FRANCO, CHEFE DE ESTADO
Léon Degrelle (†1994)
Tradutor do texto: Elvira Mattoso.
Descrição: O texto traça um retrato amplo do General Francisco Franco Bahamonde (1892–1975), apresentando-o como um líder marcado pela normalidade, saúde robusta, prudência e extraordinária capacidade de cálculo político, em contraste com figuras mais “geniais” porém impulsivas como Napoleão ou Hitler. Destaca sua resistência física e disciplina como fatores decisivos para sua longevidade no poder e para a estabilidade do regime. Enfatiza sua habilidade estratégica em consolidar autoridade durante a Guerra Civil, neutralizar rivais e controlar colaboradores com método frio e paciente. Retrata-o como governante pragmático, avesso a radicalismos ideológicos, que teria evitado tanto o fascismo pleno quanto a entrada da Espanha na Segunda Guerra Mundial. Por fim, sustenta que Franco preparou deliberadamente a transição futura do Estado, defendendo que sua ação foi essencial para a modernização e preservação da Espanha no contexto europeu.
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Franco era a calma e a eficácia. Era um gênio? Genial, Franco? Francamente, não. Ao menos não no sentido que isso comporta, uma projeção na qual um aspecto ou outro transborda na desmedida. Caso típico de Napoleão. Caso de Hitler, em suas investidas a peito aberto e sem meios suficientes através de um Império Soviético incapturável, ou em seu plano de eliminar o “anticorpo judeu” — irrealizável universalmente e, portanto, politicamente rejeitável.
Franco, ao contrário, era um homem absolutamente normal. Normal fisicamente, bastante baixo, tendendo a ser gordinho desde os quarenta anos; comia moderadamente, mal bebia, não sofria de nada, nem sequer do terrível ferimento no ventre que sofrera ao assaltar um monte marroquino, de onde foi descido contendo os próprios intestinos dentro do capacete. Era incansável percorrendo quilômetros, caçando, pescando. Sua máquina corporal era bem feita, bruta, sem floreios. Presidia o conselho de ministros durante oito, dez horas, jamais cansado; não se levantava nunca, enquanto seus ministros, mais jovens, desviavam os olhos, nervosos, em direção à porta solene, atrás da qual poderiam, enfim!, aliviar-se ou fumar.
Franco era de sílex. A saúde para um chefe de Estado é um fator crucial. Richelieu, que carecia dela, travou uma luta terrível contra suas enfermidades, sem trégua, prejudicado por elas. Napoleão foi vencido em Waterloo tanto por seu câncer, que já então o debilitava, quanto pela impassibilidade de Wellington. Mussolini ficava paralisado frequentemente por seu estômago deteriorado, e Hitler passava às vezes horas, de roupão, observando seu poder ser ridicularizado ao fim de um braço que tremia sem parar. Alguns meses antes de morrer, Franco ainda pescava esturjão. Sempre, fisicamente — salvo muito ao final —, foi tão normal e forte quanto um lenhador da Galiza acumulando seus troncos de pinheiro.
Normal também no plano intelectual. Era um estudante incansável: na Escola de Guerra, à frente de seus primeiros soldados, na Academia Militar de Saragoça, no Alto Estado-Maior, nunca se destacou de modo extraordinário, mas vencia pela força da lucidez, constância e tenacidade. Foi o general mais jovem de sua época. Foi o mais jovem em tudo, sem parar. Mas sem floreios.




Recordo minha estranheza quando tive o privilégio de estudá-lo de muito perto, em seu quartel-general, na sua modesta casa senhorial próxima a Saragoça, durante a Guerra Civil Espanhola de 1936–39. Conosco estava seu cunhado Ramón Serrano Suñer, então Ministro do Interior, mais tarde das Relações Exteriores. Ramón, brilhante, de espírito afiado como uma espada toledana, apaixonado por tudo o que é cultura e beleza, projetado politicamente para o novo e audaz, antenado ao seu tempo, causou-me considerável impressão.
“O verdadeiro chefe do Estado espanhol é ele”, disse a mim mesmo. Cinco anos mais tarde, Ramón já não existia ministerialmente falando. Mas trinta e nove anos mais tarde, o Caudilho, sempre de excelente humor, erguia ainda ao final de seus braços curtos as velhas terras ibéricas completamente regeneradas por sua imensa ação. Ramón Serrano Suñer era certamente mais genial; teria, talvez, se deixado arrastar pelas correntes da época, embarcando a Espanha na gigantesca peleja guerreira dos fascismos. Talvez, também, o mundo tivesse mudado por isso. Com Franco, ponderado como uma tartaruga, decidido a manter a qualquer preço seu país fora de todo risco, o mundo não mudou; reencontrou seus queridos e velhos problemas democráticos. E a Espanha não conheceu sobressaltos que poderiam talvez tê-la erguido em certos momentos internacionais, mas também abatê-la para sempre.
Franco era, acima de tudo, um calculista. Não avançava um peão sem antes ter pesado e julgado tudo interminavelmente. Um dia, durante o último inverno de sua Cruzada, permiti-me dizer-lhe: “Vossa guerra dura muito tempo!”. E era verdade. Lançando mais rapidamente, com menos delongas, suas tropas à fogueira, Franco teria terminado sua guerra um ano antes. Mas não era esse o seu estilo. Nunca foi. Cada iniciativa não nascia dele senão ao final de uma longuíssima incubação. Franco, o prudente. Preferia os inconvenientes da espera às precipitações maiores ou menores. Ele me olhou, então, pelo canto do olho, por cima de sua grande mesa de bilhar verde. “Sim, Léon”, respondeu-me. “É verdade o que o senhor diz, mas não se esqueça disto: nós levamos sete séculos para expulsar os mouros, e isso não nos impediu de expulsá-los”.






Visivelmente estava disposto, se a prudência recomendasse, a empregar sete séculos, ele também, para expulsar os republicanos. Essa tática não só o fez ganhar a guerra com um número mínimo de perdas, mas também o salvou em 1945, quando o conjunto dos Aliados jurou arrancar-lhe a pele. O desastre foi evitado porque, ao longo de três anos, ele soube enfrentar pacientemente a tempestade.
Essa paciência aplicada permitiu-lhe, depois, transformar seu país de cima a baixo. Lentamente outra vez? Sim. Mas em trinta anos fez mais do que todos os seus predecessores em trezentos anos. Então…
Imperturbável, quaisquer que fossem as circunstâncias, ele só agia com segurança; jamais se excitava. Esperava diante do vau todo o tempo que fosse necessário, enquanto atravessá-lo fosse arriscado; mas atravessava, no entanto, todas as vezes, sem apressar o passo, sem mostrar vaidade uma vez que o vau estivesse superado.
E como ele tratava aqueles que o rodeavam? Seu método era invariável: tempo, cálculo, prudência. Gostava de escolher como colaboradores pessoas que conhecia de longa data, especialmente militares, que ele podia manter melhor sob seu controle, ligados a ele pela disciplina dos quartéis e que devolvia ao posto, sem problemas, no dia em que sua colaboração pessoal já não lhe interessasse particularmente. Uma condecoração, uma continência, e o general ou coronel pegava seu quepe, seu sabre e partia, de boca fechada, para seu novo destino: Ceuta, Lérida ou Corunha.
Os espíritos superdistintos só lhe interessavam se pudessem ter idéias sensacionais, complicando muitas vezes as coisas e sendo rapidamente perturbados pela vaidade. Preferia, de longe, o estilo de Luís XIV: grandes servidores aplicados que jamais lhe fizessem sombra. Quanto a ele, nunca teve que liquidar custosamente um Talleyrand ou um Fouché.
Na democracia, um homem político, acossado pela oposição, deve mostrar em muito pouco tempo todas as suas possibilidades; essa escolha metódica de ministros sem brilho arriscaria estagnar o Estado na mediocridade. O homem medianamente dotado pelos deuses necessita de muito tempo se quiser dar toda a sua medida. Com Franco, houve tempo. Este, em trinta e cinco anos, nomeou ao todo cem ministros diferentes. A República Francesa, entre 1919 e 1939, consumiu mais de mil! A Itália, nos trinta anos do pós-guerra e trinta e três ministérios sucessivos, ainda mais! Sem que, ademais, os gênios se destacassem especialmente.
De quantos ministros franceses do entre-guerras o público ainda se lembra? Franco estudava os futuros ministros com a aplicação de um apostador de corridas de cavalos. Nunca buscava sequer pescar um esturjão multicolorido. Escolhia, após longas reflexões, um homem sensato que conhecesse seu trabalho ou em quem tivesse descoberto um dom especial muito preciso. Mantinha-o em seus conselhos durante cinco, oito, dez anos. Uma vez por semana, pelo menos, fazia-o comparecer pessoalmente em seu despacho no Palácio de El Pardo. Encontro temível e temido! Nada lhe escapava. O grande servidor não podia se permitir uma falha em sua documentação, um erro em suas estatísticas. Mal o ministro o saudava ao retirar-se, ele, inclinado sobre uma ficha, anotava imediatamente suas impressões.
A cada sexta-feira, toda a equipe passava, no conselho de ministros, por um exame geral. Assim, cada um desses homens médios, obrigatoriamente aplicado em seu setor claramente delimitado e firmemente vigiado, dava rendimento máximo durante seus anos de esforços constantes e de direção única. Quando um deles começava a crer-se um ser excepcional e parecia querer morder um pouco da glória e do prestígio do único chefe, ou se, mais simplesmente, o tempo, o cansaço e os hábitos enfraqueciam suas possibilidades criadoras, uma mudança discreta de equipe liquidava o colaborador que já não interessava.
Franco não era brutal em suas maneiras. Mas tampouco era sentimental. Um motociclista ruidoso levava ao “defenestrado” um envelope selado contendo agradecimentos amáveis do chefe de Estado. Às vezes, o motociclista chegava até atrasado. O ex-ministro do Movimento, depois da Justiça, Raimundo Fernández Cuesta, um dos grandes barões da Falange, contou-me ele mesmo como soube de sua destituição. Certa manhã, seu carro oficial demorava a buscá-lo em casa. Impaciente, acabou telefonando para o ministério; seu motorista não pôde senão responder, bastante constrangido: “Mas, senhor, não sabe que o senhor não é mais ministro?”. O envelope do motociclista chegou, finalmente, quinze minutos depois.
Como a todos os que saíam, uma grande comenda lhe foi concedida cerimoniosamente dois dias depois. Mas era o fim, para sempre. Quase nunca, sob Franco, um ex-ministro voltava a sê-lo. Um ministro de choque como José Antonio Girón, que foi o criador da Espanha social e que gozava de popularidade real (talvez até lhe fizesse sombra…), esperou em vão por dezessete anos para ser chamado novamente. Sua volta teria satisfeito às massas. Girón nunca foi reinvestido.
Nisso, Franco era implacável. Mas um chefe de Estado deve sê-lo. Nada deve comover seu coração, ditar sua escolha ou pôr em movimento sua vontade, se não for do interesse rigoroso do Estado pelo qual assumiu a responsabilidade, segundo as normas que julgou mais adequadas.
Franco tinha, de fato, coração e era de grande fidelidade aos seus amigos. Mas para aquilo que estava sob seu cargo ou era sua missão, apenas o fim e os resultados contavam. Os homens eram instrumentos, meios de uma ação, peões sobre um tabuleiro. Servia-se de suas colaborações passageiras, inflexível e calado, e não pedia a opinião de ninguém, nem comunicava sua opinião a ninguém.






hefe de Estado? Chegou a sê-lo por vocação? Duvido verdadeiramente que Franco, quando jovem, tivesse sonhado em ser político. Ele sonhava, antes de tudo, em ser marinheiro simplesmente. Sim, assim foi. Não podendo sê-lo, conformou-se com a vocação de soldado. E o foi durante dois terços de século de modo exemplar.
Tornando-se, com apenas trinta anos, um grande chefe militar, entrou naturalmente em contato com os grandes problemas que interessavam a esse Estado que ele pretendia servir com todas as suas forças e que, inevitavelmente, conduziam à política: as circunstâncias agitadas, Afonso XIII atravessando os mais diversos sobressaltos — monarquia liberal e desordens partidária; a ditadura esperançosa do General Primo de Rivera, varrida em benefício da breve dictablanda de um sucessor indeciso, o General Dámaso Berenguer; eleições republicanas nas grandes cidades —; e, logo após, o rei, renunciando a enfrentar a situação, partindo em plena noite em seu carro de corrida rumo à costa mediterrânea e depois embarcando num navio para dissolver-se no exílio.
Depois, os grandes burgueses liberais da República de 1931 foram, como ocorre geralmente nesses casos, superados pelos extremistas. Queimavam-se conventos, o povo comprazia-se no estrondo dos rojões; a anarquia desagregava as forças do Estado. Franco, jovem diretor da Academia Militar de Saragoça, viu essa obra de sua predileção ser aniquilada; a República pouco se preocupava em formar elites a serviço do Estado, e não dos partidos.
Mas, mesmo então, Franco não se permite mais do que uma imprudência limitada e, além disso, exatamente calculada: na hora do adeus, lançou à Espanha, por sobre a cabeças de seus cadetes dispensados, um apelo ao patriotismo. Foi sua primeira intervenção aberta na política. Continha o germe do programa que seria a base do levante nacional de 1936. Chamou a atenção do país esse jovem chefe cujas façanhas lendárias na África todos conheciam e de quem se sabia a alta estima que lhe tinham os espíritos clarividentes do estrangeiro (aos trinta anos, foi feito comendador da Legião de Honra). Esse discurso tranquilo, claro, defendendo firmemente os valores nacionais em perigo, foi o golpe inicial preliminar de sua ação.
Contudo, durante os cinco anos da República, Franco manteve-se a serviço do Estado sem jamais enfrentá-lo. Quando a República, em perigo, teve de fazer frente à feroz rebelião das Astúrias — em Oviedo, os ultraesquerdistas armados expunham, pendurados nos ganchos dos açougues, os seminaristas completamente nus, abertos ao meio como porcos recém-saídos do matadouro municipal — e ninguém em Madri sabia como controlar os amotinados, foi Franco — o próprio Franco — aquele encarregado pelo regime democrático de reprimir essa sublevação que abalavam os alicerces da República.
Ele não participava de complôs. Nunca manteve mais do que contatos distantes, breves, um tanto frios, com José Antonio Primo de Rivera, chefe da Falange, deputado eleito legalmente, de todo modo, segundo os cânones mais democráticos. De fato, os caracteres e os pontos de vista não coincidiam. José Antonio era um revolucionário e poeta; Franco, um pragmático, realista.
Dizer que Franco nunca foi fascista, sequer no momento do levante de 1936, é de todo inexato. Franco não era absolutamente um teórico ou um profeta, mas pura e simplesmente um patriota bem-pensante. Essa é a verdade. Sua proclamação ao povo espanhol, na manhã de 18 de julho de 1936, poderia muito bem ser assinada na França por um Coronel de La Rocque. Ele se levantava contra a intolerância da república maçônica, contra as violências marxistas que tornavam impossível a convivência nacional, contra a desordem das ruas e a anarquia do Estado. Ele já não podia suportar mais essa república de esquerdas que conduzia a Espanha ao desastre; reclamava o regresso à ordem, chamava seus compatriotas à irmandade, à justiça social, à unidade nacional. Era a honestidade patriótica, muito vibrante, mas de modo algum um apelo a uma revolução ao estilo de Mussolini ou Hitler.
Mais tarde ele aceitaria alguns apoios militares, limitados, dos regimes fascista e nacional-socialista. Mas, na doutrina, estava longe deles. Admitiria, com o tempo, certas fórmulas ao estilo desses países, mas, no fundo, manter-se-ia sempre nas realidades de um patriotismo espanhol bastante conformista. Nada em sua mensagem decisiva de meados de julho de 1936 tinha acento falangista. A palavra Falange sequer foi empregada.
Quando Franco se tornou o chefe do novo Estado em 1º de outubro de 1936, José Antonio ainda estava vivo. Só seria fuzilado em Alicante pelos republicanos sete semanas depois. Poderia ter sido libertado? Trocado? É ainda um mistério… A impressão de alguns é que seu regresso ao lado de Franco teria antes provocado uma situação embaraçosa. Em todo caso, mesmo antes de morrer, seu lugar havia sido definitivamente ocupado por Franco, apesar dos esforços consideráveis dos falangistas nos campos de batalha e de o ideal falangista ter sido, desde 18 de julho, o motor da ação dos nacionais.
À prudência, Franco somava o ardil, a astúcia. O verdadeiro chefe do golpe de Estado de 18 de julho de 1936 fôra, na realidade, o General José Sanjurjo, e não Franco. Este só aderiu ao seu plano in extremis. Sanjurjo espatifou-se contra um muro ao decolar de seu exílio português numa avioneta sobrecarregada de malas onde se amontoavam demasiados uniformes resplandecentes. O General Emilio Mola, alter ego de Franco no norte da Espanha, bom soldado, mau político, assustou-se logo com a idéia de assumir responsabilidades de Estado. Restava José Antonio, precursor convertido em mito atrás das grades na zona republicana. Descartá-lo naquele momento era quase impensável. Por isso foi necessária a sutileza secreta de Franco para atrair os generais da sublevação, seus iguais, a confiar-lhe o poder antes que José Antonio reaparecesse. Bastaria que a astúcia dos republicanos tivesse sido tão aguda quanto a de Franco para que José Antonio, libertado habilmente, não tomasse rapidamente em Burgos os ares de um rival — rival doutrinário e místico, temível — e para que os diversos clãs nacionais não se enfrentassem entre si.
Os generais que deviam decidir mal estavam convencidos; alguns estavam invejosos da promoção inaudita de seu jovem colega. Por que ele e não eles? Franco falava menos do que nunca; colocando à frente dois ou três de seus fiéis, obteve finalmente de seus companheiros, após duas jornadas de intercâmbio de pontos de vista bastante duros, a direção militar única e, depois, a chefia do governo. Mas essa palavra, que limitava o conceito político do poder, seu irmão Nicolás, de uma penada, transformou-a, na própria imprensa do diário oficial, em Estado.
Tornava-se assim o chefe do Estado. Mas um chefe ainda pouco seguro. José Antonio estava ainda vivo em seu calabouço. Os generais não manifestavam mais do que um entusiasmo mitigado. A Falange não lhe concedia mais do que um apoio relativo. Porém, nesse 1º de outubro de 1936, acabava de ser executado o verdadeiro golpe de Estado que asseguraria a Franco um poder virtualmente absoluto durante quarenta anos, quando ainda, naquele dia, politicamente, não passava de um principiante e preconizava apenas uma doutrina bastante conservadora, sem impulso revolucionário.
Tudo estava por fazer, e tudo se fez, passo a passo. Com que maestria Franco se aplicaria! Silencioso quase sempre, espreitando cada presa de forma hábil para não prejudicá-la, contemporizando, concedendo, compondo, dosificando — justo o suficiente para granjear comparsas relutantes, sem a palavra a mais que poderia ter prejudicado na hora em que a concessão deixava de ser útil, sabendo que a posse da força é, no entanto, o essencial na hora decisiva, na hora em que é preciso não apenas unir, mas soldar as adesões.
Não haviam transcorrido seis meses quando todos os movimentos políticos que constituíam as alavancas populares da sublevação — a Falange, os Requetés, os Monárquicos — foram forçados à fusão. De bom grado ou de mau grado. Mais de mau grado que de bom grado, já que o chefe dos monárquicos teve que se exilar em Portugal, e o sucessor de José Antonio, Hedilla, que havia resmungado, escapou por pouco do paredão e iria, durante numerosos anos, conhecer as mais amargas prisões. Franco mal apareceu na batalha, estudando rapidamente no úmido jardim do bispado de Salamanca os Doze Pontos da Falange, enquanto Serrano Suñer redigia as ordens de unificação e, complementarmente, as ordens de prisão! Franco assegurava assim a autoridade suprema sobre esse movimento unificado, que permaneceria sempre bastante heteróclito, mas que consolidava definitivamente seu poder.
A glória dos combates e, depois, a vitória esfumaçariam os opositores. Quase calando-se, Franco pôde botar na linha os discípulos frequentemente recalcitrantes, aniquilar toda demagogia doutrinária, converter correntes violentas ou opostas em rios estáveis de uma evolução política e social moderada, que sempre, desde Saragoça, fôra seu objetivo. Desse movimento vagamente assexuado, mas firmemente mantido sob controle, Franco chegaria a fazer um instrumento de propaganda fácil de manejar, extremamente eficaz, graças ao qual, por quase quarenta anos, manteria a unidade da nação e asseguraria o contato com as massas, engendrando o mais suntuoso dos referendos.
A habilidade para utilizar o falangismo em favor do franquismo foi extrema. Quem poderia ainda censurar Franco por ter dado pouca importância a José Antonio, se o havia tratado após a guerra como nunca um rei da Espanha fôra tratado, como o primeiro entre eles, enterrado em El Escorial acima deles? De José Antonio morto — que deixara, portanto, de ser um rival possível — fez-se o profeta do novo Estado, a fronte cingida de louros, entre rosas e estrelas, levado em um cortejo fabuloso de sua prisão ao coração de Castela nos ombros de todo um povo, numa marcha noturna ofuscante de milhares de tochas.








Essa apropriação do movimento por Franco foi uma obra de arte de sagacidade política. A apropriação de seus dirigentes, que constituíam a base mesma da nova Espanha, seria igualmente sutil. Franco os empregaria uns após os outros — ou uns contra os outros —, sem jamais elevar a voz. Seus ministérios prudentemente escalonados utilizariam de forma sucessiva, simultânea ou contraditória, todas as tendências. Conservadores e velhos monárquicos grisalhos teriam de fazer equipe com jovens “cachorros” feito Girón. Uns, que haviam decepcionado, desapareciam pelo alçapão da desgraça. Outros, que se alegravam cedo demais com sua importância, afundariam com igual discrição. O Opus Dei alcançaria o zênite governamental quando Franco estimou útil seu concurso; seria ofuscado, sem que nenhum grito vão ressoasse, no dia em que esse concurso se revelou comprometedor. Um Fraga Iribarne conheceu queda inversa, liquidado no momento em que seus inimigos do Opus Dei haviam provisoriamente vencido.
De fato, ninguém nunca importou para Franco. Ele não desdenhava nenhum concurso quando o elemento a utilizar lhe parecia interessante e eficaz. Utilizar — eis a palavra. Ele utilizava. Utilizou até Joaquín Ruíz Jiménez, hoje o mais marxista dos democratas-cristãos, jovem encantador, coração nobre, inteligente e vivo, que foi sob Franco um excelente ministro da Educação — o tempo necessário para Franco extrair dele seu rendimento máximo.
Estou convencido de que, se tivesse sobrevivido mais tempo ainda e com boa saúde, Franco teria sido perfeitamente capaz de realizar, com os mesmos homens que utiliza agora o rei Juan Carlos I, uma evolução democrática.
Juan Carlos foi formado em todos os aspectos por ele, ao longo de muitos anos. Inclusive no instante da morte, Franco renovou-lhe pateticamente sua confiança e implorou aos espanhóis que o seguissem como haviam seguido a ele mesmo.
Franco teria sem dúvida preferido, no fundo de si mesmo, que a Espanha se mantivesse por muito tempo ainda com as instituições seguras que havia criado para ela e cujo rendimento fôra provado ao longo de quarenta anos.
Mas, para Franco, o futuro do Estado dirigia prioritariamente toda reação. Ouvia as grandes críticas exteriores. Sentia que a nova Espanha que havia forjado deveria, mais cedo ou mais tarde, adaptar-se a essa Europa que a rodeava. O fato de que, desde 1974, escolhesse ele mesmo, com pleno conhecimento de causa, como último chefe de governo, um Carlos Arias decidido a rejuvenescer as instituições, a dar formas mais diretas de representação popular, a fazer participar plenamente a Espanha no processo de unificação dos povos europeus, é perfeitamente claro. Franco, com oitenta anos, compreendeu que não assistiria a essa transformação profunda. Temia que graves distúrbios acompanhassem a Espanha, ou que o resultado da evolução se revelasse defeituoso, como se revelou bastante defeituosa a edificação européia atual, privada de um grande impulso idealista.











Mas o fato de Franco, a dois anos de sua morte, ter tido o interesse em colocar à frente, após uma madura reflexão, um Carlos Arias, do qual se conhecia o plano reformador, e de ter chamado a atenção de seu povo sobre um Fraga Iribarne, que nomeou seu embaixador após ter pesado a interessante personalidade ao longo de oito anos durante os quais foi seu ministro, diz muito sobre a firmeza cívica do velho chefe.
Sem ilusões vãs, talvez até com pesar, mas de forma deliberada e metódica, Franco preparou assim uma sucessão que significava a inevitável mutação de sua obra — mutação da qual sabia que deveria até mesmo, em certa medida, soltar as amarras por algum tempo, se quisesse, como fizera em 1945, tranquilizar no exterior reações irracionais.
“Tudo está bem atado. Tudo está bem amarrado”. Tais foram quase suas últimas palavras.
Sem a coragem que esse chefe de Estado teve ao abrir, com suas próprias mãos, as comportas de um futuro do qual ele podia temer, no entanto, que pusesse em risco sua edificação, a Espanha pós-franquista poderia ter definhado no isolamento ou até, à semelhança de Portugal, deslizado para o desastre. Talvez tenha sido nessa humildade perante o futuro que Franco foi grande.
No presente, é quase temerário falar de ativos. A Europa esquerdista ultrajou Franco de tal maneira que, para voltar psicologicamente à situação e reintegrar a Espanha na Europa, será sem dúvida indispensável, durante alguns anos, agir como se Franco nem sequer tivesse existido — quando, sem ele, a Espanha teria sem dúvida permanecido, como no curso dos séculos precedentes, um campo miserável, ou então, tendo passado sob o controle dos soviéticos em 1939, teria apunhalado a Europa ao fim da Segunda Guerra Mundial.
O tempo se encarregará de aclarar amores e ódios. Erguerá objetivamente a estatura histórica do mentor prudente que, sem brilhos vãos, com calma e constância, tirou seu povo dos escombros do passado poeirento que o asfixiava e o levou, em pleno renascimento, à vanguarda de uma Europa hoje sitiada. Amanhã, esta, desembaraçada de seus complexos, saberá agradecer a Franco esse magnífico aporte físico, moral, econômico, estratégico — pontos essenciais em sua pujança e talvez até de sua sobrevivência.
