ÉROSLATRIA
Padre Luan Guidoni

Aristóteles ensina que femina est mas occasionatus. O Angélico, unido ao Filósofo, afirma que per respectum ad naturam particularem, femina est aliquid deficiens et occasionatum, e prossegue distinguindo que per comparationem ad naturam universalem, femina non est aliquid occasionatum, sed est de intentione naturae ad opus generationis ordinata. O que é, portanto, a fêmea? É aquela que serve o homem in adiutorium generationis. Ultrapassado o terreno das definições, seguiremos para a sabedoria dos antigos. Está escrito na Teogonia de Hesíodo que a mulher é o grande pesar dos homens, e em Trabalhos e os Dias o antiquíssimo sábio escreveu sobre Pandora e sua caixa. Quem não conhece o terceiro capítulo do livro de Gênesis? O primeiro homem, rei de toda a criação, rebaixou-se perante uma mulher, uma serpente e um fruto. Refutadas estão todas as objeções dos modernos em um minúsculo parágrafo, e não tendo mais nada para explicar, pois tudo já foi explicado, somos movidos unicamente pela caridade a continuar o texto.
Eu acuso a lira de Anacreonte, antítese da lira de Homero e Orfeu, de alta traição contra o Ocidente. Desmembrando suas antigas cordas e impondo novas, Anacreonte anunciou com clara voz que os heróis de Homero não serão cantados em sua nova lira e que das armas nada dirá em suas cantorias, mas só o amor terá a suprema primazia nos novos versos. Éros acima da guerra e de todo o Olimpo? Blasfêmia. O mesmo Anacreonte admite que o amor não é derrotado em combate, e confessou, tal como fazem os fracos, que não há armadura ou escudo que proteja o homem da luta interna do coração. Não foi exatamente isso que fez a Lisístrata de Aristófanes? Ela declarou uma guerra contra os homens para impedir que os varões guerreassem. O grande Ovídio, tristissimamente, traiu a Lex Julia quando caiu aos pés de Éros dedicando-lhe culto em Ars Amatoria, e o Imperador Augusto expulsou-o de Roma por ter escrito aquele louvor ao adversário da casta Roma. O amor entre o homem e a mulher deve estar a serviço do Estado e da religião para a frutificação de uma numerosa população bélica de homens saudáveis, e Virgílio compreendeu essa verdade: Vênus trouxe as armas para Enéias. Certamente nos indagarão a respeito de Dido de Cartago, a rainha que apunhalou-se e que prontamente foi queimada na pira como uma sati por amor a Enéias. Como já dissemos, o amor deve estar a serviço da religião e dos exércitos: Dido prefigura as guerras púnicas. Respondo, porém, antecipadamente que: (I) os que amaldiçoam Roma, assim como Dido, estão destinados ao mesmo destino da rainha que amou o que não podia conquistar; (II) que é compreensível que a fêmea deseje a morte quando o corpo do homem perde a vida, mas que é contra natura e absolutamente condenável o homem lançar-se às garras da morte após o funeral da amada; (III) por fim, é justo que os adoradores de Baal Hammon, desde os antigos cartaginenses até os atuais adoradores desse ídolo, pereçam em uma morte desonrosa pelas próprias mãos ou pela força dos justos.
A ironia das ironias está, ao contrário, na era cristã. A verdade é que encontramos mais pureza e castidade em Dáfnis e Cloé de Longo do que em muitas histórias de amor da cristandade medieval. Referimo-nos, evidentemente, ao Roman de la Rose.
Há um abismo entre o Romance de Alexandre e os romances modernos. Não sou contrário à literatura arturiana, a qual muito estimo e recomendo, mas lamento que a tradição dos romances cavaleirescos tenha lentamente decaído após a publicação do Romance da Rosa de Guillaume de Lorris. A nobreza e o espírito guerreiro de antes deu lugar à apoteose feminina naquela França decadente do século XIII. Que é o Roman de la Rose além de uma história de polução noturna? Ele, Guillaume, esconde-se atrás do Comentário ao Sonho de Cipião de Macróbio para justificar seu sonho naquele jardim, um jardim que Cícero certamente condenaria do mesmo modo que ele condenou os maus costumes dos gregos no quarto livro de sua República. A anakyklosis de Políbio aplica-se também à literatura: os antigos eram mais castos que os medievais.
Não somos reducionistas rasteiros que se assustam com a menor visão da carne, e se nossa sátira provocadora e tão característica reduz todo o conjunto ao ridículo, é apenas para desde já mostrar onde está verdadeiramente o perigo, e eis que partimos para o ponto central da questão: o “Dieu d’Amours”. Façamos a crônica da jornada do amante até a “Rose” para melhor compreendermos onde se escondem os espinhos no Roman de la Rose. O amante vai seguindo as águas até os muros do jardim e faz vários comentários àquelas imagens feiosas desenhadas na muralha. Chamamos a atenção para duas em especial: “Viellesse” e “Ipocrite”. A “Velhice” é feia e corroída pelo tempo, como reinos e os impérios; e a “Hipócrita” é pintada como uma mulher com um saltério em mãos. Buscando por onde entrar, o amante encontra uma porta estreita, e nela bate até aparecer “Oiseuse” para abrir-lhe e dar-lhe entrada. Adentrado que foi ao jardim, maravilha-se o amante com tudo o que lá há de belo e vivo, em um claríssimo contraste com as horripilantes formas externas pintadas nos muros exteriores. Passemos mais adiante ao ponto que realmente nos interessa. O amante vê a “Rose” e o “Dieu d’Amours” dispara cinco flechas contra ele, e o amante ferido pelo amor apaixona-se pela “Rose”, e o “Dieu d’Amours” exige vassalagem e o amante aceita a suserania do amor sobre ele sem nenhuma restrição. Finalmente o amante consegue o beijo da “Rose”, mas reclama que a noite de amor foi curta: “Mais mout me sembla la nuit brieve”. Após contar todas essas coisas, Guillaume de Lorris finaliza seu sonho e seu escrito.
Suponhamos que o romance de Guillaume de Lorris seja meramente uma singela expressão artística das sensações apaixonadas de um moço de vinte anos que deseja satisfazer-se carnalmente com uma bela dama. Ainda que assim fosse, o Romance da Rosa abre um enorme espaço para interpretações ocultas, sejam elas inerentes ao próprio texto, extrínsecos a ele, ou criadas a posteriori pelos agentes ocultos da história. Independentemente daquilo que não está claro no romance, afirmo que não há nada oculto no texto que seja pior do que aquilo que está às claras.
O grande juramento que começa em “vassaulz, pris iez, rient n’i a” e finaliza no verso que diz “ou il n’a nul mot de mençonge” é o pacto entre o “Dieu d’Amours” e o amante. O juramento ao “Dieu d’Amours” é de inspiração demoníaca do começo ao fim. Gritarão “hermenêutica da suspeita” contra nós, porque assim atuam aqueles que temem que o véu das aparências caia e aquilo que está sub rosa apareça desnudo. Ele, o “Deus do Amor”, que não é o antigo Éros nem o Cupido, mas um novo ser, um Neo-Éros para uma nova era, transforma o amante em seu servo e transmite seus mandamentos ao novo vassalo. Se o “Deus do Amor” demanda algo, mesmo que seja contra a lei do rei ou contra a lei de Igreja, não é pecado, mas benção, porque não há imperador ou pontífice maior que o amor, e não há no céu ou no inferno deus maior que o “Deus do Amor”. Isso é éroslatria.
O que não estava claro em Guillaume de Lorris ficou manifesto na continuação de Jean de Meung ao Roman de la Rose: a nobreza é atacada, o clero é ridicularizado e tudo é permitido em nome do amor. Ocorre então a intervenção de Christine de Pizan contra os ataques de Jean de Meung às mulheres, e o suposto remédio veio a ser pior que a doença. As críticas de Meung às mulheres são de baixo nível e não chegam aos pés do glorioso Malleus Maleficarum. A crítica de Jean de Gerson ao Roman de la Rose tampouco foi até a substância do problema e não houve naqueles dias quem discernisse que o culto ao novo Éros causaria uma revolução no mundo.
O Éros moderno estava elevando-se acima da nobreza e da Igreja, pois se o “Dieu d’Amours” exigisse o assassinato do rei para que seu vassalo lograsse a mão da rainha, não há pecado nisso, porque onde há amor não há pecado, ou se ele exigisse de seu vassalo a virgindade de uma freira, nada impedia que o vassalo pregasse um novo evangelho, o evangelho do amor. Fra Dolcino não fez exatamente isso? E de onde surgiu-lhe essa idéia? Ora, é lógico que foi por inspiração do “Deus do Amor”. Não há grande disparidade entre a flor de Joaquim, a rosa de Guillaume-Meung e o brasão de Lutero.
Agora que os portões do inferno foram abertos em nome do amor, o “Deus do Amor” começa a exigir sacrifícios. O que são Romeu, de Shakespeare, o Adão, de Milton, e o Werther, de Goethe, senão vassalos do “Deus do Amor”? O primeiro se envenenou por amor, o segundo pecou por amor, e o terceiro deu um tiro em si mesmo por amor. Quem é Éros dos gregos? E quem é Cupido dos romanos? A modernidade não os conhece, e os seguidores do amor seguem apenas o “Dieu d’Amours”, e o seu real nome é Érosbaal: o amor que não gera filhos, nem famílias ou aristocratas, mas apenas aberrações e sacrifícios. “Exageras, ó padre”, dirão os que não conhecem a literatura sagrada e profana. A estes que sempre duvidam, cito três nomes, e basta: Sade, Masoch e Freud.
E quanto às mulheres modernas? Schopenhauer escreveu sobre elas, mas Nietzsche escreveu melhor. Passei a primeira metade da infância lendo as parábolas de Jesus, e a outra metade lendo as falas de Zaratustra. A saudade adâmica está dentro de todos os homens, até mesmo dos ateus. Não condeno Nietzsche em sua busca pelo “Übermensch”, condeno-o por não ter vivido como o “Übermensch” que ele pregava, e no fim ele caiu como um homem inferior por causa de si mesmo, das mulheres e de um cavalo. Sua loucura chegou quando o intelecto do profeta do novo homem viu-se rebaixado perante um animal, assim como Adão.
Os antigos tentaram nos avisar, e nós, homens da modernidade, não ouvimos. Como resolver essa tragédia? Ora, Davi tinha uma lira, e assim ele cantava: in matutino interficiebam omnes peccatores terrae ut disperderem de civitate Domini omnes operantes iniquitatem. Desmembremos nós também a lira dos modernos e cantemos como cantavam os antigos.
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Padre Luan Guidoni
11 de Março de 2026
