CRIANÇAS MÁRTIRES E CARRASCOS JUDEUS: ANTISSEMITISMO OU CRIME RITUAL?
Padre Olivier Rioult, 9 de agosto de 2017
Fonte: https://www.lasapiniere.info/archives/2797
Tradutor do texto: Elvira Mattoso.
Descrição: O texto, dividido em duas partes, apresenta casos históricos de crimes rituais cometidos por judeus na Europa medieval, focando em crianças mártires como Guilherme de Norwich e Simão de Trento, conforme narrativas hagiográficas beneditinas; e a análise de Israël Shamir, o qual sustenta (com base em Ariel Toaff) que algumas comunidades judaicas asquenazes praticavam sacrifícios humanos com motivações anticristãs. Por fim, critica-se a influência judaica contemporânea em reinterpretar a história para negar tais eventos.
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PARTE 1
A obra Vies des saints et de bienheureux selon l’ordre du calendrier avec l’historique des fêtes (“Vidas de santos e de bem-aventurados segundo a ordem do calendário, com o histórico das festas”) dos Reverendíssimos Padres Baudot e Chaussin, O.S.B. (Ordem de São Bento), é um volume com nihil obstat que data de 1934. Ao folhear as páginas desse dicionário dos santos, deparamos com várias crianças mártires dos judeus.

Na primeira parte deste artigo, apresentaremos os fatos de que dispomos sobre esses mártires, tal como são expostos pelos beneditinos, e na segunda parte, com o auxílio das reflexões de Israël Shamir, estudaremos em que medida esses assassinatos se enquadram na definição de crime ritual. Em ambas as partes, nós iremos nos abster de qualquer comentário.
I. As crianças mártires
1. Guilherme de Norwich (†1144)
Nasceu a 2 de fevereiro de 1132. Os pais chamavam-se Wenstan e Elvina. O pai era agricultor e usufruía de certa abastança; faleceu antes do martírio de seu filho. Aos oito anos, Guilherme tornou-se aprendiz de um curtidor de Norwich, Inglaterra, onde passou cerca de quatro anos, de 1140 a 1144, vivendo com um parente chamado Ulward. O mestre de Guilherme mantinha frequentes contatos com os judeus da localidade, e estes não deixaram de notar a criança. Tanto o anfitrião quanto o tio de Guilherme alertaram-no contra tais homens e recomendaram-lhe que os evitasse. Infelizmente, viria a cair nas suas mãos.
Na segunda-feira santa, 20 de março de 1144, o jovem Guilherme foi visitar a sua mãe acompanhado por um homem que se apresentou como cozinheiro do arcediago de Norwich, e que lhes propôs um lugar de serviço na casa do arcediago. Mas isso exigia uma resposta imediata e, para dá-la, era necessário o consentimento da mãe. Esta levantou algumas dificuldades; para convencê-la, o suposto cozinheiro entregou-lhe algumas moedas. Guilherme, então, retornou a Norwich na companhia do desconhecido. Esse mensageiro era uma figura misteriosa; desconhecido da mãe da criança, não se sabia se era judeu ou cristão. Na terça-feira, 21 de março, apresentou-se com Guilherme na casa de Livina, tia do menino, que habitava em Norwich, e contou-lhe o acordo que tinha sido feito no dia anterior. A atitude pareceu estranha a Livina e, quando o homem e a criança deixaram sua casa, ela pediu à sua filha que os seguisse e espiasse seus movimentos. A filha viu-os entrar na casa de um judeu, fechar a porta, e, a partir desse momento, Guilherme não foi mais visto com vida em Norwich. A filha de Livina regressou e contou à mãe o que havia presenciado. Era então terça-feira santa.
O biógrafo da criança mártir foi o único a relatar os eventos da quarta-feira santa, e o fez de forma breve. Segundo ele Guilherme passou a noite de terça-feira com os judeus, que o trataram amigavelmente e lhe deram de comer. Na quarta-feira, após o serviço na sinagoga, enquanto o menino estava à mesa, eles o agarraram, colocaram-lhe uma mordaça na boca, amarrada com cordas atadas atrás do pescoço; depois, raparam-lhe a cabeça e a perfuraram com espinhos. Após um julgamento simulado em que o condenaram à crucificação, levaram-no a um cômodo onde havia três postes unidos por uma barra transversal. Ergueram então a vítima contra um dos postes, amarraram sua mão direita e o pé direito com uma corda, pregaram com pregos sua mão esquerda e o pé esquerdo, perfuraram depois seu lado esquerdo até atingir o coração e, por fim, deitaram sobre todo o corpo água morna para limpar os ferimentos e estancar o sangue. O biógrafo declarou ter obtido todos esses detalhes de uma mulher cristã que, estando a serviço dos judeus, aqueceu água por sua ordem, ouviu barulhos intensos no quarto onde eles estavam encerrados e, no momento em que lhes levava água, pôde ver pela porta entreaberta o infeliz menino preso ao poste. À noite, ao limpar o cômodo, encontrou em um canto um cinto infantil com uma faca e uma caixa de agulhas. Mais tarde, ela mostrou as marcas do martírio, e foram observados dois buracos em um dos postes, causados pelos pregos.
Na quinta-feira santa, os judeus deliberaram sobre o que fariam com o corpo, conforme relatado posteriormente por um deles. Na sexta-feira, colocaram o cadáver em um saco e o levaram para um bosque próximo, chamado Thorpe Wood. Na entrada do bosque, encontraram um homem chamado Aelward Ded, que, ao tocar o saco, percebeu que continha um corpo humano. Sentindo-se descobertos, os judeus fugiram, embrenharam-se no bosque, penduraram o corpo em uma árvore e voltaram rapidamente a Norwich para evitar investigações. Eles forçaram Aelward Ded a manter silêncio, e, de fato, a verdade só veio à tona cinco dias depois (24 de março de 1144).
Na noite de sexta-feira santa, uma luz foi vista no local do bosque onde o corpo de Guilherme fôra pendurado. No dia seguinte, um morador de Norwich encontrou um lenhador que relatou ter descoberto uma criança assassinada. Ambos se aproximaram, observaram as feridas e a presença da mordaça na boca. Na segunda-feira de Páscoa, o corpo foi enterrado no local sem as cerimônias da Igreja. Entre as crianças que viram o cadáver, algumas reconheceram Guilherme. O tio quis confirmar: o corpo foi exumado, e estava incorrupto, exalando um doce perfume. Decidiu-se transferi-lo para o cemitério dos monges de Norwich, o que foi feito em 24 de abril. Milagres ocorreram, proclamando a santidade da criança mártir. Houve várias trasladações do corpo entre 1144 e 1172. Quando Thomas de Montmouth escreveu seu relato, o corpo encontrava-se na igreja de Norwich, na chamada Capela dos Mártires.
Quanto ao reconhecimento oficial do culto a essa criança, ele não foi formalizado. Bento XIV (De beatificatione, l. I, c. xiv, n. 4) apenas menciona que os bolandistas confirmam a existência desse culto. Observou-se que Guilherme de Norwich foi a primeira vítima do que se chamou de “assassinato ritual dos judeus”.
2. São Simão de Trento (†1472)
Em 1472, na quarta-feira da Semana Santa, judeus da cidade de Trento, recorrendo a um deles chamado Tobias, que exercia a medicina, buscaram uma criança cristã como vítima. Tobias aproveitou o momento em que os cristãos estavam reunidos na igreja para o ofício das trevas para atrair um menino de dois anos e alguns meses, chamado Simão ou Simeão. Aproveitando a ausência dos pais, Tobias aproximou-se da criança, que estava na soleira da casa, estendeu-lhe a mão de maneira afetuosa, e a vítima inocente pôs-se a seguir o homem desconhecido. A certa distância da casa paterna, a criança virou-se, soltou um gemido triste e, chorando, chamou pela mãe. Assustado, o judeu deu a Simão uma moeda e o acalmou com palavras suaves. No final da rua, havia um sapateiro trabalhando em sua oficina; Tobias parou por um instante antes de passar diante dele, esperou que o artesão olhasse para outro lado, atravessou rapidamente a rua e conseguiu levar a criança para a casa de um correligionário chamado Samuel. Uma vez em segurança, os criminosos acalmaram a criança com frutas e guloseimas. Os pais de Simão, ao voltarem para casa, inquietaram-se ao não encontrar o filho. Procuraram-no em vão nos vizinhos onde ele costumava ir, percorreram a cidade sem sucesso e, surpreendidos pela noite, não ousaram entrar nas casas dos judeus para investigar, retornando para casa em prantos.
Na noite de quinta para sexta-feira santa, os judeus levaram a criança a um vestíbulo contíguo à sua sinagoga. Um ancião chamado Moisés tomou a criança em seu joelhos, colocaram um lenço sobre sua cabeça e os miseráveis fizeram várias incisões em seu pequeno corpo, coletando o sangue em uma bacia. Alguns seguravam suas pernas, outros estendiam seus braços em forma de cruz. Depois, ergueram-no de pé, e dois algozes o mantiveram nessa posição enquanto outros perfuravam seu corpo com sovelas e ponteiros. Quando a criança morreu, todos se puseram a cantar à sua volta: “Foi assim que tratamos Jesus, o Deus dos cristãos: que todos os nossos inimigos sejam para sempre confundidos”. Isso ocorreu em 24 de março de 1472.
Concluída a tarefa, os judeus esconderam o cadáver primeiro em um palheiro, depois em um porão. Em seguida, jogaram-no no rio Ádige. Por intervenção divina, os autores do crime foram descobertos, levados a tribunal, confessaram o crime e foram condenados à pena capital.
O corpo da criança foi retirado do rio, e uma capela foi erguida em sua honra no local da sinagoga onde ele foi martirizado. Milagres foram atribuídos à sua intercessão, e multidões foram venerar suas relíquias. Cegos recuperaram a visão, e muitos doentes recuperaram a saúde.
Três anos após o assassinato, em 10 de outubro de 1475, o papa Sisto IV, informado dos acontecimentos em Trento, proibiu temporariamente o culto à criança, reservando-se o direito de decidir após uma investigação conduzida por um comissário. A carta de Sisto IV é citada integralmente por Bento XIV (De beatificatione, l. I, c. xiv, n. 4). O bispo de Trento, João Hinterbach, conduziu um processo que concluiu pela existência de um assassinato ritual. O comissário papal realizou um segundo processo e constatou falsificações por parte dos escrivães do bispo. Houve grande agitação em Trento. Sisto IV ordenou um terceiro processo em Roma e, em 20 de junho de 1478, declarou que o processo de Hinterbach fora conduzido de forma regular. Isso era usar da forma mais moderada diante da efervescência e do fato consumado (a recente condenação e execução dos culpados). Contudo, ele recusou autorizar o culto de Simão (ou Simeão) e ordenou ao bispo que não molestasse os judeus. Isso significava declarar que a instrução não o tinha levado a uma convicção firme sobre a culpabilidade dos judeus (em geral).
O caso não terminou aí. Em 1584, com a aprovação de Gregório XIII, o novo martirológio romano, preparado pelo cardeal Barônio, incluiu, na data de 24 de março, a menção a São Simão, criança mártir de Trento. Sisto V, em sua bula Regni coelorum de 8 de junho de 1588, ratificou o culto de Simão para a cidade e a diocese de Trento, confirmando-o com base nos milagres, sem atribuir a morte a razões rituais ou à ação de judeus. Bento XIV, em sua bula de 22 de fevereiro de 1755, pareceu acreditar no assassinato ritual, pelo menos num sentido lato. Um relatório apresentado ao Santo Ofício em 21 de março de 1758 pelo cardeal Ganganelli (futuro Clemente XIV) considerou verdadeiros os casos de Simão de Trento e André de Rinn, mortos em ódio à fé cristã.
Assim, permanece aceito que, nesses casos e em outros, judeus mataram crianças cristãs durante a Semana Santa, em ódio a Jesus Cristo, atos que podem ser qualificados como assassinatos rituais em sentido lato. A opinião de Bento XIV sobre o assunto é relevante, assim como a aprovação por Sisto V do culto a São Simão de Trento e sua inclusão no martirológio romano de Gregório XIII, o que pode ser considerado uma beatificação equipolente (Bento XIV, De beatificatione, l. III, c. xv, n. 6).
3. São Ricardo de Pontoise (†1179)
Ricardo, uma criança, foi crucificado em Pontoise por judeus fanáticos em 25 de março de 1179, após sofrer cruéis torturas. Esse assassinato foi uma das causas que levaram à expulsão dos judeus da França pelo rei Filipe em abril de 1182. O corpo foi trasladado para Paris, para a igreja dos Santos Inocentes, onde foi colocado em uma urna e ali operou vários milagres. A cabeça ainda estava na igreja dos Santos Inocentes no início da Revolução Francesa. A criança mártir era honrada em Paris em 30 de março e em Pontoise em 25 de março (Bento XIV, De beatificatione, l. I, c. xlv, n. 4).
4. O Beato Rodolfo de Berna (†1287)
Outra vítima dos judeus, morto em ódio a Cristo em 17 de abril de 1287. O corpo, encontrado dias após o assassinato, foi sepultado na catedral de Berna, perto do altar da Santa Cruz. Em 1869, a Sagrada Congregação dos Ritos aprovou o culto desse beato para a diocese de Berna.
5. O Beato Werner de Bacharach (†1287)
Werner, nascido por volta de 1273, filho de um vinicultor, no vilarejo de Womrath, a poucos quilômetros de Bacharach, na Renânia, perdeu o pai ainda jovem e sofreu maus-tratos de um homem violento com quem sua mãe se casara em segundas núpcias. Fugiu em busca de alguém que tivesse piedade dele. Chegado a Oberwesel, colocou-se a serviço de um judeu. Na quinta-feira santa, 19 de abril de 1287, após assistir ao ofício e receber a comunhão, foi apanhado por um grupo de judeus que, para forçá-lo a expelir a hóstia consagrada, submeteram-no a torturas, abriram suas veias em vários lugares e o mataram. Na noite seguinte, colocaram o corpo num barco para o atirarem no Reno, mas, não conseguindo, lançaram-no num buraco em Bacharach. O corpo foi descoberto e sepultado em São Cuniberto de Bacharach. Milagres atestaram sua santidade.
Em 1428, uma magnífica igreja foi erguida em sua honra, com uma solene elevação e trasladação de seu corpo. Um processo de beatificação foi iniciado, mas não parece ter sido concluído por Martinho V. No século XVI, a igreja de Besançon obteve uma relíquia do mártir, e seu nome tornou-se célebre na região, sendo escolhido como patrono pelos vinicultores. Ele também é honrado na Auvergne sob o nome de Verny.
6. O Beato André de Rinn (†1462)
Já foi mencionada a história do beato Werner, imolado por judeus na quinta-feira santa de 1287, na Renânia. Um caso semelhante teria ocorrido no Tirol, em Rinn, perto de Innsbruck.
André nasceu em 1459, de pais camponeses. Seu pai morreu quando ele tinha dois anos, e ele foi confiado a seu tio e padrinho, um estalajadeiro. Em 12 de julho de 1462, o pequeno André desapareceu. Sua mãe o encontrou pendurado em uma árvore, seu pobre corpo crivado de golpes de punhal. O tio afirmou tê-lo vendido a judeus, mercadores itinerantes. Mostrou as moedas de ouro. Mas ei-las que estavam transformadas em folhas de salgueiro… O homem veio a falecer algum tempo depois em estado de delírio. Em 1475, quando judeus de Trento foram torturados por matar uma criança cristã chamada Simão, os camponeses de Rinn recordaram o caso de André.
O local onde o corpo foi encontrado foi chamado Judenstein (Pedra dos Judeus). Falaram-se de milagres, e o culto à criança espalhou-se pelo norte do Tirol. Em 1670, uma capela foi erguida sobre suas relíquias. Em 1750, Bento XIV confirmou o culto e concedeu um ofício para a região, mas, em 1755, recusou a canonização de André ao bispo de Brixen. É possível que a criança tenha sido morta pelo tio em um acesso de loucura, e que os judeus tenham sido uma invenção.
7. O Beato Hugo de Lincoln (†1255)
Ao falar de Hugo de Lincoln, pensa-se no cartuxo, bispo de Lincoln de 1186 a 1200. Mas houve um pequeno Hugo após esse bispo. Trata-se de uma criança que teria sido sacrificada por judeus em 1255. Segundo J. Capgrave, judeus de Lincoln capturaram um menino cristão de oito anos chamado Hugo. Em ódio a Cristo, repetiram as cenas da Paixão, crivaram-no de golpes de punhal e o crucificaram, extirpando-lhe, por fim, as entranhas. Atrocidades judaicas semelhantes são relatadas nos Acta [Sanctorum] para as datas de 24 e 25 de março, 17 e 19 de abril, e 12 de julho.
8. São Domingos de Val de Saragoça (†1250)
O pequeno Domingos (Dominguito) de Val, filho do tabelião Sancho e de Isabel, teria sido crucificado aos sete anos e morto com uma ferida no lado por judeus em Saragoça, Aragão, em 1250. Seu culto é bem documentado (Acta sanctorum, 31 de agosto, T. VI, p. 777–783).
9. São Cristóvão de Toledo (†1490)
Seria um desses pequenos “inocentes” raptados e crucificados por judeus. Seu culto foi confirmado por Pio VII em 1805. É patrono de La Guardia.
10. Herbert de Huntingdon (†1180)
11. Conrado de Weissensee (†1303)
12. Luís (ou Ludwig) de Ravensburg (†1429)
13. Lorenzino Sossio (†1485)
Etc.
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PARTE 2
Na primeira parte deste artigo, vimos que, em várias ocasiões, os Padres Beneditinos mostraram-se reticentes quanto à possibilidade de estarem diante de crimes rituais. Eles até sugeriram, em uma ou outra ocasião, que os cristãos da época poderiam ter acusado os judeus, de forma errônea e gratuita, nesses casos de assassinato de crianças.
No entanto, o Talmude ensina que “todo judeu que derrama o sangue de incrédulos (não judeus) faz algo equivalente a uma oferenda a Deus” (Bammidber Raba c. 21 & Jalkut 772).
Apresentamos agora as observações de Israël Shamir. Esses excertos são retirados de suas coletâneas de artigos publicadas sob os títulos Notre Dame des Douleurs e La Bataille du Discours.
II. Simples assassinatos ou crimes rituais?
1. Logo que os judeus não gostam de uma coisa, é “antissemitismo”…
“A antiga Jewish Encyclopaedia (Vol. III, p. 266) enumera os seguintes casos, começando por Guilherme de Norwich: cinco no século XII; quinze no século XIII; dez no século XIV; dezesseis no século XV; treze no século XVI; oito no século XVII; quinze no século XVIII e trinta e nove no século XIX. A contagem pára em 1900. Total: cento e treze crimes rituais. Houve ainda mais casos no século XX. Qual é a razão dessa crença? Haveria uma conspiração de escala mundial — persistindo ao longo dos séculos — com o objetivo de implicar judeus inocentes em crimes odiosos, ou haveria realmente um crime por trás dessas acusações? O intrépido professor Israël Yuval abordou essa questão em sua obra seminal já citada, Two Nations in Your Womb (‘Duas Nações em teu Seio’), disponível em hebraico. Sua tradução para o inglês deveria ter sido publicada há alguns anos pela University of California Press, mas, por várias razões, ainda não está disponível. Decerto é pura coincidência que alguns acadêmicos judeus americanos tenham levantado objeções contra a publicação desse livro e pedido que ele fosse ‘apagado da consciência pública’.

“Os cristãos ficavam particularmente incomodados com o costume, muito respeitado pelos judeus, de amaldiçoar os gentios. Diariamente, os judeus pediam a Deus que matasse, destruísse, humilhasse, exterminasse, fizesse passar fome, difamasse, empalasse… os cristãos, que invocasse sobre eles sua vingança divina e cobrisse o manto de Deus com o sangue dos goyim. O livro de Israël Yuval oferece ao leitor uma rica seleção de maldições de gelar o sangue. Os cruzados não eram racistas. Eles não consideravam os judeus intrinsecamente maus, mas rejeitavam a ideologia de ódio e vingança expressa por essas maldições judaicas… Os cruzados davam aos judeus a escolha entre a expulsão e a conversão. (…) Quando o ‘perigo’ do batismo se tornava iminente, muitos deles assassinavam seus próprios filhos e se suicidavam. Isso é amplamente atestado: cronistas judeus e cristãos da época descrevem longamente esses eventos, com os judeus glorificando esse comportamento e os cristãos o condenando. Assassinavam eles as crianças para salvá-las das garras do ‘Cristo-demônio’? Bem, não exatamente. Isso já seria, por si só, suficientemente horrível, mas a realidade era pior. O crime era cometido de maneira ritual, seguido de libações com o sangue da vítima. De fato, os judeus asquenazes acreditavam firmemente que o sangue judeu derramado tinha a virtude mágica de invocar a vingança divina sobre a cabeça dos gentios. Outros usavam o sangue da vítima como expiação. Em Mainz, Yitzhak ben David, líder da comunidade judaica, levou seus filhos pequenos à sinagoga, degolou-os e espalhou seu sangue sobre a Arca, proclamando: ‘Que este sangue de cordeiro inocente seja uma expiação pelos meus pecados’. Isso aconteceu dois dias após confrontos com cristãos, quando não havia mais perigo a temer.
“A imagem de judeus matando crianças por motivos cultuais teve um impacto enorme sobre os povos cristãos da Europa. Esse comportamento não era de modo algum comparável ao martírio cristão. Enquanto os mártires cristãos permitiam que outros os matassem em nome de sua fé, nenhum deles jamais se suicidou, muito menos assassinou seus próprios filhos ou os de outros, com esse propósito sublime. ‘Isso contribuiu para criar uma imagem de crueldade e dureza implacável dos judeus. Com o passar dos anos, as circunstâncias exatas que cercavam os assassinatos de crianças foram esquecidas, mas a imagem de um judeu matando crianças permaneceu gravada na psique europeia… Isso deu origem à ideia de que os judeus trucidavam crianças cristãs, quando, na realidade, os judeus assassinavam seus próprios filhos’, explica o professor Yuval.
“Não deixa de ser verdade que, nalguns casos, a criança raptada era circuncidada pouco antes de ser assassinada, ou seja, era antes ‘transformada em criança judia’. Quanto à expiação dos pecados, até mesmo o sangue de um cordeiro teria bastado. Numerosos relatos medievais de judeus matando seus filhos porque haviam entrado numa igreja ou porque haviam manifestado o desejo de serem batizados não têm nada de particularmente surpreendente, quando se sabe que os pais e a família mais distante de judeus convertidos guardavam luto por eles. Mesmo no século XX, o doce Tevye, o Leiteiro, herói idealizado de Fiddler on the Roof (‘Um Violinista no Telhado’) de Sholem Aleichem, põe-se de luto por sua filha batizada… Ao longo de oito séculos, os judeus foram condenados por mais de cem casos de assassinato ritual e oferenda de sangue… No mundo cristão, algumas pessoas praticavam magia negra, acompanhada de sacrifícios humanos, durante um ritual ‘cristão’ pervertido. Eles substituíam por sangue humano o vinho da comunhão, que é o sangue de Cristo, ele próprio sangue do Cordeiro Pascal. Pode-se razoavelmente pensar que os judeus nunca tenham visto nascer entre eles magos nem feiticeiros capazes de usar sangue humano para lavar os pecados ou acelerar a salvação? (…)
“A vítima do assassinato de Damasco era um padre, o que leva Aaronovitch a classificar o caso na categoria de ‘acusação antissemita de crime ritual’. Mas padres, freiras e monges foram de fato mortos por judeus. Centenas foram degolados em 610, em Antioquia, e milhares, em 614, em Jerusalém. Monges e padres são mortos ainda hoje em Israel. Há alguns anos, um colono, Asher Rabo, matou vários monges com um machado e salpicou as paredes com o seu sangue. Ele foi preso por um monge do mosteiro do Poço de Jacó, e um tribunal israelense o considerou mentalmente irresponsável. Mais tarde, duas freiras russas foram assassinadas com um machado no mosteiro de São João Batista. Praticamente todos os assassinos de padres e profanadores de igrejas e mesquitas foram considerados mentalmente perturbados por juízes israelenses, mas sua irresponsabilidade psíquica não era de natureza ordinária. Aaronovitch apresenta o caso de Damasco como uma ‘calúnia contra todos os judeus’. Mas apenas um indivíduo foi acusado do assassinato. (…) Se acusar um judeu equivale a acusar todos, então não há mais qualquer possibilidade de corrigir erros leves com medidas modestas.
“Na verdade, os filossemitas, em vez de se manterem calmos e deixarem a justiça fazer seu trabalho, criaram uma histeria coletiva na França e na Rússia, conseguindo, de fato, absolvições, mas ao custo da perda total da confiança do povo no sistema judicial desses dois países. Após os julgamentos de Dreyfus e Beilis, os judeus se colocaram acima das leis.
“Paradoxalmente, essa tendência dos judeus de conceder refúgio a todo tipo de criminosos decorre de sua visão de mundo, diametralmente oposta à dos cristãos… Assim, aos olhos dos cristãos, os judeus não têm culpa coletiva. Para um judeu, ao contrário, admitir que um único judeu possa ser culpado implicaria a culpa de todos os judeus. É por isso que, para os judeus, todos os cristãos (ou todos os alemães, todos os palestinos, todos os… etc.) são culpados por uma ofensa cometida por um ou alguns deles. E é por isso que os não judeus são sempre culpados, aos olhos dos judeus”.
2. Páscoa sangrenta
“O Dr. Toaff é filho do grão-rabino de Roma e professor na Universidade Judaica de Bar-Ilan, perto de Tel Aviv. Tornou-se conhecido por seus estudos aprofundados sobre a comunidade judaica medieval.
“Foi ao conduzir suas pesquisas nesse campo que ele descobriu que as comunidades judaicas asquenazes que viviam no norte da Itália praticavam uma forma particularmente horrível de sacrifícios humanos: seus sábios e adeptos sequestravam e crucificavam bebês cristãos, usando seu sangue em rituais mágicos que invocavam o Espírito da Vingança contra os odiados goyim.

“Ele se interessou particularmente pelo caso de São Simão de Trento. Esse bebê de dois anos, originário da cidade italiana de Trento, foi sequestrado de sua casa por um grupo de judeus asquenazes na véspera da Páscoa de 1475. Na noite seguinte, os sequestradores assassinaram a criança, sangraram-na, perfuraram seu corpo com agulhas e a crucificaram de cabeça para baixo, enquanto entoavam: ‘Que todos os cristãos pereçam, estejam eles na terra ou no mar!’. Foi assim que celebraram sua Páscoa — um ritual arcaico que consistia em derramar sangue e matar bebês, no sentido mais literal de matar, sem qualquer recurso à transubstanciação do sangue em vinho.
“Os criminosos foram presos, confessaram e foram considerados culpados pelo Bispo de Trento. Imediatamente, os judeus protestaram junto ao Papa, que enviou o Bispo de Ventimiglia a Trento para investigar. Este teria recebido um suborno considerável dos judeus e, como resultado, concluiu que a criança havia sido assassinada por uma bomba plantada pelo Hamas para arruinar a reputação de Israel, já que nenhum projétil de artilharia de Tsahal foi encontrado na praia de Trento. ‘Simão foi morto por cristãos, com a evidente intenção de trazer a ruína aos judeus’, diz a Encyclopaedia Judaica do pré-guerra, de forma extremamente premonitória: de fato, esse mesmo argumento foi usado, palavra por palavra, pelos judeus em 2006, para tentar justificar o massacre em massa de crianças em Kafr Qana.
“No século XV, os judeus eram, sem dúvida, influentes. Mas ainda não eram (ainda) todo-poderosos. Eles não podiam manipular o mundo inteiro como fizeram mais tarde. (…) O Papa Sisto IV reuniu uma comissão de seis cardeais, presidida pelo melhor jurista da época, e confiou-lhes a revisão do caso. E (mesmo) essa Corte Suprema considerou culpados os assassinos. As atas do processo sobreviveram aos séculos e podem ser consultadas hoje no Vaticano.
“Em 1965, a Igreja Católica Romana [nota de La Sapinière: Israel Shamir negligencia aqui o fato de que, segundo a opinião comum dos teólogos, um papa herege perde sua autoridade. Isso explica por que todas as posições escandalosas tomadas por um tal ‘papa’ herege (como Paulo VI, João Paulo II, Bento XVI e Francisco) são nulas por direito e não comprometem em nada a Igreja Católica. Portanto, deve-se entender que, quando Shamir fala da Igreja do Vaticano II, ele se refere à igreja conciliar e apóstata que se apresenta abusivamente como católica porque ocupa materialmente suas sedes episcopais] iniciou uma espécie de perestroika. Foram os tristes dias do Vaticano II, durante os quais os modernizadores erradicaram os fundamentos da tradição, na esperança de atualizar a fé e alinhá-la ao novo discurso da modernidade compatível com o judaísmo. Em termos mais simples: os bispos queriam ser amados pela imprensa liberal.
“Os judeus, sempre atentos, aproveitaram essa oportunidade para pressionar os bispos a descanonizar São Simão de Trento. Os bispos ficaram muito felizes com essa chance; já durante um ritual bizarro, os líderes da Igreja Católica haviam declarado os judeus inocentes da crucificação de Cristo, enquanto reconheciam a culpa da Igreja na perseguição aos judeus; em comparação com uma reviravolta tão monumental, a crucificação de um bebê italiano era algo trivial, como se pode imaginar… Em menos tempo do que se leva para dizer, os bispos decidiram que as confissões dos assassinos não eram válidas, pois teriam sido obtidas sob tortura, e assim os acusados foram absolvidos, enquanto o jovem mártir foi simplesmente descartado. Seu culto foi prontamente proibido, e as relíquias da criança martirizada foram retiradas da igreja onde repousavam e jogadas em um local secreto, para evitar qualquer retomada intempestiva de eventuais de peregrinações.
“Mas voltemos ao Dr. Ariel Toaff. Ao estudar as atas do processo, ele fez uma descoberta surpreendente: longe de terem sido ditadas por investigadores zelosos recorrendo à tortura, as confissões dos assassinos de Simão continham elementos completamente desconhecidos pelos homens da Igreja ou pelos gendarmes italianos. Os assassinos pertenciam à pequena comunidade asquenaze atrasada: praticavam ritos próprios, muito diferentes dos praticados pelos judeus italianos nativos. Esses ritos foram fielmente descritos em suas confissões, mas eram totalmente desconhecidos pela brigada criminal da época. ‘Essas fórmulas litúrgicas, em hebraico, com um tom violentamente anticristão, não poderiam ser projeções dos juízes, que não tinham ciência dessas orações, que não pertenciam ao ritual dos judeus italianos, mas à tradição asquenaze’, escreve Toaff. (…)
“Essa descoberta é capaz de abalar a Igreja, proporcionar-lhe um choque salutar e restaurar sua forma. O nobre rabino erudito Ariel Toaff, doutor universitário, recolocou São Simão na ordem do dia — sim, São Simão, essa vítima dupla: vítima da vingança no século XV e vítima da perestroika vaticana do século XX. (…)
“O crime perpetrado em Trento não foi, de forma alguma, uma exceção. Toaff descobriu muitos outros casos desses sacrifícios sangrentos, nos quais crianças mutiladas tiveram seu sangue usado na confecção de matzot (pão ázimo), com ocorrências que se estendem por mais de cinco séculos da história europeia. (…) Comerciantes judeus faziam comércio disso, acompanhado de certificados rabínicos que autorizavam a venda; o produto mais valorizado e caro era o sangue de um goy katan, ou seja, de uma criança não judia. Vendedores comuns ofereciam, por sua vez, apenas sangue de circuncisão, menos valorizado. Esses sacrifícios sangrentos eram ‘ações e reações instintivas, viscerais, virulentas, nas quais crianças, sem entender o que lhes acontecia, tornavam-se vítimas inocentes do amor a Deus e da vingança’, escreveu Toaff na introdução de seu livro. ‘Seu sangue banhava os altares de um Deus que, acreditava-se, precisava ser guiado, e às vezes até impelido impacientemente, conforme o caso, para proteger ou punir’.
“Essa observação um tanto hermética torna-se mais clara ao ler a obra do professor Israel Yuval, Two Nations in Your Womb. Yuval explica que as libações de sangue eram necessárias (aos olhos dos magos judeus) para invocar a Vingança Divina sobre os goyim. Toaff vai além de Yuval, destacando o uso habitual de sangue humano pelos judeus na Idade Média para fins mágicos e enfatizando o elemento anticristão: a crucificação das vítimas e as vociferações contra Cristo e a Virgem Maria. Nesse ponto, seu livro é corroborado pelo trabalho (embora mais tímido) de Elliott Horowitz, Reckless Rites: Purim and the Legacy of Jewish Violence (Rituais sem Fé nem Lei: Purim e o Legado da Violência Judaica). Horowitz informa seus leitores sobre rituais estranhos: flagelações da Virgem, destruição de crucifixos, espancamentos e assassinatos de cristãos.

“Isso, agora, pertence ao passado. Hoje, podemos olhar para trás e dizer: sim, alguns magos e místicos judeus praticaram sacrifícios humanos. Eles assassinaram crianças, mutilaram seus pequenos corpos e usaram seu sangue para provocar a Ira Divina contra seus vizinhos não judeus. Eles zombaram dos ritos cristãos usando o sangue de cristãos em lugar do sangue de Cristo. A Igreja e os povos de toda a Europa tinham, portanto, razão. Os europeus (assim como os árabes e os russos) não eram fanáticos loucos; eles entendiam muito bem o que viam com seus próprios olhos. Puniram os culpados e deixaram os inocentes viverem em paz. Nós, cristãos, devemos revisitar essa página aterradora da história e nos orgulharmos da Igreja, que sabia ser justa e humana. E não é proibido derramar uma ou duas lágrimas pelas pobres crianças destruídas por esses monstros sedentos de ira divina. (…)
“Esperamos que o ato extremamente corajoso do professor Toaff represente um ponto de inflexão na vida da Igreja. O desvio causado pela perestroika do Vaticano II foi longe demais. (…) Foi em Trani que, há um milênio, uma hóstia consagrada foi roubada de uma igreja por uma judia. Essa ladra decidiu fritar o corpo de Cristo em óleo fervente. Mas, milagrosamente, a hóstia transformou-se em carne humana e começou a sangrar abundantemente, a ponto de o sangue sagrado se espalhar por toda a casa daquela mulher judia. De fato, casos de profanação de hóstias são bem documentados em toda a Europa; foram bem descritos por Yuval, Horowitz e Toaff; eles realmente ocorreram, e apenas um descaramento judaico infame (chutzpah) pôde levar a Associação Romana dos Amigos de Israel a enviar uma carta ao Papa exigindo o fim de um culto observado há um milênio. E essa associação obteve sucesso. A Igreja se submeteu, os painéis da exposição foram desmontados, a procissão foi cancelada e desculpas foram apresentadas aos judeus, para grande satisfação dos embaixadores de Israel Gideon Meir (junto ao governo italiano) e Oded Ben Hur (junto ao Vaticano), que haviam ordenado essa capitulação.
“‘Mundo estranho o nosso’, escreveu Domenico Savino no excelente site Effedieffe. ‘A ofensa é imputada à fé cristã, e pede-se perdão aos culpados’. (…) Aparentemente, os judeus se sentiram visados… Então, imediatamente, atacaram Toaff como um enxame de moscas furiosas. Um historiador judeu renomado, rabino e filho de rabino, relatou eventos de cinco séculos atrás. E daí? Isso é motivo para comoção? Na Idade Média, o uso de sangue humano, necromancia e magia negra não era exclusividade dos judeus; bruxas e magos goyim também não ficavam atrás! Então, simplesmente juntem-se ao campo da humanidade, com suas verrugas e defeitos! Mas isso é humilhante demais para os arrogantes Eleitos.
“‘É absolutamente incrível que haja alguém — um historiador israelense, ainda por cima! — que dê a menor legitimidade à acusação difamatória de sangue que foi a fonte de sofrimentos indizíveis e inúmeras agressões contra os judeus ao longo da história’, declarou Abe Foxman, diretor nacional (nos EUA) da Anti-Defamation League (Liga Anti-Difamação), que classificou o livro como ‘infundado’, acusando-o de ‘dar munição aos antissemitas em todo o mundo’. Nem rabino nem historiador, Foxman sabe a priori, por sua fé e convicção íntima, que se trata de ‘absurdidades’. Mas ele não disse o mesmo sobre o Massacre de Jenin? Em um comunicado de imprensa, a Universidade Bar-Ilan (israelense) ‘expressou sua grande indignação e extremo descontentamento com Toaff, devido à falta de tato demonstrada na publicação de seu livro sobre as acusações de assassinatos rituais (judeus) na Itália. Sua escolha de uma editora privada italiana, o título particularmente provocador do livro e as interpretações dadas pela mídia ao seu conteúdo ofenderam as sensibilidades dos judeus em todo o mundo e prejudicaram o delicado tecido das relações entre judeus e cristãos. A Universidade Bar-Ilan condena com a maior veemência e rejeita totalmente o que o livro de Toaff parece sugerir, assim como as reportagens da mídia sobre seu conteúdo, como se as acusações de sangue que levaram ao assassinato de milhões de judeus inocentes tivessem algum fundamento’.
“Que termos inflamados! Toaff enfrentou imediatamente uma enorme pressão comunitária: aos 65 anos, ele corria o risco de acabar na miséria, na rua, provavelmente sem aposentadoria, sem amigos e sem alunos, ostracizado e excomungado. Talvez até sua vida estivesse em perigo; sabe-se que os judeus têm o costume de usar assassinos profissionais extremamente discretos para eliminar tais incômodos. Antigamente, chamavam-nos de rodef. Hoje, são os kidon. Mas apenas o nome mudou: (…) um farol de vigilância como o Searchlight, patrocinado pela ADL, iria revelar, invadir ou inventar sua vida privada; muitos judeuzinhos na internet não hesitariam em difamá-lo em seus blogs e em sua nau capitânia, a chamada ‘enciclopédia online’ Wikipedia.
“No início do ataque, ele tentou resistir: ‘Jamais renunciarei à minha devoção à verdade e às liberdades acadêmicas, mesmo que o mundo inteiro me crucifique!’ Toaff explicou ao jornal israelense Haaretz que há uma base factual incontestável para algumas das acusações de crimes rituais feitas contra judeus na Idade Média. Mas Toaff não era de pedra. Como Winston Smith, o personagem principal de 1984 de George Orwell, ele cedeu em sua cela mental vigiada pela Inquisição judaica. Assim, publicou suas mais servis desculpas, interrompeu a distribuição de seu livro, prometeu submetê-lo ao imprimatur judaico e até ‘doar todos os fundos provenientes da venda de seu livro à Anti-Defamation League’ do indescritível Abe Foxman.
“O Haaretz relatou que ‘agora, ele (Toaff) quer deixar claro: os judeus de Trento não assassinaram Simão, nem qualquer outra criança cristã em um contexto ritual. Sua conclusão é que os judeus seriam incapazes de matar crianças cristãs para obter seu sangue’. Se tivessem apertado o garrote um pouco mais, Toaff teria confessado que ele mesmo matou Simão, pessoalmente, apenas para difamar os judeus, que são, por definição, acima de qualquer suspeita, pelos séculos dos séculos. Suas últimas palavras foram: ‘Jamais permitirei que qualquer detrator dos judeus me use ou utilize minhas pesquisas como instrumento para reacender as chamas, mais uma vez, do ódio que levou ao assassinato de milhões de judeus. Apresento minhas sinceras desculpas a todos aqueles que possam ter sido ofendidos pelos artigos e fatos distorcidos atribuídos ao meu livro, assim como a mim mesmo’.
“Assim, Ariel Toaff cedeu à pressão da comunidade e trocou sua integridade acadêmica por um pouco de alívio e tranquilidade? Seus trabalhos futuros estão comprometidos para sempre pelo acordo que foi forçado a fazer. Mas com que direito o julgaríamos? Não sabemos, de fato, que torturas mentais lhe foram infligidas pela Gestapo judaica da ADL, nem como ele foi obrigado a se retratar. Não devemos culpá-lo por sua fraqueza, mas, ao contrário, agradecê-lo por sua descoberta. O que ele nos trouxe é mais que suficiente. De certa forma, sua contribuição é semelhante à de Benny Morris e outros novos historiadores israelenses: eles apenas repetiram dados que já conhecíamos de fontes palestinas, como Abu Lughud e Edward Said. Mas fontes palestinas não eram consideradas confiáveis: apenas fontes judaicas são tidas como dignas de crédito em nosso universo judaicocêntrico. É por isso que Morris e outros ajudaram milhões de pessoas a se libertarem do discurso sionista imposto. Isso não teria sido necessário se fôssemos capazes de acreditar em um goy contra um judeu, em um árabe falando sobre a Expulsão de 1948, ou em um italiano falando sobre São Simão, ou talvez até em um alemão mencionando as deportações da Segunda Guerra Mundial. E agora Toaff libertou muitas almas cativas ao repetir o que já sabíamos de várias fontes italianas, inglesas, alemãs ou russas.
“Se a ‘difamação sangrenta’ se revela não uma difamação, mas um crime concreto, então talvez outras afirmações judaicas também desmoronem? (…) Nem a Igreja nem a Ummah muçulmana exigem tal disciplina cega, e nem o Papa nem qualquer imã têm sobre seus correligionários o poder que o Sr. Abe Foxman detém. Foxman não se importa com a verdade: ele sempre opta pelo que (aos seus olhos, pelo menos) é ‘bom para os judeus’. E pouco importa a multidão de testemunhas: mesmo uma transmissão ao vivo de um sacrifício humano ritual judaico não o forçaria a admitir uma verdade incômoda: ele sempre encontrará uma boa razão, pois só precisa de uma coisa, uma única coisa lhe importa: nossa confiança nele, nossa credulidade. Vimos isso no caso do bombardeio de Qana, no Líbano, quando aviões israelenses destruíram um prédio, matando cerca de cinquenta crianças, certamente muito mais do que os Sábios da Úmbria jamais mataram. Primeiro, os meios de comunicação negaram, depois, em um segundo momento, culparam as vítimas. Portanto, não espere que o livro de Toaff convença os judeus — nada é capaz disso.
“Não inveje essa união de corações e mentes judaicas; o outro lado dessa unidade é que nenhum judeu é livre. (…) Enquanto não se puder responder à pergunta ‘Isso é bom para os judeus?’ com outra pergunta: ‘E o que nos importa?’, permanece-se um prisioneiro em liberdade condicional, um cativo na ponta de sua corda, que nem sabe ao som de qual música está dançando. Mais cedo ou mais tarde, eles puxarão a corda. Mais cedo ou mais tarde, você terá que mentir, buscar palavras ambíguas para negar o que sabe ser verdadeiro e justo. A liberdade está à nossa porta; então, estendamos a mão e agarremo-la! Como o Reino dos Céus, a liberdade nos pertence no momento em que fazemos perguntas. A Liberdade é o Cristo, pois é com o coração que um homem escolhe o Cristo, não com seu prepúcio. Você é livre quando aceita o Cristo e pode responder, como diz o Evangelho [Mateus 5,37]: ‘Que seu sim signifique sim, sou cristão!’ e que seu não signifique não, não sou judeu!’”.
3. A “difamação sangrenta”
“A História é um braço-de-ferro permanente, porque a sua reescrita pode mudar a marcha do mundo. Certamente, não se poderia mudar o passado, diz o velho adágio. Mas se estamos descontentes com o nosso presente, podemos modificar a nossa compreensão do passado, e isso mudará o nosso futuro. (…) É ainda mais indicado comparar o avanço real do Dr. Toaff ao do seu colega judeu italiano, o Dr. Carlo Ginzburg, autor de História Noturna: Decifrando o Sabá. Ginzburg demonstrou que os friulanos, habitantes da região do Friuli, uma região italiana fronteiriça com o Vêneto, se dedicavam a uma forma de magia negra derivada dos seus ritos de fertilidade ancestrais. Toaff chegou a um resultado semelhante em relação aos judeus, nomeadamente que também eles se dedicavam à magia negra, a qual derivava do seu culto ancestral da vingança e da salvação-através-do-sangue-vertido. Mas os friulanos permaneceram serenos, enquanto os judeus quase lincharam o professor, demonstrando assim que os friulanos são pessoas de espírito aberto, capazes de descobrir com uma curiosidade benévola as travessuras dos seus antepassados, ao passo que os judeus são incapazes de digerir a notícia traumática da sua não-exclusividade, da sua não-eleição e da sua não-sacralidade. Em conjunto com o Dr. Ginzburg, o Dr. Toaff concluiu um processo de reavaliação da Idade Média, já muito bem descrito por Mircea Eliade na sua obra Ocultismo, bruxaria e correntes culturais. Eliade escreveu assim: ‘Já há oitenta anos, os eminentes investigadores Joseph Hansen e Henry Charles Lee consideravam que a magia negra era uma invenção da Inquisição, e não dos feiticeiros. Eles estimavam que essas histórias de sabá das bruxas, de ritos satânicos, de orgias e de crimes eram ou puramente imaginárias, ou resultavam de confissões arrancadas pela tortura. Hoje, sabemos — prosseguiu Mircea Eliade — que a magia negra não foi inventada pela Inquisição’. Nem tampouco, devemos acrescentar, os sacrifícios humanos judeus, cuja prova foi trazida pelo Dr. Toaff.
“Toaff estudou o caso de Simão de Trento, uma criança ritualmente assassinada por feiticeiros judeus. (…) Outro caso foi o de Hugo de Lincoln, uma criança assassinada ritualmente em 1225: de 90 judeus presos na sequência desse crime, mais de 70 foram libertados, tendo a sua inocência sido estabelecida, enquanto os culpados comprovados foram enforcados. Vê-se, pois, que estamos, nesta ocorrência, extremamente longe de qualquer linchamento! Cometendo um delito descarado de parcialidade étnica, a enciclopédia controlada por judeus Wikipedia qualifica Hugo de Lincoln de ‘supostamente assassinado’, ao passo que a ‘acusação falaciosa’ claramente estabelecida é, quanto a ela, qualificada de ‘difamação sangrenta’. O ‘blood libel’ (libelo de sangue) é uma definição padrão desses casos, insinuando que judeus, por definição sempre inocentes, eram acusados falaciosamente por cristãos cheios de preconceitos contra eles. Mas se uma lição moral pode ser tirada desses velhos casos criminais, eis o seu teor: o sentido europeu de justiça e equidade sempre prevaleceu, invariavelmente; enquanto os judeus culpados eram castigados, os judeus inocentes viveram e prosperaram, os quais representavam então a única comunidade não-cristã na Europa. (…)
“Quando se lêem os textos judaicos e filojudaicos datando de antes da Segunda Guerra Mundial, nota-se que o lugar que ocupa nos dias de hoje o dogma do Holocausto no universo judaicocêntrico não estava vago: ele era ocupado por pogroms na Rússia, pelo caso Dreyfus na França, pela Inquisição, pela expulsão dos judeus da Espanha, pela destruição do Templo de Jerusalém e, em larga medida, pelas ‘difamações sangrentas’! Todos esses discursos veiculavam uma única e mesma mensagem: proclamavam um sofrimento eterno, único, inexplicado e sem fundamento dos judeus, causado exclusivamente pelo ódio irracional dos gentios; eles unificavam e mobilizavam os judeus contra os goyim; permitiam derivar em parte uma pressão excessiva de inveja, hostilidade e desconfiança em relação aos judeus, transformando esses sentimentos negativos em piedade, e suscitando sentimentos de culpa em pessoas que não tinham nada com que se reprovar. (…)
“Todas essas histórias de sofrimentos imerecidos podem ser reduzidas a nada. Mas é preciso ter cuidado: não nos deixemos levar a remoer exclusivamente a questão dos judeus. É fazer-lhes demasiada honra. O necessário é libertar os judeus da judiaria, e não encerrá-los nela. É precisamente o que os dirigentes da judiaria desejariam. Mesmo que cada mentira histórica seja desmantelada, os poderosos continuarão a realçar a judiaria, a admirar a chutzpah dos judeus e a sua disciplina. Ora, a chutzpah nasce do desespero, e a disciplina não é senão o resultado de um discurso admitido tanto por judeus como por não-judeus: cabe a nós evitar o perigo de fazer piorar ainda mais esse estado de coisas. (…)
“Cada vez que houve exações contra judeus, elas foram causadas por exações cometidas por judeus. De fato, negacionista até à medula, nego a existência mesma do antissemitismo, esse ‘ódio irracional [alegado] contra os judeus’. Isso simplesmente não existe. A judiaria foi combatida, como qualquer forma de poder, desde a Igreja Católica Romana até à Standard Oil Corporation. Os judeus não são cordeiros, mas sim um fator perfeitamente ativo da vida ideológica e econômica. Pode-se estar do seu lado, ou contra eles. Mas daí a ‘odiá-los’? Certamente não. Os não judeus geralmente foram bem mais conciliadores para com os judeus do que o inverso. Mesmo a famosa ‘difamação sangrenta’, como se viu, refere-se, na verdade, a uma criminalidade perfeitamente real. Houve exações antijudaicas na Europa e no Oriente Médio? É inegável. Mas foram causadas por um ‘ódio irracional’? Certamente não. (…) Ora, os judeus eram — e representam ainda hoje — um poder. (…) Num mapa dos poderes dessa natureza, a judiaria apareceria como algo bastante impressionante. Os judeus representam um poder significativo no mundo em que vivemos. Constituem uma potência de primeira grandeza, mais poderosa que a Igreja Católica, decerto mais poderosa que a Itália ou que qualquer país europeu, mais poderosa que a Shell e a Agip ou que qualquer outra multinacional. (…)
“Não, não é um simples lobby: é a judiaria! Porque é ela tão poderosa, nos dias de hoje? Na minha obra Pardès, dei uma interpretação profunda, ainda que sutil, daquilo que constitui um ponto de virada tão profundo quanto sutil na história recente. Historicamente, pela sua própria natureza de igreja alternativa, a judiaria sempre se definiu pela sua oposição à Igreja apostólica. Com a queda da dominação da Igreja Católica, essa igreja alternativa que é a judiaria encontrou-se fortificada na mesma medida. (…) Os revisionistas do Holocausto pensam que o poder judeu se desmoronará no instante em que a narrativa do Holocausto for minada. Eles creem, de fato, que o poder judeu é fundado sobre a mentira. Não estou de acordo. O poder da judiaria é perfeitamente real; está fundado no dinheiro, na ideologia e em tudo aquilo em que se funda qualquer poder. Esse poder bem real deve primeiro ser desmantelado; é só depois que a história verídica poderá encontrar audiência. Bem entendido, nessa altura, a narrativa do Holocausto não interessará a ninguém, a não ser às pessoas diretamente envolvidas em suas próprias famílias”.

Primeiramente, gostaria de parabenizar pelo excelente trabalho realizado neste site. Em segundo lugar, gostaria de saber onde posso encontrar a fonte da citação atribuída ao Bammidber Raba c. 21 & Jalkut 772. Tenho encontrado apenas afirmações de que essa citação não é autêntica e de que se trata de uma adulteração do Talmud. Desde já, agradeço pela atenção.
Salve Maria, meu caro.
As citações controversas do Talmude – especialmente aquelas que tocam em temas cristãos – formariam, por si só, um capítulo historiográfico imenso e tão relevante quanto toda a vasta literatura já dedicada às relações entre católicos e judeus.
Nós mesmos, d’O Recolhedor, enfrentamos obstáculos consideráveis para resgatá-las na íntegra. Ao longo dos séculos, a própria Igreja promoveu a queima de exemplares talmúdicos, impôs censuras rigorosas a trechos julgados blasfemos ou, quando muito, autorizou edições expurgadas. Isso paradoxalmente acabou beneficiando a narrativa judaica contemporânea: ao suprimir ou alterar os textos originais, criou-se o terreno perfeito para que hoje se alegue que as citações incômodas são “falsificações antissemitas”. Não é por acaso que nenhuma delas aparece, por exemplo, em plataformas modernas como o Sefaria, que se baseiam quase exclusivamente em edições censuradas ou revisadas.
Estamos, porém, trabalhando para superar essa lacuna. Publicaremos aqui artigos detalhados, com referências precisas às edições antigas, manuscritos e testemunhos históricos, que permitirão ao leitor verificar por si mesmo a origem, o contexto e o teor exato dessas passagens, pondo fim, esperamos, a boa parte das dúvidas e das controvérsias alimentadas pela ausência de fontes acessíveis.
Fraternalmente em Cristo,
O Recolhedor.
Salve Maria!
Muito obrigado pela resposta tão bem explicada. Agradeço o esforço em buscar as fontes antigas para esclarecer essas citações.
Também gostaria de deixar claro que meu comentário anterior não teve a intenção de questionar o trabalho de vocês sobre a questão judaica. Independente dessa citação específica, é fato que o Talmud contém diversos trechos controversos, para dizer o mínimo, algo facilmente verificável na própria Enciclopédia Judaica — meu objetivo era apenas compreender melhor o assunto.
Agradeço novamente pela atenção e pelo excelente trabalho.