FLÁVIO JOSEFO E JESUS CRISTO
Tito Flávio Josefo (†c. 100)
Fontes: (1) L. H. Feldman (ed.), Josephus IX: Jewish Antiquities, Books XVIII–XX, p. 48–51. Harvard University Press, 1965. Col. The Loeb Classical Library. (2) Flavio Giuseppe, Antichità giudaiche, p. 1498. UTET, 2013. (3) Mireille Hadas-Lebel (ed.), Flavius Josèphe, Oeuvres complètes, p. 1591 (do arquivo .pdf). Bouquins, 2022. (4) Wikipédia em várias línguas.
Tradutor do texto grego: Gustavo Petrônio Toledo.
Descrição: Um dos mais importantes relatos extra-bíblicos a respeito de Jesus Cristo, o célebre Testimonium Flavianum, presente na obra Antiguidades Judaicas, livro XVIII, §§ 63–64, escrita em 93 pelo historiador judeu-romano Tito Flávio Josefo (c. 37–c. 100), é um trecho que afirma que Jesus era o Messias, um homem sábio que foi crucificado e morto sob o poder de Pôncio Pilatos, e que apareceu novamente vivo aos seus discípulos no terceiro dia.
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O texto original em grego koiné:
Γίνεται δὲ κατὰ τοῦτον τὸν χρόνον Ἰησοῦς σοφὸς ἀνήρ, εἴγε ἄνδρα αὐτὸν λέγειν χρή: ἦν γὰρ παραδόξων ἔργων ποιητής, διδάσκαλος ἀνθρώπων τῶν ἡδονῇ τἀληθῆ δεχομένων, καὶ πολλοὺς μὲν Ἰουδαίους, πολλοὺς δὲ καὶ τοῦ Ἑλληνικοῦ ἐπηγάγετο: ὁ χριστὸς οὗτος ἦν. καὶ αὐτὸν ἐνδείξει τῶν πρώτων ἀνδρῶν παρ᾽ ἡμῖν σταυρῷ ἐπιτετιμηκότος Πιλάτου οὐκ ἐπαύσαντο οἱ τὸ πρῶτον ἀγαπήσαντες: ἐφάνη γὰρ αὐτοῖς τρίτην ἔχων ἡμέραν πάλιν ζῶν τῶν θείων προφητῶν ταῦτά τε καὶ ἄλλα μυρία περὶ αὐτοῦ θαυμάσια εἰρηκότων. εἰς ἔτι τε νῦν τῶν Χριστιανῶν ἀπὸ τοῦδε ὠνομασμένον οὐκ ἐπέλιπε τὸ φῦλον.
Tradução:
63. Por esse tempo apareceu Jesus, um homem sábio, se é que se pode chamá-lo de homem, pois foi autor de obras extraordinárias e mestre de homens que acolhiam com prazer a verdade. Ele atraiu muitos judeus e também muitos dentre os gregos. 64. Ele era o Cristo. E quando, por denúncia feita pelos principais homens entre nós, Pilatos o condenou à cruz, aqueles que o haviam amado desde o início não cessaram de fazê-lo, pois ele lhes apareceu ao terceiro dia novamente vivo, tendo os divinos profetas predito estas e mil outras maravilhas a seu respeito. E até hoje não desapareceu a tribo dos cristãos, assim chamados por causa dele.[1]
[1] Os parágrafos 63–64 constituem o chamado Testimonium Flavianum. Até o século XVI, a autenticidade do trecho permaneceu indiscutida; desde então, porém, a questão não foi definitivamente resolvida. Lentamente, pode-se dizer que o problema foi sendo esclarecido no sentido de que os estudiosos interessados podem ser aproximadamente divididos em três grupos: O primeiro nega a possibilidade de que Flávio Josefo tenha escrito algo sobre Jesus e sustenta que, mesmo que tivesse escrito, o texto que chegou até nós foi tornado irreconhecível por mão posterior: seria espúrio (assim, por exemplo, Niese, Norden, Zeitling, Lewy, Schürer [na primeira edição]). Outros defendem a integridade e a autenticidade do texto tal como nos foi transmitido (assim C. G. Bretschneider, A. von Harnack, F. C. Burkitt, R. H. J. Schutt). Outros, enfim, consideram que Josefo não poderia ter deixado de escrever algo sobre os cristãos; o texto que possuímos teria sido, porém, elaborado de várias maneiras, embora sem alterações substanciais: é a posição predominante nos estudos contemporâneos (cf., por exemplo, F. Scheidweiler, Sind die Interpolationen im altrussischen Josephus wertlos?, em “ZNW”, 43, 1950, p. 155–175; Das Testimonium Flavianum, em “ZNW”, 45, 1954, p. 230–243; A. Pelletier, L’Originalité du témoignage de Flavius Josèphe sur Jésus, em “RSR”, 52, 1964, p. 177–203; L. H. Feldman, “Josephus”, em “JA”, IX, 1965, p. 49; S. G. F. Brandon, Jesus and the Zealots, Londres 1967, p. 121–168; A.-M. Dubarle, Le témoignage de Joseph sur Jésus d’après la tradition indirecte, em “RB”, 80, 1973, p. 481–508; 509–513 [não creio, porém, que o original fosse, como afirma D., mais ou menos como o Talmude]; S. Pines, An Arabic Version of the Testimonium Flavianum and Its Implications, Jerusalém 1971; J. Naville Birdsall, The Continuing Enigma of Josephus’s Testimony about Jesus, em “BJRL”, 67, 1985, p. 609–622). É justo concluir com Schürer (última edição): “Ainda que Josefo certamente não tenha chamado Jesus de Messias, nem afirmado que sua ressurreição ao terceiro dia tivesse sido anunciada pelos profetas de Deus, a impressão que se recebe de um estudo aprofundado de seu relato é que ele (Josefo) não fosse, no conjunto, indiferente em relação a Jesus. As palavras ‘um outro terrível acontecimento lançou os judeus em perturbação…’, que introduzem o parágrafo imediatamente seguinte ao trecho sobre Jesus, indicam que Josefo considerava a condenação à morte de Jesus um ‘terrível acontecimento’ e que ‘os judeus foram perturbados pelo desfecho do caso’” (op. cit., p. 539). Se não se pode avaliar com segurança o valor histórico do nosso texto, é correto notar que ele não contém nada da suspeita fraseologia que levou muitos estudiosos a rejeitar o trecho inteiro como uma interpretação cristã: tal juízo não é conclusão de um exame atento. Talvez jamais se chegue a um texto plenamente seguro; mas vejam-se os §§ 116–119 sobre João Batista e os §§ XX, 200–201 sobre Tiago: são textos que também dizem algo sobre Jesus. (Nota ed. UTET 2013).
Até o surgimento da crítica moderna, muitos estudiosos acreditavam que o “Testimonium” era quase ou completamente autêntico, com poucas ou nenhuma interpolação cristã. Alguns desses argumentos baseavam-se na linguagem empregada no “Testimonium”. Por exemplo, Jesus é chamado “um homem sábio” (e Flávio Josefo descreveu outros, como Salomão, Daniel e João Batista, da mesma maneira), o que não teria sido um título cristão comum para Cristo naquele período. Ele se referia a Jesus simplesmente como “um autor de obras extraordinárias” e nada mais, o que novamente diverge da maneira como os cristãos viam Cristo. Referir-se a Jesus como “um mestre de homens que acolhiam com prazer a verdade”, sendo que “prazer” (ἡδονή) conota um valor hedonista, não corresponde à forma como os cristãos entendiam o sentido dos ensinamentos de Jesus. Afirmar que Jesus conquistou tanto judeus como gregos é um equívoco que um escriba cristão provavelmente não teria cometido, sabendo que Jesus pregava principalmente aos judeus. Além disso, a expressão “aqueles que o haviam amado desde o início não cessaram de fazê-lo” é de estilo josefiano, e chamar os cristãos de “tribo” não teria feito sentido para um escritor cristão. (Nota Wikipédia espanhola, verbete “Testimonio flaviano”).
Os principais argumentos em favor da autenticidade da passagem de Josefo são os seguintes: Primeiro, todos os códices ou manuscritos da obra de Josefo contêm o texto em questão; para sustentar que se trata de uma falsificação, seria preciso supor que todas as cópias de Josefo estavam em mãos cristãs e foram alteradas da mesma maneira. Segundo, é verdade que nem Tertuliano nem Justino Mártir utilizam a passagem de Josefo sobre Jesus; mas o seu silêncio provavelmente se deve ao desprezo com que os judeus contemporâneos consideravam Josefo e à relativa pouca autoridade que ele possuía entre leitores romanos. Os escritores da época de Tertuliano e Justino podiam ainda recorrer a testemunhas vivas da tradição apostólica. Terceiro, Eusébio de Cesareia (Hist. Eccl., I, xi; cf. Dem. Ev., III, v), Sozomeno (Hist. Eccl., I, i), Nicéforo Calisto Xantópulo (Hist. Eccl., I, 39), Isidoro de Pelúsio (Ep. IV, 225), Jerônimo (De viris illustribus, XIII), Ambrósio de Milão, Cassiodoro etc., recorrem ao testemunho de Josefo; portanto, no tempo desses ilustres autores não deviam existir dúvidas quanto à sua autenticidade. Quarto, o silêncio completo de Josefo acerca de Jesus teria sido um testemunho ainda mais eloquente do que o que possuímos no texto atual; este último não contém nenhuma afirmação incompatível com sua origem flaviana. O leitor romano necessitava da informação de que Jesus era o Cristo ou o fundador da religião cristã; as obras maravilhosas de Jesus e sua ressurreição dentre os mortos eram proclamadas incessantemente pelos cristãos, de modo que, sem esses atributos, o Jesus de Josefo dificilmente teria sido reconhecido como fundador da religião cristã. (Nota Wikipédia espanhola, verbete “Testimonio flaviano”).
Thomas C. Schmidt (Josephus and Jesus: New Evidence for the One Called Christ, Oxford University Press, 2025) defende a autenticidade essencial do “Testimonium”, argumentando que a passagem perdeu apenas duas ou três palavras durante sua transmissão textual. Trata-se da palavra grega “certo” (τις) na frase inicial (que aparece na citação de Eusébio de Cesaréia a partir de Flávio Josefo na História Eclesiástica) e da expressão “considerado o Cristo” em vez de “era o Cristo”, o que é sustentado por vários testemunhos textuais em latim, siríaco, árabe e armênio. Com base em sua análise estatística do vocabulário e da frequência dos termos em todas as obras de Josefo e na própria passagem, esta seria autenticamente josefiana. Schmidt sustenta que, ao se acrescentarem essas palavras faltantes, o texto do “Testimonium” torna-se ambíguo e pode ser interpretado de modo plausível como uma descrição negativa ou neutra de Jesus — o que corresponde à maneira como a maioria das fontes cristãs antigas interpretava a passagem. Ele também argumenta que o estilo e o vocabulário do trecho encontram numerosos paralelos em outras obras de Josefo e que outros escritores judeus e pagãos antigos frequentemente fizeram comentários sobre Jesus semelhantes aos que aparecem no “Testimonium”, o que reforçaria a autenticidade do texto. Schmidt sustenta ainda que as fontes de Josefo para seu relato sobre Jesus podem ser identificadas, pois o historiador judeu escreveu que os “principais homens” (πρώτων ἀνδρῶν) estavam “entre nós” (παρ’ ἡμῖν), expressão que Josefo sempre utiliza para se referir a alguém que conhecia pessoalmente. Josefo escreve diversas vezes, em outros trechos, que conhecia muito bem os “principais” (πρῶτοι) de Jerusalém no início da década de 50 d.C. Considerando que também conhecia alguns sumos sacerdotes de Jerusalém e ao menos um membro destacado do Sinédrio naquele período, Schmidt sugere que Josefo provavelmente conheceu alguns dos “principais homens entre nós” que haviam acusado Jesus algumas décadas antes. (Nota Wikipédia espanhola, verbete “Testimonio flaviano”).
Autenticidade completa: Segundo essa tese, tratar-se-ia de um testemunho sobre o judaísmo do século I destinado aos pagãos — para os quais o Cristo não passaria de um agitador — e aos judeus, para os quais ele se inscreve na corrente messiânica. Essa tese ainda é sustentada por alguns autores contemporâneos que procuram preservar a integridade do texto, ao mesmo tempo que lhe atribuem um sentido aceitável. Mais recentemente (2025), Thomas C. Schmidt publicou um livro dedicado ao Testimonium Flavianum, no qual defende a autenticidade completa da passagem. — Argumentos em favor dessa tese: 1) Orígenes declara por duas vezes (em seu Comentário a Mateus e em Contra Celso) que “Josefo não acreditava que Jesus fosse o Cristo”. Isso prova que ele conhecia um texto de Flávio Josefo sobre Jesus. Ele compreendia que Josefo não acreditava na messianidade de Cristo, mesmo que o designasse assim. 2) Josefo dificilmente poderia ignorar Jesus, uma vez que descreve os acontecimentos como historiador e que o cristianismo já havia adquirido importância em Roma, tendo inclusive provocado perseguições. Ele menciona Jesus, aliás, em outra passagem, ao tratar de Tiago — texto que quase ninguém considera interpolado. 3) Josefo frequentemente procede por digressões, o que explicaria a inserção do trecho na narrativa. Théodore Reinach considera natural que Josefo tenha falado de Jesus ao tratar de Pilatos. 4) Quanto à impossibilidade de que Josefo tenha dito que Jesus “era o Cristo”, Serge Bardet sustenta que essa não é a única tradução possível. Segundo ele, “se essa fosse a única tradução defensável, a questão estaria encerrada”. Ele observa que mesmo um defensor da interpolação como Charles Guignebert reconhece que Christos foi muito rapidamente empregado como nome próprio. Étienne Nodet argumenta mais recentemente que Christos deveria ser lido como um apelido cujas conotações religiosas Josefo podia perceber, mas que sabia perfeitamente que seu leitor romano ignorava. Thomas C. Schmidt, com base na crítica textual e nas citações de Jerônimo, do pseudo-Hegésipo e de Miguel, o Sírio, estima que originalmente o texto de Josefo provavelmente dizia algo como: “ele era chamado o Cristo”. 5) A menção “ele lhes apareceu ao terceiro dia novamente vivo, tendo os divinos profetas predito estas e mil outras maravilhas a seu respeito” seria o relato do que os cristãos afirmavam, explicando por que seu grupo “não desapareceu”. 6) Haveria uma “extrema dificuldade” em admitir uma interpolação intencional. Ninguém contestava a existência histórica de Jesus na época dos Padres da Igreja, que não citaram esse trecho porque não tinham motivo para fazê-lo. A produção de um falso deveria responder a uma necessidade específica, que aqui não se verifica. Como admitir, além disso, que todos os manuscritos de Josefo existentes no Império tenham sido falsificados e que a falsificação tenha assumido precisamente essa forma? O estilo da passagem é tipicamente josefiano. Uma contrafação seria improvável, pois exigiria talento extraordinário — e a ideia de imitação como mistificação não aparece antes do De arte poetica (1527) de Marco Girolamo Vida. 7) O Testimonium expõe uma cristologia arcaica (sem alusão ao nascimento virginal, à salvação, ao fim dos tempos ou à Trindade), compatível com o século I. 8) O texto situa-se naturalmente em uma obra dirigida aos romanos, mas também — e talvez sobretudo — aos judeus, entre os quais se encontravam cristãos que ainda pertenciam ao judaísmo e aos quais Josefo se opõe: ele condena o fenômeno messiânico, ao qual o Cristo se vincula, descrevendo-o brevemente e com certa ironia como parte de um período de agitação que culminará na guerra e na destruição definitiva do Templo. 9) Outra abordagem foi proposta por Gary J. Goldberg, segundo a qual Flávio Josefo teria utilizado uma fonte semelhante à empregada pelo autor do Evangelho segundo Lucas na redação do relato de Emaús, visto que ambos os textos compartilham diversos conceitos e raízes lexicais. — Representantes dessa posição: Gustave Bardy, Louis-Claude Fillion, Alphonse Tricot, Léon Vaganay, Eugène Mayaud, André Feuillet, René Draguet, Franz Dornseiff, Henri Cazelles, André Pelletier, Étienne Nodet e Serge Bardet. (Nota Wikipédia francesa, verbete “Testimonium flavianum”).
