COMENTÁRIO AO SALMO 36,26
Santo Agostinho
Fonte: Patrologia latina, vol. XXXVI, p. 386–88. Paris, 1845.
Tradutor do texto latino: Gustavo Petrônio Toledo.
Descrição: Santo Agostinho condena a usura comum, que busca receber mais do que se deu, mas propõe uma “usura santa”: emprestar a Deus por meio da esmola ao pobre. O pobre nada pode retribuir, mas Cristo se faz seu fiador e garante a recompensa com juros eternos (o Reino dos Céus), em vez de lucro temporal.
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Como podemos emprestar a Deus
Sl 36,26: “[O justo é] sempre compassivo e empresta”.
Em latim, feneratur (empresta) pode ser dito tanto daquele que dá um empréstimo como daquele que o recebe; mas de modo mais claro se entende quando dizemos fenerat (faz usura, empresta a juros). Mas o que nos importa o que queiram os gramáticos? Melhor é que em nosso “barbarismo” vos entendais comigo, do que, em nossa eloquência (disertitudo), fiqueis abandonados (deserti). Portanto, esse justo é “sempre compassivo e empresta”.
Mas não se alegrem os usurários. Pois encontramos uma certo tipo de “usura” assim como encontramos um certo tipo de “pão”,[1] para que, de toda parte, abrindo o teto, cheguemos a Cristo. Não quero que sejais usurários; e não quero porque Deus não o quer. Pois se eu não quisesse e Deus quisesse, fazei-o; mas se Deus não quer, ainda que eu quisesse, agiria em seu próprio mal quem assim fizesse. E de onde aparece que Deus não o quer? Está dito noutro lugar: “O que não emprestou seu dinheiro com usura.” (Sl 14,5). E quão detestável, odioso e execrável é isso, penso que até os próprios usurários o sabem.
Contudo, eu mesmo — melhor dizendo, o nosso Deus —, aquele que te proíbe de ser usurário, ordena que o sejas; e é-te dito: “Empresta a Deus” (Pr 19,17). Se emprestas a um homem, tens esperança; e se emprestas a Deus, não terás esperança? Se emprestas a um homem, isto é, lhe dás em dinheiro emprestado, esperando receber dele algo a mais do que lhe deste — não apenas o dinheiro, mas algo além, seja trigo, vinho, azeite, ou o que quer que seja —, se esperas receber mais do que deste, és usurário, e nisso deves ser reprovado, não louvado.
“Que farei então”, dizes, “para ser um usurário de modo proveitoso?”. Observa o que faz o usurário: quer dar menos e receber mais. Faz tu o mesmo: dá pouco, recebe muito. Vê quão vastamente se multiplica a tua usura! Dá o que é temporal, recebe o eterno; dá a terra, recebe o céu.
E “a quem darei?”, talvez perguntes. O próprio Senhor se apresenta como aquele a quem deves emprestar, Ele que te ordenava não emprestar [com usura]. Ouve a Escritura, como deves emprestar ao Senhor: “O que se compadece do pobre empresta ao Senhor” (Pr 19,17). Pois o Senhor não precisa de ti, mas tens outro que de ti precisa: a ele estendes a mão, e Ele recebe. Pois o pobre, de fato, não tem com que te retribuir, mas quer retribuir, e não encontra como fazê-lo; só lhe resta então a boa vontade de rezar por ti. Quando, porém, o pobre reza por ti, é como se dissesse a Deus: “Senhor, tomei um empréstimo, sê meu fiador”. Assim, ainda que não tenhas um devedor capaz, tens, contudo, um fiador idôneo. Eis que Deus, em sua Escritura, te diz: “Dá sem temor, Eu retribuirei”.
E como costumam dizer os fiadores? O que dizem? “Eu devolvo, eu receberei, a mim tu dás”. Pensamos nós que também Deus diz isto: “Eu recebo, a mim tu dás”? Certamente, se Deus é Cristo — o que não se duvida —, Ele mesmo disse: “Tive fome, e me destes de comer” (Mt 25,35). E quando Lhe perguntaram: “Quando te vimos com fome?”, para mostrar que era o fiador dos pobres, o fiador de todos os seus membros — porque Ele é a cabeça, eles são os membros, e quando os membros recebem, a cabeça recebe —, disse: “Sempre que fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes” (Mt 25,40).
Eia, pois, usurário avarento, vê o que deste, vê o que receberás! Se tivesses dado um pouco de dinheiro, e aquele a quem emprestaste, por essa tua pequena quantia, te desse uma grande propriedade, incomparavelmente mais valiosa do que o dinheiro que entregaste, quantas graças renderias, com quanta alegria te alegrarias! Ouve, então, que herança te dará aquele a quem emprestaste: “Vinde, benditos de meu Pai, recebei” (Mt 25,34). Recebei o quê? O que destes? Longe disso! Deste coisas terrenas, que, se não as tivesses dado, teriam apodrecido na terra. O que terias feito com isso, se não as tivesses dado? O que estava destinado a perecer na terra foi guardado no céu. Por conseguinte, o que foi guardado, isso é o que receberemos. Guardado está o mérito: teu mérito se fez tesouro. Vê, pois, o que hás de receber: “Recebei o reino, que vos foi preparado desde a fundação do mundo” (Mt 25,34). Em contrapartida, o que hão de ouvir os que não quiseram emprestar? “Ide para o fogo eterno, que foi preparado para o diabo e seus anjos” (Mt 25,41). E como se chama o reino que recebemos? Atentai ao que segue: “E estes irão para o suplício eterno, mas os justos para a vida eterna” (Mt 25,46).
Para isso ambicionai, para isso comprai, para isso emprestai! Tendes a Cristo assentado no céu, [e] mendigando na terra. Eis, pois, como o justo empresta: “É sempre compassivo e empresta”.
[1] Uma referência a Cristo, o pão da vida. (N.T.)
