ROMA
Adolfo Agorio (†1965)
Fonte: Roma y el Espíritu de Occidente, p. 7–20. A. Monteverde y Cia., 1934.
Tradutor do texto: Elvira Mattoso.
Descrição: Tradução do primeiro capítulo da obra de Agorio, no qual reflete sobre Roma como centro espiritual e histórico do Ocidente, vista por Dante e Virgílio como expressão de uma continuidade universal que atravessa paganismo, cristianismo e império. Roma aparece como matriz simbólica onde se fundem o gênio helênico, a missão latina e a universalidade cristã. Virgílio encarna essa continuidade profética, enquanto Dante a reconhece como hierarquia espiritual da história. O autor defende que Roma transforma culturas e dá sentido eterno aos sacrifícios, à fé e ao destino humano. Assim, ela surge como reserva moral e espiritual à qual o Ocidente recorre em tempos de decadência.
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Já expliquei em outro lugar a incomparável adivinhação de Dante sobre a influência espiritual de Roma. A força inspiradora dos elementos que dominam a matéria, Dante só a vê em Roma. A unidade dos povos italianos não era mais do que uma etapa no processo milenar em torno do gênio do Ocidente. Por isso, entre todas as evocações do espírito humano, não há nada que possua tanto sentido de eternidade quanto a presença de Virgílio na Divina Comédia. Aquele encontro comovente que nos relata o canto primeiro do Inferno adquire, aos olhos do homem contemporâneo, um significado de continuidade, de sobrevivência, de valor pensante, que escapou aos mais sérios comentadores do mestre florentino. Catorze séculos de distância separam os dois criadores de mundos e, através do destino de seu próprio povo dilacerado, Dante compreende que a história não é uma viagem em direção a coisas fatais, nem um itinerário forçoso, mas uma hierarquia de pensamento que não pode se manifestar de outra maneira senão pelo espírito. Daí que pôde ter feito Virgílio dizer, orgulhosamente: E li parenti miei furon Lombardi (“E meus pais foram lombardos”).[1] O mestre mantuano, no entanto, não deixou de ser o mesmo Virgílio que vê na soberana grandeza de Roma uma continuação daquele gênio helênico que, num canto da terra, entre Tróia e o mar, havia vivido seu heroísmo vernáculo. A epopéia de Ílion prossegue através de Enéias, com modos substanciais distintos, e Dante a vê em sua época — ele que tampouco era geograficamente romano — prolongar-se em direção ao futuro com um resplendor maravilhoso. O fogo profético que o recolhimento medieval havia avivado na alma do florentino fê-lo compreender, naquele Trecento de discórdia, a catolicidade de Roma como sentido eterno e universal. Não é outra coisa a delicada confissão de cristianismo que põe nos lábios de um Virgílio que regressa do seio dos “deuses falsos e mentirosos”:
Nacqui sub Julio, ancorché fosse tardi,
E vissi a Roma sotto il buon Augusto,
Al tempo degli dei falsi e bugiardi.[2]
(“Nasci sob Júlio, embora fosse tarde, / E vivi em Roma sob o bom Augusto, / Ao tempo dos deuses falsos e mentirosos.”)
Porque Virgílio vive, como Roma, uma nova vida de universalidade, é que Dante compreende a impotência do homem para dominar, por subterfúgios, as leis do destino, e que teria sido tão absurda a pretensão de desviar a viagem de Enéias quanto a de torcer, na vontade de Pedro, a palavra evangélica que lhe ordenava lançar a primeira pedra da Igreja. Comparetti, em sua obra Virgilio nel medio evo, dois volumes publicados em Livorno em 1862, demonstra-nos como a ciência do século XIII, que havia alimentado o espírito de Dante, identificou a virtude adivinhatória de Virgílio com o nexo que explicava a incomparável continuidade de Roma. As sortes virgilianae, que já na época de Marco Aurélio constituíam um ritual corrente, significavam algo como o chamado litúrgico do regime em decomposição àquela força homogênea que, no passado, havia criado a grandeza do Império. Dante não tentou romper essa coordenação de pensamento, e seu Virgílio, mais do que como mestre supremo de uma arte dominada pela ansiedade do divino, aparece na Comédia como representante da Roma todo-poderosa, a qual não apenas reuniu os membros dispersos da Itália, mas fizera a unidade do mundo ocidental sob o signo da potência criadora.[3] O próprio Virgílio, como homem mortal entre deuses imortais, favorito de Augusto, podia pensar talvez, desde sua casa no Esquilino, junto ao parque de Mecenas povoado de mármores, que ele também era um reconquistado do gênio de Roma. Nascido naquele rincão lombardo da Gália Cisalpina, sua terra, embora não pertencesse oficialmente à autoridade milenar do Lácio, encontrava-se impregnada daquela influência prodigiosa que deveria perdurar através de sua obra. A conquista de sua província, iniciada nos tempos de Júlio César, só terminaria na época do segundo triunvirato, quando os centuriões que haviam saqueado as terras de Cremona chegaram até Mântua, despojando de seus bens o futuro evocador das glórias de Roma. Episódio amargo foi, com efeito, o primeiro contato com a “mãe”, representada pela soldadesca impetuosa dos triúnviros. E se não tivesse pulsado a magnanimidade materna na prudente justiça de Otávio, o sonho da Eneida — o sonho de Roma, em suma — teria flutuado como madeira errante, à mercê dos vencedores implacáveis.
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Observemos como, à medida que se assimila o Ocidente, Roma vai criando um sistema espiritual que a multiplica no mundo. Ela jamais teria sido a santa genitrice (“santa genitora”) de que fala [Giosuè] Carducci, se seu gênio não tivesse transformado o sentido das culturas. Antes da Roma autenticamente latina, à qual Enéias transmite a tocha do espírito helênico, da Roma que transmuta em fórmulas jurídicas o estetismo dos gregos, é provável que tenha existido uma cidade sabina, depois outra etrusca e, em seguida, outra samnita. Mas a história só adquire personalidade na Roma que verteu sobre a pedra negra o segredo da vida de Rômulo. Mais tarde, sobre a mesma lapis niger, o significado do sacrifício expiatório motivado pelas terríveis invasões gaulesas no século IV a.C. reviveu a fatal necessidade contraditória da existência coletiva. É certo que a crítica histórica, cujos representantes mais destacados na Alemanha, como [Theodor] Mommsen, [Felix] Dahn e [Gustav] Herzberg, não admitem a tradição senão como influências imponderáveis, isto é, naquilo que a legenda vive como conteúdo espiritual. Mas essa mesma crítica prova que a tradição virgiliana não inventou sua história de Roma, mas recolheu um sentido coletivo que já existia. A fonte das origens troianas já era conhecida na época da Primeira Guerra Púnica, ou seja, duzentos anos antes do nascimento de Virgílio. A existência de Rômulo como figura real ou como simbolismo da linguagem não é mais do que um episódio no drama da continuidade romana. Romulus Martis filius urbem Romae condidit (“Rômulo, filho de Marte, fundou a cidade de Roma”), começa a inscrição que o viajante ainda pode ler entre as ruínas do Chalcidicum, no edifício de Eumáquia, em Pompéia. Essa invocação ao filho de Marte, que emerge ainda do silêncio impenetrável da pedra, renova a grandeza do mito solar, onde o Prometeu perecível, feito de frágil barro humano, conquista por seu gênio a graça das coisas divinas. Daí a exaltação do sacrifício de Ácron pelas mãos do próprio Rômulo, já que o sangue do monarca inimigo abria ao fundador de Roma as portas do reino de Júpiter. Quando a frota de Enéias alcança as costas de Gaeta (Eneida, VI, v. 893–901), os heróis troianos esclarecem em si mesmos o mistério do mundo latino.[4] E ao remontar rumo ao norte pelas águas do Tirreno, o leito profundo do Tibre oferece proteção às naves cansadas. Não há mais que um passo para o Estado do Lácio. A distância guarda em seu seio os muros da cidade sagrada. O rei Latino, o primeiro motor espiritual da influência de Roma no mundo, injeta no sangue dos grandes errantes da Grécia a loucura dos antagonismos insolúveis. O milagre do rei Latino evitará a lassidão dos intelectos adormecidos pelo prazer de conquistas fáceis demais. Ao fundir-se em Ascânio, a descendência de Enéias e do rei latino marca sua primeira etapa ocidental. Vemos aí como a linha dos futuros imperadores se explica pelos fundamentos da família Júlia, em cujo tronco romano circula a seiva de Tróia. Disse-se que Virgílio havia esgotado em seus versos a orgulhosa majestade dessa tradição apenas para comprazer Augusto. Mas repito que Virgílio não inventou nada historicamente, nem muito menos tentou obter por esse meio os favores do imperator. O poeta bebeu a verdade milenar na fonte oral e vernácula, descobrindo antes de todos o sentido das origens de sua raça pela fusão de duas civilizações. Ele vira no sortilégio de Roma o mandato de renovar a história e cumprira, como artista, o dever de não ocultar a sede de perpetuidade que justificava a existência do gênio latino.
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A qualidade fundamental de Roma é sua intuição de universalidade. Quando o imperador Tibério, segundo Tertuliano em seu Apologeticum, mostrou-se disposto a reconhecer a divindade de Cristo, a doutrina evangélica começou a ganhar o Ocidente através de Roma. Mas a palavra de Deus, que se abateria sobre os últimos restos do paganismo, não poderia chegar apenas de Jerusalém à intimidade do mundo. Não escapa, por exemplo, à penetração de Giovanni Papini que, sem Roma, o cristianismo não teria sido senão uma seita hebraica. Para a Idade Média, que vira na quarta écloga de Virgílio a profecia da segunda Pessoa da Trindade e da encarnação de Cristo, o espírito de Roma e o espírito da cristandade eram uma só coisa. Porque o cristianismo continua a vida da cidade-mãe no mesmo plano de eternidade. Em nenhum lugar, como em Roma, escuta-se com tanta emoção o eco dos tempos. Em nenhum lugar se sente esse rumor de torrente que o precipitar das épocas mais contraditórias faz em nosso pensamento, onde um friso quebrado, testemunha de civilizações remotas, fala ao nosso espírito com tanta eloquência quanto a austeridade das basílicas, cujas lajes foram pisadas pelos santos e em cuja atmosfera se conserva ainda o hálito daquela divina piedade que redimiu o mundo. Nossa inteligência poderia nos extraviar, mas nosso coração não nos engana. Há um germe de vida, constantemente renovado, que chegou até a Roma atual. E esse impulso perene reside em um sentido de futuro que se manifesta com o clamor das augustas maternidades. Existia já quando a força militar de Roma fazia ensaios gigantescos para penetrar, com a imaterialidade de seu gênio, os dilatados territórios que hoje formam Espanha, França, Alemanha e Grã-Bretanha. Existia já quando as legiões se perdiam até nos confins da Índia ou remontavam as águas do Nilo, atraídas pelo mistério da África. Existia já quando as tropas, devoradas pela vertigem da marcha, faziam uma pausa para fundar cidades; e o sonho de Trajano e seus legionários, perdidos na Dácia bárbara, entre os Alpes da Transilvânia, o Danúbio e o Mar Negro, é hoje a realidade dessa flor latina no oceano eslavo: a Romênia forjada na bigorna de Roma. Não esqueçamos que Trajano nascera na cidade espanhola de Itálica, que, apenas três séculos antes, Cipião fundara para dar repouso aos veteranos da guerra contra Cartago. E se pensarmos que o próprio Cipião, que vencera a ferocidade celtibérica de Indíbil, é quem, através do testemunho de Tito Lívio, tributa a primeira homenagem de Roma à fidalguia dos espanhóis, compreenderemos a suprema identificação entre o espírito modelador do Império e a nobre argila de onde saíram as formas definitivas de nossa cultura. Encontramos nas páginas de Tácito a mesma preocupação de dignidade pelo destino de Roma e, até no frágil e imperfeito Suetônio, corroído até os ossos pelo pecado da maledicência, aparecem escrúpulos de justiça, como quando põe na boca do imperador Tibério a necessidade de vencer o líder da insurreição germânica não pelo veneno, mas pelas armas leais.[5] E aquele Armínio, tão escorregadio e enigmático em suas astúcias inconfessáveis, que destruíra as legiões de Varo nos desfiladeiros de Teutoburgo, encontra na fé de Roma representada por Germânico o valor da derrota de Westfália, em campo aberto, que justifica a possibilidade da harmonia em uma nova vida. Não era outro o símbolo das armas de Vercingetórix, que, após crescer em arrogância cavalgando em torno da tenda de César, reafirma a vontade daquela Gália guerreira que, com o correr dos séculos, se converterá no braço executor da Igreja Romana e na filha predileta da latinidade. Mesmo quando as coortes de Pláucio, na época do imperador Cláudio, iniciam praticamente a colonização das Ilhas Britânicas, resplendores sagrados se levantam além dos mares. Os fogos da decadência queimam ainda resíduos de um grosseiro materialismo, e Roma extrai de seu sol poente a grandeza de um crepúsculo tão rico de matizes que, amiúde, o historiador o confunde com a aurora.
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Porque o claro-escuro da vida espiritual de Roma é o que nos fascina, apesar de toda a nossa vontade contrária de neutralizar sua influência. Hippolyte Taine, por exemplo, cuja concepção estética o conduz à Cidade Eterna para vê-la através dos preconceitos intelectualistas de seu empirismo religioso, vê-se sobrecarregado por algo que cheira a mistério e que ele acredita ser a arte, nada mais que a arte. Zola, que nem sequer é protestante como Taine, apesar de querer construir às custas de Roma, em seu famoso romance, uma profissão de fé baseada na ingenuidade positivista, sente-se ele também dominado, em um de seus personagens, por essa desordem espiritual de todos os religiosos sem religião, de todos os que carregaram um Renan dentro de si mesmos. E são precisamente aquelas pobres almas enfermas, torturadas pela inquietude da existência contemporânea, a quem o gênio de Roma devolve a calma perdida, consolando-as com esse sopro de frescor que desce como uma chuva reconfortante a todos os abismos do desespero. Porque os seres da ficção literária são os mesmos homens que vivem seu drama de misérias sobre a terra. Ao prolongar no mundo da imagem a certeza do consolo, Roma faz da ilusão e da vida uma só realidade. É a mesma realidade que ignora os átomos contraditórios de que é formada, o mesmo destino que fez de um imperador de Roma o soberano temporal de Jesus. Era aquele Tibério que, alheio à tragédia do Gólgota, governava de seu retiro em Capri os três continentes do império. E ali está ele, como o pinta Papini, com seu nome misturado à voz dos sacerdotes hebreus que, na manhã de sexta-feira, o invocavam aos gritos para vencer as vacilantes dilações de Pôncio Pilatos.[6] No entanto, um único episódio, transmitido através das referências de Plutarco, parece ter dado ao César a sensação de que algo extraordinário ocorreria. Era o relato do piloto Tammuz, que, navegando de noite pelas costas da Ásia, ouvira vozes que lhe anunciavam a morte das velhas idolatrias. E Tibério, que vivia devorado pela preocupação com o sobrenatural, viu confirmada na palavra dos áugures a certeza de que o paganismo acabava de morrer. Na mesma época em que Cristo agonizava na cruz, eis a única informação que chegava ao César sobre o ato mais profundo e comovente da história da consciência humana. A realidade da palavra evangélica mal chega a Roma como um contragolpe da idéia pagã, que cambaleia sobre o mesmo lugar onde hoje reside o pai espiritual de trezentos milhões de crentes dispersos pelo planeta. Havia já, contudo, essa vontade de que fala Santo Agostinho e que faz a unidade da alma: Nihil aliud quam voluntates (“Nada mais que vontades”). Havia já o princípio eterno que o pensador alemão Eucken descobre somente no apogeu da escolástica, com Santo Tomás, onde a influência do intelectualismo grego cria “esse raciocínio lógico que penetra até as últimas profundezas do pensamento cristão”.[7]
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E essa vontade e esse princípio eterno já se encontravam na sublime ansiedade dos apóstolos que esperavam a glória do martírio como via de libertação, o meio de perder o desprezível invólucro físico para alcançar, pela graça do divino, a vida imortal do espírito. Roma, como expressão da consciência heróica, poderia sentir-se indefesa ao possuir em si mesma o princípio criador da realidade. Mas a alma das coisas imponderáveis afirma também a necessidade de um valor para a própria imolação que eleve permanentemente o símbolo dos sacrifícios. Não cabe ao nosso pobre pensamento a tarefa de esgotar o conteúdo da vida e da fé. Ao acabar com a fé, mataríamos nela a única razão da vida. Daí que Roma sustente, com sua estrutura milenar, a base espiritual desse milagre de floração que é a vitória do cristianismo. Entre os pedestais de uma mitologia que preenchia com sua substância moral toda a cultura antiga, a palavra de Jesus circulava como o influxo maravilhoso de universalidade que não poderia ser encontrado fora de Roma. Não é à toa que Giménez Caballero, uma das mentalidades mais vigorosas da Espanha atual, encontra em Roma esse “cheiro de mãe” que nenhuma das cidades de sua pátria lhe havia dado antes.[8] O que representa, no entanto, essa catolicidade? Acaso não será algo mais que o sentido universal da fé? Giménez Caballero joga um pouco com as palavras, ou melhor, as palavras jogam com ele, arrastando-o para além de seu próprio pensamento. Poderíamos censurá-lo por certa logomaquia a respeito do conceito de Roma como catolicidade e como domínio temporal. De qualquer modo, o valor eterno da cidade também eterna seria sempre a espiritualização daquela vontade de Jesus, expressa em circunstâncias dramáticas ao homem que carregaria a primeira pedra de sua igreja. A história é bem conhecida, embora seu profundo sentido de universalidade tenha escapado aos meios de apreensão do pensamento daqueles que são espiritualmente filhos de Roma. Querendo preservar a vida de Pedro, que os fiéis consideravam necessária para a expansão da doutrina cristã, influenciam o santo para que se ponha a salvo das cruéis perseguições de Nero. A única maneira de burlar o verdugo é fugir de Roma. E Pedro se afasta, por fim, atravessando as portas da cidade que não poderia ser resgatada senão ao preço de horríveis sofrimentos. Mas eis que o Mestre aparece. Caminha novamente para morrer pelos homens. Interrogado pelo discípulo, não há qualquer reproche na incomparável serenidade da resposta: “Vou a Roma — exclama — para ser crucificado de novo”. Observe-se todo o grandioso significado dessa frase quanto à missão sobre-humana da capital do Ocidente. Repetir em Roma a tragédia de Jerusalém equivalia a iluminar o mundo conhecido com os resplendores daquela atroz agonia, onde se ouviram pela primeira vez palavras de perdão como resposta ao orgulho e à injustiça dos malvados. Ao regressar à fogueira do paganismo, ao retomar seus passos, Pedro compreendeu que era preciso esgotar, na dor do sacrifício, o mandato divino. A morte em Roma era a eternidade de Roma, a vida imortal. Ao entregar-se à mercê dos verdugos, Pedro revela o milagre de sua fé indestrutível na concepção onipresente da universalidade de sua igreja. Pedro é o primeiro que conquista Roma e o mundo pelo mistério da imolação. Na história do heroísmo cristão, o eco multiplica depois seus acentos comoventes ao longo dos séculos. O Olimpo foi invadido pelas sombras e, no crepúsculo atravessado por luzes errantes, o leito dos velhos deuses prepara o florescimento da conversão. Roma oferece seu seio ao drama de todas as agonias e de todas as ressurreições que hão de perpetuar a supremacia do espírito. Mas o esforço prodigioso para chegar até ela é o que faz toda a grandeza de seu símbolo como potência universal das almas. “Roma ou morte” gritaram, há seiscentos anos, os guelfos e gibelinos, dilacerados por preocupações temporais, mas unidos no fundo pelo secreto ideal de uma Itália forte que reunisse seus filhos dispersos ao redor da mãe. “Roma ou morte”, repetiu mais tarde a voz mazziniana do Risorgimento, e nesse chamado ao altruísmo dos soldados da unidade estava em potência todo o sentido apostólico do povo italiano, que não segue homem algum que não seja profundamente desinteressado. “Roma ou morte” é o lema que abrigou os prolegômenos da revolução fascista, como um ideal da suprema hierarquia do sacrifício contra o domínio dos bens materiais. É o desprezo pelos fatores egoístas representados pelos mercadores da velha política de recompensas, e a subordinação da família e do Estado às potências morais que regem as férreas disciplinas da conduta. Agora é o Ocidente inteiro, nesta hora de desfalecimento, que reclama a graça espiritual de Roma. O golpe da sorte carece de piedade. E a Europa sabe que deve escolher entre os sutis venenos da Ásia ou a força homogênea, rija, simbolizada por três mil anos de civilização. Diante da decadência das grandes disciplinas do espírito que formaram a cultura antiga, o pensamento dos desesperados volta-se outra vez para Roma. O declínio do mundo ocidental só poderá ser detido mediante uma fé quase selvagem nos valores da alma humana contra a sordidez dos egoísmos; mediante uma virtude invulnerável que oponha sua barreira ascética aos assaltos da onda materialista que arruína e corrompe as consciências. E a humanidade poderá salvar-se de novo se acender seu sentido de ideal no morno braseiro de Roma. Entre a cinza abandonada pelas vestais, o fogo sagrado ainda arde. Hoje tem, sem dúvida alguma, um significado distinto do que tinha há vinte e cinco séculos. Mas mostra-nos, com a mesma eloquência de outrora, a rota áspera dos sacrifícios. Dir-se-ia que nessas noites profundas de setembro, em que o plenilúnio envolve as ruínas do Fórum — noites puríssimas como as que brilharam sobre as cabeças dos césares —, é quando Roma devolve seu segredo. Não se sabe então se o que se sente é o rumor do próprio pensamento ou a palavra daquelas colunas quebradas que esperam uma nova aurora. Eu também escutei ali a voz dos séculos, mas não tão distante quanto o espírito vulgar poderia suspeitar, mas perto, muito perto, como um torrente que, do alto, despenha-se sobre a terra desprevenida e a arrasta com a soberana grandeza de seu destino.
[1] Inferno, canto I, v. 68.
[2] Inferno, canto I, v. 70–72.
[3] Hic sceptra accipere et primos attollere fascis Regibus omen erat (“Aqui, tomar os cetros e erguer os primeiros fasces era um augúrio régio”) (Eneida, VII, v. 172–173).
[4] Tum se ad Caietae recto fert litore portum (“Então, ao longo da costa em linha reta, dirige-se ao porto de Gaeta.”) (Eneida, VI, v. 900).
[5] Suetônio, Tib. 67.
[6] Giovanni Papini, “Il Cesare della Crocifissione”. Nuova Antologia, 1º janeiro de 1934.
[7] Rudolf Eucken, Geistige Strömungen der Gegenwart, op. cit. Jena, 1904.
[8] Giménez Caballero, Genio de España. Ediciones de “La Gaceta Literaria”, Madrid, 1932.
