CONTRA O LEFEBVRISMO
Carlos Alberto Disandro (†1994)
1. PROCLAMAÇÃO DOUTRINAL Nº 1
No encontro entre Dom Lefebvre e Universitários Católicos Argentinos (UCA) na Ciudad de la Santísima Trinidad y Puerto de Santa María de Buenos Ayres, no dia 25 de julho de 1977, na Festa de São Tiago Apóstolo, Padroeiro das Espanhas.
I. A Igreja sofre uma perseguição que assume a forma de uma guerra global semântica, conduzida por lobos disfarçados de pastores (que se apoderaram da sé vacante do Bispo de Roma) e, mais concretamente, por um heresiarca poderoso: Montini.
II. Essa guerra semântica afeta todo o edifício da Fé, na medida em que a Fé tem e deve ter uma expressão histórica na linguagem humana: a semântica da Fé. La portée sémantique de la Foi, c’est le contenu de la Foi. (“O escopo semântico da Fé é o conteúdo da Fé”).
III. A primeira conclusão: Não pode ser Pontífice aquele que conduz, promove e incentiva essa guerra semântica. Cumpriu-se a profecia de La Salette: Roma perderá a fé e se tornará sede do Anticristo… a Igreja será eclipsada, o mundo estará na consternação (Irmã Maria da Cruz, pastora de La Salette; cf. Padre Paul Gouin, Soeur Marie de la Croix, Bergère de La Salette, p. 65–66).
IV. A Sé Romana está vacante, pois não pode ser ocupada por um herege que junta arianismo, nestorianismo, judeo-cristianismo para provocar, na guerra semântica, a mutação da Fé.
V. Cumpre-se o axioma teológico sustentado, entre outros, por São Roberto Belarmino: Papa herético está deposto, pelo próprio fato de ser herege (cf. De controversiis christianae fidei adversus huius temporis haereticos, 3ª controvérsia, De Summo Pontifice, vol. III, livro II, cap. 30, ed. Ingolstadt, 1587). Em substância, um papa herético deixa de ser papa (segundo Belarmino) e membro do corpo da Igreja. Pode ser julgado e castigado.
VI. Não há mais o que esperar para admitir a conclusão anterior: destruição do culto e dos ritos, destruição da disciplina, destruição da doutrina, enfim, destruição de la portée sémantique de la Foi.
VII. Cumpre-se também o antigo alerta de Santa Hildegarda de Bingen: Omnia praecepta quae Ecclesiae tradita sunt derident (“Todas as normas que a Igreja recebeu da Tradição são objeto de escárnio.” — Scivias, livro III, cap. XI, PL 197, col. 719).
VIII. A infiltração que sofre a Igreja não é a do liberalismo, é a do judeo-cristianismo, que significa a reversão semântica da Igreja, pela qual se subverte o antigo apotegma de Santo Agostinho: Quod latet in veteri, patet in novo (“O que está oculto no Antigo Testamento é patente no Novo”). O axioma é agora trocado: Quod latet in novo, patet in vetere (“O que está oculto no Novo se revela no Antigo”). Assim, São João Evangelista cede lugar a Isaías, e a ordem da graça cede lugar à lei mosaica. Como pode ser sucessor de Pedro quem maneja essa dialética destruidora da Igreja e da Fé?
IX. O judeo-cristianismo cumpre a sentença do cardeal Daniélou: Le marxisme, c’est la coronation évolutive du judaïsme, puis du christianisme (“O marxismo é a coroação evolutiva do judaísmo e, portanto, do cristianismo”). É a reversão semântica que abole o mistério trinitário-teândrico.
X. Uma é a semântica do judaísmo; outra, a semântica do cristianismo. Por isso diz a famosa sentença de Santo Inácio de Antioquia (da geração apostólica):
ὁ γὰρ Χριστιανισμὸς οὐκ εἰς Ἰουδαϊσμὸν ἐπίστευσεν, ἀλλ’ Ἰουδαϊσμὸς εἰς Χριστιανισμὸν. (“O cristianismo não creu no judaísmo, mas o judaísmo creu no cristianismo.”) — Epístola aos Magnésios, cap. 10, in fine, texto grego ed. Funk-Bielmeyer). E acrescenta: “Porque até os Profetas viveram conforme a Jesus Cristo” (cap. 8).
XI. As heresias trinitárias e cristológicas estão agora resumidas em uma grande heresia eclesiológica, que passará à história da Igreja com o nome de heresia montiniana. Essa heresia, por meio da guerra semântica, persegue o objetivo de abater a semântica da Fé, ou seja, de abolir a Igreja, para edificar em seu lugar, no coração dos fiéis, o reino apocalíptico da Besta. Sabemos, porém, que a Igreja triunfará sempre, segundo promessa inviolável de Nosso Senhor Jesus Cristo, perfectus Deus et perfectus homo (São Atanásio, Símbolo da Fé).
XII. Não há Pontífice legítimo, mas um usurpador da Sé Apostólica. A Missa Nova é uma falsa missa, e os fiéis são revertidos à idolatria. Não há disciplina, nem ciência, nem saber sagrado, nem língua sagrada. A Igreja militante está na escuridão total. Chegaram os dias de Enoque e Elias.
XIII. A síntese está neste texto latino que um interlocutor dirigiu a Dom Lefebvre: “Domne pater, sacerdos in aeternum secundum ordinem Melchisedec in Ecclesia Gallica, vacantem dicite Sedem Romanam. Salus fidei et Ecclesiae consummabitur in tenebris.” (“Monsenhor, sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedeque na Igreja da França, proclamai a vacância da Sé Romana. A salvação da Fé e da Igreja se realizará em meio às trevas”).
Proclamamos isto invocando a celeste e alta proteção de Nossa Senhora do Santíssimo Rosário da Reconquista e Defesa de Buenos Aires, para que a Senhora de Lepanto guarde e anime a Fé dos povos ibero-americanos, protegendo com seu manto as Espanhas, a Espanha e as nações ibero-americanas, da tirania bolchevique, cujos negros presságios se anunciam já no horizonte.
2. PROCLAMAÇÃO DOUTRINAL Nº 7
Insinuava-se no horizonte da Igreja pós-conciliar um “Grande Acordo Vaticano” (GAV), que englobaria tradicionalismo e progressismo, integrismo e profetismo, Concílio de Niceia e Concílio Vaticano II, numa manobra hábil para superar as dificuldades que enfrenta a guerra semântica conduzida desde Roma e contra Roma pelos inimigos da Fé. É preciso esclarecer essa manobra e reafirmar a semântica inabalável da fé trinitária e teândrica, imune ao judeo-cristianismo.
I. Três pontos fundamentais conteria o GAV:
O primeiro: reinterpretar o Concílio Vaticano II a partir da Tradição — e não como ocorreu no reinado de Montini, quando a Tradição passou a ser reinterpretada a partir do Concílio.
O segundo: liberdade de rito para a Missa de São Pio V e o Novus Ordo (em paridade semântica).
O terceiro: rejeitar os textos sobre a vacância do Pontificado e sustentar a abolição da Bula de Paulo IV por meio do Código de Bento XV. Assim, são considerados papas legítimos Roncalli, Montini, Luciani, Wojtyla, este último propulsor e executor do GAV.
II. Como consequência do GAV: contatos fluidos entre as duas alas católicas, seja por via de um tradicionalismo mitigado ou por via de um progressismo conciliar moderado (segundo a experiência polonesa); repressão dos extremos; proibição de atacar Paulo VI; paz litúrgica, etc. O GAV poderia abranger países inteiros (segundo os planejadores), desde Mons. Lefebvre até o cardeal [Franjo] Šeper, passando por uma multidão de grupos com condução autônoma. Há, precisamente, uma campanha para reduzi-los à “grande manobra” do acordo, e uma estratégia sustentada por revistas, imprensa, mensagens, declarações confusas e contraditórias, destinadas a semear o desconcerto e a desinformação, e sobretudo a alimentar a guerra semântica.
III. Nós, que há mais de vinte anos trabalhamos nos Institutos Cardenal Cisneros (La Plata), San Atanasio (Córdoba), Leopoldo Lugones (Buenos Aires), e os que, em La Hostería Volante, denunciamos incansavelmente a heresia montiniana, procuramos vasta documentação para combatê-la e enfrentamos todas as formas de desvio doutrinal na atual escuridão da Igreja. Não aceitaremos o GAV. Que esta afirmação única e precisa fique registrada.
IV. Ao mesmo tempo, alertamos os amigos da América e da Europa e urgimos por uma definição que interrompa a manobra, considerando:
a) a vacância da Sé Apostólica, conforme a Bula de Paulo IV;
b) o Vaticano II, concílio herético, que não pode ser reinterpretado — deve ser anulado;
c) a nulidade do Novus Ordo Missae;
d) a formulação correta da resposta à “guerra semântica contra a Fé”.
V. Não esqueçamos a sentença de São Vicente de Lérins, no Commonitorium (século V): “Que deve fazer um cristão, caso algum novo erro contaminasse como uma peste não apenas uma parte, mas a totalidade da Igreja? Deve então se preocupar em manter-se ligado à antiga tradição dos Padres, que, sendo já do passado, não pode ser corrompida de forma alguma por nenhuma espécie de falsa renovação”. Chegaram precisamente esses tempos: já não é a peste do arianismo, do nestorianismo ou do pelagianismo — é a heresia montiniana, de gravíssimas consequências para a Fé.
VI. Não esqueçamos a Constituição Apostólica de Pio VI, Auctorem Fidei, de 28 de agosto de 1794, que condenou o Sínodo de Pistoia — a primeira ofensiva semântica pós-luterana no próprio corpo da Igreja Católica Romana. Esse Sínodo, e o Concílio Vaticano II, são a consolidação perversa, a reinterpretação e a adaptação da hierarquia maçônica da “igreja” ultramundana. Mas Pio VI advertiu com clareza para todos os tempos que se avizinhavam. E esses são os tempos em que estamos agora.
Às manobras, deve-se responder com a Fé de Nicéia, Éfeso e Calcedônia, sem ambiguidades, sem compromissos, sem modulações nem adaptações. A manobra pretende salvar a Igreja em sua radicação ecumenista judaico-cristã. Mas é a Igreja que salvará pela Fé inabalável e sem mudança, pelo culto mistérico, pela virtude do Espírito na obra vivente da Fé.
Advertimos por esta única vez a todos os amigos da América e da Europa.
Dr. Carlos A. Disandro
16 de abril de 1979
3. A TÁTICA DE ÉCÔNE
Colateral da Roma apóstata (1ª parte)
I. É singular o caminho seguido por Monsenhor Lefebvre desde os dias do nefasto e herético Concílio Vaticano II. Vejamos. Durante o Concílio, promoveu o famoso Coetus Internationalis Patrum (Coetus), que servia para denunciar, diante de Montini, a verdadeira posição antimodernista e antiprogressista; não assina algumas Declarações [conciliares], mas aceita in integrum a autoridade do Concílio; promove o exame do novus ordo montiniano, mas depois se recusa a assiná-lo junto com os cardeais Ottaviani e Bacci; funda Écône com o apoio de Paulo VI, e depois contradiz sua autoridade canônica; diz respeitar a Igreja do Concílio de Trento e funda uma jurisdição universal (na qual é superior “pró-pontífice”), mas defende ao mesmo tempo a jurisdição de João Paulo II (diante de quem acusa os próprios amigos); aponta a hereticidade do novus ordo e fulmina como cismáticos os próprios seguidores que enfrentam sem ambiguidades a subversão doutrinal e mistagógica da Igreja; fundou priorados e “centros de missa”, cuja primeira função política é absorver o que quer que exista de tradição canônica inequívoca ou, em caso contrário, simplesmente combatê-lo e dissolvê-lo. A lista de incoerências doutrinais e canônicas de Mons. Lefebvre seria interminável.
II. As coisas chegaram a um extremo intolerável com as explicações e diretrizes de Mons. Lefebvre, datadas de 8 de novembro de 1979. (Publicadas primeiramente no Cor Unum, boletim da Fraternidade, depois reproduzidas em Fideliter, boletim dos priorados da França e Bélgica, nº 13, fevereiro de 1980; e também em The Angelus, Dickinson, Texas, EUA). Esse texto implica uma acusação infundada a todos nós que sustentamos a “vacância da Sé Apostólica” e o caráter nulo, herético, anti-tradicional do novus ordo montiniano, equiparando-nos com a seita de Palmar de Troya e outras. Mons. Lefebvre toma partido da Roma apóstata (como em um de seus tantos giros incongruentes e nefastos), toma partido no próprio contexto do campo tradicionalista; arrasta consigo gente ignorante, tímida, desinformada, mas que de todo modo quis permanecer fiel à Fé; arrasta-os precisamente para uma nova confusão entre autoridade e verdade; e finalmente enfrenta os fiéis sem ambiguidades, colocando-se do lado dos impostores com mitra e dos perjuradores com báculo.
III. Quem assina esta declaração não apoiou nunca Mons. Lefebvre, como sabem perfeitamente tanto os tírios quanto os troianos de Argentina, México, França, Alemanha, etc. Na entrevista de 25 de julho de 1977, em Buenos Aires, reiterei-lhes a proclamação da vacância de Roma, que ele [Lefebvre] naturalmente rejeitou. Respondeu-me que era uma posição coerente, mas da qual ele não compartilhava, e repetiu os mesmos argumentos da carta de setembro de 1977. Mons. Lefebvre tem girado em torno da autoridade írrita da Roma apóstata, e agora nos acusa de cismáticos. Não posso nem irei tolerá-lo.
IV. Alertado por outros amigos da França, do México e da Alemanha, segui e sigo atentamente o rumo desse incrível e enigmático bispo, que alguns tiveram e têm por lábaro da Fé. E se há quase vinte anos que, nos momentos de preparação e execução da primeira etapa do Vaticano II, não tive medo de apontar o caminho da apostasia, pouco a pouco concretizada na Sé Romana; se depois apontei diretamente Montini como a grande fraude e a grande usurpação, a fortiori também não terei medo de enfrentar as manobras de Mons. Lefebvre, de Écône e de seu suposto tradicionalismo (uma forma mitigada do judeo-cristianismo).
V. Finalmente, o próprio Mons. Lefebvre, em uma conferência especial pronunciada na Casa Alemã de Montreal (Canadá), em 26 de maio de 1976, revelou — sem que ninguém lhe perguntasse — a filiação maçônica do “cardeal” [Achille] Liénart, e ainda acrescentou: “Ce cardinal Liénart, je dois vous dire, c’est mon evêque, c’est lui qui m’a ordonné prêtre, c’est lui qui m’a sacré evêque; je n’en puis rien, heureusement que les ordres sont valides [?], mais c’est tout de même avec beaucoup de peine que j’ai appris cela” (“Esse cardeal Liénart, devo lhes dizer, é meu bispo, é ele quem me ordenou sacerdote, é ele quem me consagrou bispo; não tenho certeza se as ordens são válidas [?], mas me custou muito sofrimento aceitar isso.”).
Sabemos com plena certeza, desde muito antes, que o “cardeal” Liénart se filiou à maçonaria em 1912 (antes ou depois de ser bispo?). De qualquer forma, ipso facto está excomungado pelo Cânon 2335 (do código que Mons. Lefebvre defende). Em 1924, estava registrado em sua Loja na França com o grau maçônico 30. Por sua vez, Mons. Lefebvre nasceu em Tourcoing, em 29 de novembro de 1905. Foi “ordenado” sacerdote pelo “bispo” Liénart (grau 30) em 21 de setembro de 1929 e, pelo mesmo “bispo” alto-graduado Liénart, Lefebvre recebeu a “consagração” episcopal em 18 de setembro de 1947. Tal é o lamaçal da Igreja.
VI. Liénart era um bispo legítimo? Lefebvre é um bispo legítimo? São legítimos, canonicamente válidos, os sacerdotes que Lefebvre ordena em Écône? O que é então Écône? Por que Lefebvre lança essa revelação, sim, repito, revelação inusitada em momentos tão graves para a vida da Fé, para a Igreja governada por uma hierarquia apóstata? Creio ter a chave, ao menos de forma intuitiva. Mas isso será motivo de uma segunda declaração, se as circunstâncias me exigirem.
Não tenho nada contra a pessoa de Mons. Lefebvre. Mas, se mantenho a coerência doutrinal que defendi sempre, sou obrigado a concluir, com a Bula de Paulo IV, que Lefebvre, por apoiar a promoção da heresia, carece de toda legitimidade canônica. E todos os seus atos são nulos, como os de Montini, Luciani e Wojtyla.
Dr. Carlos A. Disandro
La Plata, 29 de março de 1980
[Nota d’O Recolhedor: Neste ponto, não compartilhamos do mesmo entendimento do professor Disandro, que parece confundir invalidez sacramental com ilicitude canônica. A respeito dessa controvérsia, o padre Anthony Cekada deu a resposta que julgamos definitiva.]
4. A TÁTICA DE ÉCÔNE
Colateral da Roma apóstata (2ª parte)
Já se passou mais de um ano desde a resposta que formulamos contra Lefebvre e seus curiosos giros na Igreja pós-conciliar, da qual ele faz parte. Entretanto, outros acontecimentos e informações lançam alguma luz sobre o enigmático bispo, em particular sua viagem ao México e as consequências dessa viagem em tudo o que se refere ao combate da Fé, que o lefebvrismo quer desviar ou obscurecer ou anular. Oferecemos aqui alguns detalhes que confirmam nossa lapidar acusação: Écône, colateral da Roma apóstata.
I
1. O prior ou pró-vigário de Lefebvre nos EUA é o padre Hector Bolduc. Ora, na revista The Angelus (cujo diretor é certamente o próprio Bolduc), em junho de 1981, o pró-vigário de Écône na América assina um artigo intitulado Mexico and the Church: To Day and To Morrow, que constitui um ataque malicioso contra o grupo mexicano Unión Trento (doravante U.T.), fiéis ao pensamento de [Joaquín] Sáenz y Arriaga. Vários sacerdotes integram a U.T. (entre eles seu presidente, padre Moisés Carmona) e muitos fiéis amigos como Anacleto González Flores, Gloria Riestra, Enrique Salinas, etc.
2. A princípio, enquanto Lefebvre manifestava uma doutrina íntegra e uma clara vontade de combater a apostasia romana (Vaticano II, falsos papas, missa falsa, bíblia falsa, etc.), estabeleceu-se uma relação amistosa com o arcebispo francês, apesar de meus alertas, a tal ponto que os mexicanos ajudaram em muito os empreendimentos do padre Bolduc. A tensão, insinuada primeiro pela ambiguidade de Lefebvre, logo se tornou violenta. Os mexicanos finalmente acusaram — e acusam — publicamente Lefebvre de traidor.
3. Nessas circunstâncias, ocorre a viagem do prelado ao México. Suas atividades foram relatadas por Anacleto González F., por carta datada de 21/11/1981, a uma das figuras do tradicionalismo dos EUA, o Sr. C. J. Diehl, ligado também, é claro, às atividades de Bolduc nos EUA. Cópia dessa carta, por meios que o Sr. Diehl desconhece, chegou às mãos de Bolduc, que, com ânimo de difamar a U.T. e, em especial, Dom Anacleto, utiliza trechos fora de contexto, no artigo já mencionado de The Angelus. Insinua-se a suspeita de um conflito ou desentendimento entre o padre Sáenz e o grupo Trento, ao acusar que “as being too busy playing politics… to bother with vocations, the Mass or the Church” (“estavam muito ocupados com manobras políticas… para se preocuparem com vocações, Missa ou Igreja”). Maliciosamente, o artigo de Bolduc usa essa informação distorcida para acusar o grupo Trento de colaborar com marxistas e maçons mexicanos. O Sr. Diehl dirige-se então por carta (11 de julho de 1981) ao padre Bolduc, exigindo a retratação de tais afirmações. Desse material extraímos informação altamente interessante sobre as atividades de Bolduc e Lefebvre no México, que servem para ilustrar também as atividades de Faure e Lefebvre na Argentina.
II
1. Em primeiro lugar, Bolduc começou seu esforço para quebrar os laços que uniam uma família mexicana (que apoiava com seus recursos o padre Sáenz e que compartilhava de seus critérios sobre a sé vacante e o novus ordo), e que, como é lógico, continuava apoiando a U.T. A via escolhida por Bolduc foi a de um membro do MURO (organização judaizante e maçônica): o Sr. J. M., de Ciudad Juárez. Bolduc teve êxito em sua cizânia, com o argumento de que a U.T. estava comprometida com atividades políticas. A família mencionada interrompeu aparentemente sua ajuda a Trento.
2. Essas mesmas pessoas alertaram Bolduc sobre a inconveniência da viagem de Lefebvre ao México, tendo em vista a oposição do grupo Trento. Mas Bolduc entrou secretamente no México via Ciudad Juárez, voou para a Cidade do México e depois para Veracruz. Bolduc e Lefebvre foram acompanhados pelo padre Babinette e pelo padre Faure (!), atendidos por um clérigo mexicano, o padre Esteban Camacho Baruki, de antecedentes pouco recomendáveis: ex-condenado, de origem judaica (como indica seu segundo sobrenome). Estava encarregado o judeu Baruki de visitar as comunidades e templos vinculados à U.T., oferecendo dinheiro para a recepção de Lefebvre. Quase todos os povoados se recusaram a permitir a Lefebvre o uso dos templos, com exceção de Ojiltán, Oaxaca.
3. Além disso, os jornais de Morelos (diocese do incrível Méndez Arceo) publicaram a reportagem de uma entrevista ocorrida entre o bispo (Méndez A.) e o arcebispo (Lefebvre). Esses jornais confirmam a notícia de que os bispos Méndez Arceo e Yalamas encorajaram publicamente o povo a dar apoio a Lefebvre, pois alguns grupos (como o de Trento) tentavam promover sua expulsão do México. Por sua vez, o governo designou ao arcebispo um guarda de segurança.
Esses jornais de Morelos publicaram também, usando os nomes de alguns dirigentes locais ligados ao Trento, um convite a Lefebvre para visitar os templos da U.T. A reação desta não tardou, por meio de comunicados (no jornal Excelsior, por exemplo) para rejeitar a visita do arcebispo a tais igrejas. Nelas também foram colados cartazes com a divisa: “Proibido para Lefebvre e Méndez Arceo. Esta é uma igreja católica”.
4. Lefebvre voou para Guadalajara para visitar um banqueiro americano em sua residência de verão (no Lago Chapala). Depois retornou à Cidade do México para visitar parentes do padre Baruki, a família Assad, de suposta origem sírio-libanesa (convém recordar que o presidente judeu Calles fez entrar no México numerosos judeus como se fossem sírio-libaneses). A família Assad é ligada à viúva do ex-presidente Ávila Camacho.
5. Finalmente, o historiador e jornalista Antonio Rius F. confrontou publicamente Lefebvre, quando este tentou explicar a posição de Écône. O arcebispo declarou que, se não reconhecesse publicamente a autoridade de João Paulo II e o caráter católico do pós-concílio, perderia seus seminários. No debate sobre a Missa, o arcebispo afirmou que ele agia sob instruções do Cardeal Siri. Que Siri e outros (supostos) tradicionalistas eram severos opositores de João Paulo II (!). Por fim, Lefebvre deu uma conferência onde atacou o padre Sáenz, seguramente para agradar aos seus mandatários do Vaticano, os mesmos que o renderiam em seu exército. Por esses mandatários, Lefebvre fez todo o possível para destruir a resistência católica no México.
6. Daí a tremenda pergunta do Sr. Diehl ao padre Bolduc, da confissão lefebvrista, pró-vigário do agente do cardeal Siri, vassalo por sua vez do polonês que finge ser “papa” na sé vacante: “Fr. Bolduc, where are you coming from? Could it be that your real objective is to destroy the catholic resistance in Mexico as part of some agreement worked out with Vatican?” (“Padre Bolduc, de onde você vem? Poderia ser que seu verdadeiro objetivo seja destruir a resistência católica no México como parte de um consenso elaborado junto ao Vaticano?”).
III
1. Para nós, não é nada estranho o comportamento de Lefebvre; ele é um entre os tantos agentes da Roma apóstata que trabalham para reduzir a um só rebanho suas supostas hostes tradicionalistas. Já em abril de 1979, ou seja, há mais de dois anos, em Proclamaciones Doctrinales n.º 7, denunciei o “Grande Acordo Vaticano” (GAV). O que diziam então [Noël] Barbara, Lelay, e os supostos líderes do tradicionalismo argentino, essa mescla de nacionalistas de fancaria e jesuítas? Não será que também Barbara tem instruções de algum cardeal contrário a Karol Wojtyla? Não será que essas instruções consistem em: 1) reunir os resistentes que restam, anti-wojtylianos e anti-lefebvristas; 2) buscar na América um bispo que respalde essa operação tática de refúgio; 3) silenciar absolutamente a verdadeira tarefa, o verdadeiro combate, as verdadeiras fontes que se vêm expondo por nossa parte ao menos há mais de vinte anos?
2. A atitude de Lefebvre e Bolduc no México é congruente com a atitude de Lefebvre e Faure, seu pró-vigário na Argentina, ligado ao menos até março de 1981 com Barbara e Lelay. Pois se assim não fôra, como poderiam os três convergir no mesmo templo da seita lefebvrista em Córdoba, e no mesmo dia? Barbara então reuniu o pessoal (em Córdoba) na casa de um certo Sr. S. (também sírio-libanês): não é a mesma história promovida no México pelo judeu padre Baruki? E quem é o judeu que atua como elo na Argentina — em Buenos Aires ou em Córdoba? A suposta divisão — que agora se acentuou — recolhe, por meio de Barbara, os resistentes, carentes, no entanto, de juízo, como se pode observar nas deploráveis revistas “tradicionalistas”, panfletos e folhetos.
3. Não necessito, pois, revelar a chave de minha interpretação, sugerida em Proclamaciones Doctrinales n.º 7. O próprio Lefebvre já descobriu a fonte de sua manobra. É claro, convém inscrevê-la no contexto maior onde tudo se esclarece perfeitamente. Antes de tudo, destacamos que a história de Lefebvre no México é idêntica à história de Lefebvre na Alemanha.
A revista Einsicht (dirigida pelo Dr. Eberhard Heller), em diversas edições dos últimos cinco anos, registrou minuciosamente as manobras de Lefebvre, por meio de seus sacerdotes, agentes de Écône, para destruir centros de missa, comunidades independentes, mediante pressões de toda ordem. Não faltam as ameaças telefônicas, nem o nobre palavreado e a difamação.
Na Argentina, os centros lefebvristas são Buenos Aires, La Plata, Córdoba. Suas intrigas, suas incríveis coortes de ignorantes (como Falange de Fe e outros grupos mais ou menos fantasmas) estão dedicadas, entre outras coisas, a atacar, erosionar e acusar os Institutos de Cultura Clásica “Cardenal Cisneros”, “San Atanasio” e “Leopoldo Lugones”. Mas nós rejeitamos toda condução clerical, também a de Barbara e Lelay. Livres, aceitamos com piedoso fervor a justiça divina. Não compramos o céu.
4. O lefebvrismo mantém nas sombras a gente honesta que o segue. Promete-lhe um metro quadrado de paraíso, exibindo a bandeira do inferno com um lamentável texto de Santo Agostinho, como pode ser visto na incrível circular da Fraternidade, de julho de 1981. No panfleto verticalizado, sem data, intitulado “Enumeração dos fatos” (que serve para eludir a Doutrina [da Fé]), tudo é vago (nem a Montini se nomeia). Na carta de Lefebvre (maio/1981), o arcebispo adoça sua estada no México, calando as verdades urticantes. A regra da ordem terceira é uma piada. A prosa de seus doutores a propósito de meus trabalhos destila ódio e ignorância descomunal. Não falam do fundamental. Vale ou não vale a Bula de Paulo IV? etc., etc.
5. Finalmente, podemos prever talvez a manobra de Wojtyla, Siri e o Terceiro Personagem, na sombra por enquanto (Acaso não estava, para a imensa maioria dos cordeiros, na sombra Siri?). A primeira fase da manobra consistirá em reconhecer a validade da hierarquia anglicana (bispos e clérigos), anulando assim Apostolicae curae, de Leão XIII (13 de setembro de 1896; Denzinger 3315). A segunda fase admitirá para a congregação lefebvrista (somente para a congregação de Lefebvre) o rito latino de São Pio V. Na terceira fase, se é que Barbara e Lelay conseguiram o bispo tradicionalista (de entre algum jubilado argentino ou brasileiro), o Terceiro Personagem na sombra pressionará para um acordo entre Lefebvre e o bispo de Barbara. Enquanto isso não se produz, Barbara e seu bispo serão como agora Lefebvre e seus curas, priores e seminários (suposto canal dos resistentes, última voie de garage de um itinerário que não leva a nada). Ficam fora do esquema a Unión Trento do México, a união dos Institutos de Cultura Clásica, cuja direção me compete, na Argentina; a revista Einsicht da Alemanha. Assim compreendemos que a tática dos refúgios, derivações e voie de garage, a voz de ordem dos mandatários de Lefebvre e de este como mandatário de outros, visa à destruição da resistência, como disse o esclarecido Sr. Diehl dos EUA. Nós, entretanto, sabemos combater com todos os meios legítimos, sem fazer a obra sombria dos fariseus na Igreja e contra a Igreja.
Dr. Carlos A. Disandro
31 de agosto de 1981
5. PROCLAMAÇÕES DOUTRINAIS Nº 10
O enigma de Monsenhor Marcel Lefebvre
I
Talvez tenha chegado a hora de esclarecer com clareza inquestionável o horizonte de controvérsias doutrinais e práticas que consomem as impressionantes ruínas da outrora grandeza hierárquica, cultual e mística da Igreja Romana, como expus em outro sentido no texto da minha Resposta ao “Cardeal” Ratzinger: A crise da Fé e a ruína da Igreja Romana (La Plata, 1986). De um lado, as ruínas, ainda poderosas, em torno de Wojtyla, Ratzinger precisamente, o Vaticano, a Cúria Romana, etc., que por comodidade chamarei de “seita ecumenista de João Paulo II”. Do outro lado, com sinais de pretensão semelhante, ainda que não com a mesma extensão, autoridade ou imponência canônica e autoritária, a “seita tradicionalista do lefebvrismo”, que convencionamos chamar de “a seita de Écône”, que reconhece, embora mitigadamente, João Paulo II como se fosse “pontífice legítimo”, mas que lhe disputa a condução vertical e autoritária da antiga ordem romana.
Frente a essas duas seitas, nas quais se divide massivamente a “igreja católica romana” — com sinais do Cordeiro, mas voz do dragão, como diria São João — projeta-se por um lado a Contre-Réforme Catholique do Padre Georges de Nantes, estendida à França, Canadá, Inglaterra e também à Argentina; um padre doutrinariamente instruído, pontualmente bem-informado, e muito informado, mas praticamente esquizofrênico. De tal maneira que sua famosa ortodoxia e ortopraxis também se reduz a uma ruína — majestosa, em todo caso. Em seguida, a linha de bispos consagrados pelo arcebispo vietnamita Mons. Pierre Martin Ngô Đình Thuc: duas representações concretas e descendências canônicas, claramente divergentes; uma, anterior à proclamação da vacância da Sé Romana (Palmar de Troya e suas confusões, trevas e desatinos inacreditáveis); outra, posterior à proclamação da vacância da Sé Romana, e, por conseguinte, à nulidade dos pontificados de Paulo VI e João Paulo II — ou seja, substancialmente, a linha dos bispos mexicanos e, posteriormente, a de Guérard des Lauriers e outros sucessivamente consagrados, pouco fiéis, na realidade, à missão que lhes confiou o já falecido arcebispo vietnamita — com exceção da figura de Dom Moisés Carmona, bispo de Acapulco. Enfim, uma multidão de grupos e/ou figuras que repartiríamos entre tradicionalistas e sedevacantistas. Entre estes me incluo, ininterruptamente, desde o falso papa, antipapa ou papa deposto João XXIII até agora.
Minha pretensão é esclarecer o enigma de Dom Lefebvre dentro deste quadro provisório — e incompleto, sem dúvida, eu sei — mas que pretende apenas estabelecer um marco necessário para discernir a personalidade de Dom Lefebvre e seu combate, real ou suposto, contra a apostasia de Roma.
Devemos retroceder ao período inicial do Concílio Vaticano II, convocado pelo falso papa João XXIII, a seu desenvolvimento ulterior e reabertura pelo falso papa Paulo VI, e à corporação episcopal de padres conciliares ou Coetus, fundada por Lefebvre e estimulada, entre outros, pelo Cardeal Siri e talvez pelo próprio Ottaviani — então “guarda da Fé” — como resposta às manobras de Roncalli e Montini e de toda a máfia modernista e satânica que então se apoderava do Concílio e da Igreja. Essa linha do famoso Coetus fracassou, sem dar sequer testemunho público de sua oposição ao modernismo instaurado no Concílio e pelo Concílio, sem proclamar a nulidade dos atos de Roncalli e demais. Eis a primeira manobra de Dom Lefebvre, denunciada vigorosamente pela revista francesa Les Trompettes de Jericho e depois pelo Padre DePauw (Estados Unidos); ou seja, construir para si uma imagem de defensor fidei, com o apoio, sem dúvida, de gestores vaticanos que já sustentavam a apostasia. Começam então as atividades “pastorais” de Lefebvre em suposta oposição ao Concílio e aos falsos papas; essas atividades culminarão numa primeira fase que vai da fundação do Coetus mencionado até a fundação de Écône — com o apoio, precisamente, de Paulo VI, que concede ao seminário status canônico e, portanto, um pano de fundo de legitimidade conferida pelos próprios apóstatas.
Devemos considerar em seguida a ruptura com Paulo VI, a expansão da Fraternidade por todo o mundo, e a pretensão de erigir uma jurisdição universal — origem da atual situação do lefebvrismo. Ou, ao menos, sua jurisdição real na Europa, América do Norte e do Sul, e as manobras para absorver, extinguir ou desarticular os grupos “tradicionalistas” independentes, propensos a não aceitar a liderança de Dom Lefebvre. Desses ardis se ocupou, detalhadamente às vezes, a revista Einsicht. Mas não nos interessam agora os detalhes dessa surpreendente atividade pastoral, mas sim o resultado final que se visualiza nas ruínas romanas mencionadas: frente ao autoritarismo católico de Wojtyla, ergue-se, em paridade de pretensão doutrinal, o autoritarismo de Écône, e frente ao pseudo-papa romano, ou antipapa, projeta-se, para os fiéis desinformados, a imagem de um substituto concreto, que assegura a continuidade vertical do romanismo: o pseudo-papa Marcel Lefebvre. Por quais canais podem transitar os fiéis, geralmente desinformados? Essa é a pergunta mais grave que se poderia formular a um lefebvrista sincero e convencido — convencido do postulado fundamental de Écône: Dom Lefebvre salva a Igreja — o que é, por si só, uma temeridade e uma apostasia larvada.
Devemos considerar em seguida a ruptura com Paulo VI, como já disse, sobretudo porque conciliação e ruptura proporcionam o esquema que ocorrerá novamente com Ratzinger-João Paulo II. Quem é então Lefebvre? Correspondem, portanto, posteriormente, o entusiasmo e as tratativas com Wojtyla. Nelas devemos distinguir:
- Fase de reconhecimento e reconciliação, que eu chamaria de “fase do minueto”;
- Fase de tensões, que parecem ruptura, mas que trazem recomposições diversas;
- Fases de negociações, com limites prescritos e preanunciados, com João Paulo II via Ratzinger, o que conduz fundamentalmente ao estado de “ruptura” atual — se é que realmente o é.
Se resumirmos esse complexo itinerário, diríamos que o objetivo de Lefebvre, ou dos mandantes de Lefebvre, foi gerar uma estrutura paralela à “igreja romana” do Vaticano, estrutura que parece ter dois propósitos:
- Oferecer um marco externo para todo o “tradicionalismo” e para todo “tradicionalista”, contanto que aceite a autoridade e a tática de Écône;
- Combater muito suavemente a apostasia romana, sem romper com a autoridade — nula — romana, justamente por causa da apostasia, na qual se funda em última instância a “seita de Écône”; e sem romper, é claro, com o “papa”, nem declarar previamente a “vacância da Sé Apostólica”.
Podemos inferir, portanto, que, se fosse necessário para os fautores do projeto Lefebvre, a proclamação da vacância fica como última ratio, para convencer os mais resistentes.
Desde já deixo claro que não aceitarei essa alternativa e não me somarei à divisão tática das duas seitas, ainda que Mons. Lefebvre proclamasse dita vacância.
Não nos colocamos aqui diante dos problemas de consciência, nem diante da clareza ou autenticidade doutrinal nos propósitos de Écône. Simplesmente discernimos, com objetividade e após quinze anos de um caminho contraditório e ambíguo [da parte de Écône], o resultado empírico: um eixo que pressiona a totalidade do catolicismo, eixo marcado por uma dupla verticalidade autoritária, com pretensões de jurisdição universal, que reclama, na apostasia, o primado sobre a Fé. Para esse eixo, a primeira grande curva lefebvriana se fecha com a “consagração” de novos “bispos”, à margem da seita wojtyliana. A seita do ocupante de Roma, por sua vez, pretende, com sua falsa jurisdição universal — caduca e inexistente, na realidade — diluir a seita de Écône por meio de um acordo de respeito mútuo, salvaguardada, é claro, a “autoridade” do “papa romano”, simples “ocupante” da Sé Romana, como bem sabemos. Até esse ponto chegamos. Mas, evidentemente, essa situação ou trégua não representa o fundo da controvérsia; ao contrário, creio que se inicia uma segunda fase na luta entre os dois “romanismos”, entre as duas seitas, para aniquilar a Fé verdadeira; para dispersar, controlar ou esmagar os verdadeiros fiéis, que não poderiam ser fiéis da segunda Besta apocalíptica (Wojtyla), nem salvar a Fé nem a doutrina na seita judaico-maçônica de Écône. O que será então dos lefebvristas sinceros? O que será de nós nesta luta descomunal contra o poder e o “reino” do Dragão?
A seita wojtyliana, por sua parte, pretende, na apostasia, ser a Igreja Romana da Tradição, do Pontificado Romano, ainda que de fato anule, sem mais, pelo exercício de uma autoridade tirânica, o conteúdo e o exercício da Fé. A seita da fraternidade lefebvrista pretende reservar e preservar a Tradição, numa cópia da Igreja Romana, cópia erigida — como já assinalei — na negação que implica a apostasia de João XXIII e Paulo VI. Segundo os fiéis lefebvristas, essa cópia seria imune à apostasia por vontade expressa daquele que fundou a seita. E mais não devemos perguntar. Isso é inaceitável.
Que ocorre então com os que não aceitaram ab initio nem o Concílio, nem João XXIII, nem Paulo VI, nem os Joões e os Paulos, nem a destruição do culto, da mística, da teologia? E com os que tampouco aceitaram, igualmente ab initio, o itinerário de Écône, como ocorre no meu caso pessoal — como pode se inferir da entrevista e diálogo que mantive com Lefebvre em Buenos Aires, em julho de 1977? É essa situação que me induz a delinear um resumo — precário, é verdade, mas não menos nítido. Estou persuadido de que a “igreja romana” de Lefebvre também atua na apostasia, que anula pelo seu próprio postulado a Ecclesia do Credo — nem grega nem romana — e se exclui, por isso mesmo, da sentença universal: só a Igreja salva; ninguém pode salvar a Igreja, pois seria uma contradição afirmá-lo.
II
Chegados a este ponto, devemos concentrar agora nossa atenção em Mons. Lefebvre em si, ou seja, em sua figura de arcebispo, afetada por contradições que aumentam nosso estupor e nossa desconfiança. Refiro-me, em particular, à sua condição de sacerdote e bispo, por obra de uma consagração outorgada e transmitida pelo apóstata “cardeal” Achille Liénart. Dispomos agora de clareza suficiente sobre essa figura nefasta da hierarquia romana. O próprio Lefebvre, num discurso ou homilia pronunciada no Canadá há alguns anos, admitiu que Liénart era afiliado à Maçonaria. Num momento em que Lefebvre acusou os sedevacantistas de “cismáticos”, publiquei uma nota na revista La Hostería Volante nº 31, de La Plata, Argentina (“Écône, colateral da Roma apóstata”), com a qual pretendi rejeitar as absurdas acusações de Lefebvre e recordar o problema de sua legitimidade canônica. Pois dessa questão depende, logicamente, a legitimidade canônica e sacramental de toda a sua obra; mas também revela o sinal que o mantém aderido a João Paulo II, sem dúvida instrumento do poder satânico dentro da Igreja. São muitos, por outro lado, os testemunhos que abordam essa questão da legitimidade canônica de Mons. Lefebvre. Recordemos, por exemplo, a revista Einsicht, fevereiro de 1984, que resume a carreira maçônica de Liénart desde 1912; a nota do Padre Henri Mouraux (Einsicht, outubro de 1988); e sobretudo o longo artigo do bispo Louis Vezelis, O.F.M. (da linha do arcebispo vietnamita), sobre A Pessoa de Mons. Lefebvre (Einsicht, outubro de 1988, págs. 87–90). Pelo mesmo número da revista Einsicht ficamos sabendo da carta dirigida pelo arcebispo vietnamita Mons. Pierre Martin Ngô Đình Thuc ao próprio Lefebvre; nela Thuc afirma que o tal “cardeal” Liénart nunca foi católico e que a consagração de Lefebvre é nula.
Deixemos de lado agora os nobres sentimentos do arcebispo vietnamita e a soberba manifesta do fundador de Écône. Apenas nos interessam aqui as comprovações objetivas. Segundo elas, há motivos de sobra para se duvidar da legitimidade e realidade sacramental do bispo Lefebvre. Penso que isso constitui a força oculta dos mandantes de Lefebvre, que são os mesmos mandantes de Wojtyla e Ratzinger. Qual é, então, o sentido da seita de Écône? Wojtyla e Lefebvre são criados na apostasia manifesta. Georges de Nantes ou não quer, ou não pode se separar dessa apostasia manifesta. Wojtyla, Lefebvre e De Nantes respondem a bastidores do Vaticano que, da minha parte, não posso precisar, mas que, lembrando os alertas de Leão XIII e São Pio X, não é difícil imaginar. A seita satânica tem um mandatário direto em Wojtyla e outro indireto em Lefebvre e sua seita de Écône. Quanto ao Padre De Nantes, é para mim outro enigma que seria necessário esclarecer em algum momento oportuno.
A luta contra a apostasia se desenrola num “eclipse do sol” e, enquanto isso, Roma se consolida como “sede do Anticristo” (La Salette). E sabemos: seule la Foi vivra (“somente a Fé viverá”). Se for correta a descrição e resumo que tentei, podemos suspeitar que se aproxima o fim do reinado deste antikhristos (Wojtyla), e se prepara seu sucessor na apostasia, com os entusiasmos — sempre iniciais — de Écône e da Contre-Réforme Catholique. Pois São João distingue entre os antikhristoi e o Anticristo. E Santa Hildegarda, por sua vez, descreve com bastante nitidez o “reino” deste. Tudo isso é o que temos de pensar e meditar.
Dr. Carlos A. Disandro
Alta Gracia, Argentina, janeiro de 1989
