CANTO XLV: WITH USURA
Ezra Pound
Fontes: (a) Cantos of Ezra Pound. New Directions Publishing Corporation, 1993. (b) Ezra Pound, Cantos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.
Tradutor do texto: José Lino Grünewald.
Descrição: O poema denuncia a usura como força destrutiva que corrompe a arte, a arquitetura, o ofício e a vida natural, impedindo a criação bela e duradoura.
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With Usura
With usura hath no man a house of good stone
each block cut smooth and well fitting
that design might cover their face,
with usura
hath no man a painted paradise on his church wall
harpes et luz
or where virgin receiveth message
and halo projects from incision,
with usura
seeth no man Gonzaga his heirs and his concubines
no picture is made to endure nor to live with
but it is made to sell and sell quickly
with usura, sin against nature,
is thy bread ever more of stale rags
is thy bread dry as paper,
with no mountain wheat, no strong flour
with usura the line grows thick
with usura is no clear demarcation
and no man can find site for his dwelling.
Stonecutter is kept from his stone
weaver is kept from his loom
WITH USURA
wool comes not to market
sheep bringeth no gain with usura
Usura is a murrain, usura
blunteth the needle in the maid’s hand
and stoppeth the spinner’s cunning. Pietro Lombardo
came not by usura
Duccio came not by usura
nor Pier della Francesca; Zuan Bellin’ not by usura
nor was ‘La Calunnia’ painted.
Came not by usura Angelico; came not Ambrogio Praedis,
Came no church of cut stone signed: Adamo me fecit.
Not by usura St. Trophime
Not by usura Saint Hilaire,
Usura rusteth the chisel
It rusteth the craft and the craftsman
It gnaweth the thread in the loom
None learneth to weave gold in her pattern;
Azure hath a canker by usura; cramoisi is unbroidered
Emerald findeth no Memling
Usura slayeth the child in the womb
It stayeth the young man’s courting
It hath brought palsey to bed, lyeth
between the young bride and her bridegroom
CONTRA NATURAM
They have brought whores for Eleusis
Corpses are set to banquet
at behest of usura.
N.B. Usury: A charge for the use of purchasing power, levied without regard to production; often without regard to the possibilities of production. (Hence the failure of the Medici bank.)
Ouça o poema na voz do próprio Pound:
Tradução
Com Usura
Com usura homem algum terá casa de boa pedra
cada bloco talhado em polidez
e bem ajustado
para que o esboço envolva suas faces,
com usura
homem algum terá paraíso pintado na parede de sua igreja
harpes et luz
ou onde a virgem receba a mensagem
e um halo projeta-se do inciso,
com usura
homem algum vê Gonzaga seus herdeiros e concubinas
pintura alguma é feita pra ficar
nem pra com ela conviver
só é feita a fim de vender
e vender depressa
com usura, pecado contra a natureza,
sempre teu pão será rançosas côdeas
sempre teu pão será de papel seco
sem trigo da montanha, sem farinha forte
com usura uma linha cresce turva
com usura não há clara demarcação
e homem algum encontra sua casa.
O talhador não talha sua pedra
o tecelão não vê o seu tear
COM USURA
não vai a lã até a feira
carneiro não dá ganho com usura
a usura é uma peste, usura
engrossa a agulha lá nas mãos da moça
E só pára a perícia de quem fia. Pietro Lombardo
não veio via usura
Duccio não veio via usura
Nem Píer della Francesca; Zuan Bellini não pela usura
nem foi pintada “La Calunniua” assim.
Angélico não veio via usura; nem veio Ambrogio Praedis,
Não veio igreja alguma de pedra talhada
com a incisão: Adamo me fecit.
Nem via usura St Trophime
Nem via usura Saint Hilaire.
Usura oxida o cinzel
Ela enferruja o ofício e o artesão
Ela corrói o fio no tear
Ninguém aprende a tecer ouro em seu modelo;
O azul é necrosado pela usura;
não se borda o carmesim
A esmeralda não acha o seu Memling
A usura mata o filho nas entranhas
Impede o jovem de fazer a corte
Levou paralisia ao leito, deita-se
entre a jovem noiva e seu noivo
CONTRA NATURAM
Trouxeram meretrizes para Elêusis
Cadáveres dispostos no banquete
às ordens de usura.
N.B.: Usura: valor imposto sobre o poder aquisitivo, sem relação com a produção; frequentemente mesmo sem relação com as possibilidades de produção. (Daí a quebra do banco dos Médicis.)
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APÊNDICE: ANÁLISE DE “WITH USURA”
Introdução rápida (contexto)
Pound compõe aqui um manifesto poético contra a usura: não só uma denúncia econômica, mas uma mitopoética segundo a qual a prática do lucro usurário destrói a arte, a técnica, a religiosidade e até as relações sexuais e a procriação. A linguagem mistura arcaísmos bíblicos (“hath, “seeth”, “blunteth”), referências históricas às artes (arquitetos e pintores renascentistas), latim (“contra naturam”) e imagens agrárias/epidemiológicas (“murrain”) — tudo para montar um coro de anátema litúrgico.
Verso a verso (comentários)
1. “With usura hath no man a house of good stone”: A invocação inicial é uma afirmação categórica: a presença da usura impede que alguém tenha “casa de boa pedra” — ou seja, arquitetura duradoura, de qualidade. O registro arcaizante (“hath”) confere sabor bíblico/sermoneiro: Pound fala como profeta-condenador. A oposição entre usura (termo latino/italiano) e o “house of good stone” já anuncia que o inimigo não é apenas moral mas material: a economia destrói a solidez arquitetônica.
2–3. “each block cut smooth and well fitting / that design might cover their face,”: A descrição técnica (“each block cut smooth”) evoca o trabalho do pedreiro medieval/renascentista: o ofício que permite que a “face” da construção seja coberta por um desenho (fachada, ornamentação). Pound valoriza o trabalho ad intrinseco — saber-fazer que se perde quando a lógica do lucro tão somente impera.
4. “with usura”: Refrão mínimo que volta como litania. A anáfora funciona como clava rítmica: em vez de desenvolver argumentos, Pound repete a causa e volta ao catálogo de destruições.
5–8. “hath no man a painted paradise on his church wall / harpes et luz / or where virgin receiveth message / and halo projects from incision,”: Pound imagina o “painted paradise” — o paraíso pintado nos muros da igreja — com “harpes et luz” (harpas e lutes). A fórmula harpes et luz é uma corruptela/arcaísmo do francês medieval/romance que aponta para “harps and lutes” (sons angelicais do paraíso pintado; cf. Villon/idioma antigo). O “halo projects from incision” mistura pintura e baixo-relevo (incision): Pound vê a arte sacra como obra de mãos que também se perderiam com a usura.
9. “with usura”: Outra marca referencial: a repetição transforma o poema em antífona: a acusação moral vira rito.
10. “seeth no man Gonzaga his heirs and his concubines”: Referência à corte dos Gonzaga em Mântua — Mantegna, a Camera degli Sposi, a pintura de corte que celebra família, herdeiros e até as amantes/concubinas da corte. Pound usa a imagem do patronato renascentista para dizer: onde impera a usura não se produz arte que “veja” (“seeth”) a comunidade em sua plenitude. A referência iconográfica liga-se ao tema do patrocínio: sem patronos que permitam o tempo e a honra do trabalho, não há “ver” a cena sacra ou cortesã.
11–13. “no picture is made to endure nor to live with / but it is made to sell and sell quickly / with usura, sin against nature,”: Aqui a queixa é direta: a obra moderna é mercadoria de circulação rápida, não um objeto durável para habitar a vida. A expressão “sin against nature” traduz a condenação moral — não só pecado social, mas atentado contra a ordem natural/humana. A frase enlaça estética e ética: a economia de mercado como força corrosiva da perenidade artística.
14–16. “is thy bread ever more of stale rags / is thy bread dry as paper, / with no mountain wheat, no strong flour”: Metáfora social/econômica: a pobreza material (pão de trapos) é efeito da usura. “No mountain wheat” sugere monocultura comercial, perda dos grãos robustos e tradicionais. A alegoria alimenta a tese: a usura empobrece a substância vital da sociedade (comida, tecido econômico).
17–18. “with usura the line grows thick / with usura is no clear demarcation”: Imagem mais abstrata: “line grows thick” evoca perda de perímetro, fronteiras indefinidas — morais, jurídicas, artísticas. A usura borra as categorias (sagrado/profano, trabalho/artesanato/mercado). Também sugere a perda da precisão artística.
19–22. “and no man can find site for his dwelling. / Stonecutter is kept from his stone / weaver is kept from his loom / WITH USURA”: Seqüência teleológica: o artesão perde acesso à matéria-prima e ao ofício. A tipologia do trabalho manual (scalpellino, tecelão) é central no imaginário de Pound: a ruína dos meios de produção afeta a transmissão de ofícios e saberes.
23–28. “wool comes not to market / sheep bringeth no gain with usura / Usura is a murrain, usura / blunteth the needle in the maid’s hand / and stoppeth the spinner’s cunning.”: “Wool comes not to market” descreve ruptura da cadeia produtiva; “Usura is a murrain” é metáfora veterinária: murrain = praga dos rebanhos (doença devastadora). A figura é deliberada: usura como praga que mata o gado social e econômico; murrain aparece em inglês antigo como peste animal — Pound transforma um jargão agrícola em acusação moral.
29–36 (catálogo de artistas). “Pietro Lombardo / came not by usura / Duccio came not by usura / nor Pier della Francesca; Zuan Bellin’ not by usura / nor was ‘La Calunnia’ painted. / Came not by usura Angelico; came not Ambrogio Praedis, / Came no church of cut stone signed: Adamo me fecit.”: Este é o núcleo pró-positivo: Pound enumera nomes/obras que representam o que a usura destrói:
- Pietro Lombardo — escultor/arquitetto veneziano (séc. XV), símbolo da pedra bem trabalhada.
- Duccio — mestre sienense (Maestà), exemplo da pintura sacra medieval que vivia do mecenato cívico/igreja.
- Piero della Francesca (escrito “Pier”) — o rigor geométrico e a serenidade renascentista, produto de comissionamento e tempo de trabalho.
- Zuan Bellin’ = Zuan / Zuan = veneziano dialetal para Giovanni Bellini — o colorista veneziano.
- “La Calunnia” — La Calunnia (A Calúnia), obra de Botticelli (The Calumny of Apelles), referida por Pound como exemplo de pintura não movida pela usura (ou que só podia existir num ambiente cultural que permitisse o luxo intelectual e moral).
- Angelico = Fra Angelico (pintor monástico), e Ambrogio Praedis = Ambrogio de Predis (nome latinizado/variante usado por Pound) — ambos pintores cuja obra nasce em contextos não mercantis estritamente usurários.
“Adamo me fecit” é a grafia da inscrição (“Adamo me fecit” = “Adão me fez”), que Pound toma como sinal de autoria artesanal — a marca do artífice que assina a pedra viva (inscrição que Pound viu/associa a igrejas medievais).
37–40. “Not by usura St. Trophime / Not by usura Saint Hilaire,”: Cita-se igrejas românicas (Saint-Trophime em Arles; Saint-Hilaire em Poitiers), exemplares de pedra cortada e escultura programática — produtos de outra economia de sentido e tempo.
41–48. “Usura rusteth the chisel / It rusteth the craft and the craftsman / It gnaweth the thread in the loom / None learneth to weave gold in her pattern; / Azure hath a canker by usura; cramoisi is unbroidered / Emerald findeth no Memling”: Retoma a metáfora da ferrugem: usura “arruína” ferramentas e ofícios (“cinzel”, “fio”, “tear”). A referência cromática — “azure … cramoisi … emerald” — conjuga a paleta renascentista (azul-índigo ultramarine, cramoisi/vermellho, verde-esmeralda) com a perda de pintores capazes (Memling para o verde). A perda técnica torna impossível a realização material de cores e bordados finos (eis o elo entre economia e estética).
49–55. “Usura slayeth the child in the womb / It stayeth the young man’s courting / It hath brought palsey to bed, lyeth / between the young bride and her bridegroom / CONTRA NATURAM”: A acusação atinge a esfera sexual e reprodutiva: usura causa infertilidade, distância entre casal, paralisia amorosa — e isso é dito como violação da ordem natural: “CONTRA NATURAM” (latim em maiúsculas para dar efeito litúrgico-jurídico). O latim invoca registro canônico: Pound legitima sua acusação com voz de sentença.
56–58. “They have brought whores for Eleusis / Corpses are set to banquet / at behest of usura.”: Imagem contundente: substituição do sagrado (Eleusis, mistérios de Deméter — rito de renovação e fecundidade) por mercadoria sexual e por “corpos” em banquetes de putrefação — ironia sacrílega: ritos sagrados profanados por lógica mercantil; metáfora para a prostituição do sagrado pelas forças mercantis/financeiras.
Estratégia retórica e efeito poético
- Anáfora e litania: a repetição “with usura” funciona como réstia litúrgica; o poema age como um sermão apocalíptico.
- Catalogação: lista de profissões, nomes, igrejas e cores constrói autoridade (erudita e estética) e mostra o imaginário que a usura destrói.
- Mistura de registros: arcaísmo bíblico, latim, francês medieval, nomes italianos; técnica que dá ao texto peso histórico (Pound quer parecer “arquivo vivo”).
- Metáfora orgânica: usura = murrain/ferugem (“rusteth”) — metáfora de contaminação que atravessa corpos, ferramentas, costumes.
- Dialética negativa→positiva: o poema alterna negativa (o que usura destrói) e exemplificação positiva (os nomes de quem “não veio por usura”) para sugerir um ethos alternativo.
Leitura sintética final
With Usura é um hino profético: usa a sintaxe bíblica, a lista erudita e a metáfora epidemiológica para articular uma tese estética-econômica simples e poderosa — a usura (a lógica financeira do lucro pela extração) impede que a humanidade produza casas de pedra, catedrais, ofícios, obras pias, belas e duráveis. Literariamente, o poema é exemplar de Pound: condensado, imagético, reclamando autoridade erudita.
Para mais informações, leia o Companion desse canto feito para o The Cantos Project.
