CONCÍLIO DE QUIERZY (853) E A PREDESTINAÇÃO
Padres Carolíngios
Fonte: Wilfried Hartmann (ed.), Die Konzilien der karolingischen Teilreiche, 843–859, p. 297. Hannover: Hahn, 1984 (col. Monumenta Germaniae Historica: [Leges: 4,], Concilia; T. 3).
Tradutor do texto latino: Gustavo Petrônio Toledo.
Descrição: Os quatro cânones definem a doutrina sobre a predestinação e a graça, condenando a visão de Gottschalk de Orbais. Eles afirmam uma única predestinação divina, seja para a vida eterna pela graça, seja para a pena eterna pela justiça, rejeitando uma dupla predestinação para o mal.
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Cânon 1. Deus onipotente criou o homem reto, sem pecado, com livre-arbítrio, e o colocou no paraíso [Éden], no qual quis que ele permanecesse na santidade da justiça. O homem, usando mal do livre-arbítrio, pecou e caiu, tornando-se massa de perdição de todo o gênero humano. Deus, porém, bom e justo, escolheu dessa mesma massa de perdição, segundo a sua presciência, aqueles que pela graça predestinou à vida eterna; aos demais, porém, que pelo juízo da justiça deixou na massa de perdição, pressentiu que pereceriam, mas não os predestinou para que perecessem. Predestinou, porém, a pena eterna para eles, pois é justo. E com isso dizemos que há apenas uma predestinação de Deus, que ou pertence ao dom da graça ou à retribuição da justiça.
Cânon 2. Perdemos no primeiro homem a liberdade do arbítrio, a qual recebemos de volta por Cristo, nosso Senhor; e temos livre-arbítrio para o bem, prevenido e ajudado pela graça; e temos livre-arbítrio para o mal, abandonado pela graça. Mas [de qualquer modo] temos livre-arbítrio, pois pela graça fomos libertados, e pela graça fomos curados da corrupção.
Cânon 3. Deus onipotente quer que todos os homens, sem exceção, sejam salvos, embora nem todos se salvem. Pois o fato de que alguns se salvem é dom daquele que salva; mas o fato de que alguns pereçam é mérito dos que perecem.
Cânon 4. Assim como não há, houve ou haverá homem algum cuja natureza não tenha sido assumida em Nosso Senhor Jesus Cristo, assim também não há, houve ou haverá homem algum por quem Ele não tenha sofrido, embora nem todos sejam remidos pelo mistério da sua paixão. Que, porém, nem todos sejam remidos pelo mistério da sua paixão, não diz respeito à insuficiência da magnitude e abundância do preço, mas diz respeito à parte dos infiéis e dos que não creem naquela fé que opera pela caridade; pois o cálice da salvação humana, que foi preparado pela nossa fraqueza e pela virtude divina, tem de fato em si o que beneficia a todos, mas, se não é bebido, não cura.

rejeitar a dupla predestincao e rejeitar o proprio S Agostinho , o que eum contradicao na IC , nao pode
Olá, Marcos, salve Maria.
Talvez tenha havido um pequeno lapso de digitação, o que explicaria nossa dificuldade inicial em compreender o seu comentário. O senhor quis dizer isto: “Rejeitar a dupla predestinação é rejeitar Santo Agostinho, o que seria uma contradição na Igreja Católica — não pode.”?
Se for esse o caso, poderia, por gentileza, indicar as obras ou passagens de Santo Agostinho que sustentem tal afirmação? Porque a Igreja, que sempre considerou (e considera) Santo Agostinho um de seus principais pilares de ortodoxia, jamais admitiu a doutrina da dupla predestinação. Deus, segundo a fé católica, predestina somente os eleitos à vida eterna; quanto aos demais, Ele não os predestina ao Inferno, mas apenas prevê — com presciência divina — a livre rejeição que farão de Sua graça.
Fraternalmente em Cristo,
O Recolhedor