BISPOS DA FSSPX SOBRE BISPOS E “BISPOS”
Padre Anthony Cekada (†2020), novembro de 2013
Fonte: https://www.fathercekada.com/2013/11/28/sspx-bishops-on-bishops-and-bishops/
Tradutor do texto: Elvira Mattoso.
Descrição: Padre Cekada analisa as divergências internas da Fraternidade de São Pio X (FSSPX) quanto à validade das sagrações episcopais pós-1968 e da linhagem do Arcebispo Pierre-Martin Ngô-đình-Thục (1897–1984). Enquanto Dom Richard Williamson (1940–2025) considerou válida, embora ilícita, a sagração de Dom Daniel L. Dolan (1951–2022), e Dom Tissier de Mallerais (1945–2024) julgou teologicamente duvidoso o novo rito episcopal e, na prática, inválido, Dom Bernard Fellay (1958–) subordinou a teologia a conveniências políticas, ao relativizar princípios da teologia moral sacramental para não comprometer suas negociações de reconciliação com o Vaticano.
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Williamson sobre Dolan; Tissier sobre “neo-bispos”; e Fellay sobre ambos.
Ao longo das últimas semanas, o tema das sagrações episcopais surgiu diversas vezes. Bergoglio (“Papa Francisco”) sagrou dois bispos usando o rito pós-Vaticano II; o Bispo Daniel L. Dolan celebra o vigésimo aniversário de sua sagração episcopal no rito tradicional em 30 de novembro; e, em resposta a uma série de consultas, uma das minhas postagens anteriores neste mês reuniu links para os diversos artigos que escrevi sobre o Rito de Sagração Episcopal pós-Vaticano II que Paulo VI promulgou em 1968.
Muitos leitores não têm conhecimento das opiniões que os bispos da Fraternidade de São Pio X (FSSPX) sustentaram sobre essas questões, por isso pensei em fornecer algumas informações aqui.
1. DOM WILLIAMSON SOBRE A SAGRAÇÃO DE DOM DOLAN
Em 30 de novembro de 1993, o Bispo Mark A. Pivarunas sagrou ao episcopado o Padre Daniel L. Dolan, sacerdote ordenado pelo fundador da FSSPX, o Arcebispo Marcel Lefebvre. As próprias ordens episcopais de Dom Pivarunas derivaram do Arcebispo Pierre-Martin Ngô-đình-Thục, ex-arcebispo de Hué, Vietnã. Como Dom Dolan havia iniciado sua trajetória na FSSPX, houve um interesse considerável sobre como se deveria considerar sua sagração. Dom Dolan era sedevacantista e um dos “Nove” que o Arcebispo Lefebvre havia expulsado da Fraternidade em abril de 1983, de modo que ele não figurava exatamente entre os favoritos da organização. Mas, à parte isso, seria ele um bispo validamente consagrado ou não?
Um leigo escreveu ao reitor do seminário da FSSPX em Winona, Minnesota, o Bispo Richard N. Williamson, para indagar a respeito, enviando-lhe o meu estudo de 1992, The Validity of the Thuc Consecrations. Em 21 de outubro de 1993, cerca de cinco semanas antes da sagração, o Bispo Williamson respondeu o seguinte:

TRADUÇÃO: “Obrigado por esta carta, bem como pelo livreto do Pe. Cekada sobre as sagrações Thuc, que eu já tinha visto.
Creio que os argumentos do Pe. Cekada são bons, de modo que concordo com ele e não com o Pe. Kelly ou o Pe. Jenkins quanto à VALIDADE da futura sagração.
Contudo, deve-se distinguir validade de liceidade ou legalidade. Uma sagração pode ser válida, mas ilícita, como comer uma maçã roubada. O ato de comer é válido; satisfaz minha fome, mas, se a maçã foi roubada, então o ato de comer é ilícito.
A futura sagração é lícita? Resposta: se (a) a operação desses padres de Cincinnati for lícita, e se (b) eles necessitam imperiosamente de um bispo, então a sagração seria lícita.
Mas quanto ao ponto (a), esses padres de Cincinnati não são padres tradicionais comuns; eles eram padres da Fraternidade de São Pio X que romperam com as posições da Fraternidade para assumir posições duras e não católicas, desalinhadas de qualquer modo com o pensamento do Arcebispo Lefebvre. No entanto, o futuro bispo, no folheto que anuncia sua sagração, leva a crer que não houve tal ruptura com o Arcebispo. Conclusão: a operação dos padres de Cincinnati é de liceidade duvidosa.
Quanto a (b), se a operação deles é de liceidade duvidosa, então uma sagração é, na melhor das hipóteses, de necessidade duvidosa.
Conclusão: por mais que lhe interesse assistir a uma sagração, seria melhor manter-se afastado de uma ocasião duvidosamente católica.
Espero que isso responda à sua pergunta.
Atenciosamente em Cristo,
+ Richard Williamson”
Embora um dos princípios seja o estilo clássico de Williamson daquela época — e um que Sua Excelência posteriormente abandonou (o de que fora da FSSPX alguém é “duvidosamente católico”) — o ponto principal é suficientimente claro: a sagração de Dom Dolan deve ser considerada válida.
2. DOM TISSIER SOBRE BISPOS ORDENADOS NO NOVO RITO
Como apontei no início de “Absolutamente Nulo e Totalmente Vão”, o Arcebispo Lefebvre disse-me pessoalmente em meados dos anos 70 que considerava inválido o Rito de Sagração Episcopal de 1968 devido a uma mudança em sua forma sacramental essencial (= a frase necessária em um rito que o faz “funcionar”).
Por volta de 1982, porém, quando Lefebvre empreendeu mais uma de suas periódicas tentativas de negociação com o Vaticano, ele mudou de posição, aparentemente sob a impressão de que a forma de Paulo VI era usada nos ritos orientais e, portanto, indiscutivelmente válida. (A base dessa impressão, ao que parece, foi um “estudo” do Padre Franz Schmidberger, que era favorável à reconciliação com João Paulo II. Segundo um seminarista que mais tarde pediu para ler o estudo, este se revelou nada mais do que uma única página em uma pasta!)
Surpreendentemente, parece que ninguém no movimento tradicionalista tentou analisar o novo rito com grande detalhe até que Rama Coomaraswamy publicou seu próprio estudo no início dos anos 90. Este focava na frase spiritus principalis presente na forma essencial. O que ela significava? Era suficiente para significar a ordem do episcopado e, assim, realizar o sacramento? O Dr. Coomaraswamy concluiu que não.
Embora o Arcebispo Lefebvre tivesse mudado sua posição em favor da validade, e um bispo ordenado no novo rito, Dom Salvador Lazo, tivesse trabalhado com a Fraternidade e confirmado sob seus auspícios, alguns dentro da organização passaram então a considerar a possibilidade de que o novo rito fosse duvidoso ou inválido — isto é, que ele não criava, portanto, verdadeiros bispos.
Alguém encaminhou o estudo do Dr. Coomaraswamy a Dom Bernard Tissier de Mallerais, que residia então na sede da FSSPX em Menzingen, Suíça. Numa carta de 12 de agosto de 1998, o bispo respondeu:

TRADUÇÃO: “Obrigado por me enviar uma cópia do panfleto do Dr. Rama Coomaraswamy, ‘Le Drame Anglican’.
Após uma leitura rápida, concluí que havia uma dúvida sobre a validade da sagração episcopal conferida segundo o rito de Paulo VI.
A [expressão] ‘spiritum principalem’ na forma introduzida por Paulo VI não é suficientemente clara em si mesma, e os ritos acessórios não especificam seu significado num sentido católico.
No que diz respeito a Dom Lazo, seria difícil para nós explicar-lhe essas coisas; a única solução é não lhe pedir para confirmar ou ordenar.
Muito sinceramente em Nosso Senhor Jesus Cristo,
+ Bernard Tissier de Mallerais
P.S.: Outro pensamento: Dom Lazo já confirmou ‘bastantes’ [pessoas] conosco. Evidentemente, isso é válido porque ‘a Igreja supre’ (cânon 209), pois um simples sacerdote pode confirmar com jurisdição. E é difícil ver como tornar nossa dúvida conhecida a Dom Lazo. Portanto, silêncio e discrição sobre isso, por favor!”
A carta de Dom Tissier foi finalmente publicada em dezembro de 2000, vários meses após a morte de Dom Lazo.
Aqui, mais uma vez, a conclusão é clara: Dom Tissier acreditava que o novo Rito de Sagração Episcopal era duvidoso — o que significa que, na ordem prática, deve-se tratá-lo como inválido.
3. DOM FELLAY SOBRE DOM DOLAN E OS BISPOS ORDENADOS NO NOVO RITO
Enquanto Dom Williamson e Dom Tissier fundamentaram seus juízos sobre a validade das respectivas sagrações episcopais em princípios teológicos objetivos, o mesmo, ao que parece, não se pode dizer de Dom Bernard Fellay, Superior Geral da FSSPX desde 1994. Sua principal preocupação parece ter sido de ordem política: que efeito a posição da FSSPX sobre qualquer um desses temas (as sagrações episcopais do Arcebispo Thục ou o novo rito) teria nas negociações da organização com os modernistas do Vaticano?
As negociações da FSSPX com o Vaticano para a reintegração na Igreja conciliar haviam fracassado em 1988, depois que o Arcebispo Lefebvre foi excomungado por sagrar quatro bispos, entre eles o próprio Fellay. Durante o curso de uma peregrinação da FSSPX a Roma em 2000, Dom Fellay conseguiu reiniciar o processo de negociação com o Vaticano, e foi na tentativa de suavizar o caminho para um acordo que os dois problemas “relacionados aos bispos” mencionados acima viriam à tona. Isso se deu particularmente assim porque Joseph Ratzinger, que fôra eleito pelo conclave de março de 2005 e estava muito bem-disposto a um acordo com a FSSPX, tinha um interesse pessoal em ambas as questões.
A. Ordens derivadas do Arcebispo Thuc. Em 1983, Ratzinger, então cardeal e chefe da Congregação para a Doutrina da Fé, emitiu uma notificação excomungando o Arcebispo Thuc e vários bispos que ele havia sagrado em 1981, incluindo Dom Moises Carmona Rivera, de quem Dom Dolan deriva suas ordens episcopais. O decreto, embora evitasse a questão da validade (um conceito que os modernistas detestam), dizia que o Vaticano não reconheceria como bispos aqueles que haviam sido ordenados e os consideraria no mesmo estado em que se encontravam anteriormente.
Como o documento havia sido emitido pelo mesmo Ratzinger com quem Fellay estava negociando em 2005, a política teve que atropelar a teologia sacramental. Fellay, portanto, confirmou sob condição crianças que já haviam sido confirmadas por Dom Dolan.
E, nisso, Fellay chegou a ir além do próprio Ratzinger, pois, como vimos Dom Tissier assinalar acima, até mesmo um padre pode confirmar validamente usando jurisdição suprida em certas circunstâncias — um princípio que todos nós aprendemos no seminário da FSSPX em Écône e que inclusive ouvimos várias vezes do próprio Arcebispo Lefebvre.
Quando a celebração de acordos não estava em risco, a atitude da FSSPX era muito mais elástica. O Padre Bruno Schaeffer, sacerdote ordenado pelo Arcebispo Thuc por volta da época das sagrações de 1981, trabalhou com a FSSPX por vários anos sem nunca ter sido solicitado a submeter-se a uma ordenação sob condição. Até sua morte recente, ele celebrava missa regularmente na principal igreja da FSSPX em Paris. Ele também era sedevacantista, mas, também aqui, mais uma exceção foi feita porque, segundo se diz, ele herdara uma grande fortuna privada.
B. Ratzinger sagrado no novo rito. O segundo problema era ainda mais delicado. O próprio Ratzinger havia sido sagrado bispo no novo rito. Se Ratzinger suspeitasse que Fellay e um número substancial de clérigos e seguidores da FSSPX nem sequer o consideravam um bispo, como ele poderia “reconciliar” a FSSPX?
A questão veio à tona quase imediatamente. No verão de 2005, poucos meses após a eleição de Ratzinger, uma editora tradicionalista francesa publicou um estudo extenso sobre o novo Rito de Sagração Episcopal que concluía que ele era inválido. Sua capa trazia fotos de Ratzinger e Fellay lado a lado.
Isso chamou a atenção da cúpula da FSSPX, assim como certamente chamou a atenção do Vaticano. Uma ordem tradicionalista na órbita da FSSPX, os Dominicanos de Avrillé, recebeu a tarefa de tirar Dom Fellay dessa enrascada, tentando construir um argumento a favor da validade do novo rito. Eles publicaram um longo artigo no outono de 2005, que apareceu pouco depois nos Estados Unidos.
O artigo era longo, confuso e deixava termos-chave sem definição. Nunca conseguiu focar em duas questões centrais: (1) quais princípios a teologia sacramental católica emprega para determinar se uma forma sacramental é válida, e (2) como esses princípios se aplicam ao novo Rito de Sagração Episcopal? Eu entrei na controvérsia em março de 2006 com meu primeiro artigo sobre o tema, complementado posteriormente por séries de respostas a objeções (ver aqui) e até entrevistas na rádio francesa (provavelmente soando aos franceses do mesmo modo que o Inspetor Clouseau soa aos americanos…).
Em todo caso, o artigo de Avrillé deu a Dom Fellay cobertura suficiente para permitir que as negociações prosseguissem por vários anos, até serem rompidas no início de 2013. Com a eleição de Bergoglio em março, a perspectiva de um acordo está agora morta.
Assim, na busca de doze anos por um acordo que nunca veio, tudo o que Dom Fellay conseguiu foi vender princípios de teologia sacramental que seus confrades episcopais na FSSPX não tiveram dificuldade em entender. Resta esperar que um futuro sucessor de Dom Fellay aprenda a lição e tenha o bom senso de seguir um caminho diferente.
