EPÍSTOLA CCXLI
São Bernardo de Claraval (†1153)
Fonte: M. l’Abbé Charpentier, Oeuvres complètes de Saint Bernard, vol. I, p. 341–343. Louis Vivès, 1865.
Tradutor do texto latino: Gustavo Petrônio Toledo.
Descrição: São Bernardo escreve em 1147 ao conde Hildefonso denunciando Henrique, discípulo de Pedro de Bruys, que semeava heresias em sua terra. Descreve os frutos perversos de sua pregação: igrejas vazias, desprezo aos sacramentos, rejeição do batismo infantil e corrupção da fé. Retrata-o como apóstata e devasso, que, sob aparência de piedade, vive de engano, luxúria e jogos. Reprova o conde por permitir tamanha desordem em seus domínios. Por fim, exorta-o a apoiar os bispos enviados pela Sé Apostólica para extirpar tal peste herética.
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A Hildefonso, Conde de Saint-Gilles, sobre o herege Henrique
São Bernardo descreve Henrique, sucessor do herege Pedro de Bruys, suas ímpias doutrinas e vis crimes, censurando o conde por permitir que tal homem grassasse impunemente em seus domínios.
1. Quantos males ouvimos e conhecemos que Henrique, o herege, tem feito diariamente nas igrejas de Deus? Ele anda em vossa terra sob o disfarce de ovelha, mas é um lobo voraz; e, conforme a palavra do Senhor, reconhecemo-lo por seus frutos: basílicas sem fiéis, fiéis sem sacerdotes, sacerdotes sem a devida reverência, e, por fim, cristãos sem Cristo. A Igreja é tida por sinagoga, nega-se que o santuário de Deus seja santo, os sacramentos não são tidos como sagrados, as festas são privadas de suas solenidades. Morrem os homens em seus pecados; as almas são levadas, por toda parte, ao terrível tribunal — ai! — nem reconciliadas pela penitência, nem fortalecidas pela santa comunhão. Aos pequeninos dos cristãos é vedada a vida de Cristo, já que lhes é negada a graça do batismo; e não lhes é permitido aproximar-se da salvação, conquanto o Salvador clame piedosamente por eles: “Deixai vir a mim os pequeninos” (Mt 19,14). Acaso Aquele cujas misericórdias se estendem não somente aos homens, mas também aos animais, não permite que a mesma abundante misericórdia chegue aos inocentes? Por que invejar às crianças a graça desse pequeno Salvador que, para elas, se fez criança como elas? Essa inveja é diabólica; por ela a morte entrou no mundo. Pensa ele que as crianças, porque são crianças, não necessitam do Salvador? Se assim fosse, em vão o grande Senhor se teria feito pequeno; para não falar de que foi flagelado, coberto de escarros, pregado à cruz e, por fim, morto.
2. Esse homem não é de Deus, pois fala e faz coisas contrárias a Deus. Contudo, oh dor!, é ouvido por muitos, e possui um povo que nele crê. Oh povo infortunado! À voz de um só herege emudeceu nele todas as vozes proféticas e apostólicas, que, pelo único Espírito da verdade, cantaram a reunião da Igreja, de todas as nações, numa só fé em Cristo. Porventura estariam enganados os oráculos divinos? Estão errados todos os olhos e mentes, que, ao lerem o que foi predito, contemplam-no cumprido? Essa verdade tão manifesta a todos, só ele, com estupenda e verdadeiramente judaica cegueira, ou não vê ou tem inveja de ver cumprida, e, com não sei que arte diabólica, persuadiu ao povo insensato e néscio que não acreditasse sequer em seus próprios olhos a respeito de coisa tão manifesta; que os antigos se enganaram, que os pósteros erram, que todo o mundo, mesmo após o sangue de Cristo derramado, iria perder-se, e que somente sobre aqueles que ele engana recaiu toda a riqueza da misericórdia de Deus e a graça do universo. E agora, por causa disso, embora muito debilitado no corpo, empreendi viagem a essas regiões, especialmente devoradas por esse monstro singular, onde não há quem lhe resista nem quem se salve. Expulso de toda a França por semelhante malícia, só essas [regiões] ele encontrou desguarnecidas, nas quais, confiante, debaixo do vosso domínio, investe contra o rebanho de Cristo com todo furor. Julgai vós, ilustre príncipe, se isso condiz com vossa honra. Mas não é de admirar que aquela serpente astuta vos tenha enganado, pois tem aparência de piedade, cuja virtude, porém, nega inteiramente.
3. Mas agora escutai quem ele é. É um homem apóstata, que, abandonado o hábito religioso — pois fôra monge — retornou às torpezas da carne e do século, como um cão a seu vômito. E, não suportando, por vergonha, viver entre seus parentes e conhecidos (ou, antes, não sendo permitido por causa da gravidade do crime), cingiu os rins e empreendeu viagem para onde não sabia, tornando-se errante e fugitivo sobre a terra. E, quando começou a mendigar, lançou mão do Evangelho para seu sustento, pois era letrado; e, pondo à venda a palavra de Deus, pregava para comer. O que pudesse arrancar além da comida, quer dos mais simples do povo, quer de alguma matrona, dissipava-o em jogos de dados ou, mais torpemente ainda, em usos infames. Com efeito, muitas vezes, após os aplausos do povo durante o dia, foi encontrado, à noite, com meretrizes — esse ilustre pregador! — e, por vezes, até com mulheres casadas. Investigai, se vos apraz, nobre varão, como ele saiu da cidade de Lausanne, de Le Mans, de Poitiers, de Bordeaux; e em parte alguma lhe é aberto o caminho de retorno, pois por toda parte deixou atrás de si vestígios imundos. De tal árvore esperáveis, enfim, bons frutos? A terra em que ele se encontra fez sentir seu fétido odor em toda a parte; porque, segundo a palavra do Senhor, não pode uma árvore má produzir bons frutos.
4. Eis, portanto, como disse, a causa de minha vinda. Não venho agora por mim mesmo, mas sou impelido igualmente pela vocação e pela compaixão à Igreja, para ver se aquela espinha e seus rebentos perversos, enquanto ainda são pequenos, podem ser extirpados do campo do Senhor, não por minha mão — que nada sou — mas pela mão dos santos bispos, com os quais estou, e também com o auxílio de vossa poderosa destra. Dentre eles, o principal é o venerável bispo de Óstia, enviado pela Sé Apostólica para esse mesmo fim, um homem que fez grandes coisas em Israel, e pelo qual o Senhor Onipotente deu muitas vitórias à sua Igreja. Cumpre-vos, ilustre varão, recebê-lo honorificamente, a ele e aos que com ele vêm, e não permitir que tão grande labor de tantos homens, empreendido principalmente para vossa salvação e a dos vossos, seja infrutífero, mas, segundo o poder que do alto vos foi dado, deveis prestar vossa cooperação.
