DOMINUS PLINIUS: UM SONHADOR DE SECRETAS REDENÇÕES
Paulo Valadares
Fonte: https://antigroselha.wordpress.com/2016/07/13/dominus-plinius/
Descrição: Excerto de A Presença Oculta: Genealogia, Identidade e Cultura Cristã-Nova Brasileira nos Séculos XIX e XX (Fundação Ana Lima, 2007). O texto apresenta Plinio Corrêa de Oliveira como um personagem ambíguo: ao mesmo tempo líder católico ultramontano e fundador de uma sociedade de traços esotéricos e messiânicos. Descreve sua origem familiar marcada por cristãos-novos e vínculos carmelitas, sua formação católica e trajetória pública, e a posterior criação da TFP, um grupo de natureza iniciática, com símbolos, linguagem e hierarquia esotéricas. Analisa a presença de elementos judaicos e cabalísticos — como o tau, o leão da tribo de Judá e a “cadeira de Elias” — reinterpretados dentro de uma estrutura católica heterodoxa, e, por fim, mostra como Plinio foi deificado como novo Moisés e Elias pelos adeptos de sua seita.

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Na literatura de Jorge Luís Borges (1899–1986), o brasileiro Antônio Conselheiro (1828–1897) aparece como um “sonhador de secretas redenções”. Creio que o título cabe também ao advogado Plinio Corrêa de Oliveira, carmelita e descendente de cristãos-novos, que é mais conhecido como líder anti-comunista, fundador da TFP, mas pouco se diz do criador de uma sociedade secreta e mística destinada a cultivar uma escatologia messiânica. Aqui não me interessa a dimensão política dessa sociedade, mas sua porção religiosa, notadamente seus elementos simbólicos que a legitimam e lhe dão identidade.[1]
Plínio Corrêa de Oliveira nasceu em São Paulo (1908–1995), filho do advogado João Paulo Corrêa de Oliveira e de Lucília Ribeiro dos Santos. O pai era originário da açucarocracia pernambucana (sobrinho do Conselheiro João Alfredo, chefe do gabinete que aboliu a escravidão no Brasil), e a mãe, da burguesia letrada paulistana. Tanto pelo lado paterno quanto pelo materno, há registros de cristãos-novos entre seus ancestrais, com destaque para o Dr. Álvaro Nunes, que no século XVI fugiu da cidade do Porto para incorporar-se à comunidade judaica de Amsterdã, ancestral dos Bezerra de Menezes, cujo sangue lhe chegou pela avó paterna, Rosenda Cândida Bezerra de Menezes, da mesma família dos místicos nordestinos Padre Cícero Romão Baptista (1844–1934) e Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti (1831–1900), pioneiro do espiritismo brasileiro. Há também na sua linhagem um número expressivo de familiares ligados à Ordem Terceira do Carmo desde o século XVIII. Vivendo entre a parentela materna, ele foi educado, como muitos da elite paulistana, com governanta alemã (Mathilde Heldmann), estudos num colégio jesuíta (São Luís) e na Faculdade de Direito no Largo de São Francisco.[2]
Na década de 20, Plínio Corrêa de Oliveira atravessou uma crise espiritual provocada pela morte acidental (ou por suicídio) de seu primo José Ribeiro dos Santos, conhecido na família como Reizinho, que também fôra seu colega no Colégio São Luís. Essa morte e também o ambiente político da época levaram-no a optar pelo catolicismo. Giulio Folena, um dissidente da TFP, chamou essa adesão religiosa de “conversão”, pois sua família era de maçons e liberais. A fortuna familiar, baseada na cafeicultura, foi abalada com a crise de 1929. Nesse momento, ele se tornou um dirigente da poderosa Congregação Mariana, do jornal arquidiocesano O Legionário, e, junto aos cariocas Alceu de Amoroso Lima e Heitor da Silva Costa (o arquiteto que projetou a estátua do Cristo Redentor no Rio de Janeiro), fundou a Liga Eleitoral Católica. Na Assembléia Constituinte de 1934, foi o representante católico, sendo o deputado mais votado no Estado. Graças ao sucesso eleitoral, mas também às relações familiares (seu bisavô, Dr. Gabriel dos Santos, foi uma figura notável na Faculdade de Direito paulistana e um dos líderes da Revolução Liberal de 1842),[3] ele foi nomeado professor no Largo de São Francisco.
Foi assim que sua carreira tomou um caminho singular. Ele aglutinou em sua volta um grupo de seguidores de variadas origens sociais e religiosas, que recebeu o nome de Grupo Joseph de Maistre e que em 1960 mudou para Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, da Família e da Propriedade. Dedicando-se tempo integral à construção dessa sociedade, seu pensamento foi se tornando tão pessoal a ponto de causar estremecimento e rompimento com o catolicismo regular. Já o primitivo nome da sociedade é uma pista para a identificação das fontes que contribuíram para sua formação. Joseph de Maistre (1753–1825) é mais lembrado como um filósofo cujo pensamento é uma matriz dos fascismos europeus, porém seu misticismo bebeu de grupos martinistas, que ele freqüentou por mais de quarenta anos. Esses grupos foram organizados pelo ocultista franco-ibérico Martínez de Pasqually, de ascendência cristã-nova portuguesa ou espanhola, em forma de lojas maçônicas ou sociedades iniciáticas sob o nome genérico de Ordem dos Eleitos Cohen, para difusão de sua doutrina gnóstica.[4] A esse pensamento heterodoxo, Plinio Corrêa de Oliveira juntou a devoção carmelita, formando assim o corpo central de sua doutrina. Não é meu propósito estudar aqui a doutrina criada por ele, mas a existência de elementos culturais judaicos nessa associação católica, sem que judeus pertencessem a ela, porém tendo vários descendentes de cristãos-novos em sua direção.
Tudo foi meticulosamente preparado para dar uma identidade ao grupo. Para uma sociedade iniciática, os símbolos são muito importantes no cotidiano. Isso era claro até para os recém-chegados. “Todos os móveis e objetos contém significados imperceptíveis aos olhos de um leigo”, registrou um deles.[5] Pois esses símbolos não eram de fácil decodificação e muitos tinham dupla interpretação, uma para uso comunitário e outra para o exterior. A cruz de seus uniformes era um desses símbolos dúplices. Enquanto o mundo via apenas o símbolo cristão, os membros do grupo reconheciam nele “o tau, sinal dos eleitos”, um símbolo cabalístico judaico, baseado no profeta Ezequiel.[6] No séc. XVII, Francisco Manoel de Melo (1608–1666), descendente de cristãos-novos que viveu na Bahia, já fizera a mesma relação entre a cruz cristã e o tau hebraico.[7] Também a linguagem verbal da sociedade era baseada nesse jogo de esconder para revelar. [Era] “constituída por termos herméticos, introduzidos para só serem compreendidos pelos iniciados; por vezes ambíguos, possuem um sentido diferente do verdadeiro, que só será ‘captado’ por alguém ‘entrosado’. Esse sentido ‘diferente’ tem como objetivo único enganar os não-entrosados, escondendo-lhes a verdadeira idéia que o termo comunica”.[8]

O símbolo da sociedade foi o leão, claramente o animal totêmico da tribo de Judá, “the most popular animal in Jewish art” (“o animal mais popular na arte judaica”),[9] significando a luta contra o mal. No caso da sociedade, o mal é uma conspiração “judaico-maçônica” para destruir a pureza da Igreja e a sociedade hierarquizada, cujo modelo ideal é a européia na Idade Média. O inimigo “judaico-maçônico” (sic) não é o que parece ser. Não é o judeu biológico, vamos chamar assim, mas o que eles identificaram como “judeus”: os Papas desde Pio X (Paulo VI foi o maior “judeu” segundo eles) e o clero liberal, o capital financeiro, o protestantismo, a sociedade moderna americanizada, a República, a imprensa hostil… etc., etc. Para complicar as interpretações, o leão é usado num estandarte exatamente como nas lojas maçônicas.[10]
A divisão social dos adeptos, no jargão da sociedade, entre membros das “principais famílias de S. Paulo” e o “3º Estado” (formado por filhos de imigrantes italianos), e os diferentes graus de comprometimento com a seita levaram-na a ter várias casas de reuniões, desde reuniões para a atração de adeptos até os êremos e camáldulas, para a práxis religiosa secreta. Nessas casas havia um elemento comum a todas: uma cadeira em forma de trono, chamada exatamente, como na vida judaica, “cadeira de Elias”,[11] onde, em ocasiões solenes, o seu líder, vestido com o hábito e o manto da Ordem Terceira do Carmo, comandava as cerimônias. Não há no catolicismo regular nada parecido.
O último grau de iniciação foi alcançado por um pequeno grupo de escolhidos chamado “Sempreviva”. São poucas as informações sobre ele. Para pertencer a esse grupo, o escolhido passava por várias cerimônias e depois era levado ao túmulo de Lucília Ribeiro dos Santos Corrêa de Oliveira (1875–1968) no Cemitério da Consolação em São Paulo,[12] que ocupava na seita um lugar intermediário entre as virgens católicas e as esposas místicas da cabalá heterodoxa (como a esposa de Shabetai Tzvi ou a filha de Jacob Frank),[13] e ali se consagrava como escravo espiritual de seu filho. Escolhia ou recebia um hierônimo que o identificava nas cerimônias do grupo, porém era impedido de “comunicar aos demais membros da TFP a existência da ‘sagrada escravidão’”. Há uma relação de 56 membros dessa confraria e seus nomes iniciáticos. Todos se chamam Plínio e mais um segundo nome. A exceção foi o líder que adotou o hierônimo Luís Plinio Elias. À esquerda do nome, os jesuítas (homenagem a São Luís); à direita, o profeta bíblico. Um homem dividido, pelo menos onomasticamente. Cinco deles descendem de cristãos-novos, personagens deste trabalho. Não foram contados os Príncipes Orleans e Bragança, descendentes do Barbadão de Veiros. Onze adotaram hierônimos bíblicos: Paulo Corrêa de Brito Filho, sucessor de Plinio (Plinio Jeremias); Plinio Vidigal Xavier da Silveira, descendente do último rabino-mor de Castela (Plinio Eliseu); Mário Navarro da Costa (Plinio Elias), José Lúcio de Araújo Correia (Plinio Ezequiel), Pedro Paulo Figueiredo (Plinio Jacó), Aloísio Torres (Plinio Macabeu), Paulo César Nascimento (Plinio Henoc), João Carlos Leal da Costa (Plinio Matatias) e Francisco Xavier Tosto (Plinio Isaías).[14] Alguns ex-membros da TFP afirmaram que quatro deles eram circuncidados (F*, M*, e mais dois outros não nominados). Não confirmo ou desminto a afirmação por não ter informações para isso. Apenas faço o registro.
Nesse universo simbólico criado por ele, Plinio Corrêa de Oliveira, além de mestre de uma mensagem esotérica, era também uma figura confundida com dois grandes personagens bíblicos, Moisés e Elias. “Moisés foi um dos maiores entre os maiores profetas, o homem cuja missão era libertar os judeus, filhos eleitos de Deus, de seu cativeiro no Egito e conduzi-los a Canãa, a terra prometida”, afirmava categórico o doutrinador da sociedade. “A missão de Dominus Plinius pode, com segurança, ser comparada à de Moisés”.[15] Já a sua relação com Elias, figura recorrente na sociedade, tem uma explicação bem distante do catolicismo regular. “Elias e João são uma pessoa só. Elias e Plinio são uma pessoa só”, explicou outro membro da seita. “Logo, João e Plinio são uma pessoa só, e este é a reencarnação dos outros dois”.[16] Não há reencarnação no cristianismo. Essa identificação com os personagens bíblicos lhe deu um papel de guia para um porvir messiânico, na sua doutrina, o futuro Reino de Maria, quando o verdadeiro catolicismo seria restaurado e ele teria uma posição ímpar, depois de liderar os católicos durante a apocalíptica “bagarre” (nome dado por eles ao caos que precederia a sua época messiânica).

(EMW, 1985)
Plinio Corrêa de Oliveira, o Dominus Plinius, morreu em 1995. Sua criação, que chegou a ter vinte mil seguidores em vinte e seis países, não resistiu à sua ausência. A sociedade abandonou a cosmologia de seu criador. Trocou o leão judaico pela cruz de Santo André. Ainda hoje o imenso patrimônio amealhado por ela é alvo de renhidas disputas judiciais. Porém não se fala mais de sua crença peculiar, cujas raízes podem ser encontradas nos dias inquisitoriais, inclusive da sociedade criada por ele. Muito parecida com as confrarias estabelecidas por cristãos-novos e depois dissolvidas pela Inquisição, onde o “culto” a um parente foi o elemento central na sua formação e a isso se agregava uma simbologia oriunda da cultura cristã-nova. Muito parecida com a confraria de Santo Antônio [Homem], que homenageava o irmão assasinado pela Inquisição de Gonçalo Homem de Almeida ou a de Santa Teresa na Bahia, em louvor a filha dos Ulhoa, família que conta, entre os seus descendentes contemporâneos, com Paulo de Barros de Ulhoa Cintra, também membro destacado da TFP, mas considerado entre eles como espião da Bucha, a maçonaria acadêmica paulista.[17]
[1] Agradeço a alguns membros e também dissidentes da TFP por entrevistas que nos concederam. Dentre esses interlocutores, destaco o Dr. Orlando Fedeli (1933–), dissidente do grupo original, que nos autorizou a menção do seu nome.
[2] Para uma biografia de Plinio Corrêa de Oliveira, leia-se “Plinio Corrêa de Oliveira: Um resumo biográfico”, de Elói de Magalhães, Catolicismo nº 610, outubro de 2001, pp. 17–27; “Plínio Corrêa de Oliveira: Um homem de fé, de pensamento, de luta e de ação”, FSP, 11.10.1995, p. 1–12–13, obituário publicado pela TFP.
[3] S. A. Sisson, Galeria dos brasileiros ilustres, p. 143–150, traz uma biografia e retrato de Gabriel José Rodrigues dos Santos (1816–1858).
[4] Joachim Martinez de Pasqually, ao que tudo indica, nasceu na França de pai cristão-novo espanhol ou português, talvez em 1715, e morreu em 1774. Sobre a influência cristã-nova na sua doutrina, leia-se Pinharanda Gomes, A filosofia hebraico-portuguesa, p. 364–380.
[5] José Antônio Pedriali, Guerreiros da Virgem: A vida secreta na TFP (EMW, 1985), p. 45.
[6] José Antônio Pedriali, op. cit., p. 45.
[7] D. Francisco Manoel de Mello, Tratado da ciência cabala ou Notícia da arte cabalística, p. 136–7.
[8] Giulio Folena, Escravos do profeta (EMW, 1987), p. 125.
[9] Freema Gottlieb, Mystical stonescapes of Prague Jewish town and czech countryside, p. 24.
[10] São quatro estandartes dispostos numa loja maçônica, que “representam, respectivamente: o Homem, o Leão, o Boi, a Águia. Esses quatro símbolos correspondem às tribos de Rubem, de Judá, de Efraim e de Dan, indicados no Livro de Números como as líderes das quatro divisões do exército de Israel”. Cf. Alec Mellor, Dicionário da franco-maçonaria e dos franco-maçons, p. 112.
[11] Shulhan Aruk, Milah, 265, 11 (comp. Kol Bo, 73).
[12] O jazigo da família Ribeiro dos Santos, em função de Lucília, recebe diariamente um número grande de devotos que, baseados no culto incentivado pela TFP, prestam-lhe devoção como a uma “santa”. Plinio Corrêa de Oliveira repousa ali sob a inscrição latina: Vir totus catholicus et apostolicus plene romanus (“Um varão inteiramente católico e apostólico, plenamente romano”). É comum encontrar entre os que lá rezam dois príncipes da Casa Real e Imperial do Brasil. Ele fica no final da Rua Um, na mesma rua, onde também estão outros dois túmulos de devoção popular: o do espírita português Batuíra (António Gonçalves da Silva, 1839–1909) e o da Marquesa de Santos (Domitila de Castro Canto e Melo, 1797–1867).
[13] Alfredo Gartenberg, Jacob Frank: O messias da sarjeta (romance biográfico) (Rio de Janeiro, 1980), p. 152–4, 283.
[14] Giulio Folena, ob. cit., p. 175–7.
[15] José Antônio Pedriali, ob. cit., p. 87.
[16] Giulio Folena, ob. cit., p. 108.
[17] Bucha ou B:.P:. (do alemão Burschenschaft, confraria dos camaradas). Sociedade secreta e iniciática. Teria sido criado pelo misterioso refugiado alemão “Júlio Frank” (1811–1841) na Faculdade de Direito paulistana. Seu objetivo era formar quadros para a política nacional. Os bucheiros eram recrutados entre os melhores alunos. Pertenceram a ela: Rui Barbosa, Barão do Rio Branco, Pinheiro Machado, David Campista, Júlio de Mesquita Filho, Rodrigues Alves, Afonso Pena, Campos Sales, Venceslau Brás, Washington Luís, Artur Bernardes, dentre tantos. O último chaveiro (chefe supremo) teria sido o embaixador José Carlos de Macedo Soares. Sobre o tema leia: Afonso Arinos de Melo Franco, Rodrigues Alves: Apogeu e Declínio do Presidencialismo (Brasília: Senado Federal, 2001), p. 102–113.
