A QUESTÃO JESUÍTICA
Padre Luan Guidoni

A Companhia era uma casa dividida, e por isso foi tombada. Dois espíritos habitavam aquele corpo clerical: o romano, inimigo do protestantismo e do maçonismo; e o marrano, amigo da modernidade liberal. A Sociedade de Jesus disputava com a Sociedade de Judas pelo domínio da Companhia, e os sequazes de Judas triunfaram. Estudar e compreender o dualismo da ordem de Loyola com recta ratio é a substância da questão jesuítica.
Ninguém ousaria afirmar que São Francisco foi o pai dos espirituais, tampouco alguém acusaria São Domingos de ter gerado o eckhartismo. Mas quanto a Santo Inácio e sua relação com os subsequentes desastres dos jesuítas, é uma questão disputada. Como é possível que Teilhard de Chardin e Sáenz y Arriaga compartam o mesmo título de jesuíta? Esse é um enigma que está para além do entendimento do católico mediano. Mas fazendo as vezes de Édipo, ofereço a resposta para a aporia da Companhia. Do mesmo modo como vários espíritos malignos habitam um mesmo corpo, assim também habitou a modernidade dentro da Companhia de Jesus.
Santo Inácio de Loyola é um carrilhão comparado ao sino de catedral que foi São Bento, mas ainda assim é possível ouvir o eco da tradição mesclado no dueto tradicional-moderno da obra inaciana. O soldado Loyola estava disposto a morrer por Roma, mas ao mesmo tempo abriu as portas da Sociedade de Jesus para muitos não romanos. Esse contínuo paradoxo de tradição e modernidade reverberou na própria espiritualidade inaciana: em essência, ela é semelhante aos cruzados; acidentalmente, porém, em certos momentos, assemelha-se à devotio moderna. Essa dialética espiritual possibilitou que do mesmo pai adviessem dois filhos: o jesuíta de Jesus e o jesuíta de Judas.
Seremos breves. Comecemos pelo joio. São jesuítas de Judas: Francisco Suárez, Luís de Molina, Juan de Mariana, Antonio Vieira, Manuel Lacunza, Augustin Bea. As características gerais dos jesuítas de Judas são: heterodoxia, liberalismo, ecumenismo, multiculturalismo, modernismo. Terminemos pelo trigo. São jesuítas de Jesus: São Francisco Xavier, São Roberto Belarmino, Augustin Barruel, Nicolas Deschamps, Léon Meurin, Edward Cahill. As características gerais dos jesuítas de Jesus são: dogmatismo, ultramontanismo, anti-protestantismo e anti-maçonismo, defesa da romanidade europeia, tradicionalismo. Historicamente, os jesuítas de Judas foram mais numerosos do que os jesuítas de Jesus, e a síntese suprema do arquétipo do jesuíta de Judas foi Jorge Mario Bergoglio, o suprassumo da sinarquia teológica internacional.
É verdade que não faltaram motivos doutrinais para a supressão da Ordem, mas também é verdade que a maçonaria precisou de apenas dezesseis anos após a publicação da Dominus ac Redemptor para iniciar a revolução na França. Não defendo os erros da Ordem, tampouco sou partidário do espírito moderno que nela reinava, porém digo que uma reorganização e renovação da Societas Iesu — e o mesmo pode ser dito dos templários — teria sido uma melhor estratégia do que a supressão. Vegécio nos ensina mais que o probabilismo.
O papa decapitou a tropa de choque da Igreja: o mistério da iniquidade nunca foi tão iníquo e tão misterioso. Com a vacância jesuítica, Adam Weishaupt, que muito aprendeu estudando com os jesuítas, rebelou-se contra a Igreja e o Estado e criou a Ordem dos Illuminati em 1776. Com o desenrolar da Revolução Francesa, o Padre Augustin Barruel, um jesuíta de Jesus, denunciou o envolvimento da maçonaria e dos Illuminati no planejamento e execução da queda do Antigo Regime. As forças do barruelismo, o bom jesuitismo, enfrentam o maçonismo até os dias de hoje.
Em resumo, a Companhia de Jesus é suprimida em 1773; Adam Weishaupt funda a Ordem dos Illuminati em 1776; a Revolução Francesa tem início em 1789; e todo esse processo histórico é consequência da revolução de Lutero em 1517 e da fundação da maçonaria em 1717. A sucessão de tragédias ocorridas após a supressão dos jesuítas — o que é simbolicamente análogo ao que ocorreu depois da supressão dos templários — não teria ocorrido caso a Sociedade de Jesus tivesse passado por uma processo de renovatio, e a cristandade também não teria que sangrar como sangrou se uma renovação tivesse ocorrido na Ordem do Templo.
Ser metade monge e metade cruzado é o grande ideal teândrico das duas grandes ordens proscritas. Santo Inácio não conseguiu implementá-lo com perfeição, mas eu creio que no coração do nosso santo pai Inácio residia essa vontade templária. Bons e maus sempre existirão até o dia do juízo, e não nos parece racional que o trigo seja queimado junto com o joio. O bom jesuitismo foi herdado pelo Padre Barruel e transladado para o Padre Sáenz y Arriaga no século XX, e agora cabe aos do século XXI agir: Agere contra.
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Padre Luan Guidoni
10 de Dezembro de 2024
