DE HOMERO JOHAS, ORLANDO FEDELI E OUTROS
Julio Fleichman
Fonte: A crise é de fé e é grave, p. 116, 117, 119, 120, 122, 146–158. Permanência, 2023.
Descrição: Trecho das memórias de Julio Fleichman.

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Abro aqui um parêntese: desde 1974, o filho de Sileno Ferreira da Costa e Tereza, Miguel [futuro Dom Tomás de Aquino, O.S.B.], havia entrado no mosteiro fundado por Dom Gérard Calvet na cidadezinha de Bédoin, na França. Dom Gérard era um monge francês que havia vivido cerca de seis anos no Brasil, em um mosteiro beneditino perto de Curitiba onde tinha ficado muito amigo de Marcus, sobrinho do Dr. Corção. Não suportan do mais o progressismo do mosteiro do Brasil, ele voltou para a França, onde fundou seu novo mosteiro, numa capela de pedra do século IX, mosteiro que visitei em 1976, conforme relato em artigo que publiquei no número 230–231 da Permanência.
Conto isso porque, ainda em 1976, mas lá para o fim do ano, [Gustavo] Corção e Graça [Pierotti] foram à Europa e assistiram, juntamente com os pais de Miguel, à sua profissão monástica solene e definitiva. Tanto Corção como Graça voltaram entusiasmados com Dom Gérard, o mosteiro, e o jovem monge brasileiro, que havia adotado o nome de Irmão Tomás de Aquino.
Aliás, o entusiasmo deles com o que viam na França, sempre foi a marca de sua volta das viagens que fizeram. Lembro-me de que, após a primeira viagem, em 1973, Graça voltou excitadíssima e, com os olhos brilhantes dizia-me: “Júlio, a simples assistência à missa nova é um pecado mortal”. Eu lhe disse logo que isso era uma bobagem, mas ela insistia e me deu um folheto, Messes de l’Antechrist? [“Missas do Anticristo?”], de um certo R.P. Georges Vinson, que declara a assistência à nova missa um pecado que pode ser, em certas circunstâncias, muito grave. Mais tarde vamos compreender melhor esse assunto com a ajuda de Mons. Lefebvre, mas nunca no sentido em que ela se precipitava.
Todavia, prossigamos. Em princípio de agosto de 1979, pela primeira vez, Monsenhor [Marcel] Lefebvre veio à nossa casa. Lembro-me de que, com surpresa, constatei que a Graça, que normalmente tomava a frente dessas coisas, não moveu uma palha para recebê-lo na casa dela.
Ele veio à nossa casa porque tinha marcado encontro no Rio com Dom Antônio de Castro Mayer, que, afinal, não pôde vir. Mons. Lefebvre mostrou- se muito desapontado. Ficou hospedado conosco, celebrou missa à qual assistiram Graça, Helena [Rodriguez], Homero Johas, Paulo Rodrigues e muitos outros companheiros, inclusive o nosso Pe. José, encantado em conhecer o eminente bispo.
Depois da missa, reunimo-nos em grande grupo onde uma discussão começou, provocada por Johas, sedevacantista, que pretendia que a nova missa era inválida e foi contestado por Mons. Lefebvre. Dessa ocasião temos várias fotografias.
Embora então não suspeitássemos, parece que já, nessa época, Graça começava a se afastar de nós.
No dia seguinte, Mons. Lefebvre embarcou para a Argentina e eu, à tarde, fiz uma palestra a seu respeito, na Permanência.
(…)
De minha parte, depois de muito pensar, de muito rezar e de pedir a Nosso Senhor sua direção, julguei que não poderia voltar a assistir à missa nova. Simplesmente decidi que não o faria mais, e passei desde então a “rezar”, aos domingos, a missa inteira, parte fixa e parte móvel, como uma oração, fechado no meu escritório. Na hora da consagração procurava fazer a adoração de Nosso Senhor e na hora da comunhão, uma comunhão espiritual. Assim passei a viver.
Os demais, Anna Luiza [esposa de Fleichman] inclusive, hesitavam ainda, mas, pouco a pouco, foi-se formando uma divisão entre os espíritos. As conversas entre os grupos e subgrupos se multiplicavam. Anna Luiza anotou em seu diário dessa época que todos estávamos sempre muito tristes e angustiados por causa do problema da Missa.
Graça [Pierotti] pôs-se então a “estudar” — segundo ela disse a Anna Luiza — com Paulo Rodrigues, que ela julgava muito inteligente e capaz de ensinar teologia e filosofia, opinião que não coincidia bem com a minha, Paulo Rodrigues veio ver-me em minha casa e propôs-me questões como, por exemplo, que se as missas novas não fossem válidas — eu nunca disse que eram inválidas —, então, a maioria das missas no mundo não teriam valor, e então, na opinião dele, “as portas do inferno teriam prevalecido sobre a Igreja”, e outras afirmativas desse tipo. Como eu nunca achei que ele fosse realmente capaz em teologia ou filosofia, embora o admirasse como músico e por seu bom gosto musical, procurei explicar-lhe honestamente, mas sem muito empenho, o que pensava a respeito de suas idéias e procurei, também, evitar alongar a conversa.
Estávamos já em setembro. Eu continuava dando minha aula na Permanência, com a qual tentava, ciente das distâncias, substituir a aula do Dr. Corção, para, como já disse em outro lugar, manter a aproximação entre os amigos em torno do interesse pela doutrina e como meio de honrar a Nosso Senhor em nosso grupo, já que não tínhamos mais a nossa missa.
Graça [Pierotti] começou a preparar a festa de aniversário da Permanência e convidou um jesuíta que ela e Paulo Rodrigues conheciam, Padre Almeida, para celebrar a missa (nova), no dia 29 de setembro, nosso aniversário. Ela procurou a Anna Luiza e pediu-lhe que procurasse evitar a minha reação contrária. No dia 28, véspera do aniversário, Pe. Almeida celebrou, porque não podia no dia seguinte. Foram muitos da Permanência, mas nem eu, nem Anna Luiza, nem Helena Rodriguez, nem nenhum dos nossos filhos, aparecemos lá.
Graça procurava cada vez mais pôr em evidência Paulo Rodrigues, com quem “estudava”, e iam ambos formando seu pensamento. Eles decidiram continuar a ir à missa nova e agora pediam-na a Padre Almeida que a celebrasse, ou na Rua Corcovado ou na PUC, onde Padre Almeida ensinava. Paulo Rodrigues, a pedido da Graça, começou a dar aulas de “teologia” na Permanência, e Graça se empenhava com todos para que as assistissem. Fui uma vez, para saber como era, e não voltei. Mais tarde, soube que diversos incidentes ocorreram entre Paulo Rodrigues e pessoas como Homero Johas, que julgava inválida a missa nova — contra a opinião de Mons. Lefebvre e a minha.
Soube que Paulo Rodrigues, na aula seguinte, sem a presença de Johas, utilizou palavrões para referir-se a ele. Telefonei para Graça e lhe disse que, se isso se repetisse, eu proibiria o Paulo Rodrigues de continuar dando aulas. Ela me prometeu que não se repetiria.
(…)
Esta ruptura [com Graça Pierotti] doeu-nos no fundo da alma, à Anna Luiza, a mim, à Helena. Era uma amizade de trinta anos que se desfazia. O Sileno procurou, por seu lado, um encontro com Paulo Rodrigues, mas foi destratado por este.
Apesar dos esforços da Graça, entretanto, ninguém a acompanhou na sua atitude a não ser, além de seus parentes, Paulo Rodrigues e sua mulher, e o casal Fraga [Hélio e Maria Helena]; Maria de Lourdes Ganzaroli já nos havia deixado antes. O Dr. Lúcio, mais para espionar por conta própria o que fazia o outro grupo, ia à missa do Pe. Almeida e logo deixou de fazê-lo, mesmo porque era uma espécie de discípulo de Homero Johas e, portanto, sedevacantista. Alguns dos nossos, desolados, afastaram-se tanto dela como de nós, mas a maioria ficou conosco, incluindo, para nossa alegria, todos os moços, filhos e amigos, aos quais, já há alguns anos, eu dava aulas de religião nos domingos à noite, em minha casa.
No domingo, 25 de novembro, dei explicações aos demais membros da Permanência que foram à missa em minha casa, com Frei Severino, em Petrópolis, contando-lhes o que havia acontecido.
(…)
Em novembro de 1983, Mons. Lefebvre e Dom Antônio de Castro Mayer encontraram-se mais uma vez no Rio. Desta vez, Monsenhor Lefebvre não se hospedou em minha casa, mas num hotel, e Dom Antônio em outro lugar. Monsenhor Lefebvre trouxe consigo o Pe. [Franz] Schmidberger, e Dom Antônio os padres [José] Possidente, Fernando [Rifan] e [José] Eduardo. Fizeram, em nossa casa, o que chamamos “mini-concílio”, do qual resultou, depois de três dias de conversas e discussões, a famosa Carta Aberta ao Papa, que eles publicaram.[1] Carta assinada no Rio de Janeiro e que marca uma etapa importante na consciência crescente de que as autoridades da Igreja se tinham desmandado completamente. Nesta carta, João Paulo II é chamado de “mau pastor”, fórmula ainda cortês para exprimir um juízo que, para mim, já era nessa época, o de “traidor”.
Foi por ocasião dessa visita dos dois bispos que se passou um fato curioso. Araí Daniele e Homero Johas, que nesse tempo eram nossos amigos, estavam presentes no Rio e iam às vezes a nossa casa para conversar com os bispos.
Há algum tempo, eles e mais o Sileno insistiam comigo para que procurássemos uma propriedade que pudéssemos comprar, para ali fazer a sede da Permanência. Eu me mostrava cético sabendo que nenhum de nós, nem a instituição, tinha dinheiro para isso, mas a insistência deles era tanta que fui ver umas três ou quatro casas que iam aparecendo, aqui e ali, e que se revelaram todas inconvenientes, por isso ou por aquilo.
Num dos dias em que se realizava o “mini-concílio”, sentávamos à mesa, Anna Luiza e eu, com nossos hóspedes, bispos e padres e mais o Johas, consultor dos bispos, quando recebi um telefonema. Era a Tereza Ferreira da Costa que me dizia: “Júlio, há uma casa ótima aqui na esquina que está à venda por um preço muito baixo e o corretor está lá agora. Venha correndo”.
Que remédio! Embora fosse cético, deixei os hóspedes e o almoço (que se prenunciava muito bom) e lá fui correndo. Era uma casa boa, é verdade, mas em ruínas, no Cosme Velho. O jardim era um matagal impenetrável e não se podia ver sequer sua extensão. O preço era bom, mas seria preciso uma quantia equivalente para reformar a casa.
Todavia, ao entrar para vê-la, senti uma curiosa doçura, um sentimento de paz que me deixou um pouco surpreso. Mas, logo esqueci o que sentira. Voltei, contei aos hóspedes o que se passava e depois discuti com o Johas, Araí e outros, que insistiam em que eu comprasse a casa, mas não entendiam que eu não tinha dinheiro para isso. Dom Antônio propôs-se a emprestar-me o dinheiro, mas logo que voltou a Campos, seu ecônomo lhe mostrou que ele também não o tinha. Enfim, deixei o assunto morrer.
Quase um ano depois, vimos, Anna Luiza e eu, que era preciso mudar da Rua Alice, onde morávamos. Começaram a falar em drogas numa casa ao lado, e em “casa de massagens” em outra mais adiante, sem se contar o famoso prostíbulo da Rua Alice que ocupava uma terceira casa, há muito anos, no alto da ladeira, relativamente longe de nós.
Começamos a pensar em procurar outro lugar e então me lembrei da casa do Cosme Velho. Fui saber, e ela ainda não tinha sido vendida. Como comprá-la?
Tínhamos uma casa em Petrópolis que já não usávamos mais e que estava alugada. Vendê-la alugada significaria vendê-la mal. Nesse momento, a inquilina da casa me avisa que vai deixá-la no mês seguinte!
Pus a casa à venda e em pouco tempo apareceu comprador pelo preço que pedi. Pagava à vista e em poucos dias. Fui ver, e o preço que consegui pela casa de Petrópolis dava para pagar o sinal da casa que queria. Em uma semana, resolveu-se tudo. Casa vendida, casa comprada. Para as obras, eu tinha o fundo de garantia do meu emprego que somava já, a esta altura, cerca de vinte anos de acúmulo. E, com tudo isso, não precisava vender a casa da Rua Alice onde morava, enquanto não ficasse pronta a casa do Cosme Velho.
Ao examinar a planta para as obras, procuramos logo, Anna Luiza e eu, colocar nela uma capela a fim de evitar continuar pagando o aluguel da sede da Permanência. Pensamos primeiro em colocar a capela na garagem, mas logo vi que o Dono da casa deveria ser honrado e, como Ele é que era o autor disso tudo, pareceu-me que a Ele devia dedicar a sala principal, a maior da casa, a mais nobre e que, além disso, ficava na entrada. Junto a ela, um jardim de inverno fechado com vidros, seria a sacristia e a ela teriam acesso as pessoas sem precisar invadir a intimidade da casa.
Quando, depois, fomos ver os detalhes, a coisa se completou com mais uma característica inacreditável. Esta casa havia sido construída cerca de quarenta anos antes, por um suíço, provavelmente maçom. Havia sinais maçônicos na fachada. Para ampliar a sala de visitas, ele construiu um acréscimo no fundo, uma verdadeira ábside, ideal para o altar, sem nada por cima dela. Não parece justo o pensamento de que tudo isso tinha sido vontade de Nosso Senhor, e que Ele dispôs as coisas como queria?
A casa entrou em obras que demoraram e custaram muito. Monsenhor Lefebvre foi vê-la em 1984, quando as paredes interiores tinham sido demolidas e o piso do primeiro andar também. Viu então a futura capela com uma altura enorme e chamou-a, sorrindo, de “nossa catedral”.
Na Semana Santa de 1985 já pudemos nela instalar os padres [Alfonso de] Galarreta e [Juan Carlos] Ceriani, ambos de Buenos Aires, que nos vieram socorrer. Ora, foi nessa viagem que Padre Ceriani, por intercessão de São José que ele invocou, obteve de nossa filha Maria, que fosse conversar com ele. Dessa conversa que tiveram nasceu o desejo de Maria de ir conhecer o convento das irmãs da Fraternidade de São Pio X, uma instituição religiosa regular, fundada por uma irmã de Monsenhor Lefebvre e sob a direção deste. Pois Maria entrará nesta congregação em 1988.
A convivência de Mons. Lefebvre, ao longo dos anos em que nos honrou com sua visita e, muitas vezes, com sua condição de nosso hóspede, sempre se mostrou encantadora. Ele era de uma tal delicadeza, um homem tão educado, que dava gosto só de vê-lo. Nas conversas com ele, cheias de graça, nenhum de nós se atreveu jamais a interrogá-lo ou propor-lhe temas que não fossem os de uma conversa normal, sem pretensões, ao sabor da inspiração do momento. E ele correspondia a essa atitude nossa com sua discrição, mas tinha sempre uma ponta de humor, e tinha gosto de fazer alguns comentários com os olhos brilhantes de bom observador, que às vezes se divertia com as circunstâncias.
Para dar um exemplo: certa vez tivemo-lo conosco como hóspede e, com ele, o Pe. Wery [belga, professor de grego e latim em Écône]. No dia seguinte, ao café da manhã, Pe. Wery interrogou Monsenhor sobre sua possível intenção de sagrar um bispo que o sucedesse na defesa da Tradição, alegando que isso era necessário. Nessa ocasião falava-se disso, mas Monsenhor sempre negava aos jornais que tivesse essa intenção, e penso que não tinha mesmo. Monsenhor, como seria de esperar, negou, com ar cansado, que estivesse pensando nisso.
Ao entardecer, fomos todos, inclusive Pe. Wery, levar Monsenhor ao aeroporto. Enquanto esperávamos a hora do embarque — era um pouco cedo— subimos ao terceiro andar do aeroporto. Passamos por uma loja de jóias e olhávamos as pedras. Pe. Wery disse a Monsenhor: “Veja que belas ametistas, gosto muito de ametistas…”. Monsenhor olhou para ele, seus olhos brilharam e disse: “Pe. Wery, esta manhã o senhor queria me convencer a sagrar um bispo, e agora me diz que gosta muito de ametistas… Que devo pensar?”. E riu. O pobre Pe. Wery não sabia para onde virar-se.
Enquanto tivemos nossos filhos, ou pelo menos um filho, na Europa, as circunstâncias nos favoreceram sempre de modo que, pelo menos uma vez por ano, durante oito anos, fomos à Europa, Anna Luiza e eu, sem contar as viagens dos filhos que tentavam a vida religiosa, e ainda Ana, que foi também. Cada ano eu pensava que no ano seguinte não poderia voltar, tão cara era a passagem. Cada ano, porém, alguma coisa acontecia que lá nos levava. Ora a Coca-Cola me mandava ir aos Estados Unidos, e então a viagem chamada triangular ficava mais barata, eu pagava só o acréscimo entre os Estados Unidos e a Europa, ora me mandava a trabalho na Europa — uma vez a Roma e uma vez ao Luxemburgo —, ora o dinheiro aparecia no que sobrava. Assim pudemos, de nossa parte, ir visitar Monsenhor Lefebvre no seu Seminário, em Écône, sempre que nos foi possível, e uma vez fizemos esta visita com Maria, antes que ela entrasse no seu novo convento.
Com Dom Antônio, as relações foram um pouco mais esparsas, a princípio e mais próximas, depois.
Ainda nos tempos da Permanência, depois que o Dr. Corção morreu, a Graça [Pierotti] se preocupava com a minha ortodoxia. Na verdade, ela conhecia muito pouco de teologia. Certa vez escrevi um artigo sobre a Vulgata, em que constavam apreciações sobre a Encíclica Divino Afflante Spiritu, de Pio XII, na qual há passagens que me deixaram desolado. Este artigo consta do número 114–115 da Permanência, e ali está também um trecho em que digo: “Não pretendemos, com relação a Pio XII, adotar uma atitude severa quanto à sua pessoa… bem sabemos que naquela época essas coisas eram menos nítidas e não se conhecia ainda — e quem ousaria sonhá-lo? — os desastrosos resultados de tantos erros e faltas de quem não é santo…”. A Graça tomou um ônibus para Campos, levando meu artigo e submeteu-o à apreciação de Dom Antônio. Este leu o artigo e disse-lhe que ele também não tinha gostado da encíclica Divino Afflante Spiritu, mas que não ficava bem que eu tivesse me referido a “faltas e erros” de um papa. Fiquei um pouco espantado porque me lembrei de que a Igreja utiliza, como um dos ditados significativos do seu arsenal de ensinamentos consolidados em frases curtas, esta: “Os santos pecam sete vezes por dia…”. Por isso não vi nenhum inconveniente no que escrevi.
Com o tempo, com nossas idas a Campos, com o que escrevíamos em Permanência, creio que Dom Antônio começou a prestar mais atenção em nós, e ao longo de todos os anos em que nossas relações se estreitaram — filiais e admirativas de nossa parte e paternais e sorridentes da parte dele — Dom Antônio sempre me manifestou, a mim pessoalmente e a todos da Permanência, um apreço pessoal, uma simpatia ostensiva, que não deixava lugar a dúvidas.
Dom Antônio não era, como Mons. Lefebvre, uma bela e imponente figura de bispo. Era pequeno, magro, tinha os gestos secos e curtos, sobretudo na missa, que rezava de um modo um pouco distante. A primeira impressão que deixava não era muito entusiástica. Mas quando nos sentávamos juntos e ele começava a falar e abria um sorriso, a conversa ficava um encanto. Era uma pessoa alegre, sábia, culta, segura e, além disso, amiga, bondosa e firme.
Para mim, sempre foram ambos, Dom Antônio e Mons. Lefebvre, figuras encantadoras que davam, a quem os servia, o sentimento de uma graça e uma honra insigne em poder servi-los.
Dom Antônio passava pelo Rio frequentemente, em viagens de automóvel para São Paulo. Depois que nosso conhecimento se estreitou, nunca deixou de parar em minha casa para uma conversinha, um café. Jamais aceitou convite para almoço, creio que gostava de comer na estrada, no Oasis, mas nunca deixou de vir ver-me, para meu encanto e minha honra.
Lembro-me de pequenos detalhes de conversa. Uma vez, pouco depois que ele, Dom Antônio, tinha saído da T.F.P. — organização à qual pertenceu, enganado, durante uns trinta anos — passou pela minha casa. Conversamos. Eu não ousava falar no assunto, mas foi ele quem tocou primeiro nisso. Disse-lhe eu, então um pouco timidamente: “É Dom Antônio, eles (os da T.F.P.) são um pouco rígidos, não é?”. Ele me olhou firmemente e disse: “Eles são nefastos à Igreja”.
É impossível para uma alma católica, e no meio de tal refrega como esta que aflige a Igreja, deixar de pensar nas duas testemunhas do Apocalipse. No mundo inteiro, e apesar de tantos bispos que sentiam como eles ou pensavam como eles, somente estes dois se acharam para dar testemunho da verdade a tempo e contratempo. Só estes dois tiveram consciência de que não é possível colocar em primeiro lugar a questão da obediência, quando está em jogo, como disse anos atrás Dom Caggiano, uma questão de Fé e uma questão grave de defesa da Fé.
Monsenhor Lefebvre, movido pelo zelo de defender a Fé e a Igreja, antigo Superior de uma ordem missionária de âmbito universal, os Padres do Espírito Santo, voltou-se para a formação de sacerdotes, que quis preservar dentro da espiritualidade da Tradição católica. Em seguida, levado pelas circunstâncias, pelas súplicas dos fiéis do mundo inteiro que lhe pediam apoio, conselho, padres, direção espiritual, viu-se obrigado a assumir posição de relevo perante a Igreja Universal e tratar com as autoridades do Vaticano, tanto para defender a Tradição quanto para defender-se de agressões injustas, selvagens e violentas, de Cardeais da Cúria Romana, já envenenada no tempo de Paulo VI. Finalmente, na sua condição de bispo da Igreja, julgou seu dever, com o apoio e auxílio efetivo de Dom Antônio de Castro Mayer, formular, em 1983, as graves advertências do Manifesto Episcopal que ambos escreveram ao Papa João Paulo II.
Dom Antônio de Castro Mayer, por sua vez, animado do mesmo zelo em defesa da Fé e da Igreja, foi, antes de tudo e sempre, um bispo diocesano que procedeu por outro caminho, e realizou uma obra diferente. Durante cerca de trinta anos e por seu zelo paternal, protegeu, como um pai protege seus filhos, uma diocese inteira, ocupando grande extensão territorial, em que as paróquias são geralmente cidades bem distantes umas das outras, de população média de mais de cinqüenta mil habitantes cada uma. Caso único no mundo inteiro, e durante tanto tempo, ele preservou por seu ensinamento, por seu exemplo, e até por sua linguagem nas inúmeras e notáveis Cartas Pastorais que deixou, não apenas a doutrina e a missa tradicionais, mas todo o ambiente, os costumes, o modo de falar, em suma, a espiritualidade, a mentalidade, os procedimentos e a liturgia característicos da Santa Igreja em toda a sua história.
Em Campos não houve a solução de continuidade que conhecemos nós em todos os demais lugares e que representou uma evidente novidade que infeccionou a face, a linguagem, os pronunciamentos e a espiritualidade da Igreja, em Roma e, de Roma, alastrou-se para o resto do mundo. De Roma nos veio a evidente decomposição de tudo o que é católico: missa, sacramentos, ensinamentos, pronunciamentos e espírito, que corrompeu tudo o que tocou. E hoje sabemos todos que podemos perguntar: existirá ainda a Fé nos ambientes da Igreja oficial?
Divagando talvez, ou sonhando, atrevi-me a imaginar que o bispo missionário seria um novo Elias, um Profeta, e como tal um pregador em missão. E o outro, o bispo diocesano, pai de seu rebanho, um novo Henoc, não Profeta, mas Patriarca. A essas considerações, Mons. Lefebvre limitou-se a sorrir.
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Aqui no Brasil, como não seria possível evitar inteiramente, vi-me mais de uma vez envolvido em refregas e, até sem refregas, acusado e intrigado por espíritos diferentes, aos quais, parece, causava mal-estar. Em tais refregas, como é óbvio, surgiram desses espíritos tentativas de intriga que me separassem de Dom Antônio e de seus padres.
O primeiro foi um professor de São Paulo chamado Orlando Fedeli. Este senhor tinha sido membro da T.F.P. durante muitos anos. Professor de História, congregava em torno de si vários discípulos, os quais tinha levado a ingressar na T.F.P. Quando Dom Antônio rompeu com a T.F.P., rompeu ele também, e durante muitos anos só falava e só escrevia contra essa organização e contra seu chefe “carismático”, Plínio Corrêa de Oliveira. Falava demais nisso e só nisso, empenhado, parece, em fazer sair da T.F.P. os que para ela tinha levado. Mantinha em torno de si um grupo de alunos ou ex-alunos e publicava um jornal que me mandava de vez em quando. Nunca apreciei seu modo de escrever, embora aplaudisse interiormente sua atitude de sair da T.F.P. e até algumas das suas denúncias. Era uma inteligência muito parecida (agora com sinal contrário) com a do Sr. Plínio. Jamais gostei do modo de raciocinar e do modo de escrever de ambos, mesmo quando de acordo com o que escreviam.
Em 1985, enquanto estávamos na Europa, nasceu nosso primeiro neto, Julinho. Dom Lourenço [Fleichman] foi ordenado então, e recebeu permissão para vir ao Brasil visitar sua família durante um mês. Nessa ocasião, recebi uma carta de um membro da equipe do Sr. Fedeli.
Ele pedia permissão para vir à nossa casa e ficar algum tempo aqui porque queria conhecer um monge beneditino e, por ele, a vida monástica. Veio, ficou três dias, conversou conosco e muitas vezes discutimos vários assuntos. Nós sempre falamos livremente do que pensamos e, além disso, eu sempre escrevi de acordo com o que penso, e publicava o que escrevia. Esse moço que aqui veio, voltou para São Paulo e fez um relatório para o Sr. Fedeli. Disse-nos, depois, que escreveu ali o que o Sr. Fedeli o induziu a escrever.
Nesse relatório dizia que eu era um liberal, que minha filha usava saias curtas e a outra calças compridas, e que eu lhe havia dito que não via nada demais em que uma moça usasse calças compridas em casa ou no trabalho, evidentemente decentes. Ele pôs no seu relatório dessas intrigas que deixam marcas na alma das vítimas, como, por exemplo, afirmar que eu me teria gabado de ter mudado o modo de pensar de Padre Fernando [Rifan], sobre esse assunto de calças compridas.
Devo esclarecer que, aqui no Rio, diziam, quando conhecemos Padre Fernando, que em Campos, além de exigir das moças e senhoras que usassem saias para ir à missa — o que me parece razoável —, os padres não davam absolvição às moças, mesmo se se limitassem a usar calças compridas só em casa, em viagens ou no trabalho e mesmo se decentes. Naquela época, Pe. Fernando negou isso. Lembro-me de que conversamos a respeito e eu lhe disse que, embora me parecendo que seria melhor para as mulheres usarem saias, esse assunto não tinha dignidade nem importância tal que o elevasse ao nível de uma exigência absoluta, a ponto de quererem obrigar uma moça, como num exemplo que conheci, a ir de saia para o colégio, quando todas as outras usavam calças compridas, simplesmente porque essa era a moda há muitos anos. Essa moça, que citei como exemplo, tinha sido vaiada pela escola inteira quando ali fora de saia. Ora, disse-lhe, chegar a esse ponto, exigir de uma mulher que morra heroicamente para impor às outras a vista de uma saia, parecia-me de um ridículo mortal.
Nessa matéria de roupas e de outras coisas menores equivalentes, a lição de sabedoria que recebi do Dr. Corção foi esta: é melhor para o nosso espírito, ficar num meio termo entre o descaso e a super-preocupação. Com o descaso, vemo-nos obrigados, volta e meia, a ter nossa atenção chamada para o assunto roupas, porque o descaso chama a atenção, e os outros levantam a questão, ou para censurar-nos, ou para rir, ou até para aplaudir. Com a super-preocupação a gente acaba igualmente perdendo um tempo precioso, que pertence a assuntos mais elevados, e de certo modo os lesa, quando ficamos, por exemplo, longamente a pensar que gravata usar ou que terno combina melhor com o boletim meteorológico. O ideal é darmos às roupas ou à comida ou ao repouso alguma atenção para, atendendo ao que é do corpo dentro de uma medida razoável, o que, evidentemente, inclui guardar a decência no caso das roupas, podermos pensar em outras coisas mais importantes, a maior parte do nosso tempo e, portanto, sem querer guerrear modas.
Naquela ocasião, Pe. Fernando nada me objetou e foi isso o que, certamente, devo ter dito ao moço que nos visitava.
Mas confesso que, mais tarde, ouvirei, em sermões de vários padres de Campos, falarem desse assunto como um entre outros de mesmo nível que caracterizariam a crise da Igreja. Ora, isso me desagradou profundamente. Compreendo que os padres façam sermões contra a indecência das modas, mas tratar de uma matéria evidentemente menor, como se fizesse parte daquilo que nos rasga a alma? Se eu um dia pedi a Nosso Senhor que não permitisse que a dor da alma, com o que vejo na Igreja, sofresse diminuição, aceitasse o embotamento da rotina, causa-me indignação que pretendam reduzir a “isso”, de calças compridas ou outras coisas semelhantes, um sofrimento que nos excede. Para essas bobagens não pediria nada.
Ademais, uma coisa é achar, como também acho, que uma mulher fica melhor e até mais bonita com saias. Outra coisa é ignorar um hábito social implantado e dar a essa matéria um relevo que não merece, a ponto de tratar com dureza brutal uma assinante da Permanência que, encantada com o que lia na nossa revista a respeito da missa dos padres de Campos, fez uma viagem de Porto Alegre a Campos (mais de 2.000 km) para ali assistir à missa tradicional. Ela foi impedida de entrar pelos que estavam na porta da Catedral de Campos, porque, em viagem, estava com calças compridas. Por mais que ela explicasse, que suplicasse que lhe emprestassem uma saia, não houve jeito, não atenderam a apelo nenhum. E ela me escreveu uma carta indignada. Ora, esse zelo é, parece-me evidente, excessivo quanto ao modo de ser e até falta de caridade em si mesmo.
Aproveito o ensejo para acrescentar que tomar as palavras do Deuteronômio: “As mulheres não se vestirão de homem, e os homens não se vestirão de mulher” como se dissessem respeito a esse assunto de calças compridas, é um erro. Aquelas palavras vedam, evidentemente, a intenção de esconder o próprio sexo, e não um costume generalizado que, evidentemente, não tem esta intenção. E a Igreja não deixou de canonizar Santa Joana D’Arc pelo fato de que usava roupas de soldado, simplesmente porque eram mais cômodas e mais decentes para combater. Ora, calças compridas, para uma mulher que precisa dormir em ônibus, por exemplo, são também mais convenientes do que as saias.
O Sr. Fedeli, evidentemente, apressou-se a mandar o relatório do seu discípulo para Dom Antônio, que, por sua vez, ignorou a denúncia e continuou tranquilamente a vir à minha casa sempre que passava pelo Rio.
Mais tarde, outra vez, um relatório contra mim foi enviado a Dom Antônio, desta vez por Homero Johas. Johas tinha sido um dos nossos companheiros, frequentadores da nossa missa. Antigo seminarista, tinha uma grande cultura em matéria de filosofia e teologia, mas como aprendi depois, além de mal assimilada, era restrita a esses assuntos, que o obcecavam. Dizia-se “sedevacantista”, isto é, afirmava que o papa não era papa, e que o trono de São Pedro estava vago, por tais ou quais razões. Vivia sempre muito empenhado nas discussões, e parecia um pouco fanático. Tive com ele pequenas e amáveis discussões, procurando, de minha parte, acalmá-lo, mas vendo inequivocamente que nada conseguiria dele. Disse-lhe, mais de uma vez, que eu até compreendia que alguém pensasse que o papa não era verdadeiramente papa, mas que ninguém, nem eu nem ele, tínhamos competência para proclamar isso.
Como Mons. Lefebvre costumava dizer, os sinais extrínsecos que a Igreja conhece para a legitimação de um papa existem a favor do atual ocupante do trono, como também de seus antecessores. O que não impede que recusemos acatamento a quaisquer ordens ou pensamentos que contrariem a Tradição católica, como ocorre, evidentemente, com os últimos Papas.
Mas era tudo inútil, Johas sempre se manifestou um insensato. Para dar uma ideia: ele gostava muito de escrever seus artigos, enormes, com sentenças sublinhadas. Sublinhava tanto que uma vez me apresentou um artigo que ia, página por página, quase todo o texto sublinhado de alto a baixo. Disse-lhe então: “Você não vê que, se sublinha tudo, é como se não tivesse sublinhado nada?”. Mas ele parecia que não via.
O seu modo nervoso, insistente, obcecado, perturbava os moços. Depois de uma primeira experiência, quando o convidei para fazer uma palestra na Permanência, nunca mais repeti o convite, e ele mais tarde vai cobrar-me isto. Mas eu não podia convidá-lo e ver depois os moços, perturbados, fazerem-me perguntas inquietas.
O mesmo com seus artigos. Ele escrevia trabalhos que, às vezes, eram bons e eu publiquei vários na Permanência, mas recusei outros porque excediam o espaço disponível total de cada número. Johas reclamava que eu “gastava papel” publicando artigos do Dr. Corção que já tinham saído nos jornais. Disse-me claramente que eu devia arranjar um jeito de pagar mais caro e publicar seus artigos todos e qualquer que fosse seu tamanho. Limitei-me a sorrir.
Até que, um dia, mandou-me um artigo contra Jacques Maritain, enorme, errado em certos detalhes que mostravam que ele ignorava o b.a.bá do autor que criticava, e como bem disse, mais tarde, o escritor Pacheco Salles, um artigo “apressadinho”, muito mal feito, tomando na corrida, aqui e ali, citações de Humanismo Integral, sem citar, sem conhecer Cristianismo e Democracia, que é ainda pior, e outros livros que eu conhecia. Além disso, sua concepção era uma ideia ridícula de que Maritain seria uma espécie de agente secreto deliberado e sinistro, que se insinuou junto aos altos dirigentes do Vaticano para arruinar deliberadamente a Igreja por dentro. Para quem conhece a crítica longa, dolorosa, perplexa de Gustavo Corção em O Século do Nada, e também a obra gigantesca do Pe. [Julio] Meinvielle, De Lammenais a Maritain, a crítica de Johas era uma eructação gaseificada sem valor nem gabarito. Devolvi o artigo.
Foi uma tempestade. Johas deixou de ir à missa porque era em minha casa, escreveu dois catataus enormes contra mim, chamando-me de herético, liberal, “que sei eu?”. Mandou seus catataus a Dom Antônio, dizendo-lhe que os padres de Campos e ele, Dom Antônio, tinham a obrigação de expulsar-me de sua companhia, etc. Dom Antônio simplesmente deixou de lado a acusação e continuou a visitar-me. Algum tempo depois, fui ao aeroporto despedir-me de Dom Antônio, que partia para a Argentina com vários dos seus padres. Ele me recebeu sorridente e me perguntou: “Então Dr. Júlio, o senhor não tem nenhuma recomendação para mim, sobre o que devemos fazer, Monsenhor Lefebvre e eu?”. Respondi, meio espantado, que não tinha e, ao contrário, esperava que eles, os dois bispos, é que me dissessem o que se deveria fazer diante da crise da Igreja. Compreendi, depois, o motivo da sua pergunta. Johas e Araí Daniele, um outro amigo de Campos, costumavam insistir com Dom Antônio — e Araí já tinha feito isso com Mons. Lefebvre também — no sentido de que deveriam proclamar isso ou aquilo, relativamente ao Papa João Paulo II. Mas eu, sinceramente, nunca soube, e nunca compreendi como é que eles podiam saber o que se deveria fazer. E uma vez disse isso mesmo ao Araí. Dom Antônio preocupava-se conosco. Embora, como tinha dito anos antes Pe. Fernando, os padres de Campos fossem realmente muito sobrecarregados com seus fiéis, parece que ele tinha presente aos seus olhos a nossa penúria e a nossa insistência pedindo um padre a todos os quadrantes da terra.
A partir de 1984, a pedido de Dom Antônio, um dos padres de Campos, Monsenhor Licínio Rangel começou a vir rezar a missa para nós, nos domingos, uma vez por mês. Vinha de ônibus no próprio domingo, celebrava às 18 horas, e depois dormia aqui. No dia seguinte, de manhã, voltava para Campos. Mas depois que Frère Laurent, nosso Pedro, foi ordenado por Mons. Lefebvre, em 29 de junho de 1985, Dom Antônio disse aos seus padres que se não viessem rezar para nós todos os domingos, ele Dom Antônio, viria. Penso que uma inspiração do céu o moveu, então.
Assim, os padres passaram a vir todos os domingos. Em geral era Mons. Licínio e, depois de ordenado,[2] Pe. Hélio.
Monsenhor Licínio sempre foi um padre comovente na sua simplicidade alegre, na sua dedicação modesta e reiterada, no seu empenho em servir. Não era um orador, tinha a dicção difícil. Mas era um encanto na sua bondade e um exemplo vivo na sua dedicação.
Certa vez, um moço que começou a freqüentar a nossa missa, moço esquisito que não combinava bem conosco, e que dizia querer eleger-se vereador, insistiu muito com Mons. Licínio para que fosse ver um tio que estava mal, para dar-lhe a extrema-unção. Pediu isso num domingo na hora em que, terminada a missa, Mons. Licínio ia jantar e descansar. Fiquei meio aborrecido, perguntei-lhe se o tio estava tão mal que não pudesse esperar uma semana… Ele respondeu que podia esperar.
Na semana seguinte, veio outra vez, e aí Mons. Licínio se dispôs a ir com ele. Não tinham carro e um dos nossos levou-os até o final de Copacabana, numa ladeira enorme. Mons. Licínio contou-nos depois: quando entraram na casa do “doente”, o referido tio, sentado numa mesa, dava uma mordida forte num suculento bife. Tinha, parece, uma doença qualquer que, evidentemente, não iria matá-lo logo. Ao invés da extrema-unção, conversaram e Mons. Licínio viu que nem ele nem ninguém da família estava pensando em extrema unção. Era puro entusiasmo irrelevante do tal moço.
O pior é que, na saída, para voltarem para minha casa, foram para o ponto de ônibus e aí caiu uma chuva torrencial que molhou os dois completamente. Vindo de ônibus, no meio da tempestade, Mons. Licínio ainda teve que subir a minha ladeira a pé, debaixo do temporal. Chegou completamente molhado, quase às dez horas da noite, sem jantar.
Para celebrar para nós, vinham também, ocasionalmente, Padre Possidente, cujos sermões nos encantavam e Padre Fernando, sempre muito brilhante. Tivemos conosco Pe. José Onofre, durante dois anos, para a Semana Santa, e houve tempo em que Pe. Eduardo vinha celebrar para nós às terças-feiras, às vezes de avião.
Toda essa movimentação de padres, para nós uma benção, era também uma evidência de zelo sacerdotal por parte deles, que se sabiam ansiosamente solicitados. A eles renovamos sempre nossos agradecimentos e por eles as nossas orações.
[1] Trata-se do Manifesto Episcopal, publicado no livro O Pensamento de Dom Antônio de Castro Mayer, Editora Permanência, 2009.
[2] Monsenhor Licínio foi sagrado bispo em 1991, após a morte de Dom Antônio, pelos bispos da FSSPX.
