A MÍSTICA DA GUERRA (EPÍLOGO)
Dag Tessore
Fonte: A Mística da Guerra: Espiritualidade das Armas no Cristianismo e no Islã. São Paulo: Nova Alexandria, 2007, p. 156–158.
Nota d’O Recolhedor: Confira a primeira e a segunda parte.
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“SÓ O TERROR VOS FARÁ COMPREENDER!”

O leitor perceberá que, se por um lado existe, tanto no cristianismo como no islamismo, uma precisa teologia da guerra, segundo a qual em determinados casos é justo e santo recorrer às armas (por exemplo, para libertar os oprimidos, para tornar inócuos os maus, para defender a fé, etc.), existe também uma mística da guerra que, apesar de ligada à teologia e fundada nela, pode avançar além dos limites do teologicamente e moralmente lícito; a mística não é mais um raciocínio do intelecto, mas uma paixão ardente do coração, um fogo devorador. E como o amor por Deus vivido pelos místicos os leva às vezes a dizer “loucuras” e a cair em excessos, desculpáveis apenas em consideração ao louco amor ardente que os causou, igualmente um ardoroso zelo por Deus pode levar os místicos a excessos de violência inauditos. Dessa forma, por exemplo, São Pio V, imbuído de um passional e violento amor por Deus, escreveu a Catarina de Médici:
“Se, portanto, Vossa Majestade, como até agora o tem feito, buscar com reta intenção e coração simples a honra do Deus onipotente, e combater abertamente e sem temor até o extermínio os inimigos da religião católica, estejais certa de que jamais vos faltará o auxílio divino, e de que Deus preparará vitórias ainda maiores para si e para vosso filho, o rei. E assim, uma vez destruídos todos os inimigos, seja restaurado naquele nobilíssimo reino o antigo culto da religião católica, para glória de seu nome e vosso louvor perpétuo.”[1]
E em uma carta ao rei Filipe II de Espanha é ainda mais absoluto: “Que tudo vá a ferro e fogo, para que seja vingado o sangue de Cristo!”. Palavras que fazem tremer a terra e o céu. Aqui estamos no âmago da mística da guerra. E aqui não faz mais sentido perguntar se é lícito atacar os infiéis em seu território ou se é teologicamente correto realizar massacres para “vingar o sangue de Cristo”. Aqui se trata apenas de reafirmar até os limites a soberania de Deus. “Desembainhem-se ambas as espadas dos fiéis — aquela espiritual e aquela material — contra o pescoco dos inimigos, para abater toda altivez que se erguer contra a Sapiência de Deus, que é a fé cristã!”, dizia São Bernardo.[2]
Narra-se que Deus tenha dito à beata Ângela de Foligno: “Eu não te amei por brincadeira”. Deus quer ser levado a sério. Toda a Sagrada Escritura é invadida por esse incessante apelo para levar Deus a sério, e Deus recorre a castigos cruéis e a imensos massacres para punir o homem e aterrorizá-lo, quando ele se atreve a faltar com o respeito ao Senhor: “Não pronunciarás em vão o nome de Javé, teu Deus, porque Javé não deixa impune aquele que pronuncia o seu nome em vão” (Ex 20,7). Narra o Levítico que os filhos de Aarão quiseram fazer um sacrifício para Deus, oferecendo-lhe um braseiro com fogo e incenso, “o que não lhes tinha sido ordenado” e por causa disso os matou queimando-os com uma chama (Lv 10,1–3). Deram-se excessiva confiança com Deus. Um fato semelhante aconteceu quando Davi transportou a Arca de Deus de Baalá de Judá a Jerusalém (II Sm 6); Oza foi encarregado de caminhar ao lado da Arca, enquanto essa prosseguia sobre um carro puxado por bois; em um certo momento os bois fizeram balançar a Arca e ela começou a se inclinar; Oza então, solícito, “estendeu a mão para a Arca de Deus” para não fazê-la cair. “Então a ira de Javé se inflamou contra Oza, e lá feriu-o Deus por causa dessa falta, morrendo ali mesmo, perto da Arca de Deus”. “Naquele dia, Davi teve medo de Javé”: é aquilo que Deus queria. Queria ser temido. Oza havia se dado muita confiança com Deus. “Não permitirei mais que meu Nome santo seja profanado” (Ez 39,7). É um conceito que a Bíblia, sob várias formas e em diversos contextos, não se cansa de repetir. “[Eles que dizem] no seu orgulho e na arrogância do coração: ‘Os tijolos caíram: edificaremos com pedra lavrada; os sicômoros foram abatidos: vamos substituí-los por cedros!’” (Is 9,8–9). “Sabei, ó povos, e ficai amedrontados! (…) Concebei um plano, e ele será frustrado” (Is 8,9–10). “Estenderei a mão contra Edom e nele farei perecer homens e animais e farei dele um montão de escombros. (…) Vou exercer vingança terrível no meio deles, com violentos castigos. E quando eu executar a minha vingança, saberão que eu sou Javé!” (Ez 25,13–17). “Castigá-lo-ei com peste e sangue. Farei descer sobre ele chuva torrencial e granizo, fogo e enxofre, sobre ele, suas tropas e os numerosos povos que o auxiliam. Assim manifestarei minha grandeza e santidade. (…) E reconhecerão que eu sou Javé” (Ez 38.22–23). “Então a casa de Israel reconhecerá que eu, Javé, sou seu Deus, desde hoje até o futuro” (Ez 39,22). “Vede agora que sou Eu que Sou, não existem outros junto a mim, eu faço viver e faço morrer, eu firo e eu mesmo curo, não há quem de mim se exima” (Dt 32,39). “Pus em cada porta uma espada mortífera! Ó tu! Feita para brilhar! Polida para matar!” (Ez 21,20). “Inebriar-se-ão do seu sangue como de mosto. E saberá toda carne que eu, Javé, sou teu Salvador” (Is 49,26). “Só haverá terror em compreender a revelação” (Is 28,19).
Nesse contexto, a guerra santa significa fazer de tudo, mandar todas as coisas a ferro e fogo, para não permitir que o santo nome de Deus seja profanado, aterrorizar as pessoas para que aprendam a levar Deus a sério e para que saibam que “não é pela força que o homem triunfa” (I Sm 2,9). Significa “executar a vingança do Senhor”, e fazer compreender, com o terror, que não se deve brincar com Deus. Aquilo que nós temos o hábito de chamar de terrorismo religioso se insere neste quadro. E, na verdade, até os terroristas utilizados ou guiados por interesses políticos, além dos terroristas abertamente “políticos”, e até mesmo os “terroristas inconscientes” que são os elementos da natureza (terremotos, epidemias, desgraças de todo tipo), todos colaboram de modo consciente ou inconsciente para abalar a segurança do homem e, portanto, colaboram com o terrorismo religioso.
“Eis que o Senhor as enche [as nações] de terror, os orgulhosos vejam que são homens!” (Sl 9,21).
Terrorismo religioso, com os respectivos massacres e destruições, significa não permitir que, em nome dos direitos humanos, ou das leis sobre a ordem pública, ou do conceito de tolerância, se faça zombaria com Deus. “Embriagar-se-ão de seu sangue como de mosto e então compreenderão que eu sou o Senhor”, e que Deus seja levado a sério!
Essas palavras são desconcertantes, aborrecem, são incômodas.
(…)
Já nos tempos antigos o profeta Naum advertia: “Javé se vinga de seus adversários; guarda rancor de seus inimigos. (…) Mesmo intactos e numerosos, serão cortados e aniquilados. (…) Eis-me contra ti — oráculo de Javé dos exércitos. (…) Ruído de chicote! Estrondo de rodas! Galopar de cavalos, movimento de carros. Cavaleiros empinam os seus ginetes, as espadas reluzem, as lanças cintilam. Multidão de feridos! Vítimas em massa! Cadáveres sem-número. (…) Eis-me contra ti — oráculo de Javé dos exércitos” (Na 1–3).
Ao grito da humanidade contra Deus: “Não nos assusta! Acredita que pode nos meter medo?”, Deus, desde os tempos antigos, respondeu mostrando toda a sua força. (…) O fogo entre as ruínas, o sangue, os mortos, os gritos de derrota serão uma teofania suprema, o sinal da vitória de Deus. Então o homem será obrigado a se render e a reconhecer que Deus é mais forte que ele.
[1] Epístola XI, a Catarina de Médici (28 de março de 1569).
[2] São Bernardo de Claraval, Liber ad milites Templi, III.
