A IGREJA CATÓLICA NO “MEIN KAMPF” DE HITLER
Leo Herbert Lehmann
Fonte: The Catholic Church in Hitler’s “Mein Kampf”. Agora Publishing, reprinted from The Converted Catholic Magazine, Oct.–Nov. 1942.
Tradutor do texto: Elvira Mattoso.
Descrição: O autor sustenta que Mein Kampf revela uma profunda afinidade estrutural entre o nazismo e o catolicismo institucional, apresentada como decisiva na formação intelectual e política de Hitler. Argumenta que a Igreja, por meio da Santa Sé e suas encíclicas, e da Concordata de 1933, teria favorecido a ascensão e consolidação do regime nazista em troca de garantias institucionais. Mostra que Hitler admirava a organização, a disciplina, o autoritarismo e a intolerância dogmática da Igreja, imitando esses traços no partido e no Estado nazista. Associa o antissemitismo hitlerista a influências do catolicismo político austríaco e do chamado “cristianismo positivo”. Por fim, defende que o projeto nazista de uma “nova ordem” estaria em consonância com a visão corporativa, antiliberal e autoritária defendida por setores do catolicismo ultramontano.
Nota d’O Recolhedor: Embora o autor do texto seja um protestante, ele não se afasta da verdade histórica acerca da influência do catolicismo no pensamento de Hitler.
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Mein Kampf, a bíblia e o plano-mestre do nazismo, desnuda os segredos e desígnios da mente de Hitler. Nele, o Führer traçou suas convicções e princípios mais profundos. Aqueles que inicialmente zombaram da obra como uma ilusão impossível ficaram atônitos ao ver quão literalmente ela foi transformada em realidade.
Infelizmente para os fatos do caso, uma barragem constante de propaganda católica na imprensa comercial atordoou o público americano, levando-o a acreditar que Hitler despreza a Igreja Católica e conspira para a sua ruína.
Desde o início, a revista The Converted Catholic Magazine tem apontado que Hitler e a Igreja Católica Romana concordam nos princípios básicos do fascismo e na necessidade de expurgar os ramos nacionais da Igreja de todos os elementos políticos liberais. Pio XI abriu caminho para a abolição do governo democrático por Hitler ao dissolver o poderoso Partido do Centro Católico na Alemanha [o Zentrum]. Deve-se notar também que, por trás da posterior encenação enganosa de rupturas entre Hitler e o Vaticano, o atual papa jamais se recusou a condenar Hitler, muito menos a excomungá-lo da Igreja ou a renunciar à concordata nazista que ele próprio negociou com Hitler quando era núncio papal em Berlim.
Fritz Thyssen, magnata católico do aço, em seu livro I Paid Hitler (“Eu Paguei a Hitler”),[1] admite que, juntamente com outros grandes industriais da Renânia católica, despejou milhões de dólares nos cofres de Hitler, com o entendimento de que este prepararia o caminho para uma confederação de países sob um monarca católico — uma versão moderna do Sacro Império Romano.
Em 1933, o Vaticano foi o primeiro Estado soberano a colocar seu selo de aprovação em Hitler, ao firmar com ele um acordo solene logo após este ter estabelecido uma ditadura que chocou a sensibilidade do mundo.
Hitler fundou seu partido nazista em Munique, a cidade mais católica da Alemanha. Goebbels, Himmler, Röhm, von Papen, Seyss-Inquart, Buerckel e outros pilares do nazismo são católicos romanos e estão oficialmente listados como tais no Wer Ist’s (“Quem é Quem”) da Alemanha. Quanto à intensa admiração de Hitler pela Igreja Católica, da qual é membro reconhecido e em plena comunhão (também assim listado no Wer Ist’s), não pode haver dúvida razoável. Além das próprias declarações de Hitler sobre a Igreja Católica, há uma nota de rodapé na página 365 de Mein Kampf que afirma: “Rauschning (cf. sua Revolution des Nihilismus) assinalou o profundo respeito de Hitler pela Igreja Católica e, em particular, pela Companhia de Jesus” (isto é, os jesuítas).
O entusiasmo de Hitler pela Igreja Católica Romana, sua simpatia por seus objetivos e visão de mundo, sua admiração por seus princípios e por seu plano de organização refletem-se por todo Mein Kampf. Ele não dedica à Igreja Romana um simples capítulo, como se fosse algo alheio à sua ideologia; ao contrário, entrelaça-a com quase todas as suas análises e princípios adotados.
O melhor que se pode fazer aqui é reunir o maior número possível desses excertos de Mein Kampf, conforme o espaço permita, sob os importantes títulos temáticos aos quais pertencem. Estes incluem: A Influência Católica Inicial de Hitler; Admiração pela Organização da Igreja; Intolerância Religiosa; Celibato Clerical; Anti-semitismo; Relações Igreja–Estado e Ultramontanismo.
Todas as citações provêm da edição inglesa definitiva e não expurgada, publicada pela Reynal & Hitchcock:
A INFLUÊNCIA CATÓLICA INICIAL DE HITLER
Nenhum estudante de psicologia precisa ser informado do poder das influências da infância na formação do padrão de vida de uma pessoa. A mente juvenil de Hitler, com sua inclinação natural para o misticismo e a arte, foi profunda e favoravelmente impressionada e moldada pelo ritual e pela pompa da Igreja Católica. Sua admiração pela Igreja ajudou a formar seu ideal pessoal de poder ditatorial; na juventude, encontrou sua encarnação perfeita no abade de um mosteiro, eleito vitaliciamente, com poderes ilimitados e incontestados. Assim ele diz (p. 7):
“Na medida em que recebi aulas de canto em meu tempo livre no coro do Convento [Mosteiro] de Lambach, tive repetidamente excelente oportunidade de me embriagar com o esplendor solene das magníficas festas da Igreja.
“Era perfeitamente natural para mim que a posição de abade me parecesse o ideal mais elevado alcançável, assim como a de pároco de aldeia havia agradado a meu pai.”
E novamente ele diz (p. 711):
“À noite, porém, eles [o povo] sucumbem mais facilmente à força dominadora de uma vontade mais forte. (…) Ao mesmo fim serve também a penumbra artificialmente criada e, no entanto, misteriosa das igrejas católicas, as velas acesas, o incenso, os turíbulos, etc.”
ADMIRAÇÃO PELA ORGANIZAÇÃO DA IGREJA
Hitler desconsidera as falhas individuais dentro da Igreja Católica e se impressiona com a solidez e o êxito de sua organização como um todo. Aos seus olhos, o maior crime de que um padre ou bispo pode ser culpado é a atividade na formação de partidos políticos liberais que atuem independentemente do controle centralizado do Vaticano. Ele agiu severamente contra parte do clero católico, na Alemanha e nos países ocupados, que persistiu em encorajar ações políticas independentes depois que o Papa Pio XI dissolveu o Partido do Centro Católico e o Partido Popular da Baviera. Nem mesmo uma dignidade tão elevada da Igreja quanto o cardeal Faulhaber foi poupada.
Os seguintes excertos bastam para ilustrar esse ponto:
“Seria injusto responsabilizar a religião como tal ou mesmo a Igreja pelos erros de vários indivíduos. Deve-se comparar a grandeza visível da organização com a falibilidade média dos homens em geral, e será preciso admitir que a proporção entre o bem e o mal é aqui talvez melhor do que em qualquer outro lugar.
“Mesmo entre os padres, há certamente alguns para os quais o seu sagrado ofício é apenas instrumento para a satisfação de sua ambição política e que, na luta política, esquecem de modo mais que deplorável que deveriam ser os guardiões de uma verdade superior e não os promotores de mentiras e calúnias — mas tal indivíduo indigno é, por outro lado, compensado por mil e mais pastores honestos, fielmente devotados à sua missão, que se destacam como pequenas ilhas em um pântano comunitário em nosso tempo mentiroso e desmoralizado.” (p. 149).
“Aquele que acredita poder chegar a uma reforma religiosa pelo caminho indireto de uma organização política apenas demonstra que realmente não tem a mínima ideia de como surgem as concepções religiosas ou mesmo os dogmas, nem de seu efeito sobre a Igreja.” (p. 147).
Seu ideal organizacional é semelhante ao da Igreja Católica, cujo chefe não democrático é supremo e absoluto e que, uma vez escolhido, não pode ser substituído:
“O jovem movimento, segundo sua estrutura e sua organização interna, é antiparlamentar; isso significa que, em geral e em sua construção interna, rejeita o princípio de decisão pela maioria, pelo qual o líder é rebaixado à posição de executor da vontade e da opinião de outros. O movimento, tanto nas pequenas quanto nas grandes coisas, representa o princípio de uma democracia germânica: escolha do líder, mas autoridade absoluta deste último.” (p. 478).
INTOLERÂNCIA RELIGIOSA
A essência da Igreja Católica consiste em sua autoridade absoluta, em sua pretensão de ser a única religião verdadeira, em sua autoconfiança fanática, em sua exigência de obediência cega, em sua intolerância dogmática, em sua recusa de compromisso até mesmo com a ciência. Cada uma dessas qualidades foi notada e admirada por Hitler como o segredo do êxito. Mais tarde, ele lhes prestou a mais sincera forma de lisonja: a imitação. Fez delas a estrutura de seu partido e de seu governo nazistas.
[Nota d’O Recolhedor: Considere o que dissemos no início: o autor é protestante, logo acredita piamente no mito da “Igreja anti-ciência”.]
Entre os muitos trechos repetitivos em que ele enfatiza isso, os seguintes bastam:
“Se a doutrina religiosa e a fé devem realmente apoderar-se das grandes massas, então a autoridade absoluta do conteúdo dessa fé é a base de toda eficácia.” (p. 365)
“A grandeza de toda organização poderosa, enquanto encarnação de uma ideia neste mundo, está enraizada no fanatismo religioso com que ela se impõe de modo intolerável contra tudo o mais, fanaticamente convencida de seu próprio direito.” (p. 487).
“A grandeza do cristianismo não esteve enraizada em tentativas de negociação de compromissos com opiniões filosóficas do mundo antigo talvez construídas de modo semelhante, mas na pregação e representação inexoravelmente fanáticas de sua própria doutrina.” (p. 487).
“O futuro de um movimento é condicionado pelo fanatismo, e ainda mais pela intolerância, com que seus adeptos o apresentam como o único correto e o impõem diante de outras formações de natureza semelhante.” (p. 485).
“Aqui também se pode aprender com a Igreja Católica. Embora a sua estrutura doutrinária em muitos pontos colida, de maneira totalmente desnecessária, com a ciência exata e a pesquisa, ela não está disposta a sacrificar sequer uma pequena sílaba de seus dogmas. Reconheceu corretamente que sua capacidade de resistência não reside em uma adaptação maior ou menor aos resultados científicos do momento, que na realidade estão sempre mudando, mas antes em uma adesão rigorosa a dogmas uma vez estabelecidos, os únicos que conferem a toda a estrutura o caráter de credo.
“Hoje, portanto, a Igreja Católica se mantém mais firme do que nunca. Pode-se profetizar que, na mesma medida em que as aparências fogem, a própria Igreja, como polo de repouso na fuga das aparências, conquistará cada vez mais adeptos cegos.” (p. 882).

CELIBATO CLERICAL
A Igreja Católica, em seu planejamento astuto e previdente, encontra força organizacional e renovado vigor no celibato imposto ao seu clero e às suas muitas ordens ativas e contemplativas de monges e freiras. O sacrifício resultante do individualismo e da moral pessoal é considerado um pequeno preço a pagar por uma prática que fortalece a estrutura organizacional da Igreja como um todo e a livra de muitos dependentes, obrigações e responsabilidades.
Hitler também é defensor do princípio de que “os fins justificam os meios” e é superlativo em sua admiração dessa prática implacável porque ela é bem-sucedida. Ele diz (p. 643):
“Aqui a Igreja Católica pode ser vista como um exemplo-modelo. No celibato de seus padres reside a compulsão de recrutar a futura geração do clero, em vez de suas próprias fileiras, repetidas vezes das amplas massas do povo. Mas esse significado particular do celibato não é reconhecido pela maioria das pessoas. Ele é a origem do poder incrivelmente vigoroso que habita essa instituição antiquíssima. Esse gigantesco exército de dignitários clericais, ao se renovar ininterruptamente a partir das camadas mais baixas das nações, preserva não apenas seu vínculo instintivo com o mundo sentimental do povo, mas também assegura para si uma soma de energia e força ativa que, nessa forma, estará para sempre presente apenas nas amplas massas do povo. Disso resulta a espantosa juventude desse organismo gigante, sua flexibilidade espiritual e sua vontade de aço.”
Ele também glorifica o princípio básico da educação jesuítica, o treinamento da vontade:
“De máxima importância é o treinamento da força de vontade e da determinação, bem como o cultivo do gosto por assumir responsabilidades.” (p. 623).

ANTI-SEMITISMO
Antes de Hitler chegar a Viena e entrar em contato com o líder católico antissemita Dr. Karl Lueger, prefeito de Viena, ele nada sabia de antissemitismo organizado. Ele diz (p. 67):
“Eu não tinha absolutamente nenhuma idéia de que existia uma hostilidade organizada contra os judeus.”
A nota do editor, em referência a essa passagem, na página 69, diz:
“Hitler, portanto, não partilhava o sentimento católico predominante de que intelectuais e jornalistas judeus estivessem minando os direitos da Igreja. Ele era um ‘liberal’, no sentido de que, embora nascido católico, recusava-se a comprometer-se seriamente com um dos lados de uma discussão religiosa.”
Ele logo aprendeu a admirar e imitar esse líder católico, protegido do Vaticano, que conhecia o valor político e o apelo às massas do antissemitismo:
“De qualquer modo, e por causa disso, aprendi gradualmente a conhecer o homem e o movimento que governavam o destino de Viena: o Doutor Karl Lueger e o Partido Cristão-Social.” (p. 71).
A nota do editor a esse respeito diz:
“Karl Lueger (1844–1910) fundou o Partido Cristão-Social (ao qual pertenceram o Dr. Engelbert Dollfuss e o Dr. Kurt von Schuschnigg) com base num programa que combinava uma boa dose de legislação municipal progressista com uma percepção astuta dos valores políticos latentes no antissemitismo popular. (…) O Cardeal Rampolla, então Secretário de Estado do Papa, estendeu sua mão protetora sobre Lueger.”

Hitler diz ainda sobre Lueger (p. 128):
“Sua política infinitamente hábil em relação à Igreja Católica conquistou-lhe em pouco tempo o clero jovem a tal ponto que o antigo Partido Clerical foi forçado ou a abandonar o campo de batalha ou, mais sabiamente ainda, a unir-se ao novo partido para assim, pouco a pouco, reconquistar uma posição após outra.”
Ele deixa claro que o protestantismo, ao contrário do catolicismo, se opõe ao antissemitismo e carece, em geral, da intolerância religiosa que ele idolatra. Ele diz:
“Assim, o protestantismo sempre se interessará pela promoção de tudo o que é alemão como tal, sempre que se trate de pureza interior ou do fortalecimento do sentimento nacional — a defesa da vida alemã, da língua alemã e da liberdade alemã —, pois tudo isso também está firmemente enraizado no protestantismo; mas combaterá imediata e energicamente toda tentativa de salvar a nação do domínio de seu inimigo mais mortal, pois sua atitude em relação ao judaísmo está mais ou menos fixada por dogma. Mas isso envolve uma questão sem cuja solução todas as tentativas de um renascimento alemão ou de uma restauração nacional são e permanecerão absurdas e impossíveis.” (p. 144–145).
“O protestante mais crente poderia estar lado a lado com o católico mais crente, sem jamais entrar no menor conflito de consciência com suas convicções religiosas.” (p. 829).
O chamado “Cristianismo Positivo”, nome jesuítico para o catolicismo agressivo em sua forma mais fascista e antiliberal, foi adotado pelo Partido Nacional-Socialista de Hitler como seu ponto de vista e política oficiais. Hitler o cita no Artigo 24 da seguinte forma (p. 694):
“Art. 24: O Partido professa o ponto de vista do ‘Cristianismo Positivo’.”
Ele repete os argumentos antijudaicos do “Cristianismo Positivo”, amplamente pregados na época em toda a Alemanha pelos padres jesuítas Pachtler, Overmanns, Hugger, Loeffler e Muckermann, e, neste país, pelo Padre Coughlin e seus seguidores:
“A doutrina judaica do marxismo rejeita o princípio aristocrático da natureza; em lugar do privilégio eterno da força e do vigor, coloca a massa dos números e seu peso morto.”
E acrescenta:
“Por isso, creio estar agindo no sentido do Criador Todo-Poderoso: ao repelir os judeus, estou lutando pela obra do Senhor.” (p. 84).
RELAÇÕES ENTRE IGREJA E ESTADO
Nas citações seguintes, Hitler exprime sua convicção de que o Estado autoritário e a Igreja dogmática são mutuamente complementares e interdependentes; de que o baixo clero, em benefício da Igreja, deve evitar a política; e de que o político prudente deixa a Igreja, enquanto tal, em paz.
Hitler refere-se aqui aos partidos políticos liberais que abundaram na Alemanha após sua transformação em república em 1918, especialmente o Partido do Centro Católico e o Partido Popular da Baviera. O Vaticano dissolveu esses partidos, contra a vontade de muitos padres e prelados, e firmou um concordata com Hitler em 1933. Antes disso, fizera o mesmo na Itália para abrir caminho a Benito Mussolini. Sob o novo arranjo, todos os acordos políticos tornaram-se matéria de negociação pessoal entre o ditador e o papa, sem interferência de grupos organizados de clérigos e leigos locais.
Isso era exatamente o que Hitler desejava, como expôs nas passagens seguintes:
“As leis orgânicas pertencem ao Estado, e o dogma à religião. Somente assim a ideia puramente espiritual, vacilante e infinitamente interpretável, é definitivamente limitada e moldada, sem o que jamais poderia tornar-se fé. O ataque ao dogma em si assemelha-se, portanto, de modo muito forte, à luta contra os fundamentos jurídicos gerais do Estado; e assim como esta última terminaria numa completa anarquia estatal, a outra terminaria num niilismo religioso sem valor.” (p. 366).
“Mas pior do que tudo são as devastações provocadas pelo abuso das convicções religiosas para fins políticos.
“Se na Alemanha pré-guerra a vida religiosa tinha para muitos um gosto amargo, isso se devia ao abuso infligido ao cristianismo por um chamado partido ‘cristão’, bem como à imprudência com que se tentou identificar a fé católica com um partido político.
“Essa substituição foi uma fatalidade que talvez tenha garantido assentos parlamentares a um certo número de inúteis, mas causou prejuízo à Igreja.
“As consequências, porém, tiveram de ser suportadas por toda a nação, pois os efeitos do enfraquecimento da vida religiosa ocorreram justamente num momento em que tudo começava a ceder e a mudar de qualquer modo, e em que os fundamentos tradicionais do comportamento e da moral ameaçavam ruir.” (p. 367).
“Os partidos políticos nada têm a ver com problemas religiosos, enquanto estes não forem hostis à nação nem minarem a ética e a moral de sua própria raça; assim como a religião não deve ser associada ao absurdo dos partidos políticos.
“Sempre que dignitários eclesiásticos se servem de instituições ou doutrinas religiosas para prejudicar sua nacionalidade, não se deve segui-los, mas combatê-los com as mesmas armas.
“Para o líder político, as doutrinas e instituições religiosas de seu povo devem ser sempre invioláveis; do contrário, ele não deveria ser político, mas tornar-se reformador, desde que seja feito da matéria adequada.” (p. 150).
ULTRAMONTANISMO
Hitler fala de modo depreciativo do Kulturkampf austríaco, um movimento pangermânico do final do século XIX, hostil ao ultramontanismo, isto é, às políticas reacionárias do elemento jesuítico-vaticano da Igreja Católica.
Sobre o Kulturkampf ele diz (p. 151):
“Ele se tornou impossível em numerosos círculos pequenos e médios por sua luta contra a Igreja Católica, privando-se assim de inúmeros dos melhores elementos que a nação pode chamar de seus.
“Conseguiu-se arrancar da Igreja quase cem mil membros [o movimento Los vom Rom — “Longe de Roma”], mas ela não sofreu nenhuma perda particular com isso. Na verdade, não teve de derramar lágrimas pelos ‘cordeiros’ perdidos; pois a Igreja perdeu apenas aquilo que, há muito tempo, não lhe pertencia plenamente no íntimo.
“Essa foi a diferença entre a nova reforma e a antiga [a de Martinho Lutero]: naquela, muitos dos melhores da Igreja se afastaram por convicção interior; agora, saíram apenas aqueles que não eram apenas tíbios, mas que o fizeram por ‘considerações’ de natureza política.”
Em contraste com tais políticas anticatólicas, estava a política pró-católica e antissemita do partido clerical do Dr. Lueger, da qual Hitler fala com aprovação (p. 154):
“Ela evitou todas as lutas contra uma instituição religiosa, assegurando assim o apoio de uma organização tão poderosa quanto representa a Igreja. Assim, tinha apenas um único adversário realmente grande [os judeus].”
Na Alemanha da década de 1920, voltou a surgir oposição ao ultramontanismo devido à maior liberdade de expressão e de ação política sob a República. Hitler culpa os judeus por esse movimento anticatólico — embora o general Ludendorff tenha participado dele:
“Dadas as circunstâncias da época, a única chance de ocupar a atenção pública com outros problemas e assim conter o ataque concentrado contra o judaísmo residia em abrir a questão ultramontana e no choque mútuo entre catolicismo e protestantismo que daí resultava.” (p. 825).
Ele também está convencido de que é tão inútil quanto imprudente lutar contra o ultramontanismo jesuítico:
“Os senhores que subitamente descobriram no ano de 1924 que a missão suprema do movimento nacional era a luta contra o ‘ultramontanismo’ não esmagaram o ultramontanismo, mas dilaceraram o movimento nacional.” (p. 829).
É impossível que Hitler alguma vez tenha favorecido uma atitude hostil em relação ao catolicismo ultramontano. Toda a sua “nova ordem” baseia-se no controle do mundo por uma combinação das forças da intolerância religiosa e política. Antes, na página 675, ele deixa isso claro:
“Pois a concepção de mundo [Weltanschauung, ‘uma política mundial’] é intolerante e não pode contentar-se com o papel de ‘um partido entre outros’, mas exige de modo ditatorial ser reconhecida exclusiva e completamente, e que toda a vida pública seja totalmente reajustada de acordo com seus próprios pontos de vista.”
Isso está em perfeita consonância com todas as encíclicas dos papas dos últimos duzentos anos, e encontra-se em sua forma mais recente na conhecida encíclica Quadragesimo Anno (1931), do falecido Papa Pio XI, que firmou concordatas tanto com Mussolini quanto com Hitler. O subtítulo dessa encíclica bem conhecida é “Reconstrução Católica da Ordem Social”. Isso é ainda corroborado por outras encíclicas do mesmo papa que reivindicam controle completo e ditatorial sobre a educação e o matrimônio.

O PAPA PIO XII LEVOU HITLER AO PODER
O artigo 16 da concordata acima mencionada entre Hitler e o Vaticano estabelece a fórmula do juramento que todos os bispos alemães são obrigados a prestar perante o Reichsstatthalter, nos seguintes termos: “Juro diante de Deus e sobre os Santos Evangelhos e prometo, como convém a um bispo, ser leal ao Reich Alemão e ao Estado. Juro e prometo respeitar o governo constitucional e fazer com que ele seja respeitado pelo meu clero.”
Pouco depois de a concordata ter sido assinada pelo Cardeal Eugênio Pacelli e pelo católico Franz von Papen, o Cardeal Adolf Bertram, de Berlim, escreveu a Hitler nos seguintes termos:
“O Episcopado de todas as dioceses alemãs, como mostram as suas declarações ao público, sentiu-se feliz em expressar, tão logo foi possível após a recente mudança na situação política através das declarações de Vossa Excelência, sua sincera prontidão em cooperar com o melhor das suas capacidades com o novo governo, que proclamou como seus objetivos promover a educação cristã, travar uma guerra contra a impiedade e a imoralidade, fortalecer o espírito de sacrifício pelo bem comum e proteger os direitos da Igreja.” (Do periódico católico londrino Universe, 18 de agosto de 1933.)
Seja qual for a posição que hoje a Igreja Católica tenha em relação a Hitler e a todo o esquema do Eixo nazi-fascista, não há dúvida de que o Vaticano foi aliado de Hitler desde o início. Fritz Thyssen, rico magnata católico do aço que financiou Hitler, dá testemunho disso. Depois de se refugiar na Suíça em 1940, Thyssen escreveu um artigo no jornal suíço Arbeiterzeitung intitulado: “PIO XII, COMO NÚNCIO, LEVOU HITLER AO PODER”. Nesse artigo, ele expõe claramente qual era o objetivo do plano Hitler–Vaticano. Afirma ele:
“A idéia era instaurar uma espécie de Estado corporativo cristão, organizado por classes, que seria sustentado pelas Igrejas — no Ocidente, pela Católica, e no Oriente, pela Protestante — e pelo Exército.”
O Mein Kampf de Hitler incorpora todos os objetivos e princípios contrários aos processos liberais-democráticos reiterados em todas as encíclicas papais importantes do catolicismo pós-Reforma. Não deve causar surpresa, portanto, que o Vaticano, em nossa época, em troca de benefícios prometidos à Igreja Católica, tenha traído as forças da democracia, tanto dentro quanto fora da Igreja, e utilizado sua influência e poder para fomentar a adesão ao fascismo e ao nazismo em todo o mundo.
APÊNDICE: FILIAÇÃO RELIGIOSA DOS DITADORES NAZISTAS E FASCISTAS, SEUS FANTOCHES, “QUISLINGS” E COLABORADORES
Os fatos a seguir foram verificados por meio de publicações oficiais e órgãos de informação:
- Adolf Hitler, Führer nazista: Católico romano.
- Benito Mussolini, Duce italiano: Católico romano.
- Francisco Franco, Caudilho espanhol: Católico romano.
- António Salazar, Ditador português: Católico romano.
- Henri P. Pétain, Chefe de Estado de Vichy: Católico romano.
- Pierre Laval, Chefe de Governo de Vichy: Católico romano.
- Jozef Tiso, Chefe de Estado eslovaco: Sacerdote católico romano.
- Vidkun Quisling, Primeiro-ministro da Noruega ocupada: Protestante.
- Anton A. Mussert, “Quisling” da Holanda ocupada: Protestante.
- Emil Hácha, Presidente nazista da Boêmia-Morávia: Católico romano
- Konrad Henlein, “Quisling” dos Sudetos: Católico romano.
- Léon M. Degrelle, Líder rexista belga: Católico romano.
- Ante Pavelić, Poglavnik (líder) croata: Católico romano.
- Darquier de Pellepoix, Comissário de Assuntos Judaicos de Vichy, notório antissemita: Católico romano.
[1] Resenha em The Converted Catholic Magazine, maio 1942, p. 138.
