EPÍSTOLA XL
Santo Ambrósio
Fonte: Patrologia latina, vol. XVI, p. 1101–1113. Paris, 1845.
Tradutor do texto latino: Gustavo Petrônio Toledo.
Descrição: Escrita em dezembro de 388, Santo Ambrósio solicita nesta epístola ser ouvido pelo imperador Teodósio I, o Grande (347–395), afirmando que a solicitude é louvada em um príncipe; que ele não pode calar-se sem perigo para ambos; que a liberdade da palavra não desagrada aos reis; mas que aquele [o imperador], ainda que piedoso, pode ser enganado; que a sentença acerca da restauração da sinagoga é perigosa, pois expõe o bispo ao martírio ou à prevaricação. A esse respeito, sendo proposto o exemplo de Juliano, o Apóstata, refutam-se as razões do decreto, sobretudo porque os judeus já haviam queimado várias igrejas. Daqui passa-se ao caso dos valentinianos, que são declarados piores que os gentios; e, minorando-se a importância do seu templo e dos donativos que se diziam ter sido subtraídos, demonstra-se que se abre uma porta às calúnias dos judeus e se concede um triunfo sobre Cristo. Sobre isso, institui-se uma expostulação alegórica do Senhor; depois de Teodósio ser advertido pelo exemplo de Máximo, para não querer vingar os judeus ou os hereges, ele é novamente exortado à clemência.
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Ambrósio, bispo, ao clementíssimo príncipe e beatíssimo imperador Teodósio Augusto
1. Estou sempre sobrecarregado de incessantes cuidados, ó beatíssimo Imperador, mas nunca estive em tão grande angústia quanto agora, quando vejo que devo tomar cuidado para que nada me seja imputado, mesmo que envolva o perigo de sacrilégio. Por isso, peço que ouças pacientemente o meu discurso. Pois, se não sou digno de ser ouvido por ti, tampouco sou digno de oferecer [sacrifício] por ti, a quem confias teus votos e tuas preces. Não ouvirás, portanto, aquele a quem desejas que Deus ouça [quando ora] em teu favor? Não ouvirás aquele que ora em sua própria defesa, a quem já ouviste intercedendo por outros? E não receias, por teu próprio juízo, que, ao julgares indigno de ouvir alguém, tornes indigno aquele que deve ser ouvido por ti [diante de Deus]?
2. Nem convém a um imperador recusar a liberdade da palavra, nem a um bispo calar-se naquilo que pensa. Entre vós, imperadores, não há qualidade tão popular e tão amável como a de estimar a liberdade, até mesmo naqueles que, pelo serviço militar, vos estão sujeitos. Esta é, de fato, a diferença entre os bons e os maus príncipes: os bons amam a liberdade; os maus, a servidão. E não há nada em um bispo tão perigoso diante de Deus, tão vil diante dos homens, como não declarar livremente o que pensa. Pois está escrito: “E falava dos teus testemunhos diante dos reis, e não me envergonhava” (Sl 118,46); e em outro lugar: “Filho do homem, coloquei-te como atalaia para a casa de Israel (Ez 3,17), a fim de que — diz-se,“para que, se o justo se desviar de sua justiça e cometer delito, e tu não o advertires, ou seja, não disseres o que deve ser evitado, sua justiça não será lembrada, e de tua mão requererei o seu sangue. Mas se advertires o justo para que não peque, e ele não pecar, o justo viverá por sua justiça, e tu salvarás tua alma” (Ez 3,20–21).
3. Prefiro, portanto, ó Imperador, ter contigo comunhão nas boas obras do que nas más; e, por isso, o silêncio do bispo deve ser-te desagradável; sua liberdade, agradável. Pois, com o meu silêncio, te envolves em perigo; com minha liberdade, és ajudado pelo benefício de minha franqueza. Não me intrometo importunamente em coisas alheias, nem me imiscuo em assuntos indevidos; antes, cumpro os meus deveres, obedeço aos mandamentos de nosso Deus. Faço isso primeiramente por amor a ti, em gratidão a ti, pelo zelo em preservar tua salvação. Se não acreditas nisso, ou se me é vedado falar, falo, ainda assim, por temor de ofender a Deus. Pois, se meu perigo pessoal pudesse te eximir, oferecer-me-ia pacientemente em teu favor, embora não de bom grado; pois prefiro que tu sejas aceito por Deus e glorioso sem que eu esteja em perigo. Mas, se a culpa de meu silêncio e dissimulação pesa sobre mim e não te liberta, prefiro que me julgues importuno do que inútil ou vergonhoso. Pois está escrito, pela boca do santo apóstolo Paulo, cuja doutrina não podes refutar: “Insiste oportuna e inoportunamente, repreende, suplica, exorta com toda paciência e doutrina” (2 Tm 4,2).
4. Temos alguém a quem é mais perigoso desagradar;[1] sobretudo porque nem mesmo aos imperadores desagrada que cada um exerça sua função, e vós escutais pacientemente cada um que sugere algo segundo o próprio ofício; até mesmo o corrigis, se não agir conforme o seu serviço. Então o que aceitais de bom grado naqueles que vos servem pode parecer incômodo em bispos, quando falamos não o que queremos, mas o que nos é ordenado dizer? Pois sabes o que está escrito: “Quando vos conduzirem diante de reis e governadores, não penseis em como ou no que falareis; pois vos será dado naquela hora o que deveis falar. Porque não sois vós que falais, mas o Espírito do vosso Pai que fala em vós” (Mt 10,18–20). E, contudo, se eu falasse sobre questões públicas (ainda que também aí a justiça deva ser observada), não me veria tão constrangido pelo temor caso não fosse ouvido; mas na causa de Deus, a quem ouvirás, se não ouvires o bispo, que peca com maior perigo? Quem ousará dizer-te a verdade, se não o bispo?
5. Sei que és piedoso, clemente, manso e tranquilo, que tens no coração a fé e o temor do Senhor; mas muitas vezes somos enganados. Alguns têm zelo de Deus, mas não segundo a ciência (Rm 10,2). Para que tal coisa não se insinue também em ânimos fiéis, penso que se deve ter cuidado. Sei de tua piedade para com Deus, de tua clemência para com os homens. Eu mesmo te sou devedor dos benefícios de tuas indulgências. E, por isso, temo ainda mais, por isso me angustio mais, para que tu mesmo não me condenes depois, pelo teu juízo, por não teres evitado um erro devido à minha dissimulação ou adulação. Pois se eu te visse pecar contra mim, não deveria calar-me; está escrito, com efeito: “Se teu irmão pecar contra ti, repreende-o a sós; depois, admoesta-o diante de duas ou três testemunhas. Se não te ouvir, dize-o à Igreja” (Mt 18,15–17). Calar-me-ia, então, na causa de Deus? Consideremos, portanto, onde está meu temor.
6. Foi relatado peloconde das forças militares do Oriente[2] que uma sinagoga havia sido incendiada,[3] e que isso foi feito por instigação de um bispo. Tu ordenaste que os envolvidos fossem punidos e que a sinagoga fosse reconstruída às custas do bispo. Não afirmo[4] que a declaração do bispo deveria ter sido aguardada, pois os bispos são moderadores das multidões e zelosos pela paz, exceto quando eles próprios são movidos pela injúria a Deus ou pelo insulto à Igreja. Suponhamos, no entanto, que este bispo em particular tenha sido impetuoso demais ao incendiar a sinagoga, porém demasiado tímido no tribunal: não temes, ó Imperador, que ele ceda à tua sentença? Não temes que ele se torne um prevaricador?[5]
7. Não temes também o que certamente acontecerá: que ele resista às palavras do teu conde? Será necessário, então, que faças dele um prevaricador ou um mártir: ambos são alheios aos teus tempos [de reinado], ambos têm aparência de perseguição, seja forçando-o a prevaricar, seja levando-o ao martírio. Vês para onde se inclina o desfecho desse caso. Se consideras que o bispo é firme, acautela-te de fazê-lo mártir se ele se tornar ainda mais firme; se o julgas inconstante, evita a queda de quem é frágil, pois é mais culpável quem força um fraco a cair.
8. Suponho que, no estado atual das coisas, o bispo admitirá que ele mesmo ateou o fogo, que ele próprio instigou as turbas, que reuniu os povos, para não perder a ocasião do martírio e de oferecer um homem forte em lugar de muitos fracos.[6] Ó feliz mentira, que traz absolvição para os outros e graça para si mesmo![7] Eis, ó Imperador, o que também peço: que antes dirijas tua vingança contra mim, e, se consideras isto crime, imputa-o a mim. Por que mandas proferir sentença contra os que estão ausentes? Tens presente a mim, tens aqui um réu confesso. Declaro que eu incendiei a sinagoga, ou pelo menos que ordenei que o fizessem, para que não houvesse um lugar onde Cristo fosse negado.Se me objetarem por que não incendiei esta outra, respondo: já começou a ser queimada pelo juízo divino;[8] cessou minha obra. Se queres a verdade, fui mais lento justamente porque não julgava que isso devesse ser punido. Que haveria de fazer eu, quando o ato não teria vingador nem recompensa? Essas coisas me ferem a vergonha, mas reconduzem à graça, para que não se cometa uma ofensa contra o Deus Altíssimo.
9. Seja como for, que ninguém chame o bispo a juízo por cumprir seu dever: eis o pedido que faço à Tua Clemência. E, embora eu ainda não tenha lido que o edito foi revogado, consideremo-lo como revogado. E se outros, mais tímidos, temendo a morte, oferecerem reconstruir a sinagoga com seus próprios recursos, ou se o conde, ao saber disso, ordenar que seja reconstruída com o tesouro dos cristãos? Terás, ó Imperador, um conde prevaricador, e a ele confiarás os estandartes vitoriosos, a ele o lábaro, que é consagrado pelo nome de Cristo,[9] para que restaure uma sinagoga que não reconhece a Cristo? Ordena que o lábaro seja levado à sinagoga, vejamos se eles [os judeus] não resistirão.
10. Assim, o lugar da perfídia dos judeus será construído com os despojos da Igreja; e o patrimônio, que foi adquirido pelos cristãos com o favor de Cristo, será transferido para os donativos dos pérfidos? Lemos que outrora templos foram construídos para ídolos com os despojos dos cimbros e de outros inimigos.[10] Os judeus escreverão este título na fachada de sua sinagoga: Templo da impiedade, erguido com os despojos dos cristãos.
11. Qual é teu motivo, ó Imperador? A disciplina? O que, então, é mais importante: a aparência da disciplina ou a causa da religião? É preciso que a censura [da lei] ceda à religião.
12. Não ouviste, ó Imperador, que, quando Juliano [Apóstata] ordenou a reconstrução do templo em Jerusalém, aqueles que o faziam foram consumidos pelo fogo divino?[11] Não receias que também agora suceda o mesmo? Tanto menos devias ordenar isso, pois foi Juliano quem o ordenou![12]
13. Mas o que te move? O fato de algum edifício público qualquer ter sido queimado, ou o fato de ter sido justamente uma sinagoga? Se te inquietas pelo incêndio de um edifício vilíssimo (pois que valor poderia haver em tão ignóbil construção?), não te recordas, ó Imperador, de quantas casas de prefeitos foram queimadas em Roma, e ninguém buscou vingança? Pelo contrário, se algum imperador quis repreender severamente o feito, apenas agravou ainda mais a situação daquele que sofreu tão grande perda. O que é, então, mais digno: vingar o incêndio de alguns edifícios em uma parte do castro de Calínico ou o da cidade de Roma, se fosse necessário vingar algo? Há algum tempo foi incendiada a casa do bispo em Constantinopla, e o filho de Tua Clemência intercedeu junto ao pai para que não vingasses nem a injúria dele, que é filho do Imperador, nem o incêndio da residência episcopal. Não consideras, ó Imperador, que, ao ordenares a vingança disso, ele próprio intervirá novamente para que não seja vingado? Mas foi bom que isso tenha sido conquistado pelo filho junto ao pai, pois era digno que ele próprio perdoasse primeiro a sua injúria. Além disso, houve ali uma bela partilha da graça: o filho intercedeu por causa da injúria que sofrera, e assim também o pai pelo filho. Aqui não tens nada que relevar em favor de teu filho; cuida, pois, de não tirar nada da honra de Deus.
14. Não há, portanto, causa suficiente para toda essa comoção, para que se vingue tão severamente o povo por causa do incêndio de um edifício — e muito menos agora, já que uma sinagoga foi queimada, morada da perfídia, casa da impiedade, refúgio da insânia, que o próprio Deus condenou. Pois assim lemos pela boca de Jeremias, dizendo o Senhor nosso Deus: “E farei a esta casa, sobre a qual foi invocado o meu nome, e na qual confiais, e a este lugar que dei a vós e a vossos pais, como fiz a Siló; e vos rejeitarei da minha face, assim como rejeitei a todos os vossos irmãos, toda a descendência de Efraim. E tu, não ores por este povo, nem peças por eles misericórdia, nem intercedas junto a mim em favor deles, porque não te ouvirei. Não vês o que eles fazem nas cidades de Judá?” (Jr 7,14–17). Deus, portanto, nos proíbe de interceder por aqueles que julgas deverem ser vingados.
15. Mas, certamente, se eu argumentasse segundo o direito das gentes, lembraria quantas basílicas da Igreja os judeus queimaram no tempo do império de Juliano: duas em Damasco, das quais uma mal foi restaurada, e com recursos da Igreja, não da sinagoga; a outra basílica ainda jaz num amontoado disforme de ruínas. Basílicas foram queimadas em Gaza, Ascalona, Beirute, enfim, quase em toda aquela região, e ninguém buscou vingança. Uma basílica de incomparável beleza em Alexandria foi incendiada por judeus e pagãos. A Igreja não foi vingada; será vingada a sinagoga?
16. Vingarás também o incêndio do templo dos valentinianos?[13] Pois o que é senão um templo onde se reúne a assembleia dos pagãos? Embora os pagãos invoquem doze deuses, os valentinianos veneram trinta e dois eões, a quem chamam deuses. Pois também soube que foi promulgada uma lei e dadas ordens para o castigo de alguns monges a quem os valentinianos negaram passagem, segundo antigo costume e prática, quando cantavam salmos a caminho da festa dos mártires Macabeus.[14] Indignados com tal insolência, [os monges] incendiaram o pequeno santuário improvisado deles em alguma aldeia.
17. Quantos podem alimentar tal esperança quando recordam que, no tempo de Juliano, um homem que havia derrubado um altar e perturbado um sacrifício foi condenado pelo juiz e sofreu o martírio?[15][16] E assim, aquele juiz que o ouviu nunca foi tido por outra coisa senão perseguidor; ninguém jamais o julgou digno de convívio ou de um ósculo. Se não estivesse já morto, eu recearia, ó Imperador, que tu o punisses, embora ele não tenha escapado da vingança celestial, pois sobreviveu ao seu herdeiro.[17]
18. Mas dizem que foi exigido um julgamento do juiz e que a decisão proferida foi que ele não deveria ter apenas relatado o fato, mas punido; e os cofres de dinheiro que haviam sido tomados tiveram de ser restituídos. Omitirei outros detalhes. As basílicas das igrejas foram incendiadas pelos judeus, e nada foi restituído, nada reclamado, nada investigado. Além disso, o que poderia ter uma sinagoga em um castro remoto, quando tudo o que lá há não é muito, nada precioso, nada abundante? Em suma, o que poderiam ter perdido os judeus intrigantes nesse ato de saque? Essas são apenas artimanhas dos judeus, que desejam caluniar, para que, em razão de suas queixas, seja exigida uma investigação militar extraordinária e o envio de soldados, os quais talvez repitam o que outrora já se dizia antes de tua ascensão, ó Imperador: “Como poderá Cristo nos ajudar, se militamos contra Cristo em favor dos judeus? Somos enviados a vingar os judeus? Eles perderam seus próprios exércitos, [e agora] querem destruir os nossos”.
19. Ademais, a que outras calúnias não se lançariam aqueles que até contra Cristo levantaram falsos testemunhos? A que calúnias não se lançariam homens mentirosos até em assuntos divinos? A quem não apontariam como instigador de sedição? A quem não atacariam, até mesmo aqueles que não conhecem, para que contemplem fileiras inumeráveis de acorrentados do povo cristão, para que vejam as cervizes cativas da plebe fiel, para que os servos de Deus sejam encerrados nas trevas, sejam golpeados com machados, entregues às chamas, condenados às minas, para que seus suplícios não cessem rapidamente?
20. Concederás tu, então, esse triunfo aos judeus sobre a Igreja de Deus? Esse troféu sobre o povo de Cristo? Essa alegria, ó Imperador, aos pérfidos? Essa celebração à Sinagoga? Essa dor à Igreja? O povo judeu registrará essa solenidade entre os seus dias festivos, e contá-la-á decerto entre aqueles em que triunfou dos amorreus, ou dos cananeus, ou em que pôde ser libertado da mão do Faraó, rei do Egito, ou de Nabucodonosor, rei da Babilônia. Acrescentará essa celebração, declarando que obteve um triunfo sobre o povo de Cristo.
21. E, embora eles próprios recusem submeter-se às leis romanas, considerando-as criminosas, agora julgam que devem ser vingados pelas leis romanas. Onde estavam essas leis, quando eles próprios incendiaram as cúpulas das basílicas sagradas? Se Juliano não vingou a Igreja, porque era prevaricador, tu, ó Imperador, vingarás a injúria da sinagoga, sendo cristão?
22. E o que Cristo dirá a ti depois disso? Não te recordas do que Deus mandou a Davi pelo profeta Natã (2 Sm 7,8–17)? “Eu te escolhi dentre teus irmãos menores, e de um homem comum te fiz imperador.[18] Eu, do fruto da tua semente, coloquei alguém no trono imperial. Eu sujeitei a ti as nações bárbaras,[19] eu te dei paz, eu te entreguei teu inimigo em teu poder como cativo.[20] Tu não tinhas trigo para sustento dos exércitos, eu abri para ti as portas pelas mãos dos próprios inimigos, abri os celeiros; teus inimigos te deram os víveres que tinham preparado para si. Eu perturbei os conselhos de teu inimigo, para que se desnudasse a si mesmo. Eu acorrentei o usurpador do império,[21] e amarrei seu espírito, de modo que, ainda tendo possibilidade de fuga, no entanto, com todos os seus, como se temesse que alguém teu perecesse, a si mesmo se encerrou. Eu reuni seu companheiro[22] e exército, que eu já havia dispersado antes para que não batalhassem contra ti, para completar tua vitória.[23] Eu, de muitas nações indômitas, ordenei que teu exército guardasse a fidelidade, a tranquilidade e a concórdia como se fosse de uma só nação. Eu, quando havia sumo perigo de que os Alpes fossem penetrados por traiçoeiros conselhos dos bárbaros, dentro mesmo da barreira dos Alpes[24] te concedi vitória, para que vencesses sem perda. Eu, portanto, te fiz triunfar de teu inimigo — e tu agora darás aos meus inimigos um triunfo sobre meu povo?”.
23. Não foi Máximo arruinado porque, ao ouvir que uma sinagoga em Roma havia sido incendiada, antes do tempo determinado para sua expedição, enviou um édito a Roma, como se fosse o defensor da ordem pública? Por isso o povo cristão disse: “Nada de bom o espera! Este rei tornou-se judeu. Ouvimos dizer que ele é o defensor daqueles a quem Cristo logo pôs à prova, Ele que morreu pelos pecadores”. E, se isso se dizia apenas de suas palavras, que se dirá agora de tua punição efetiva? Ele logo foi vencido pelos francos, pela nação saxã, na Sicília, em Siscia, em Pettau; em toda parte, enfim. Que tem o fiel em comum com o infiel? Que as marcas da vileza do vencido morram com ele. Ao vencedor não cabe imitá-lo, mas condenar a injúria feita pelo derrotado em seus crimes.
24. Eu te recordei esses fatos, não por ingratidão, mas como coisas que te são devidas em justiça, para que, prestando atenção a essas advertências, tu, a quem mais foi dado, mais ames. Quando Simão respondeu com estas palavras, o Senhor Jesus disse: “Julgaste bem” (Lc 7,43); e, voltando-se logo para a mulher que ungia Seus pés, dando exemplo à Igreja, disse a Simão: “Por isso te digo: perdoados lhe são os muitos pecados, porque muito amou. Mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama” (Lc 7,47). Essa é a mulher que entrou na casa do fariseu e rejeitou o judeu, mas ganhou Cristo, pois a Igreja excluiu a sinagoga. Por que se faz de novo o julgamento dentro da casa de Cristo? Será para que a sinagoga expulse a Igreja do seio da fé, da casa de Cristo?
25. Estas coisas, ó Imperador, recolhi neste discurso por amor e dedicação a ti. Sou devedor de tua bondade, pelos favores concedidos aos meus pedidos, quando libertaste muitos do exílio, das prisões e da pena extrema de morte. Estou, pois, obrigado a preferir ferir teus sentimentos em vista de teu bem, pois ninguém tem maior confiança que aquele que ama de coração, e certamente não se deve ferir a quem se deseja o bem. E não devo temer perder em um só momento a benevolência que eu e outros bispos gozamos por tantos anos. Contudo, não é essa benevolência que temo perder, mas a salvação que temo pôr em risco.
26. Quão importante é para ti, ó Imperador, não te sentires obrigado a investigar ou punir um assunto que até agora ninguém investigou nem puniu! É grave colocar tua fé em risco em favor dos judeus. Quando Gedeão matou o bezerro sagrado (Jz 6,31), os gentios disseram: “Que os próprios deuses vinguem sua injúria”. De quem é a tarefa de vingar a sinagoga? De Cristo, a quem eles mataram, a quem negaram? Ou será de Deus Pai, a quem não aceitaram, visto que não aceitaram o Filho? De quem é a tarefa de vingar a heresia dos valentinianos? Como poderá Tua Piedade vingá-los, quando ela mesma já lhes negou entrada e direito de assembleia? Se eu te der o exemplo de Josias, rei aprovado por Deus, condenarás neles aquilo que nele foi aprovado? (cf. 2 Rs 22,2).
27. Ainda que tenhas pouca fé em mim, manda reunir os bispos que tu estimas. Discute com eles, ó Imperador, o que deve ser feito sem prejuízo da fé. Se consultas teus oficiais sobre assuntos de dinheiro, quanto mais justo é consultar os sacerdotes do Senhor sobre assuntos religiosos!
28. Que tua Clemência considere quantos maquinam e espionam contra a Igreja. Se encontram uma pequena fenda, logo cravam o aguilhão. Eu falo à maneira dos homens, mas Deus é mais temido que os homens, pois é justo que Ele seja preferido até mesmo aos imperadores. Se alguém considera justo mostrar deferência a um amigo, ou aos pais ou parentes, penso que mais justamente deve ser mostrada a Deus, que deve ser preferido acima de todos. Olha, pois, por teus interesses, ó Imperador, ou permite que eu olhe pelos meus.
29. Que desculpa terei depois, se se descobrir que por ordem que daqui emanou alguns cristãos foram mortos pela espada, por bastões ou por bolas de chumbo? Como justificarei tal feito? Que desculpa darei aos bispos que lamentam profundamente que sacerdotes ou outros ministros da Igreja, que exerceram seu ofício por trinta anos ou mais, sejam arrancados de suas funções sagradas e forçados a cargos civis?[25] Se os homens que guerreiam por ti são mantidos em serviço por tempo determinado, quanto mais deverias ser cuidadoso com os que guerreiam por Deus![26] Como, digo, justificarei isto diante dos bispos que se queixam de que a Igreja está sendo arruinada pelos ataques graves que lhe são feitos?
30. Por isso, quis que estas coisas viessem ao conhecimento de Tua Clemência. Tu, quando quiseres, dignar-te-ás a refletir e moderar teus desejos; mas exclui e põe fim àquilo que me aflige, e com razão. Faz tu mesmo o que ordenaste que fosse feito, ainda que ele [o conde] não o faça. Prefiro que tu sejas misericordioso a que ele deixe de executar o que lhe foi ordenado.
31. Em troca daqueles que agora tens, deves buscar e conquistar a misericórdia do Senhor para o Império Romano, pois tens mais n’Ele do que esperavas para ti mesmo. Que a Sua graça, o Seu favor, o Seu cuidado por ti te toquem nestas minhas palavras. Temo que confies tua causa à vontade de outro. Tudo ainda está em seu estado original. Nisto, eu me comprometo a Deus por ti: não tenhas escrúpulo por teu juramento. Pode desagradar a Deus aquilo que é corrigido para Sua honra?[27] Não alteres nada naquela carta, tenha sido enviada ou não. Ordena que outra seja escrita, cheia de fé e piedade. Ainda podes corrigir-te; eu não posso ocultar a verdade.
32. Perdoaste ao povo de Antioquia a injúria que te fizeram;[28][29] recordaste as filhas de teu inimigo e as entregaste a um parente para serem criadas; e de teu próprio tesouro enviaste uma pensão à mãe de teu inimigo. Essa grande fé e piedade para com Deus será obscurecida por este ato presente. Suplico-te: depois de poupar inimigos em armas e salvar inimigos pessoais, não presumas punir os cristãos com tal severidade.
33. Agora, ó Imperador, suplico-te que não me ouças com desprezo, pois temo por ti e por mim mesmo, como diz o santo: “Por que fui feito para ver a ruína de meu povo?” (1 Mc 2,7), de modo que eu venha a cometer uma ofensa contra Deus? Em verdade, fiz o que podia com honra: falei contigo no palácio, para que não seja necessário falar contigo na Igreja.
[1] Isto é, Deus. (N.T.)
[2] Cedreno, em sua História, chama este magistrado de Honoratium praefectum, sem dúvida de Constantinopla, onde recorda que esta ação ocorreu. Mas sobre a verdade do fato, ele peca de tal modo que sua opinião pode ser considerada nula. Valesius, em Ammian. Marcellinum, p. 4, tratando do conde do Oriente, diz: “Ademais, como este era um poder civil, admiro-me que Santo Ambrósio escreva isto na carta a Teodósio: ‘Foi relatado pelo conde das forças militares do Oriente’… mas este nó será desfeito por peritos”. Certamente, Godofredo foi mais feliz em solucioná-lo; pois ele, na Cronologia do Código Teodosiano e nos comentários sobre a lei 9 De Judaeis, ensina que aquele que por Ambrósio é dito “conde das forças militares do Oriente”, a quem a lei citada intitula de conde e mestre de ambas as milícias pelo Oriente, para que seja distinguido do outro conde das partes civis do Oriente, a quem Zósimo descreve no livro V da História Nova, Bullengerus no livro IV De Imperio Romano, cap. 25, embora não pareça distinguir suficientemente aquelas duas dignidades, contudo, indica claramente que também a milícia pertenceu ao conde do Oriente com estas palavras: “Porque os Persas devastavam a Armênia e a Mesopotâmia, foi-lhe imposto um conde do Oriente, homem espectável, com um exército, vigário dos prefeitos do pretório”. E pouco depois: “Conde e mestre dos soldados pelo Oriente, ilustre” (Lei VIII De metallis). O mesmo, porém, no capítulo seguinte, transmite que houve dois condes para a coisa militar no Oriente. Essas coisas, ademais, diluem suficientemente a dúvida de Valesius. (Nota de Migne)
[3] Em Calínico. O incidente é bem resumido por Gregory Figueroa, S.A., The Church and the Synagogue in St. Ambrose (Washington, 1949), xiii-xxiv.
[4] Alguns manuscritos: non assero. O termo assertionem, que se segue, Nannius interpreta como defensionem; isto é, defesa. A metáfora foi tirada do fato de que, numa causa de liberdade era necessário estar presente um assertor, ou defensor, que pleiteasse a liberdade de outro que era reclamado para a escravidão. Ita ille. Mas talvez mais verdadeiro e simples seria dizer que assertionem significa o testemunho do bispo, pelo qual declararia se tinha feito aquilo ou não. Há, porém, nas palavras Non astruo uma certa preterição retórica, pela qual o que é mais dito, diz-se negando (ou nega-se que se diga o que principalmente se diz). (Nota de Migne)
[5] Nannius quer que praevaricari aqui seja o mesmo que cair em idolatria; e que praevaricatorem também se diga daquele a quem agora chamamos apóstata; enquanto que, nas letras profanas, praevaricator é aquele que conlui com o réu e trai a causa para o adversário. (Nota de Migne)
[6] O cânon 60 do Concílio de Elvira, realizado no ano 305, proibiu que alguém morto por ter quebrado um ídolo fosse admitido no catálogo dos mártires. Porém, essa queima de que aqui se trata, pela lei de talião e pelo direito das gentes, como se diz abaixo, não parecia ilícita. (Nota de Migne)
[7] Entenda-se no mesmo sentido em que a Igreja canta: Ó feliz culpa!, certamente por causa do efeito bom; pois por si a mentira é sempre má. (Nota de Migne)
[8] Provavelmente foi atingida por um raio.
[9] Às palavras Christi sacratum nomine, a edição romana acrescenta signum. Mas, além do fato de que nenhuma outra edição ou manuscrito reconhece essa palavra, o labarum propriamente não era signum, isto é, não era de matéria sólida, mas um véu augustal. A ocasião de sua instituição, assim como a forma, é abundantemente descrita por Eusébio, livro I da Vida de Constantino, cap. 31, a partir do qual os historiadores posteriores transmitiram a mesma descrição. (Nota de Migne)
[10] Poucos manuscritos: de manibus Cimbrorum… de manibus christianorum (“das mãos dos cimbros… das mãos dos cristãos”). Não está correto, pois manubiae são ou dinheiros adquiridos pela venda do saque inimigo, ou o próprio saque. Sobre os cimbros, porém, destruídos por Mário, consulte Floro, livro III, cap. 3, e Marco Patérculo, livro II, entre outros. (Nota de Migne)
[11] O sentido é, como diz Nannius: “Não ouviste, ó Imperador, que aqueles que limpavam a areia, extraíam materiais das paredes e dos entulhos, para que, por ordem de Juliano, ali se erigisse um novo templo, foram consumidos por fogo celeste?”. Pois em Teodoreto, livro III da História Eclesiástica, cap. 20, lê-se que o fogo irrompeu dos fundamentos e consumiu os operários. Isso ele conta; mas poderiam ser acrescentadas testemunhas de grande peso a essa parte, como Amiano, livro XXIII, cap. 1, e o autor da História Tripartida, livro VI, cap. 43. (Nota de Migne)
[12] Para um relato dos atos de Juliano, veja J. R. Palanque e outros, The Church in the Christian Roman Empire, trad. E. C. Messenger (Londres, 1949), I, 234–239.
[13] Cf. G. Bardy, “Valentin”. DTC 15.2, 2497–2519.
[14] O festival em homenagem aos Macabeus parece ter sido universalmente celebrado na Igreja do século IV em 1º de agosto.
[15] Marcos de Aretusa, na época de Constâncio, havia demolido um templo pagão e foi torturado sob Juliano por se recusar a reconstruí-lo. Cf. Sozomeno, 5.10; Teodoreto, História Eclesiástica, 3.7.
[16] Se a opinião de Barônio para o ano 362, e também de Herniano (livro V da Vida de Ambrósio, cap. 13) é admissível, a qual certamente nos parece bastante provável, este mesmo mártir chamava-se Emiliano. Pois ambos atribuem ao mesmo [mártir] o que Jerônimo transmitiu nos Anais sobre o martírio de Emiliano de Dorostoro, assim como Teodoreto (livro III da História, cap. 7), onde escreve que o nome do juiz era Capitolino. Quanto ao que acrescenta que ninguém depois negou um ósculo àquele juiz, entendemos principalmente daqueles ósculos que os Apóstolos ordenaram que os cristãos se saudassem mutuamente, e que cada um oferecia individualmente aos outros especialmente nas celebrações dos sagrados ritos. Sobre isso consulte Baronio no ano 45; Albaspinaeus nas Observationes e livro II De Veteri Politia, cap. 15 e seguintes; cardeal Bona, livro II De rebus liturgicis, cap. 16, e outros. (Nota de Migne)
[17] Isto é, viveu para ver a morte do filho.
[18] Em 382.
[19] Os godos.
[20] Atanarico.
[21] Máximo.
[22] Andragathius.
[23] “Entendo”, diz Nannio, “que a frota naval que Máximo tinha posto à frente da guerra marítima foi dispersa por uma tempestade”. Pois há quem chame “partes da natureza” a terra e a água; o ar e o fogo não como elementos, mas como elementados; nascidos, certamente, de outro lugar, mas não princípios ou sementes da natureza das coisas. Assim, Nannio. Demais, aqui são tocados muitos pontos históricos, que não seria supérfluo conferir com as narrativas dos historiadores da mesma época. Veja igualmente o que observámos no salmo LXI, nº 62. (Nota de Migne)
[24] Cf. Sozomeno, 4.46.
[25] O ofício da cúria era sobretudo oneroso para os clérigos, uma vez que a ele pertencia o cuidado dos tributos e dos edifícios públicos. Seria, porém, ainda mais oneroso se os clérigos tivessem de cuidar dos espetáculos profanos, como Inocêncio I, na sua decretal a Victrício de Ruão (cap. 13, ed. Quesnel), igualmente na epístola 4 aos Nucerinos (cap. 3), e na epístola 23 ao sínodo de Toledo, parece significar. É mais provável, porém, entender que o mesmo pontífice se refere aos leigos curiais, a quem proíbe serem admitidos ao grau clerical. Pelo menos, não é lícito duvidar de que os clérigos não estavam de modo algum sujeitos àqueles ministérios profanos enquanto o nosso Ambrósio escrevia isso, pois, de outro modo, nunca teria passado tão levemente por uma coisa tão indigna. Quanto a outros encargos das cúrias, Constantino Magno quis, pela lei 2 de episcop., que os clérigos fossem imunes. Mas não apenas Juliano, o Apóstata, tinha rescindido todas as imunidades dos clérigos, como disse Sozomeno (livro V, cap. 5), mas também outros imperadores as tinham parcialmente revogado, parcialmente restringido com várias condições acrescentadas, como se pode discernir de várias leis do Código Teodosiano. (Nota de Migne)
[26] Santo Ambrósio indica a lei 88 de Decurion e a lei 100 do mesmo título, pelas quais, após cinco anos de milícia armada, ou 50 anos de dignidade palatina, se concedia imunidade desses encargos. Acrescente igualmente a lei 12 de Privil. eor. qui in sacr., etc., pela qual o próprio Teodósio reduziu o tempo da milícia palatina para 10 anos. (Nota de Migne)
[27] A saber, guardar o juramento é por vezes contrário ao dever, como transmite o próprio Santo Doutor (livro I De Officiis, cap. 50, nº 264).
[28] A insurreição de 387 em protesto contra impostos adicionais para apoiar uma celebração em homenagem a Arcádio.
[29] Zósimo, Sozomeno e outros escritores relataram por escrito que as estátuas da imperatriz Flacila e também de Teodósio foram derrubadas em Antioquia por uma sedição. Ademais, por ocasião desse crime, estando os antioquenos em grande temor, Crisóstomo, ainda presbítero, proferiu as belíssimas “Orações sobre as Estátuas” para consolá-los. Mas, tendo Teodósio finalmente voltado a conselhos mais brandos, o mesmo Crisóstomo (“Oração 20 aos Antioquenos”) encomiou egregiamente a sua clemência. (Nota de Migne)
