os povos dos numerosos arquipélagos recentemente descobertos: a Oceania, a Polinésia, a Malásia, a Micronésia e a Austrália. Por toda parte, os viajantes e os missionários encontraram vestígios das verdades primitivas, patrimônio comum da família humana, e bases indispensáveis de toda sociedade.
Um sábio médico da marinha, o doutor Gustave M., que durante quatro anos visitou esses arquipélagos e esses povos, pouco tempo antes da descoberta de um certo número deles, assegurou-se disso. A tribo mais degradada da Oceania, a mais feroz, a mais horrivelmente antropófaga, a da Nova Caledônia não é uma exceção. Eis aí, a seu respeito, as informações que o explorador, de boa consciência, quis nos comunicar.
Tradições primitivas: 1) A crença na existência de Deus: Quando, na floresta, o novo-caledoniano ouvia o apito do vento soar de um certo modo, parava imediatamente e dizia: “Eis o deus!”. Se alguém lhe perguntasse: “Qual é teu deus?”, infelizmente responderia: “Não sei”. Não foi possível obter-lhe outra resposta.
2) A crença na imortalidade da alma, no céu e no inferno: Após a morte, o espírito deixa o corpo e vai por água a Bonavio, pequena ilha a uma certa distância da Nova Caledônia e de muito difícil acesso. Chegando à ilha, o espírito se dirige à abertura de uma caverna profunda. Depois de ter vagueado durante longo tempo[19] em caminhos negros e tortuosos, ele chega finalmente a um imenso subterrâneo, onde todos os espíritos estão reunidos, esperando Deus. Nesse lugar há inhames quentes excelentes, bananas cozidas deliciosas, cocos etc.[20] Mas é estritamente proibido tocar nesses frutos. Se resistir à tentação, Deus poderá enviá-lo novamente para a terra.[21] Se, por infelicidade, cair, não poderá voltar para a terra, e Deus, se estiver de bom ou mau humor, o matará de novo para ressuscitá-lo uma segunda vez, mas sem corpo, no estado de sombra; desde então não poderá morrer. Deus não terá mais poder sobre ele.[22]
3) A crença na decadência particular da mulher, causa de sua inferioridade e de sua rejeição: A muliere initium peccati, et per eam omnes morimur (“Da mulher veio o pecado, e por causa dela todos nós morremos”). O grande chefe é tratado como Deus. Se um homem do povo passa diante dele, é punido com a morte. Deve passar por trás, e a mulher deve engatinhar. A virgindade era uma grande honra para esse povo tão degradado. Mais uma tradição sobre a Virgem que salvaria o mundo.
4) Distinção entre o bem e o mal: o adultério é punido pela morte.
Tradições bíblicas: 1) O costume da circuncisão e, na morte de um homem casado, a obrigação do irmão mais velho de casar-se com a viúva, mesmo se já tivesse uma mulher. 2) Vários dias por mês a mulher era considerada impura.
Tradição cristã: O grande chefe, tido como Deus, tomava o nome de Théama, e dava a seu filho mais velho o nome de Théa. Esse filho gozava na terra de uma prerrogativa sem precedentes, mas não no céu. Seu pai não podia recusar seus pedidos, qualquer que fosse; podia parar uma guerra, obter a graça de um culpado, e qualquer outra coisa. Por acaso não seria permitido ver aí um reflexo do poder do Filho de Deus sobre seu Pai? Por acaso não está escrito que Nosso Senhor é sempre atendido, exauditus pro sua reverentia? Por acaso não disse Ele mesmo a seu Divino Pai: Sei que sempre me atendeis, scio quia semper me exaudis?
De qualquer forma, já que o povo mais degradado conserva essas tradições fundamentais, é natural concluir que elas devem encontrar-se mais numerosas e menos alteradas nas tribos cuja queda foi menos profunda. É por isso que damos fim aqui às nossas buscas: o que precede basta ao objetivo a que nos propusemos.[23]
CAPÍTULO XIV
Do ponto de vista deste estudo sobre a evangelização apostólica do globo, a questão importante é saber qual apóstolo levou ao Novo Mundo a tocha da fé, da qual é impossível — parece-nos — não reconhecer os reflexos que brilharam nos fatos, nas instituições e, sobretudo, na festa que acabamos de descrever. Ora, a antiga e constante tradição dos povos americanos do Norte e do Sul nomeia o apóstolo São Tomé.
Quando lhes foi perguntado por que derramavam água em forma de cruz sobre a cabeça dos recém-nascidos, os sacerdotes dos povos vizinhos do Estreito de Darién responderam: “Um homem formosíssimo veio outrora a este país e nos ensinou a fazer estas coisas”.[24]
Jean de Léry, outro historiador da descoberta da América, conta o seguinte a respeito dos brasileiros:
“Em suma, a fim de, fazendo-lhes compreender a perdição do homem, prepará-los para receber Jesus Cristo, dando-lhes sempre comparações com coisas que lhes eram conhecidas, estivemos mais de duas horas tratando dessa matéria da criação, sobre a qual, entretanto, por brevidade, não farei aqui discurso mais longo. Ora, todos, com grande admiração, escutavam atentamente, de tal modo que, espantados por aquilo que ouviram, houve um outro ancião que, tomando a palavra, disse: ‘É certo que nos dissestes maravilhas e coisas muito boas que jamais havíamos ouvido; contudo, vossa arenga fez-me recordar o que muitas vezes ouvimos de nossos avós: que há muito tempo, há tantas luas que já não podemos contar, um mair (estrangeiro), vestido e barbado como alguns de vós, veio a esta terra; e, querendo conduzi-los à obediência de vosso Deus, falou-lhes a mesma linguagem que agora nos dirigistes. Mas, como também ouvimos de pai para filho, eles não quiseram crer, e, por isso, veio outro que, em sinal de maldição, deu-lhes o tacape com o qual desde então temos sempre nos matado uns aos outros; de tal modo que, estando já tão adiantados nesse costume, se agora o abandonássemos, deixando nossa prática, todas as nações vizinhas zombariam de nós’”.[25]
Lê-se no sábio comentador da Escritura, Cornélio a Lápide, da Companhia de Jesus: “Manuel da Nóbrega, da nossa sociedade, provincial do Brasil, escreveu que há no Brasil, na beira de um rio, o vestígio de pegadas de um homem santo que, para escapar dos infiéis que o perseguiam, caminhou sobre o rio e o atravessou. Os habitantes o chamam de Zomé, o qual não parece ser outro senão São Tomé”.[26]
Em 1537, seis franciscanos da Observação Regular foram enviados à América do Sul, para evangelizar os selvagens. Eis o que escrevia do porto de São Francisco, em 1° de maio de 1538, o superior da missão, Frei Bernardino, a João Bernal Diaz de Lugo, membro do conselho da Índia, estabelecido em Sevilha: “No porto de São Francisco encontramos três cristãos que nos disseram: ‘Há quatro anos, um indiano chamado Etiguara percorreu mais de duzentas léguas anunciando aos indígenas que logo viriam verdadeiros cristãos, irmãos e discípulos de São Tomé, o qual lhes ministraria o batismo, e que deviam acolher bem esses santos homens. As palavras desse profeta impressionaram tanto a todos, que nossos irmãos foram muito bem recebidos. Ele até ensinou a cantar cânticos, nos quais a observância dos mandamentos de Deus era fortemente recomendada. Esse homem deixou discípulos, que testemunharam uma alegria extrema ao nos ver, e cuja assiduidade para conosco vai até a obsessão”.[27]
Porventura não é admirável que a lembrança do apóstolo São Tomé tenha sido conservada durante tantos séculos, entre esses povos selvagens? Por que a lembrança desse apóstolo e não a de um outro, senão porque a São Tomé que essas tribos de além-mar devem o dom da primeira semente evangélica?
A respeito dos povos guaranis, diz o Padre Pierre François-Xavier de Charlevoix:
“Havia muito tempo que corria nessas províncias vizinhas uma tradição à qual talvez, em algumas relações (relatos), se tenha dado mais crédito do que merecia; mas não me parece mais fácil refutá-la do que prová-la. Desde o tempo em que os padres Cataldino e Maceta se afastaram das cidades espanholas para encontrar menos obstáculos à conversão dos guaranis, o cacique Maracaná, de quem já falei, e alguns outros dos principais guaranis, asseguraram-lhes que haviam aprendido de seus antepassados que um santo homem, chamado Pay Zuma, ou Pay Tuma, havia pregado em seu país a ‘Fé do Céu’ — assim se expressavam —; que muitos se haviam colocado sob sua direção e que, ao deixá-los, ele lhes predissera que eles e seus descendentes abandonariam o culto do verdadeiro Deus que lhes fizera conhecer; mas que, após vários séculos, novos enviados desse mesmo Deus viriam armados com uma cruz semelhante à que ele trazia e restabeleceriam entre seus descendentes esse mesmo culto.
“Alguns anos depois, os padres Montoya e Mendoza, tendo penetrado no distrito de Tayati, de que falarei em breve, os indígenas que ali encontraram, vendo-os vir com uma cruz na mão, receberam-nos com grandes demonstrações de alegria, o que muito os surpreendeu; e, percebendo o espanto deles, contaram-lhes as mesmas coisas que Maracaná dissera aos padres Cataldino e Maceta, e souberam que o santo homem também era chamado Pay Abara, isto é, ‘o Pai que vive no celibato’. Ademais, a tradição dos brasileiros é conforme à dos guaranis e acrescenta ainda que o Apóstolo desembarcou no porto dos Santos, em frente à Barra de São Vicente, e que ensinou aos habitantes a cultivar a mandioca e a fazer dela a cassava.
“Há um grande caminho que conduz do Brasil ao Guairá, o qual, embora muito pouco frequentado, nunca se cobre senão de ervas rasteiras; e os naturais do país o chamam o caminho de Pay Zuma [Peabiru]. Enfim, acima de Assunção há um rochedo cujo cume forma um terraço, onde se crê perceber as marcas de dois pés humanos; e os indígenas dizem que foi dali que Pay Zuma pregava aos povos a Lei de Deus. Os peruanos, que lhe dão o mesmo nome, mostram entre eles vestígios semelhantes e relatam numerosas maravilhas que o Apóstolo realizou entre eles. O que é certo é que muitos espanhóis deram crédito a essa tradição e pretendiam que Pay Zuma era o apóstolo São Tomé.”[28]
“Perto de lá, há uma vasta planície povoada por indígenas, chamados cabeludos, pois todos, homens e mulheres, deixam o cabelo crescer e cortam somente a extremidade em formato redondo. O padre jesuíta Antonio Ruiz de Montoya penetrou na terra deles e teve a felicidade de converter um grande número. Outros indígenas se uniram aos novos cristãos e formou-se uma redução em uma elevação que os habitantes do país chamavam Cemitério de Pay Zumé, pois, segundo uma antiga tradição, São Tomé ali havia enterrado um grande número de cristãos, e foi sem dúvida isso que o levou a colocar essa nova redução sob a proteção do santo Apóstolo”.[29]
Sobre os manacicas, outra tribo da América do Sul, diz o Padre Charlevoix: “Essa nação é muito supersticiosa. Uma antiga tradição afirma que o apóstolo São Tomé pregou o Evangelho em seu país ou ali enviou alguns de seus discípulos; o que é certo é que, através das fábulas grosseiras e dos dogmas monstruosos de que sua religião é composta, descobrem-se nela muitos vestígios do cristianismo. Parece sobretudo, se o que se diz é verdade, que eles têm uma vaga idéia de um Deus feito homem para a salvação do gênero humano; pois uma de suas tradições é que uma mulher de perfeita beleza concebeu, sem jamais ter convivido com um homem, um belíssimo filho que, chegando à idade viril, operou muitos prodígios, ressuscitou mortos, fez andar coxos, restituiu a vista aos cegos e, tendo um dia reunido grande povo, elevou-se nos ares, transformado naquele Sol que nos ilumina”.[30]
A mesma tradição foi encontrada na América do Norte. Diz Alexander von Humboldt: “A cosmogonia dos mexicanos, suas tradições acerca da mãe dos homens, decaída de seu primeiro estado de felicidade e inocência; a idéia de uma grande inundação, na qual uma única família escapou sobre uma jangada; a história de um edifício piramidal erguido pelo orgulho dos homens e destruído pela cólera dos deuses; as cerimônias de ablução praticadas ao nascimento das crianças; esses ídolos feitos com farinha de milho amassada e distribuídos em parcelas ao povo reunido no recinto dos templos; essas declarações de pecados feitas pelos penitentes; essas associações religiosas semelhantes aos nossos conventos de homens e de mulheres; essa crença universalmente difundida de que homens brancos, de longa barba e grande santidade de costumes, haviam transformado o sistema religioso e político dos povos — todas essas circunstâncias levaram os religiosos que acompanhavam o exército dos espanhóis, durante a conquista, a crer que, em época muito remota, o cristianismo havia sido pregado no Novo Mundo.[31] Alguns sábios mexicanos creram reconhecer o apóstolo São Tomé nesse personagem misterioso, sumo sacerdote de Tula, que os habitantes de Cholula conheciam sob o nome de Quetzalcóatl”.[32]
Terminemos por um pensamento que confirma o que precede. Refletindo bem, não nos espanta ver que a tradição atribui a São Tomé a evangelização da América. Nesse fato, revela-se uma dessas belas harmonias, tão frequentes nas obras da Sabedoria Eterna. Por um lado, como penitência à sua incredulidade passageira, a Providência quis que São Tomé fosse até os últimos limites do mundo, para que ele mesmo afirmasse a divindade do bom Mestre, do qual recebera, graças à condescendência infinita do Salvador, o privilégio exclusivo de convencer-se por uma experiência pessoal. Por outro lado, de todos os apóstolos, São Tomé parece ser, junto a São Paulo, aquele que percorreu o maior número de países. Lê-se no Breviário Romano no dia de sua festa: “Ele partiu para anunciar o Evangelho em um grande número de países: aos partas, medos, persas, hircanianos e bactrianos, aos quais ensinou os preceitos da fé e da vida cristã”.
As tradições e os fatos que acabamos de ler, e dos quais poderíamos sem dificuldade aumentar o número, parecem-nos suficientes para estabelecer, tanto quanto possa ser, a pregação apostólica do Evangelho no Novo Mundo. A partir daí, salvo algum erro, há uma dupla certeza: certeza da milagrosa rapidez com a qual a luz do sol de justiça se espalhou sobre toda a terra; certeza do cumprimento literal da profecia de Nosso Senhor. Ao enviar os apóstolos para pregarem em todo o universo, in mundum universum, e até os últimos limites do mundo, et usque ad ultimum terrae, não seria, por acaso, absurdo pensar que ele quis dizer: “Evangelizai somente o Velho Mundo, mas esquecei a América, e deixai sob o império do demônio a metade do globo”?
Oh! Quão pouca fé temos em seu poder e em sua bondade infinita, e quão pouco conhecemos nossas origens cristãs!
*
APÊNDICE
1. Testemunho do Padre Manuel da Nóbrega:
“Dizem eles que São Tomé, a quem eles chamam Zomé, passou por aqui, e isso lhes ficou por dito de seus passados, e que suas pisadas estão signaladas junto de um rio; as quais eu fui ver por mais certeza da verdade, e vi com os próprios olhos quatro pisadas mui signaladas com seus dedos, as quais algumas vezes cobre o rio quando enche; dizem também que quando deixou estas pisadas ia fugindo dos índios, que o queriam frechar, e chegando ali se lhe abrira o rio e passara por meio dele a outra parte sem se molhar, e dali foi para a Índia. Assim mesmo contam que, quando o queriam frechar os índios, as frechas se tornavam para eles, e os matos lhe faziam caminho por onde passasse; outros contam isso como por escárnio. Dizem também que lhes prometeu que havia de tornar outra vez a vê-los.”
— Padre Manuel da Nóbrega, S.J., Cartas do Brasil do padre Manoel Danobrega (1549–1560), Imprensa Nacional, 1886, p. 72–73.
2. Testemunho de Rocha Pita:
“A gentilidade que a habitava. — Todo este vastíssimo corpo, que temos mostrado, estava possuído, e habitado de inculta gentilidade, dividida em inumeráveis nações, algumas menos feras, mas todas bárbaras: não tinham culto de Religião, idolatravam a gula, e serviam ao apetite, sem regime de lei, ou de razão; tinham principais, a quem davam moderada obediência, que mais era respeito que sujeição, repugnantes à doutrina evangélica, que lhes pregou o glorioso Apóstolo São Tomé, a quem não quiseram ouvir, e afugentaram de todos os seus países, dos quais ausentando-se o Sagrado Apóstolo deixou por muitos lugares (em prova da sua vinda, e dos seus prodígios) impressos, e retratados em lâminas de pedra os sinais do seu cajado, e dos seus pés, uns ainda permanentes nas estampas, e todos constantemente venerados nas tradições (se pode assegurar-se esta pia opinião, autorizada com os testemunhos, e escritores, que em abono dela trataremos logo).”
— Sebastião da Rocha Pita, História da América Portuguesa, Fundação Darcy Ribeiro, 2012, p. 53–54.
“Razões sobre a vinda do glorioso Apóstolo São Tomé. — A vinda do glorioso Apóstolo São Tomé, anunciando a doutrina Católica, não só no Brasil, mas em toda a América, tem mais razões para se crer que para se duvidar; pois mandando Cristo Senhor nosso aos seus Sagrados Apóstolos pregar o Evangelho a todas as criaturas, e por todo o mundo, não consta que alguns dos outros viesse a esta região, tantos séculos habitada antes da nossa Redenção; e depois de remidas tantas almas, não deviam ficar mil e quinhentos anos em ignorância invencível da Lei da Graça; e posto que nas sortes tocasse a este Santo Apóstolo a missão da Etiópia, e da Índia, e não se fale na América (então por descobrir), não se pode imaginar que faltasse a providência de Deus a estas criaturas com a pregação, que mandara fazer a todas. A razão de duvidar esta vinda pelo trânsito do Mundo Velho ao Novo, ainda encoberto, não havendo comunicação que facilitasse o passo, não é forçosa; sendo mais poderosa que ela, a necessidade destas almas, remidas pelo preciosíssimo sangue de Cristo, que podia em execução do seu preceito, e da sua misericórdia, por ministério de Anjos, permitir que São Tomé se achasse milagrosamente na América, como permitiu que ao trânsito de sua Mãe Santíssima se achassem, sem saberem o como, os Apóstolos, que então viviam, estando nas suas missões divididos por diferentes partes do mundo, às quais pelo mesmo modo foram outra vez restituídos, sendo que a objeção se vê naturalmente vencida com o trânsito que à América fizeram os seus primeiros habitadores.
“Sinais em ambas as Américas. — De ser o Apóstolo São Tomé o que no Mundo Novo pregou a doutrina Evangélica há provas grandes, com o testemunho de muitos sinais em ambas as Américas: na Castelhana, aquelas duas cruzes que em diferentes lugares acharam os espanhóis com letras e figuras que declaravam o próprio nome do Apóstolo, como escrevem Joaquim Brulio, Gregório Garcia, Fernando Pissaro, Justo Lipsio e o Bispo de Chiapa; e na nossa portuguesa América, os sinais do seu báculo, e dos seus pés, e a tradição antiga, e constante em todos estes Gentios, de que eram de um homem de largas barbas, a quem com pouca corrupção chamavam no seu idioma Sumé, acrescentando lhes viera a ensinar coisas da outra vida, e que não sendo deles ouvido, o fizeram ausentar. O Padre Pedro de Ribadaneira, da Companhia de Jesus, tão diligente, e escrupuloso averiguador da verdade na vida dos Santos, não duvida dizer na de São Tomé, que pregara no Brasil, alegando ao Padre Manuel de Nóbrega, da mesma Sagrada Religião, Provincial, e dos primeiros obreiros das searas evangélicas nesta região, o qual afirma achara nestes Gentios muitas e constantes notícias da vinda do Santo, e que lhe mostraram dele impressos e rascunhados em pedra vários sinais. Seis se conservam ainda desde a província de São Vicente, até a da Bahia, em cujo termo fora o último o das suas pegadas em um sítio, que por este milagre chamam São Tomé, de donde diziam os Gentios, que, perseguido dos seus antepassados, o viram, com admiração de todos, fazer trânsito sobre as ondas, e por eles passaria a outras partes das suas missões, a que deu glorioso fim em Ásia, na cidade de Meliapor, onde foi martirizado.”
— Sebastião da Rocha Pita, História da América Portuguesa, Fundação Darcy Ribeiro, 2012, p. 63–64.
3. Lenda paraguaia:
“Uma antiga tradição oral conservada pelas tribos guaranis do Paraguai afirma que o apóstolo Tomé Apóstolo esteve no Paraguai e lhes pregou sob o nome de Pa’í Sumé ou Avaré Sumé (enquanto no Peru era conhecido como Tumé).
“‘(…) na propriedade de nosso colégio, chamada Paraguai, e distante vinte léguas de Assunção. Esse lugar se estende, de um lado, por uma agradável planície, que oferece pastagem para uma grande quantidade de gado; do outro, voltado para o sul, é cercado por colinas e rochedos; em um deles, uma cruz formada por três grandes pedras é visitada e tida em grande veneração pelos nativos por causa de São Tomé; pois acreditam, e sustentam firmemente, que o Apóstolo, sentado sobre essas pedras como numa cadeira, outrora pregou aos índios reunidos’ (Martin Dobrizhoffer, An Account of the Abipones, an Equestrian People of Paraguay, 1822, p. 385).
“Quase 150 anos antes da chegada de Dobrizhoffer ao Paraguai, outro missionário jesuíta, Antonio Ruiz de Montoya, registrou as mesmas tradições orais entre as tribos paraguaias. Ele escreveu: ‘As tribos paraguaias têm esta tradição muito curiosa: afirmam que um homem muito santo (o próprio apóstolo Tomé), a quem chamam “Paí Thome”, viveu entre eles e lhes pregou a Santa Verdade, peregrinando e carregando uma cruz de madeira nas costas’ (Antonio Ruiz de Montoya, S.J., Conquista espiritual hecha por los religiosos de la Compañia de Iesus, en las prouincias del Paraguay, Parana, Vruguay y Tape, Madrid, 1639).
“A única investigação registrada sobre o tema foi realizada durante o governo de José Gaspar Rodríguez de Francia, após a Independência do Paraguai. Isso é mencionado por Franz Wisner von Morgenstern, engenheiro austro-húngaro que serviu nos exércitos paraguaios antes e durante a Guerra do Paraguai.
“Segundo Wisner, alguns mineiros paraguaios, trabalhando perto de colinas no departamento de Caaguazú, encontraram pedras com letras antigas gravadas. O ditador Francia enviou seus melhores especialistas para examiná-las, e estes concluíram que as letras se assemelhavam a caracteres hebraicos, mas não puderam traduzi-las nem determinar com precisão a época em que haviam sido gravadas. Não há registro de investigações posteriores e, segundo Wisner, o povo acreditava que as inscrições teriam sido feitas pelo apóstolo Tomé, de acordo com a tradição.”
— Wikipédia inglesa, verbete “Thomas the Apostle”. Consulta: 24 fev. 2026.
4. Rastros de São Tomé:
§XXI
Entrada que fizemos por aquelas terras e vestígios que encontramos do Apóstolo São Tomé
À medida que aumentavam os fugitivos, íamos fazendo novas entradas entre os gentios e ganhando novos filhos para a Igreja. Passou àquela província o venerável Padre Cristóvão de Mendoza, para ajudar-nos naquela colheita, da qual levou o fruto e a palma, alcançando a do martírio, não nesta província e distrito de que falo, mas na do Tape, jurisdição de Buenos Aires, de que falarei adiante. Ficou na redução de São Javier o Padre Francisco Díaz, homem de muitas qualidades, missionário insigne, a quem a cátedra convidou com insistência por sua boa doutrina; mas, deixando-a humildemente, fez-se grande mestre dos gentios.
Estando São Javier tão bem provido, saímos o Padre Cristóvão de Mendoza e eu para a província de Yayati, terra muito áspera e montanhosa, habitada por gentios da mesma nação e língua que a anterior. Essa conquista que a Companhia realizou foi sempre a pé, por mais de dezoito anos, pois toda aquela região carecia de cavalos. Levávamos sempre nas mãos cruzes de duas varas de altura e da espessura de um dedo, para que por esse sinal se manifestasse nossa pregação.
Essa gente nos recebeu com extraordinárias demonstrações de amor, danças e regozijos, coisa que até então não havíamos experimentado. As mulheres saíam a receber-nos trazendo seus filhinhos nos braços, sinal certo de paz e amizade; presentearam-nos com seus alimentos habituais, raízes e frutos da terra. Admirados com tão estranho acolhimento, disseram-nos que, por tradição muito antiga recebida de seus antepassados, tinham que, quando São Tomé, a quem na província do Paraguai comumente chamam Pay Zumé, e nas do Peru, Pay Tumé, passou por aquelas partes, disse-lhes estas palavras: “Esta doutrina que eu vos ensino, em breve a perdereis; mas, depois de muito tempo, quando vierem sacerdotes meus sucessores, que trouxerem cruzes como eu trago, vossos descendentes ouvirão esta doutrina”. Essa tradição obrigou-os a fazer-nos tão extraordinário acolhimento. Ali fundamos um povoado muito bom, que serviu de base para outros que estabelecemos naquela província.
As razões para entender que São Tomé iluminou o Ocidente com sua presença e doutrina, assim como fez no Oriente, são muitas; e, começando pelo nome que dão aos sacerdotes, não é pequena a luz que ele oferece para sair da dúvida. Chamam-nos abaré, que quer dizer “homem separado ou diferente”, ou “homem casto”. Esse nome não convinha a nenhum dos índios desde seus antepassados até São Tomé, senão ao próprio santo, de quem comumente dizem que foi Pay Abaré, isto é, Padre Sacerdote, literalmente Pai, homem diferente dos demais por ser casto. Toda essa força tem essa breve palavra. Depois de São Tomé, também não convinha a outros senão aos sacerdotes. E, embora o vocábulo pay, que quer dizer “pai”, tenha sido usurpado por anciãos, magos e feiticeiros, que com ele se honravam, jamais aceitaram o de abaré, e a razão disso, a meu ver, é clara: a virtude da virgindade, da castidade e do celibato era por eles ignorada de tal modo que antes a consideravam infelicidade, e grande felicidade era ter muitas mulheres, muitos filhos, muitos criados e numerosa família; qualquer falta nisso imputavam a desgraça.
Esse sentimento durou ainda por muito tempo entre os cristãos que batizamos, como se verá neste exemplo: enviuvou um cacique já cristão; tratamos de casá-lo, e, tendo ele escolhido uma mulher, ela não quis. Divulgado o caso, ele, envergonhado e afrontado, deixou seus vassalos, suas casas e sua terra, e exilou-se para sempre por não querer viver com tal afronta. Outro, eunuco de nascimento, reconhecendo sua falta, andava como veado ou fera pelos montes, fugindo de ser visto; e, embora fizéssemos todo esforço para trazê-lo à aldeia, não conseguíamos domesticá-lo, nem impedir que os meninos o enxotassem, até que venceu nossa persistência e pude batizá-lo.
Tão longe estava essa gente de aplicar a si o nome de abaré e de se considerar casta. Até os magos e feiticeiros, que geralmente contradizem o Evangelho, chamam-nos abaré por escárnio; embora os já cristãos tenham reconhecido a grandeza da virtude da castidade por nossa pregação, de tal modo que os casados se acusam de terem estado com suas mulheres um ou dois dias antes da comunhão, e muitos solteiros pretendem dedicar-se ao celibato; houve até quem quisesse castrar-se, enamorado dessa virtude.
§XXII
De outros rastros que São Tomé deixou nas Índias Ocidentais
É fama constante em todo o Brasil, tanto entre os moradores portugueses quanto entre os naturais que habitam todo o continente, que o santo Apóstolo começou a caminhar por terra desde a ilha de Santos, situada ao sul, onde se vêem vestígios que manifestam esse início de caminho ou trilha, nas pegadas que o santo Apóstolo deixou impressas numa grande rocha que está no fim da praia onde desembarcou, em frente à barra de São Vicente, as quais, por testemunho público, ainda hoje podem ser vistas, a menos de um quarto de légua da povoação. Eu não as vi; mas, a duzentas léguas dessa costa, para o interior, meus companheiros e eu vimos um caminho que tem oito palmos de largura; nesse espaço nasce uma erva muito miúda, e, dos dois lados desse caminho, ela cresce até a altura de meia vara. E, ainda que a palha esteja seca e aqueles campos sejam queimados, a erva sempre torna a nascer do mesmo modo. Esse caminho atravessa toda aquela terra, e alguns portugueses me asseguraram que ele segue ininterruptamente desde o Brasil e que comumente o chamam caminho de Santo Tomé; e nós recebemos o mesmo relato dos índios de nossa conquista espiritual.”
Na cidade de Assunção do Paraguai há uma rocha junto à cidade, em cuja superfície se veem ainda hoje duas pegadas humanas, à maneira de sandália, impressas na própria pedra. A marca do pé esquerdo precede a do direito, como de pessoa que fazia força ou firmava o passo. Há tradição entre os índios de que o santo Apóstolo pregava aos gentios desde aquela rocha, e que para ouvi-lo se enchiam aqueles campos.
E, como já dissemos, têm por tradição que o santo Apóstolo lhes deu a mandioca, que é o principal pão dos naturais. O douto Lourenço de Mendoza, prelado daquela diocese, certifica em testemunho autêntico a existência desses vestígios e declara ter sabido dos naturais que, pelo mau tratamento que seus antepassados fizeram ao santo, ele lhes disse que aquelas raízes de mandioca amadureceriam em poucos meses, mas que, como castigo, só as colheriam ao fim de um ano, e assim acontece até hoje.
— Antonio Ruiz de Montoya, S.J., Conquista espiritual hecha por los religiosos de la Compañia de Iesus, en las prouincias del Paraguay, Parana, Vruguay y Tape, Madrid, 1639, p. 29–31.
[1] Impor aos atos milagrosos de Cristo Rei, Deus e Senhor quaisquer tipos de limites, de fato é um non sense. É o mesmo tipo de paradoxo daqueles que crêem em Deus mas fazem objeções sobre como a Terra foi criada, afirmando que seriam necessários milhões de anos para que a perfeição de Deus se manifestasse, ainda que não se dê por dogmatizada a medida de tempo sobre a qual o planeta foi criado (N.E.).
[2] Por Dom Guillemin, bispo de Cantão.
[3] No Brasil foi partidário dessa tese o historiador Gustavo Barroso (1888–1959), que levantou inúmeros relatos em seu Segredos e Revelações da História do Brasil (N.E.).
[4] A recente descoberta da gigantesca cidade de Angcor, no Camboja, prova igualmente, como nas nações degradadas da Indochina, uma antiga e prodigiosa civilização material.
[5] “Ninguém jamais foi salvo, mesmo antes da vinda de Cristo, senão como membro de Cristo, como é dito em Atos 4,12: Nec enim aliud nomen est sub caelo datum hominibus, in quo oporteat nos salvos fieri (“Não há salvação em nenhum outro, porque, sob o céu, nenhum outro nome foi dado aos homens, pelo qual devamos ser salvos”). E antes da Encarnação os homens eram incorporados a Cristo pela fé no futuro Redentor” (Suma teológica, III, q. 68, ad 1). “A revelação profética variou não segundo a sucessão cronológica pura, mas segundo as necessidades históricas e a condição dos negócios humanos; em todo tempo Deus instruiu os homens do modo conveniente à salvação dos eleitos” (Suma teológica, II–II, q. 174, a. 6, solução).
[6] Provamos isso em nossa obra Le bénédicité au XIXe siècle (Paris, 1878).
[7] De forma muito honesta e mesmo que por engano, o clássico A Cidade Antiga, de Fustel de Coulanges, afirma a existência de uma religião primitiva, sem a qual nenhuma daquelas existentes na Grécia, Roma ou outras civilizações antigas se explicariam. Não se trata de qualquer obra: é tida como basilar para a História Moderna. (N.E.)
[8] Stanislas Laverrière (dir.), Les Missions catholiques: bulletin hebdomadaire del’Oeuvre de la propagation dela foi, ano 1878, números de setembro e outubro.
[9] Les Missions catholiques: bulletin hebdomadaire del’Oeuvre de la propagation dela foi, número de 6 de setembro de 1878.
[10] De rebus oceanicis et novo orbe, decades tres, in-4º, 1585.
[11] Yucatán é a região da América Central onde viviam os maias. (Nota d’O Recolhedor).
[12] Jean-Frédéric de Waldeck,Voyage pittoresque et archéologique dans la province d’Yucatan (Amérique centrale), pendant les années 1834 et 1836: dédié à la mémoire de feu le vicomte de Kingsborough (Paris, 1838), p. 35.
[13] Uma pregação aproximada foi feita por uma mulher da Oceania, quarenta anos antes da chegada de nossos missionários.
[14] Chrétien Leclercq, O.M.R., Nouvelle relation de la Gaspesie: qui contient les moeurs et les religions des sauvages Gaspésiens Porte-Croix, adorateurs du soleil et d’autres peuples de l’Amérique septentrionale, dite le Canada, in-12, Paris, 1691.
[15] Prova de que não aprenderam recentemente com algum missionário.
[16] Onde viviam os incas (Nota d’O Recolhedor).
[17] Mathieu-Richard-Auguste, Barão Henrion, Histoire générale des missions catholiques depuis le XIIIe siècle jusqu’à nos jours, tome premier, première partie (Paris, 1844), p. 519.
[18] Joseph-François Lafitau, S.J., Moeurs des sauvages ameriquains, tomo 1 (Paris, 1724), p. 421–425.
[19] Não é, por acaso, uma lembrança alterada do Purgatório?
[20] O paraíso terrestre.
[21] A ressurreição.
[22] Nessa segunda morte, punição de uma falta; nesse estado de sombra imortal, pode-se, sem muita dificuldade, ver o juízo final, a ressurreição, ressurrectionem judicii, e a eternidade do suplício.
[23] As pessoas que gostariam de conhecer as tradições das verdades primitivas e outras, preservadas em todos os povos, fariam muito bem em consultar a apreciável coleção das Annales de Philosoplie Chrétienne, redigidas com uma erudição de beneditino e uma consciência sem medo e sem crítica, por Augustin Bonnetty.
[24] Pietro Martire d’Anghiera, ubi supra.
[25] Jean de Léry, Histoire d’un voyage faict en la terre du Brésil, ed. Paul Gaffarel, tomo 2 (Paris, 1880), p. 76–77. Cf. também Georgius Hornius, De originibvs americanis (Hagae Comitis, 1652), livro III, cap. 19, p. 218–220; e livro IV, cap. 15, p. 276: “É opinião comum que o próprio São Tomé pregou o Evangelho àquelas gentes. (…) Quanto aos brasileiros, certamente não lhes é desconhecido o seu nome, como acima foi dito”.
[26] Cornélio a Lápide, S.J., In epist. ad Rom., cap. X, 17.
[27] Mathieu-Richard-Auguste, Barão Henrion, Histoire générale des missions catholiques depuis le XIIIe siècle jusqu’à nos jours, tome premier, seconde partie (Paris, 1846), p. 434.
[28] Pierre François-Xavier de Charlevoix, S.J., Histoire du Paraguay, tomo 1 (Paris, 1756), p. 312–314.
[29] Pierre François-Xavier de Charlevoix, S.J., Histoire du Paraguay, tomo 1 (Paris, 1756), p. 369. [Nota d’O Recolhedor: Na edição original francesa, Monsenhor Gaume cita a página 324, porém não consta nela esse trecho; tampouco encontramos na página 369 esse parágrafo inteiro.]
[30] Pierre François-Xavier de Charlevoix, S.J., Histoire du Paraguay, tomo 2 (Paris, 1756), p. 274–275.
[31] Eles não estavam errados. Quando vemos um país maometano, por exemplo, podemos dizer com toda certeza que nele foi semeado o maometismo. Da mesma maneira, quando encontramos, na América do Norte e do Sul, tantas coisas cristãs, não temos, porventura, o direito de dizer que o cristianismo aí foi semeado?
[32] Alexander von Humboldt, Vues des Cordillères, et monumens des peuples indigènes de l’Amérique, tomo 1 (Paris, 1816), p. 237–238.
