EPÍSTOLA X
Papa São Pio V (†1572)
Fonte: François Goubau, Apostolicarum Pii Quinti Pont. Max. Epistolarum libri quinque, p. 151–153. Antuérpia, 1640.
Tradutor do texto latino: Gustavo Petrônio Toledo.
Descrição: São Pio V felicita o rei Carlos IX da França (1550–1574) pela vitória católica na Batalha de Jarnac (13 de março de 1569), onde o líder huguenote, Luís de Condé, foi morto. O pontífice interpreta o triunfo como sinal da providência divina e exorta o rei a exterminar completamente os hereges restantes, para evitar o ressurgimento da heresia. Cita o exemplo bíblico do rei Saul para advertir contra a clemência com os inimigos de Deus. O papa insiste na erradicação total do protestantismo na França e promete o auxílio contínuo de Deus se o rei perseverar na defesa da fé católica.
_______________
EPÍSTOLA X — DO PAPA PIO V AO REI CARLOS IX
Ao caríssimo filho em Cristo, Carlos, cristianíssimo rei dos francos.
Caríssimo filho em Cristo, saúde e bênção apostólica. Tendo recebido a tão desejada notícia de que o amado filho, o nobre Duque de Anjou, irmão de Vossa Majestade, com o auxílio de Deus, levou a cabo com sucesso uma campanha contra os inimigos de Deus e da Igreja, que são também vossos rebeldes, e que matou aquele que era o cabeça de todas as turbas e sedições e o comandante do exército dos hereges, nós, erguendo de imediato as mãos ao Céu, rendemos graças, com coração humilde, ao Deus Onipotente, que, ao conceder-vos esta vitória, benignamente derramou sobre nós as riquezas de sua infinita bondade.
Vossa Majestade deve reconhecer, com alma piedosa e grata, este tão grande e valioso dom da divina clemência, e atribuir todo o mérito Àquele que, quando quis, lançou a derrota sobre os seus e vossos inimigos e feriu o adversário com a força da sua destra. Mas, quanto maior for a benignidade que Deus tem usado convosco e com os vossos nobres, mais zelosa e diligentemente deveis vós, por ocasião desta vitória, empenhar-vos em perseguir e aniquilar os inimigos restantes que ainda resistem, arrancando completamente pelas raízes todos os vestígios de um mal tão grande e tão enraizado, e até os mais pequenos filamentos dessas raízes. Pois se não forem totalmente extirpados, acontecerá que voltarão a brotar e, de onde Vossa Majestade menos espera, como tantas vezes vimos acontecer no passado, renascerão de novo.
Para levar a cabo esta tarefa, será de grande utilidade que, ocupando os lugares mais fortificados da Navarra e neles estabelecendo guarnições de católicos fiéis a Vossa Majestade, com comandantes e soldados, vós vos certifiqueis de que dessa parte não surjam novamente novos motins e tumultos de guerra. Por isso vos exortamos, movidos por nossa solicitude paterna por ti e por teu reino: não deixeis mais qualquer cidade ou fortaleza com a mínima chance de se revoltar contra os católicos, em favor dos inimigos comuns. Fazei isso, vos pedimos, com todo o empenho e ardor possíveis, pois não poderíamos instar-vos com maior zelo nem com mais vivo desejo pela vossa segurança.
Isto fareis, se nenhum respeito a pessoas nem a coisas humanas vos levar a ter clemência para com os inimigos de Deus, que nunca tiveram clemência nem por Deus nem por vós, pois não podereis de outro modo aplacar a Deus, a não ser que vingueis severamente, com o castigo merecido, as injúrias feitas a Deus por homens assaz criminosos.
Ponha Vossa Majestade diante dos olhos o exemplo do Rei Saul, o qual, tendo sido ordenado por Deus, por meio do Profeta Samuel, a que ferisse os amalecitas, esses povos infiéis, de modo a não lhes poupar de forma alguma, por qualquer razão, porque não obedeceu à vontade e à voz de Deus, e poupou a vida do próprio rei dos amalecitas e preservou os seus bens mais valiosos, pouco depois foi severamente repreendido pelo mesmo profeta que o tinha ungido rei, e foi finalmente deposto do próprio Reino e privado da vida. Com este exemplo Deus quis advertir todos os reis para que, não desprezando a vingança pelas injúrias feitas a Ele, não suscitem contra si mesmos a sua ira e indignação. Mas se Vossa Majestade, tal como até aqui tem feito, com reta intenção e coração sincero, promover e defender a honra de Deus e a causa da religião católica, tenha por certo que nunca lhe faltará o auxílio de Deus, até que, dissipados os seus inimigos, o antigo culto da religião católica neste reino seja restaurado por Vossa Majestade, para glória do seu divino nome e salvação das almas. Para que Deus, na sua misericórdia, digne conceder isto a vós e a nós, humildemente o suplicamos com orações diárias.
Dado em Roma, junto de São Pedro, sob o anel do Pescador, no dia 28 de março de 1569, no quarto ano do nosso pontificado.
