DILECTIONIS VESTRAE
Papa Pelágio II (†590)
Fonte: Patrologia latina, vol. LXXII, p. 710–715. Paris, 1849.
Tradutor do texto latino: Gustavo Petrônio Toledo.
Descrição: O papa repreende severamente os bispos da Ístria por se recusarem a acabar com um cisma e retornar à unidade da Igreja. Ele refuta seus argumentos, baseados nos “Três Capítulos”, como errados e contrários à tradição, acusando-os de obstinação e de se deixarem enganar por más influências. O papa apela à caridade e à humildade, citando extensamente os Padres da Igreja para demonstrar a importância crucial da unidade sob a autoridade da Sé Romana. Por fim, ele exige sua submissão imediata e propõe a realização de um concílio em Ravena para resolver definitivamente a questão. Na carta é reafirmada a doutrina da salvação exclusiva na Igreja: nenhum herege ou cismático, ainda que derrame seu sangue pelo nome de Cristo, pode salvar-se.
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EPÍSTOLA IV [ANTIGA VI] QUE É A SEGUNDA AOS BISPOS DA ÍSTRIA
Pelágio, bispo, aos caríssimos irmãos Elias e demais bispos da Ístria.
Recebemos os escritos de vossa dileção por meio daqueles que enviastes e, após os lermos, fomos atingidos por grave pesar e dor; pois nem respondestes ao que nós vos escrevemos, nem, como convinha ao amor fraterno, tendo recebido a satisfação da nossa fé, prestastes a obediência de voltar à unidade da Igreja; por fim, nem mesmo suportastes que aqueles que vieram fossem por vós encaminhados de outro modo, a fim de que se dispusessem a receber uma satisfação a mais clara e manifesta possível. Mas, ao contrário, mostraram-nos por escrito algo como um capítulo ou antes uma interdição, nada declarando ter recebido de vós, senão o encargo de serem apenas portadores de vossa carta, na qual, entretanto, não se lê que tivésseis buscado qualquer satisfação de razão, mas que exprimísseis como que algo já julgado contra nós; o que, se quiserdes chegar ao conhecimento da verdade, podeis esplendidamente aprender, com o auxílio divino, quão errado, injusto e contrário às regras dos Padres isso é. Donde nos convém, com o profeta, exclamar lacrimosamente: “Emudeci e me humilhei, e me calei acerca dos bens, e a dor do meu coração renovou-se” (Sl 38). Renovou-se a dor do nosso coração, quando o escândalo da longa divisão de modo algum é superado por tão grande fulgor da fé, sobretudo porque, decepcionados pela persuasão de homens perversos, nos enviastes escritos infectos de diversos contágios, e tentastes inserir nas epístolas dos Padres certos testemunhos não só incongruentes, mas também não pertinentes à causa; de tal modo que nem sequer guardastes a ordem dos testemunhos que estava nas próprias epístolas dos Padres, de fato, de modo que o que estava escrito em nome de um era apresentado sob o título do nome de outro. Nisso evidentemente se aplica a vós o dito apostólico: “Não sabendo nem o que dizem, nem o que afirmam” (I Tm 1,7).
Não atribuímos isso, de fato, à vossa malícia ou astúcia, mas reconhecemos ter sido engendrado pelo veneno do inimigo malíssimo, que até o fim do século não descansa de semear joio na Igreja de Deus por meio de vasos de ira. Donde entendemos que vossa fraternidade não leu as cartas das quais extraístes testemunhos; pois, se conhecêsseis sua redação, não fingiríeis que aquilo que foi posto de modo claríssimo apenas em causa da fé pudesse convir a outras coisas, motivo pelo qual vos exorto e desejo que mais depressa sejais chamados de volta do erro da divisão em que caístes por falsas opiniões, e que não, como está escrito, “leveis jugo com os infiéis” (II Cor 6,14), mas de novo submetais vossas cervizes dóceis àquele jugo do qual o próprio Senhor diz: “Meu jugo é suave e meu fardo é leve” (Mt 11,30). O que de modo algum poderá alguém suportar ou aprender, se não estiver submetido ao mesmo jugo pelos vínculos da caridade, submetendo a esse peso, por amor, as mentes, os ombros e as forças, como a um fardo espiritual. Pois assim como a animosidade da cisão leva o entendimento a se ligar pela soberba, assim a humildade da caridade recuperada ilumina as mentes, na unidade da fé, para a perseverança no conhecimento da verdade.
Por essa razão, aos portadores das presentes, que vossa fraternidade enviou, foram relidos alguns documentos, tanto dos Códices como dos antigos polípticos do arquivo da Sé Apostólica, pelos quais aparece claramente que nada daquilo que pusestes em vossa carta, acerca da causa dos Três Capítulos, pode de modo algum convir ou ser verossimilmente adaptado. Por isso é necessário que percorrais com diligência e atenção todas as cartas sinodais, para reconhecerdes mais claramente que os santos Padres não confirmaram nas suas cartas outra coisa acerca do Concílio de Calcedônia senão que se guardasse inviolavelmente a definição da fé. Pois, para confirmar o mesmo Concílio, nosso predecessor de santa memória, o papa Leão, escrevendo, disse entre outras coisas assim: “Para que, portanto, não pareça duvidoso, por obra de intérpretes malignos, se aprovei o que na sinodal de Calcedônia foi estabelecido por unanimidade de vós acerca da fé, estas cartas dirigi a todos os irmãos e coepíscopos nossos, que assistiram ao dito concílio, as quais o gloriosíssimo e clementíssimo príncipe, como pedi, por amor da fé católica, dignar-se-á enviar ao vosso conhecimento; a fim de que tanto a fraternidade universal como os corações de todos os fiéis saibam que não só pelos irmãos que exerceram em meu lugar minha função, mas também pela comprovação dos atos sinodais, eu confirmei convosco minha própria sentença: a saber, somente na causa da fé (o que deve ser repetido muitas vezes), pela qual aprouve congregar-se um concílio geral, tanto por mandado dos príncipes cristianíssimos como por consenso da Sé Apostólica.” [Até aqui as palavras de São Leão.]
Mas, para que porventura não pareça ainda restar em vossos ânimos alguma questão ou dúvida, cuidamos também de indicar mais claramente o que ele escreveu a Máximo, bispo da Igreja Antioquena. Depois de muitas coisas, diz assim: “Se de fato se afirma que por aqueles irmãos, que em meu lugar enviei ao santo concílio, foi realizado algo além do que pertencia à causa da fé, isso não terá nenhuma firmeza, pois somente para isso foram enviados da Sé Apostólica, a fim de que, extirpadas as heresias, fossem defensores da fé católica. Pois tudo o que além das causas especiais dos concílios sinodais se defere ao exame episcopal pode ter razão de ser julgado”, etc. Eis que, como foi dito acima, reconheceis, caríssimos irmãos, que nosso predecessor repetidamente não confirmou senão aquilo que foi definido acerca da firmeza da fé, o que em quase todas as suas cartas, se quiserdes, podeis mais plenamente conhecer. Pois as causas privadas, que ali se trataram depois da definição da fé, não só de modo algum confirmou, mas também concedeu que fossem revistas e julgadas. Nas encíclicas, porém (que são a coleção das cartas episcopais, das quais também vós incongruentemente pusestes alguns testemunhos em vossos escritos), a partir da leitura podereis ser mais plenamente instruídos, mesmo que nos calemos, sobre de onde nasceu a causa, o que o piedoso imperador Leão escreveu aos sacerdotes em todas as províncias, consultando-os, ou de que modo recebeu deles as respostas, de modo que não encontre doravante lugar em vossos corações qualquer insinuação de malícia perversa. Nós, com efeito, por causa da extensão desta carta, declinamos de indicar a ordem da própria causa. Mas, se relerdes com solicitude e vigilância, com o temor de Deus e com o empenho da caridade, o que por nós foi escrito, facilmente percebereis quão perigoso é permanecer segregados da Igreja universal por questões supérfluas e pela defesa dos capítulos heréticos.
Não permaneçais, portanto, por amor da jactância — que sempre está próxima da soberba — no vício da obstinação, quando no dia do juízo nenhum de vós poderá se desculpar, e nem Teodoro de Mopsuéstia, nem a carta de Ibas, que foi trazida pelos adversários, poderá valer para vos socorrer diante do tribunal de tão grande juiz. Obedeçamos, portanto, ao Doutor das nações, que na primeira carta aos Coríntios diz: “Aspirai aos carismas melhores, e ainda vos mostro um caminho mais excelente” (I Cor 12,31). Quais sejam, pois, os maiores e que ele promete demonstrar, ouçamos com mais atenção de sua própria voz: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, tornei-me como bronze que soa ou címbalo que retine. E ainda que tivesse profecia e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, e ainda que distribuísse todos os meus bens em alimentos para os pobres, e entregasse meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada me aproveita” (I Cor 13,1–3); e novamente: “Fé, esperança e caridade, estas três; mas a maior delas é a caridade” (I Cor 13,13). Que confiança, portanto, podereis ter diante do Senhor, quando, não percebendo que nenhum escândalo de nossa fé íntegra vos é dado, persistis por tanto tempo em vos dividir da Igreja de Deus, que é una, e da caridade fraterna, por questões supérfluas? Onde de fato esteja estabelecida a Igreja, embora esteja claro pela própria voz do Senhor no santo Evangelho, ouçamos ainda como o bem-aventurado Agostinho definiu, lembrando-se da mesma sentença do Senhor. Diz, com efeito: “Estão na Igreja de Deus aqueles que se sabe presidirem às sedes apostólicas pela sucessão dos prelados. E quem quer que se tenha separado da comunhão ou da autoridade dessas mesmas sedes, mostra-se estar no cisma”. E mais adiante: “Posto fora, mesmo que tenhas morrido pelo nome de Cristo, não serás contado entre os membros de Cristo. Sofre por Cristo, aderindo ao corpo; luta pelo Cabeça”. Mas também o bem-aventurado Cipriano, insigne mártir, no livro que intitulou Sobre a unidade, entre outras coisas diz assim: “O princípio parte da unidade; e ao Pedro é dado o primado, para que se mostre uma só Igreja de Cristo e uma só cátedra; e todos são pastores, mas o rebanho se mostra um, o qual é apascentado pela unanimidade dos apóstolos”. E pouco depois: “Aquele que não guarda esta unidade da Igreja, acredita guardar a fé? Aquele que abandona a cátedra de Pedro, sobre a qual a Igreja foi fundada, e a resiste, confia estar na Igreja?”. E ainda, mais adiante: “Não podem chegar à recompensa da paz, porque, pelo furor da discórdia, romperam a paz do Senhor”.
E do mesmo livro: “Aos que vêm ao sacrifício com dissensão, manda que se afastem do altar, e ordena primeiro reconciliar-se com o irmão, e então, voltando em paz, oferecer a Deus o dom” (Mt 5,23–24); “pois Deus não olhou para as oferendas de Caim” (Gn 4,5); nem podia ter Deus pacificado aquele que não tinha paz com o irmão por zelos de discórdia”. Que paz, portanto, prometem a si mesmos os inimigos dos irmãos? Que sacrifícios creem celebrar os êmulos dos sacerdotes? Julgam que Cristo está com eles, quando se reúnem fora da Igreja, aqueles que se congregam? Tais, mesmo que mortos na confissão do nome, não são lavados deste pecado nem com o sangue. A inexpiável e grave culpa da discórdia não se purga nem com o martírio. Não pode ser mártir quem não está na Igreja; não poderá chegar ao reino quem abandonou aquela que há de reinar. E mais adiante: “Não podem permanecer com Deus os que não quiseram permanecer unanimemente na Igreja de Deus, ainda que queimem em chamas e sejam entregues aos fogos, ou se ofereçam às feras; não será essa a coroa da fé, mas a pena da perfídia; não o glorioso fim de uma virtude religiosa, mas a perdição do desespero. Tal pode ser morto, mas não pode ser coroado”.
Ainda do mesmo: “Ou parece a si mesmo estar com Cristo aquele que age contra os sacerdotes de Cristo? Aquele que ousa separar-se da sociedade do seu clero e povo? Ele porta armas contra Deus, resiste à disposição de Deus: inimigo do altar, rebelde contra o sacrifício de Cristo, pérfido quanto à fé, sacrílego quanto à religião, servo desobediente, filho ímpio, irmão inimigo, tendo desprezado os bispos e abandonado os sacerdotes de Deus, ousou erigir outro altar”. Ainda do mesmo: “O crime do cisma é pior do que o daqueles que sacrificaram [aos ídolos], os quais, contudo, postos na penitência de seu crime, suplicam ao Senhor pelas satisfações do povo. Aqui a Igreja é buscada e rogada; ali é combatida. Aqui pode ter havido necessidade; ali se mantém a vontade no crime. Aqui quem caiu só a si prejudicou; ali quem tenta fazer heresia ou cisma, arrastando consigo muitos, enganou-os. Aqui é dano de uma alma; ali, perigo de muitas. Aqui reconhece e chora ter pecado; ali, inchado no seu pecado e agradando-se de suas próprias faltas, separa os filhos da mãe, arranca as ovelhas do pastor, perturba os sacramentos de Deus, e, tendo caído uma vez, pecou; mas aquele peca todos os dias. Por fim, o que caiu pode depois, alcançando o martírio, receber as promessas do reino; aquele, se for morto fora da Igreja, não poderá chegar às recompensas da Igreja”.
Ainda do mesmo: “E se nas Sagradas Escrituras se prescreve frequentemente e em toda parte a disciplina, e o fundamento da religião provém da observância da fé e do temor, que devemos mais avidamente desejar, o que mais devemos querer e guardar, senão que, firmemente fixados pelas raízes e solidificados nossas moradas sobre a massa robusta da pedra, permaneçamos inabaláveis perante as tempestades e turbilhões do século, a fim de podermos chegar aos dons de Deus pelos preceitos divinos?”.
E por isso exortamos vossa caridade e vos rogamos que, conhecendo testemunhos tão terríveis dos Padres, de modo algum consintais em permanecer doravante na divisão da Igreja; mas, com toda a intenção da mente, apressai-vos a voltar às entranhas da santa mãe católica e apostólica, para que, radicados na caridade da unidade e nela fundados, possamos merecer dizer: “Eis quão bom e quão suave é que os irmãos habitem em união” (Sl 132,1), exclamando verdadeiramente: “Encheu-se de alegria a nossa boca, e a nossa língua de exultação” (Sl 125,2). Com respostas, pois, de estilo breve, mas de abundante caridade, confiamos tanto na disposição de vossos ânimos como na virtude da divina misericórdia que sereis restaurados sem dúvida mais cedo à santa Igreja. Mas, se ainda, por nossos pecados, o inimigo das almas vos tiver inspirado alguma obstinação (o que não permita Deus) ou alguma dúvida, conforme a interlocução de nossos atos supremos aqui realizados, e como suplicamos ao excelentíssimo nosso filho, o exarca Smaragdo da Itália, apressai-vos a enviar a nós pessoas instruídas, por meio das quais seja mais fácil prestar e receber razão, para que de ora em diante não reste dúvida ou demora em vosso consenso, se lhes for prestada plena satisfação. Ou, se por causa da distância dos lugares ou da qualidade dos tempos tiverdes receio, faça-se então em Ravena a congregação dos sacerdotes, para a qual nós também, pela graça de Deus, enviaremos aqueles que representem nosso lugar, dos quais podereis receber satisfação pleníssima; para que as almas simples não permaneçam mais tempo divididas da santa Igreja por questões supérfluas, nem que, por vossa causa, a quem convém ser pastores do rebanho do Senhor, as ovelhas, vagando fora dos apriscos eclesiásticos, sejam devoradas pelos dentes do lobo rapace.
