A GRANDE APOSTASIA E OS ESPAÇOS DE PODER
Carlos Alberto Disandro, La Hostería Volante, n° 38, abril de 1993
1. INTRODUÇÃO
Enfrentamos uma situação-limite na Igreja. Distingo, por comodidade, três contextos, perfilados sumariamente.
Primeiro, o da seita, a Big Seita erigida e alimentada canônica e doutrinariamente por João XXIII, Paulo VI e João Paulo II, bem como pela quase totalidade dos bispos.
Em segundo lugar, a Seita de Ecône, fundada por [Marcel] Lefebvre, e segundo acordo com Paulo VI; reclama para si o sustento e exercício da Tradição. Esta seita é um verdadeiro cefalópode. Apesar de suas divisões, rupturas e dissidências internas, congrega sem dúvida uma boa parte de católicos, mitigados ou não, desiludidos pela manipulação de Roma-Vaticano II.
Por fim, a linha de bispos e fiéis, cuja cabeça canônica e espiritual é o arcebispo vietnamita Mons. [Pierre Martin Ngô Đình] Thuc, discutido, ignorado, vilipendiado, e talvez, assassinado.
Entre os fiéis, por sua vez, produziu-se uma dispersão complexa e difícil, já preanunciada em Mt 26,31 e Mc 14,27: percutiam pastorem et dispergentur oves (“Ferirei o pastor e as ovelhas se dispersarão”). Esse texto, e outros correlatos, não anunciam apenas a paixão e morte do Senhor, mas também o Getsêmani da Igreja. Nele nos encontramos sem pastor. Como se interpretam, então, as palavras percutiam e dispergentur?
Resta um só caminho para a Fé: ser proclamada, a fim de enfrentar, qualquer que seja sua manifestação, a Apostasia, explícita ou larvada.
No transe de meditar esse mysterium iniquitatis (mistério da iniquidade), que é a Apostasia, prefiro repartir os campos semânticos que conformam seu desenvolvimento nestes últimos trinta e cinco anos, sem desconsiderar os antecedentes que remontam muito atrás. No entanto, nesses trinta anos, a Apostasia tornou-se explícita na autoridade, colocada a serviço de uma conjura contra a Fé, para extinguir os fiéis. Pois esta é a primeira tese que é preciso reafirmar: a Apostasia não é um estado passivo, inerte, por corrupção ou extinção da Fé. É uma militância operativa, totalitária, que procura a aniquilação da Fé e dos fiéis, sem levar em conta em absoluto a misericórdia que deriva precisamente da Fé. Passamos da apostasia bonachona e humanitária (João XXIII) à apostasia militante, totalitária; e contra esta só há uma resposta, cujo modelo resplandece no proto-mártir Santo Estêvão.
A segunda tese perfila a própria natureza da Apostasia. Não é um reino guerreiro, conduzido por capitães soberbos, à conquista e morte dos cristãos ao redor do orbe. É manipulação, doçura, humanismo e emoção caritativa para coaligar, emulsionar, dessubstanciar e realizar a transformação total do Homem de Fé.
A terceira tese comprova a condução estratégica da Apostasia na Roma ariana de João Paulo II, cujo reino se aproxima do fim (escrevo isso em 31 de julho de 1992), para ceder essa condução estratégica a um tirano “apostólico” de rosto novo. O combate, portanto, se intensificará e os fiéis viverão na solidão.
A estratégia à qual aludo consiste, no mais puro estilo leninista, em avanços e recuos, para sempre progredir na destruição dos fiéis. Por isso trataremos, em parágrafo à parte, da “Apostasia com rosto de Tradição”.
As três teses, que envolvem vastas projeções, são portanto:
- A Apostasia é uma militância ativa, hierárquica;
- A Apostasia não é um reino bélico, é manipulação sob a forma de doçura e obediência;
- A terceira tese, por fim, comprova uma condução estratégica mundialista, manejada pela Roma ariana, centro do “poder mundial”.
Examinarei brevemente os campos que poderíamos distinguir para o perfil da Apostasia Ecumênica, totalmente contraposta, por conseguinte, à Eudokía do Canto angélico do Glória. Esta, a Glória, é luz, fulguração, esplendor. A Apostasia é o domínio da σκοτία[1] contra a luz (cf. o Prólogo joanino).
Distinguiria, pois:
- Apostasia litúrgica,
- Apostasia canônica,
- Apostasia teológica,
- Apostasia temporal (cultural-política),
e por fim, - Apostasia com rosto de Tradição.
Vejamos, então, cada distinção semântica, sem prejuízo de manter uma discreta retomada de outros pormenores. Meu texto pretende ser um documento de reflexão sistemática, mas não uma clausura reducionista do próprio tema, que oferece outras vertentes.
2. APOSTASIA LITÚRGICA
Consiste substancialmente na destruição do culto e do rito romanos, substituídos por confusas adulterações. Mas aqui nos interessam as vastas consequências que implica o colapso da oração, a mística da interioridade como continuidade e duração do Logos na história. Pois nos efeitos desta “apostasia” crescem espaços massivos de poder, não quanto a territórios, países (geografia, por assim dizer), mas quanto à humanitas concreta (América, Europa, etc.). Pois esses “espaços de poder”, na geopolítica mundialista, instauram uma nova sacralidade, desligada de todo mito, de todo rito, de todo sacerdócio. É a “sacralidade fática” do paraíso, despojado de todo símbolo e de toda anábasis[2] unificadora e plenificadora, para repousar no puro conhecimento carnal dos “gigantes”. Considero, pois, a “apostasia litúrgica” como o sinal primordial do mundialismo planetário tirânico.
3. APOSTASIA CANÔNICA
Às res eximiae (coisas exímias) destruídas no primeiro passo, segue-se a destruição da letra e/ou do texto sacro, que é para a Antiguidade cristã um grau da encarnação do Logos. Interrompe-se, pois, em todos os níveis possíveis da “letra”, sua referência às res divinae (coisas divinas), e perece também aquilo que consideramos res publica (coisa pública), como domínio do logos instaurador, vivente e multiplicador. Mas uns são os efeitos na Ecclesia, outros na Civitas. O poder de gerar novos espaços geopolíticos, repletos de massas alienadas, advém também da apostasia canônica, que se torna explícita no “Novo Evangelho”, a nova cristandade esvaziada de semântica divino-humana.
4. APOSTASIA TEOLÓGICA
Esta tem, por certo, uma história sinuosa. Mas devemos referir-nos particularmente à linha descrita pelo Cardeal Siri (†) em seu livro misteriosamente silenciado e escamoteado pelos heresiarcas arianos do Vaticano II e sua hierarquia írrita e deposta segundo a Bula de Paulo IV. (Cf. Getsemani: Reflexiones sobre el Movimiento Teológico Contemporáneo, Ed. Hermandad de la Santísima Virgen María, Centro de Estudios de Teología Espiritual, Coleção “Pensamiento Católico”, Toledo-Ávila, 1981). De [Jacques] Maritain a Henri de Lubac, que acaba de falecer, resume-se esta Apostasia na despossessão da graça e da santidade do outrora povo cristão. [Karl] Rahner, Lubac, Teilhard [de Chardin], entre nós Quiles e outros falsos doutores, consumaram a destruição do edifício teológico, como sinal da demolição da “Cidade Celestial”, ou seja, o edifício da Igreja, como antecipou Ana Catarina Emmerich, em suas visões, e antes Santa Hildegarda. Mas a confluência desta Apostasia com os poderes aquerônticos mundialistas ativa e representa a “destruição da humanidade”. Por isso, “Apostasia” e “Poder” é um dado fundamental para entender a quaestio que propomos nesta breve nota sobre Geopolítica.
5. APOSTASIA TEMPORAL (CULTURAL-POLÍTICA)
Descemos, assim, à vasta expansão do que chamo, por comodidade recapituladora, de “apostasia cultural”, que a seu modo foi perfilada por Allan Bloom em seu livro The Closing of the American Mind. Entretanto, entendo neste capítulo a apostasia linguística das fontes hiperbóreas, e, por conseguinte, a apostasia semântica, cultural, estética e política, cujo efeito é a “emulsão” totalitária e planetária, da qual, em seu nível entenebrecido, deve surgir o “deus deste éon” (theós tou aionos toutou), como função e exercício do poder planetário. Poderíamos chamá-la de “apostasia do Nous”, apostasia noética em busca do reino massificado da função biológica dirimente. Já não há mais a clareza da luz joanina, nem a regência do Logos hiperbóreo e agápico.

6. APOSTASIA COM ROSTO DE “TRADIÇÃO”
Restaria traçar o perfil da Apostasia com rosto de “Tradição”, a “tradição de sempre”, o ensaio da “tradição de sempre”, em meio à Grande Apostasia, que pede, na realidade, um Santo Atanásio ou um São Hilário de Poitiers. Por isso chamei Ecône de “colateral” da Roma apóstata (cf. La Hostería Volante, nº 31, ano 1981).
Essa “apostasia”, que eu também chamaria de coerção do ritualismo, confrontada com a subversão do culto, a desobediência capital como forma de encobrir propósitos de seita, remonta à antiquíssima corrente do Priorado de Sião, infiltrada colateralmente desde os antigos templários; talvez — o elitismo político como escudo de uma subversão contra o Império e o desprezo pela cultura dos Grandes Concílios Gregos e dos Grandes Doutores — tudo isso prenuncia uma profunda divisão da Igreja Romana em seus aspectos doutrinais, místicos e culturais. A Tradição jaz extinta ab initio sob o lábaro da Missa de São Pio V e das grandes declamações de piedade. Autores deste desvio perigoso para o combate da Fé são Paulo VI e Marcel Lefebvre, de origem canônica no judeo-maçonismo, opostos à obra de São Pio X e Pio XII.
Que caminho resta à Igreja, senão o Getsêmani e o deserto anacorético?
Diversos setores do que eu chamaria de frente do sedevacantismo, embarcados no programa do eligendus est papa[3] (isto é, de algum modo na montagem do concílio imperfeito), colocam-me na falange dos pessimistas (cf., entre outros, a revista Kyrie Eleison). Mas não é assim. E convém esclarecer de novo. Não há nenhum pessimismo no “combate da Fé”, segundo o sentido explicado em minha interpretação de São Atanásio. A Fé pode produzir o milagre de deslocar a montanha de mentiras, entre outras, aquelas que encobrem como trevas a função sacra do pontificado romano. Confundir o vigário com a cabeça viva de um vivente é a obra magistral da Apostasia Clerical, a única que, em última instância, importa como condução luciferina contra a Fé.
Meus pontos de vista são muito claros, ainda que, evidentemente, na situação hodierna, não pretendam ser exaustivos. Aceito toda crítica sobre minha modesta obra teológica, assumida desde o fim de Pio XII. Mas o qualificativo de “pessimista” suprime a virtude da esperança que acompanha a Fé. Mas Fé é, segundo expliquei durante quase cinquenta anos, proferição da Fé — é semântica da Fé. E se não for isso, é nada. A Apostasia é, também, uma proferição luciferina — loqui sicut draco[4] — e, portanto, semântica que pretende entenebrecer a Fé.
7. OS ESPAÇOS DE PODER
Segundo essas escalas reais, repartem-se, por obra das lojas esotéricas, depositárias deste novo poder antroposófico, os espaços da terra, as raças, as línguas e, diria eu, do cosmos, redimensionado pela nova ciência do Big Bang, novo evangelho evolucionista e ateu. É a religião do ateísmo que surge dos jesuítas apóstatas já mencionados. É das glauben die Gottlosen,[5] a “fé dos sem Deus”, a “fé leninista” triunfante no mundo.
Os “espaços de poder” se decidirão provavelmente, tal como o entendia Vladimir Soloviov, entre “raça amarela”, “raça negra” e “raça branca”, como se pode perceber no panorama dos Estados Unidos. E é nestas instâncias tão dramáticas — que reconfiguram a história da nossa América e seu enfrentamento com tais espaços de poder, massivo, massacrador, manipulador e contrahumano — que se trava o embate.
Nossa luta teológica, iniciada no Instituto de Cultura Clásica “Cardenal Cisneros” (La Plata), há trinta anos, com o Instituto “San Atanasio” (de Córdoba), hoje dissolvido por exigências táticas do combate impiedoso, nossa luta teológica, pois, investe uma concepção geopolítica, enfrentada à Roma, cabeça da apostasia cristã.
As guerras periféricas que se sucedem sem pausa e sem renúncia ao massacre dos inocentes, têm também a resposta da Intifada, na qual os adolescentes e jovens palestinos lutam com fundas contra o poderoso e tecnologizado exército de Israel. Fundas — modelos para nossa segunda guerra da independência, que é uma guerra cultural, política e teológica, na qual empunhamos o sentido absoluto do evangelho agápico, a cultura do signo teândrico e a política do empirismo construtivo e pacificador, contra os nômades predadores e usurários, que devemos expulsar de nossa terra sagrada. Mas também essa confrontação resulta num combate doutrinal contra o rabinato clerical do Ocidente, contra o Talmude romano, que pretende subverter a raiz ôntica e mística da Ecclesia e, por conseguinte, cegar as “fontes da cultura”.
Assim, de forma simples e omnicompreensiva, resume-se a complexa semântica de uma obra fundada em Santo Atanásio, o Grande Doutor cuja inspiração imploramos.
[1] A palavra grega σκοτία (skotía), que significa “escuridão” ou “trevas”, tanto no sentido físico quanto, frequentemente, no sentido espiritual ou metafórico, especialmente em contextos bíblicos e teológicos. Ela é derivada de σκότος (skótos), substantivo masculino que também significa “escuridão”, e σκοτία é o substantivo feminino correspondente. Exemplos de uso: No Evangelho de João (1,5): Καὶ τὸ φῶς ἐν τῇ σκοτίᾳ φαίνει… (“E a luz brilha nas trevas…”). (N.T.)
[2] A palavra grega ἀνάβασις (anábasis) significa literalmente “subida”, “ascensão”, ou “marcha para o interior”. Ela deriva do verbo ἀναβαίνω (anabaínō), que significa “subir”, “ascender”, ou “avançar para cima”, composto por:
- ἀνά (aná) = “para cima”, “em direção ao alto”.
- βαίνω (baínō) = “ir”, “caminhar”, “avançar”.
Em contextos filosófico-religiosos, ἀνάβασις pode significar ascensão da alma em direção ao divino, à luz, ao bem. (N.T.)
[3] “O papa deve ser eleito” ou “É necessário eleger um papa”.
[4] “Falar como um dragão” (cf. Ap. 13,11).
[5] “É nisso que os ímpios creem”.
