DIONISIO VÁZQUEZ, CONTROVERSISTA DA COMPANHIA DE JESUS
Jesuitas y Teología, 4 de novembro de 2025
Tradutor do texto: Elvira Mattoso.
Descrição: Breve notícia biográfica do jesuíta converso Dionisio Vázquez, um dos líderes do movimento memorialista.
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Entrada na Companhia e relação com Francisco de Borja
O padre Dionisio Vázquez nasceu em Toledo no ano de 1527. Sem dúvida, este toledano é um dos jesuítas mais controversos do primeiro século da Companhia de Jesus na Espanha. Conheceu os dias iniciais, quando ainda quase não existiam fundações e se dava muita ênfase aos centros universitários. Por isso, Dionisio Vázquez ingressou na Companhia em 1550, na cidade de Alcalá de Henares.
Quatro anos depois, obteve o grau de mestre em artes, foi ordenado sacerdote em 1555 e iniciou sua formação teológica na primeira das universidades jesuíticas do mundo, a de Gandía, fundada por iniciativa de seu duque e, muito em breve, membro da Companhia, Francisco de Borja (1510–1572). Precisamente, a entrada deste na ordem inaciana provocaria uma notável surpresa dentro e fora dele, especialmente entre os membros da nobreza: “O mundo não tem ouvidos para escutar tal estrondo”, afirmou Inácio de Loyola. A carreira de Borja dentro da Companhia haveria de ser meteórica, o que provocou oposições notáveis, como a protagonizada pelo primeiro provincial na Espanha e em Castela, Antonio de Araoz (1516–1573).
Borja havia sido nomeado comissário para a Espanha e Portugal e, nesse tempo, Dionisio Vázquez o acompanhou. O imperador Carlos V (1500–1558), que já havia abdicado e se encontrava retirado no mosteiro jerônimo de Yuste, confiava muito pouco nos jesuítas, mas continuava apreciando seu antigo homem de confiança, o duque de Gandía, confiando-lhe algumas missões diplomáticas. Vázquez também pôde estar diante do imperador, à sombra de Borja, em dezembro de 1557. No ano seguinte, Vázquez encontrava-se em Valladolid, em seu colégio de San Antonio, que tanto lhe custava deslanchar, destacando-se como confessor e pregador.
Nesse mesmo momento, passaria ao colégio de Ávila, do qual foi reitor até 1561. Ali conheceu Teresa de Ahumada (Santa Teresa de Ávila) (1515–1582), nos dias anteriores à sua saída do mosteiro da Encarnação e à fundação da primeira casa da reforma descalça, o convento de San José, em agosto de 1562. Mostrou-se sempre afetuoso com a monja do Carmelo.
Atuação em Roma e conflitos
Dionisio Vázquez solicitou a transferência para a província de Aragão, permanecendo algum tempo nas fundações de Valência e Gandía. Os catálogos ousavam sublinhar a “prudência” deste jesuíta ao tratar um número importante de assuntos. Em 1563, Dionisio Vázquez saiu da Espanha e foi enviado para Antuérpia, com o fim de trabalhar nos ministérios pastorais entre a população espanhola ali residente. Francisco de Borja, seu antigo superior na Espanha, agora como prepósito-geral, chamou-o a Roma em 1566 para que permanecesse junto a ele como ajudante na secretaria dirigida por Juan Alfonso Polanco (1517–1576) — aquele que foi chamado de “verdadeiro Santo Inácio” por García de Cortázar.
Essa presença de Vázquez na Cúria jesuítica não deu bons resultados. Tampouco foi positivo seu governo à frente do Colégio Romano a partir de 1568. O rigor demonstrado provocou tensões entre os estudantes. Em 1570, foi-lhe confiada a visita à província de Nápoles, encarregando-se do governo da mesma como vice-provincial em 1571, para que seu titular, Alfonso Salmerón (1515–1585), um antigo companheiro de Inácio de Loyola, pudesse se dedicar à elaboração de seus comentários bíblicos. Como delegado de sua província, participou de uma das Congregações Gerais mais controversas, a IIIª, celebrada após a morte de Francisco de Borja em 1573. Naqueles momentos, o Papa Gregório XIII (1502–1585) interveio para evitar a eleição de Juan de Polanco como o quarto prepósito-geral e, especialmente, de um espanhol à frente da Companhia.
O movimento memorialista
O flamengo Everard Mercurian (1514–1580) foi encarregado do governo da Companhia, e foi ele quem tirou Dionisio Vázquez de Roma, enviando-o de volta à Espanha. Vázquez participou do peculiar “desterro” de muitos jesuítas espanhóis que haviam vivido em Roma nos anos anteriores. Dionisio Vázquez não aceitou essa disposição de seu superior-geral, segundo os parâmetros da obediência, e tornou-se a cabeça visível da oposição que se desencadeou diante da nova situação.
O padre Vázquez tornou-se o mais destacado dos chamados “memorialistas”. Ele foi o autor de, pelo menos, dois memoriais. Neles, pedia-se que a Companhia de Jesus na Espanha fosse governada por um comissário local, tornando-se independente da autoridade do prepósito-geral que residia em Roma. Justificava essa posição afirmando que o superior romano, devido à distância, não podia conhecer os problemas reais dos jesuítas que viviam na Espanha.
Enfatizava a saída injustificada de pessoas e de dinheiro espanhóis para outras obras da Companhia fora dessas fronteiras — sem dúvida, esquecendo-se do que o próprio Francisco de Borja fizera pelo Colégio Romano. Vázquez considerava, participando tardiamente dessa política de fronteiras fechadas, que a Companhia na Espanha, governada por autoridades estrangeiras, corria o risco de facilitar a entrada de ideias heréticas no âmbito católico.
Últimos anos e obra literária
A morte de Mercuriano e a eleição de um novo prepósito estrangeiro, o napolitano Claudio Acquaviva (1543–1615), não acalmaram a rebeldia do jesuíta desobediente. Os superiores o tiraram de Toledo e o enviaram, novamente, para a importante capital jesuítica que era Valladolid. Apesar de tudo, Acquaviva encarregou-o de escrever uma “Vida” de Francisco de Borja. Ele fôra um homem muito próximo ao antigo duque de Gandía e era uma testemunha ocular dos acontecimentos que lhe fora incumbido relatar. No entanto, Dionisio Vázquez recriava literariamente os diferentes textos que apresentava. Ciente desses defeitos, Acquaviva ordenou aos visitadores que recolhessem a obra, proibindo sua publicação, permanecendo desde então inédita nos fundos do Archivum Romanum Societatis Iesu. Juan Álvaro de Cienfuegos Villazón (1657–1739), jesuíta que chegou a cardeal, justificou isso desta maneira em sua própria “Vida” de São Francisco de Borja:
“Não chegou à estampa, talvez porque pareceram muito grandes os favores que o Céu derramou sobre esta grande alma [a de Francisco de Borja], para serem trazidos à luz, estando ainda quente sua memória e sua cinza.”
Isso não significa que outros não conhecessem o trabalho de Dionisio Vázquez. Juan Eusebio Nieremberg (1595–1658) utilizou-o quando escreveu sua contribuição biográfica ao terceiro prepósito Francisco de Borja, publicada em 1644, conforme reconhecido em sua “Advertência e protesto do autor”. Álvaro de Cienfuegos dizia ter em seu poder o original do trabalho do padre Vázquez, “onde principalmente minha pena bebe o que escreve”. O próprio Vázquez afirmara no prólogo: “O que eu posso oferecer ao leitor desta história é que nela não contarei coisa da qual eu mesmo não seja testemunha, ou não possa dar testemunho e autoria autêntica”.
Dionisio Vázquez faleceu em Madrid, em 28 de março de 1589.
