CARTA AO REI DOM JOÃO VI
Dom Joaquim de Nossa Senhora de Nazaré, O.F.M. (†1851)
Fonte: Luiz Antônio Vieira da Silva, História da Independência da Província do Maranhão, 1822–1828, p. 160–163. Typ. do Progresso, 1862. Link: https://acaorestauracionista.com.br/404
Descrição: O bispo felicita o rei pelo sucesso de Vilafrancada e o informa sobre o estado de apuro em que se encontra a província do Maranhão às vésperas da invasão de Thomas Cochrane.
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Senhor,
No meio dos arriscados conflitos em que todos aqui nos achamos, cercados de angústias e de aflições por todos os lados, sem termos a quem recorrer senão a Deus, que continua ainda a proteger-nos, assim mesmo a minha alma exulta de prazer ao lembrar-se de que a Religião triunfa, quando vê a V. M. colocado no Trono de seus Augustos Avós, tendo reassumido todos os Direitos Majestáticos, que uma facção atrevida havia usurpado.
Sim, Real Senhor, quis a divina Misericórdia, compadecida dos nossos sofrimentos e dos grandes males que nos esperavam, restituir-nos outra vez o nosso Legítimo Soberano, ou antes aquele Pai amoroso, que se sujeitara a todos os sacrifícios por não ver derramar o sangue dos seus filhos, e começando desde já a enxugarem-se as nossas lágrimas na esperança de vermos restabelecida a boa ordem, e protegida a Religião dos nossos Pais, nada mais nos resta senão louvarmos e bendizer ao Supremo Autor de tanto bem, como repetidas vezes o tenho feito, apesar das críticas circunstâncias em que nos vemos.
V. M. pelas representações deste Governo deve estar ao fato do apuro em que se acha esta Província, desprovida de tropas, e acometida por inimigos cruéis, faltos de disciplina, e de boa fé, que destroem, roubam, e assassinam os desgraçados europeus que tem a desventura de cair em suas mãos; repetidas vezes se tem declarado a V. M. que a perda dela era inevitável, a não sermos socorridos com tropa de Portugal em número suficiente para sua defesa; mas nossas representações foram baldadas; e a não ser a firmeza do nosso caráter, e o amor que professamos a V. M., já tudo se tinha perdido.
Acometida por quatro diferentes partes, dirigiram-se as primeiras tropas em número de três mil a sitiar Fidié, que se tinha convidado para a defesa de Caxias, a mais importante vila desta Província, composta quase toda de negociantes ricos, e grandes lavradores europeus. Fidié, desamparada de todo humano auxílio, não tendo mais que setecentos homens, quase todos de milícias, assim mesmo a tem defendido valorosamente, e não consta que se tenha rendido.
Reunindo-se logo na vila de Itapicuru-mirim, trinta léguas distante desta cidade, e quase cinquenta daquela vila, toda a tropa de linha, que nos restava, a qual não passava de 330 praças, com 500 e tantos milicianos, e 8 peças de artilharia, com o fim de a socorrermos, foi esta força atacada na mesma vila a 10 de junho por uma força de mil e seiscentas praças, que tinham penetrado pela vila do Brejo; a vitória esteve da nossa parte, assim como a outra de 14 do mesmo mês, em que os nossos atacaram o inimigo para desembaraçar a comunicação com a cidade; mas, sucedendo desertarem para eles quase todas as nossas milícias, com o seu comandante, obrigaram a nossa tropa a capitular, incorporando-a no seu exército, contra os artigos que se haviam estipulado.
Cumpre-me agora notar, Senhor, que não é a obediência ao Imperador do Brasil, nem o respeito pela sua Pessoa, que move estes povos a proclamar a Independência; eles não amam o Imperador; com a capa de cumprirem as suas ordens satisfazem os seus ódios contra os europeus, e lançam os fundamentos para uma Independência absoluta, que cedo se realizará, se V. M. de acordo com o Sr. D. Pedro não cortarem a cabeça à hydra, que começa a aparecer; e para isso são precisas tropas de Portugal, que apoiem o partido dos europeus, que amam deveras a V. M.; são precisos governadores hábeis, e não confiar os governos aos brasileiros, ao menos nesta arriscada crise.
Seguiu-se cortarem-nos imediatamente toda a comunicação com a Província, à exceção da vila de Alcântara, e de Guimarães, donde nos vem farinhas, legumes, e muito pouca carne, no que se deve muito ao cônego Francisco da Mãe dos Homens Carvalho, que dispôs os povos daquela vila a não proclamarem a Independência; e agora é enviado por este governo em companhia do comendador Meirelles para negociarem um armistício com os dissidentes, até que se recebam ordens de V. M. a Quem só queremos obedecer, enquanto durar a sua preciosa vida, e se nos não mandar o contrário.
No ofício da data de ontem, que este Governo transmite a V. M. tem V. M. uma exposição fiel, e a mais circunstanciada de todos os acontecimentos, que tiveram lugar desde o dia 12 até ao presente, aonde V. M. pode ver os trabalhos em que nos temos visto, os perigos que temos corrido, e que já por duas vezes me dispuseram a embarcar-me; finalmente a prudência com que nos temos dirigido, a fim de se não proclamar nesta cidade a Independência que tantas desgraças tem produzido. Digne-se pois V. M. tomar tudo isto em consideração, a fim de sermos prontamente socorridos com tropas, e sermos aliviados de um peso com que já não podemos.
Os Céus dilatem a preciosa vida de V. M. por muitos e felizes anos, para nossa consolação e amparo como todos precisamos.
Beija a Mão de V. M. o mais obediente e fiel Criado,
Fr. Joaquim, Bispo.
Maranhão, 22 de junho de 1823.
