EPÍSTOLAS XI E XII
Papa São Pio V (†1572)
Fonte: François Goubau, Apostolicarum Pii Quinti Pont. Max. Epistolarum libri quinque, p. 154–158. Antuérpia, 1640.
Tradutor do texto latino: Gustavo Petrônio Toledo.
Descrição: As duas cartas de São Pio V (1504–1572) a Catarina de Médici (1519–1589), rainha da França e mãe do rei Carlos IX, foram escritas em 1569, durante um momento crítico das Guerras Religiosas na França (1562–1598). Esse contexto explica o tom urgente, belicoso e teologicamente justificado dos textos. A carta de março de 1569 refere-se à Batalha de Jarnac (13 de março de 1569), onde o exército real católico, liderado pelo duque de Anjou (futuro Henrique III), derrotou os huguenotes e matou seu comandante, o príncipe de Condé. O Santo Padre mostra como a rainha deve lidar com os hereges: não poupar os inimigos, argumentando que a misericórdia seria uma ofensa a Deus e um risco à estabilidade do reino. São Pio V insiste que a vitória só terá valor se for seguida de purga total dos hereges.
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EPÍSTOLA XI — DO PAPA PIO V À RAINHA CATARINA DE MÉDICI
A caríssima em Cristo, nossa filha Catarina, cristianíssima rainha dos franceses.
Caríssima em Cristo filha nossa, saúde e bênção apostólica. Logo que recebemos a notícia tão desejada e excelente de que o amado filho, o nobre varão duque de Anjou, vosso filho, em um combate travado contra os inimigos de Deus e da Igreja, alcançou uma vitória notável, erguendo imediatamente as mãos ao Céu, humildemente demos graças a Deus Onipotente, que, concedendo tal triunfo a Vossa Majestade e a Nós, e removendo aquele homem [que era] o autor de todas as sedições e o instigador e príncipe da guerra ímpia, dignou-se derramar sobre Nós tantas riquezas de sua misericórdia. Queira, pois, Vossa Majestade reconhecer nesse favor singular um benefício de nosso Redentor, e agradecer-lhe com alma piedosa e grata. Mas também, assim como Ele agiu benignamente convosco e com vosso caríssimo filho em Cristo, Cristianíssimo Rei, deveis agora empregar todos os vossos cuidados e diligências para que os restos dos inimigos de Deus e da Igreja sejam perseguidos e destruídos, não apenas combatendo-os, mas arrancando e extirpando completamente as raízes dessa peste tão grande e tão profundamente enraizada. Pois, se não for totalmente exterminada, teme-se, como já experimentamos antes, que volte a brotar e renasça novamente quando Vossa Majestade menos esperar.
É necessário ocupar os lugares fortificados da província de Navarra, e fortificá-los com as guarnições de comandantes e soldados católicos fiéis muito firmes, e colocá-los em segurança, para que nenhum movimento de sedições e guerras possa daí surgir naquela região. De modo algum, e por nenhuma razão, se deve poupar os inimigos de Deus, mas deve-se agir com severidade contra eles, os quais nem a Deus nem a vossos filhos pouparam jamais, pois Deus não pode ser aplacado de outra forma, a não ser que vingueis as injúrias contra Ele com a vingança ordenada. Se, portanto, Vossa Majestade, como até agora o tem feito, buscar com reta intenção e coração simples a honra do Deus onipotente, e combater abertamente e sem temor até o extermínio os inimigos da religião católica, estejais certa de que jamais vos faltará o auxílio divino, e de que Deus preparará vitórias ainda maiores para vós e para vosso filho, o rei. E assim, uma vez destruídos todos os inimigos, seja restaurado naquele nobilíssimo reino o antigo culto da religião católica, para glória de seu nome e vosso louvor perpétuo. Que Deus se digne algum dia conceder-nos isso, é o que suplicamos todos os dias com as mais altas e fervorosas preces.
Dado em Roma, junto a São Pedro, sob o anel do Pescador, no dia 28 de março de 1569, no quarto ano de nosso pontificado.
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EPÍSTOLA XII — DO PAPA PIO V À RAINHA CATARINA DE MÉDICI
A caríssima em Cristo, nossa filha Catarina, cristianíssima rainha dos franceses.
Caríssima em Cristo filha nossa, saúde e bênção apostólica. Tendo conhecido agora com mais certeza e precisão, pelas cartas do Venerável Irmão Bispo de Caiazzo, nosso Núncio e da Sé Apostólica, junto ao amadíssimo em Cristo Filho, o Cristianíssimo Rei, vosso filho, a felicíssima e desejadíssima vitória que Deus, por sua misericórdia, em tempo tão oportuno para a República Cristã, dignou-se conceder a ti e ao Cristianíssimo Rei, vosso filho, erguendo as mãos e os olhos para o mesmo Deus, autor de todas as vitórias, e na humildade do nosso coração, rendemos graças por tão grande e singular benefício. E ainda que do anúncio de tão grande vitória tenhamos recebido, como é justo, grande alegria, creia, contudo, Vossa Majestade, que não menos do que a própria vitória, agradou-nos aquele piedoso e verdadeiramente religioso afeto de alma, que o Cristianíssimo Rei, vosso filho, declarou, quando, trazidos a ele os anúncios do feito rapidamente realizado, voltou-se inteiramente para dar graças a Deus e lhe dirigir louvores, pois viu o verdadeiramente Cristianíssimo Rei que os próprios reinos não podem ser mantidos e conservados por nada mais do que pela suma piedade para com Ele, por cujo dom os próprios reis reinam.
A vós, porém, caríssima Filha, convém estar de bom ânimo e confiante em Deus, e não vos deixar ser aterrorizada pelo medo de quaisquer perigos; mas, com grande fé, com todas as forças, juntamente com o Cristianíssimo Rei, vosso filho, deveis empenhar-vos em vingar as injúrias do Deus Onipotente e dos seus servos, aplicando justa punição contra os rebeldes, para que, tendo sido paga a pena devida a eles pelos seus crimes, possa o nosso Deus ser aplacado, e com isto Vossa Majestade conquiste para si a graça divina, e assim, para que outros se abstenham de crime tão nefando, um memorável e útil exemplo seja deixado para o futuro. Por isso, julgamos que deveis agir com tanto maior zelo e diligência, pois ouvimos que há aí alguns se esforçam para que, do número daqueles hereges que foram capturados, alguns sejam libertados e saiam impunes — o que de modo algum deve ocorrer —, e deveis cuidar, com todo o zelo e diligência, para que esses homens ímpios sejam atingidos pelos justos suplícios, pois, se isso não for feito, essa vitória será de pouca utilidade para a estabilidade e a tranquilidade do reino. Pelo contrário, tendo sido omitida esta punição tão necessária para aplacar a Deus, é de se temer que, assim como contra o Rei Saul, por ter sido omitida uma punição semelhante dos amalecitas, assim também contra vós e vosso filho, se acenda mais gravemente a ira de Deus, quanto mais benigna e misericordiosamente Ele até agora agiu convosco.
Por isso, rogamos a Vossa Majestade que tenha confiança em Nós, pois, visto que não somos movidos por quaisquer razões particulares, mas unicamente pela honra de Deus, julgamos corretamente o que deve ser feito, e, porque amamos com amor paterno o Cristianíssimo Rei, vosso filho, e a vós mesma, damos a ambos o mais fiel e utilíssimo conselho para aquele reino: que vós persevereis na fidelidade e no zelo pela causa divina. Quanto ao nosso ânimo para convosco e para o Cristianíssimo Rei, vosso filho, e o cuidado paterno por aquele reino, queremos que Vossa Majestade assim considere: que tudo o que pudermos com as nossas forças e autoridade, tudo isso estará sempre preparado para ambos. E se, porventura, nos faltarem outros meios, certamente não nos faltará isto: que, assim como temos feito até agora, com insistentes preces a Deus Onipotente, roguemos-lhe assídua e instantemente pela salvação de ambos e pela incolumidade e tranquilidade desse reino. E a vós, caríssima Filha, enviamos o devido cumprimento de nossa saudação e impartimos a nossa bênção, rogando ao Deus Onipotente que vos conceda sua graça e proteção.
Dado em Roma, junto a São Pedro, sob o anel do Pescador, no dia 13 de abril de 1569, no quarto ano de nosso pontificado.
