DE IUDICIIS ASTRORUM
Santo Tomás de Aquino (†1274)
Fonte: Aquinate, n. 35, (2018), p. 80–84. Link: https://www.aquinate.com.br/textos/sobre-a-consulta-dos-astros-de-tomas-de-aquino/
Tradutor do texto latino: Thiago Sebastião Reis Contarato.
Descrição: Nesta carta, Santo Tomás esclarece se é lícito consultar os astros e distingue dois tipos de uso da astrologia. Ele afirma que os corpos celestes exercem influência natural sobre os corpos inferiores, podendo portanto ajudar a prever fenômenos físicos, como clima, saúde e fertilidade, sem que isso constitua pecado. Esse tipo de observação é comparado às práticas comuns de agricultores, navegantes e médicos que se orientam pelos movimentos do sol e da lua. Contudo, sustenta que os astros não determinam a vontade humana, pois isso destruiria o livre-arbítrio e a responsabilidade moral. Por fim, adverte que tentar prever ações humanas pelos astros envolve erro e pode implicar influência demoníaca, sendo considerado pecado grave.
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SOBRE A CONSULTA DOS ASTROS[1]
1. Uma vez que pedistes que eu escreva para ti se é lícito utilizar da consulta dos astros, desejante de satisfazer teu pedido de acordo com aquilo que é afirmado pelos doutores sagrados, eu tratei de escrever.
2. Assim, em primeiro lugar, é necessário saber que a virtude dos corpos celestes se estende para modificar os corpos inferiores. De fato, Agostinho disse: “De qualquer modo, não é absurdo dizer que algum vento sideral possa alcançar somente[2] as diferenças dos corpos” (A Cidade de Deus, V). Sendo assim, se alguém se utilizar das consultas dos astros para prever os efeitos corporais, por exemplo, a tempestade ou a serenidade do ar, a saúde ou enfermidade dos corpos, a fecundidade e a esterilidade dos frutos, bem como outras coisas desse tipo que dependem dos corpos e das causas naturais, então parece não haver nenhum pecado.
3. De fato, todos os homens[3] utilizam algumas observações dos efeitos desse tipo ao redor vindo dos corpos celestes. Assim, o agricultor semeia e colhe num determinado tempo,[4] que é observado de acordo com o movimento do sol. Nas navegações, os navegantes guiam-se pelos tempos de lua[5] cheia ou de eclipse da lua. Os médicos observam os dias críticos das doenças, já que são determinadas conforme o curso do sol e da lua. Donde não é inconveniente, considerando algumas outras observações das estrelas não citadas, servir-se da consulta dos astros para os efeitos corporais ao nosso redor.
4. No entanto, é necessário considerar que a vontade[6] dos homens não é sujeita à necessidade dos astros.[7] Caso contrário, perece o livre arbítrio, pois não seria imputado[8] ao homem nem a boa obra para o mérito nem a má obra para a culpa.
5. Por causa disso, qualquer cristão deve ter em mente, de modo certíssimo, que aquelas coisas que dependem da vontade humana, tais como as ações humanas, não são subjugadas pela necessidade dos astros, e por isso se deve dizer: “Não queira temer os sinais do céu como os pagãos temem” (Jr 10,2).
6. Contudo, como arrasta todos ao erro, o diabo[9] mistura o erro nas ações daqueles que fazem juízos a partir dos astros. E por causa disso Agostinho diz literalmente: “Quando astrólogos dizem verdades, ao dizer por instinto coisas ocultíssimas,[10] recebidas coisas que as mentes humanas não conhecem, na medida em que isso faz os homens caírem numa armadilha, deve-se confessar que se trata da ação de espíritos imundos e sedutores, aos quais lhes é concedido saber algo de verdadeiro sobre nossas coisas temporais” (Sobre o Gênesis, II).
7. E assim Agostinho diz em Sobre a Doutrina Cristã, II, que semelhantes observações dos astros devem se referir a certos pactos feitos com demônios. Ora, todo cristão deve evitar ter pacto ou sociedade com demônios, conforme aquilo do Apóstolo: “Não queiram vós se fazer sócios dos demônios” (I Cor 10,20).
8. Portanto, por certo, deve-se ter como pecado grave usar a consulta dos astros acerca daquelas coisas que dependem da vontade humana.
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Referências:
— Aquino, Tomás de (2002). Suma Teológica, tomo I–IX, tradução de Aldo Vannucchi, OP et al. São Paulo: Loyola, 2002.
— Aquino, Tomás de (1996). Suma Contra os Gentios, tradução de Odilão Moura, 1º vol. Porto Alegre: EST, 1990; 2° vol. Porto Alegre: PUCRS, 1996.
— Torrell, Jean-Pierre (1999). Iniciação a Santo Tomás de Aquino.São Paulo: Loyola, 1999.
[1] A expressão latina iudiciis astrorum, traduzida como “consulta dos astros”, envolve a realização de “juízos a partir dos astros” ou tendo por base os astros, o que talvez seria uma tradução mais literal. Para Santo Tomás, juízo é a segunda operação do intelecto, onde construímos proposições do tipo “S é P” ou “S não é P”, de modo que a relação entre sujeito e predicado nos leva a fazer afirmações ou negações a respeito das coisas. Desse modo, esse texto trata dos juízos que se justificam por razão da influência dos astros nas coisas terrenas.
[2] Colocamos negrito para dar ênfase ao “somente” (em latim, solas). Tomás de Aquino considerará que a influência dos astros irá somente até onde for material. Veremos, logo mais adiante, que algo escapa a essa materialidade. Assim, um astro pode causar efeitos no mundo que geram tempestades, doenças e até mesmo a esterilidade dos frutos. Por essa razão, não há problema algum em consultar o movimento da lua ou dos astros para saber se alguém vai se curar de uma doença ou se ela vai se prolongar, bem como não há problemas em deduzir, olhando para os corpos celestes, se teremos uma boa colheita ou não, o que pode ter relação com as estações do ano.
[3] Santo Tomás de Aquino revela que, naquela época, muitos profissionais costumavam consultar os astros para determinar eventos que ocorrem neste mundo, a saber: agricultores, navegantes e médicos. Todos eles atribuíam uma relação de causa e efeito entre os astros e os eventos que ocorriam na terra. Por exemplo: os eventos das quatro estações, a mudança nas marés e até possíveis doenças causadas pelos astros. Essas utilizações não serão problemáticas para o Aquinate, pois envolvem a interação dos astros com objetos materiais na Terra.
[4] Aqui não se trata de medir o tempo tendo como referência os astros para saber quando plantar e colher. Ninguém veria qualquer problema em tomar os astros como ponto de referência para uma medição intelectual. Na verdade, os agricultores consultam os astros para saber a condição ambiental propícia e favorável para a colheita. Essa condição propícia também envolvia a influência dos astros sobre as plantações, como quando o movimento dos astros causam as condições ambientais das quatro estações.
[5] Tomás de Aquino apresenta o exemplo do navegador, mas não fazendo referência à consulta das estrelas para uma espécie de mapeamento ou direcionamento da navegação. É patente que não haveria problemas em tomar as estrelas como ponto de referência para se guiar um navio. Na verdade, o santo doutor aponta o uso dos navegantes como uma forma de prever tempestades e mudanças na maré; esta última seria por influência da lua.
[6] Baseando-se em outras obras tomistas, devemos lembrar que há uma justificação bem mais forte para a vontade não ser afetada pela influência dos astros, a saber: o fato de que o intelecto e a vontade sejam imateriais e de que não são atos de um órgão corpóreo (S.Th. I, q. 115, a. 4, co). Uma vez que os corpos celestes são materiais, esses corpos só podem estender os seus efeitos até àquilo que for material, de modo que o intelecto e a vontade não são afetados diretamente. A virtude dos efeitos já deve estar contida na causa. Em outras palavras, nada pode transmitir aquilo que não tem. Ocorre um efeito dos astros neste mundo se e somente se a virtude do efeito já estiver contida nos astros. Como os astros são materiais, eles só podem afetar diretamente aquilo que é material (S.Th. I, q. 115, a. 3, ad 3). Além disso, o efeito de um mesmo astro pode ocorrer diversamente dependendo da disposição da matéria (ibid., ad 4). Tomás também afirma que os corpos só afetam algo a partir do movimento, mas o intelecto está fora do movimento (SCG III, c. 84, § 2–7). Sem contar que aquilo que é imaterial (intelecto e vontade) é superior ao que é material, de modo que os inferiores não podem afetar os superiores (SCG III, c. 84, § 1) no sentido de forçá-los por necessidade.
[7] O intelecto e a vontade não são afetados diretamente por serem imateriais e estarem fora do movimento, mas podem ser afetados indiretamente através do corpo. Em particular, apesar de não ser totalmente determinado, o intelecto é mais afetado indiretamente pelos astros porque o intelecto depende mais dos sentidos nas suas operações (SCG III, c. 84, § 11). É por isso que Tomás cita apenas a vontade como não sujeita aos astros, uma vez que seria pouco afetada indiretamente (S.Th. I, q. 115, a. 4, co). Mesmo havendo fortes influências indiretas dos astros no intelecto, o intelecto humano poderia voltar-se para si mesmo e refletir sobre os seus atos e sobre essas influências recebidas através do corpo (considerando que não há influência direta dos astros no intelecto, como vimos na nota 8 acima). Uma vez ocorrida a reflexão do intelecto, a vontade pode decidir seguir a influência ou se opor a ela (SCG III, c. 85, § 18–19). O mesmo ocorre quando se trata da influência que os desejos carnais realizam no intelecto, os quais a vontade pode consentir ou não, de modo que isso possibilita que alguns homens tenham hábitos bons, virtudes, e outros tenham hábitos ruins, vícios (SCG III, c. 85, § 7–8).
[8] De fato, caso não admitamos a vontade como uma exceção, teríamos o que podemos chamar de determinismo astrológico, de modo que não haveria livre-arbítrio e não poderíamos responsabilizar ninguém pelos seus atos (S.Th. I, q. 115, a. 4, co). Por exemplo: alguém que cometeu um crime poderia alegar que o cometeu por influência da lua cheia, retirando de si a responsabilidade pelo ato que cometeu. Assim, há uma grave implicação ética. Nesta carta, Tomás de Aquino dá apenas uma justificação moral. De fato, tratar a vontade como uma exceção entre as coisas que recebem efeitos dos astros apenas para poder responsabilizar um ser humano parece se tratar apenas de uma questão de conveniência. Afinal de contas, convém que seja assim porque, caso contrário, as relações humanas serão caóticas e ninguém poderia responsabilizar ninguém. Contudo, como foi visto na nota 8 logo acima, há um raciocínio do Doutor Angélico muito mais forte, ontológica e fisicamente falando, que não foi exibido nesta carta. Provavelmente, o motivo para Tomás dar uma resposta mais simples e objetiva nesta carta seja porque assim [1º] ele daria uma resposta mais firme e [2ª] evitaria erros de má interpretação (e até de má fé com intenção de difamá-lo), principalmente levando em conta o pensamento das influências indiretas da nota 10 acima. Além disso, [3º] as informações da carta já dão conta de responder ao destinatário, que tinha apenas interesses morais e religiosos ao perguntar se é lícito ou não se utilizar da consulta dos astros.
[9] Nos dois parágrafos finais se observa um cunho mais religioso de sua exposição na medida em que Tomás faz menção ao Diabo.
[10] Nesse ponto, o nosso teólogo medieval busca explicar os casos em que um astrólogo vidente acerta as informações. Há duas explicações possíveis para o acerto do astrólogo vidente: [1ª] – a primeira explicação diz respeito ao pacto com demônios, que deve ser mais considerada quando há uma precisão muito grande nas informações afirmadas pelo vidente. Uma vez que por suas próprias forças e por sua natureza não seria possível conhecer certas informações de modo tão preciso e constante, o vidente precisaria de um auxílio sobrenatural de um intelecto superior que está acima da natureza física (SCG III, c. 104, § 4). Ora, Deus só predispõe esse dom aos humanos em casos específicos de suma importância, como ocorreu com os profetas. Os anjos somente seguem a Deus e não iriam querer enganar as pessoas. Por eliminação, segue-se que aquela habilidade só poderia ser fruto de pacto com demônios. Essa conclusão é reforçada pelo fato de o intelecto superior que auxilia os astrólogos videntes e mágicos ser moralmente mal (SCG III, c. 106; SCG III, c. 107, § 10) Neste caso, o vidente estaria mentindo quando afirma que sua adivinhação advém da consulta dos astros, pois, na verdade, se trataria da aquisição de informações vindas de demônios. Em alguns casos, o vidente (ou adivinho) também poderia não saber a origem da sua habilidade e atribuir à consulta dos astros por engano. De qualquer maneira, é impossível ter uma precisão muito grande dos atos humanos apenas através da consulta dos astros. [2ª] – a segunda explicação envolve a influência indireta dos astros sobre nosso intelecto e vontade através do nosso corpo, que não foi citada nesta carta (SCG III, c. 85, § 19). Em suma, nessa influência indireta do astro sobre os atos humanos, temos esses dois passos: [1] o astro influi diretamente no corpo e, a partir dessa influência, [2] o astro influi indiretamente no intelecto, na vontade, na decisão e, por fim, nos atos e comportamentos humanos. Para dificultar o passo [1], Tomás apresenta o argumento dos gêmeos de Santo Agostinho, onde dois seres humanos nascem no mesmo dia e local, mas são diferentes. Além disso, Tomás reforça esse argumento dos gêmeos explicando que essa diferença acontece porque os efeitos dos astros são recebidos pelos corpos terrestres de acordo com a disposição da matéria desses corpos (S.Th. I, q. 115, a. 3, ad 4). Uma vez que a disposição da matéria dos corpos varia de indivíduo para indivíduo, segue-se que os efeitos de um mesmo astro variam também. Sendo assim, uma vez que é impossível determinar a disposição individual de cada corpo, também é impossível deduzir os comportamentos de um indivíduo. Por outro lado, para dificultar o passo [2], Tomás diz que somente é possível o acerto de uma informação por parte dos astrólogos porque a maioria dos homens se deixa levar pelos impulsos e paixões carnais, de modo que o intelecto e a vontade dessa maioria ficam sujeitos ao corpo e ao que ocorre nele (S.Th. I, q. 115, a. 4, ad 3). Havendo uma minoria de sábios que consegue ter autocontrole, de modo que seu intelecto domina e não está sujeito ao corpo, podemos dizer que essa minoria impede uma dedução necessária dos atos individuais a partir dos astros. Portanto, diante dessas duas dificuldades, Tomás conclui que os astrólogos somente podem realizar especulações de modo geral a respeito de uma população. Afirmações individuais estão além de nossa capacidade.
