GUERRA CIVIL NA ITÁLIA
Norberto Toedter, c. 2013
Para quem não se lembra: o fascismo passou a governar a Itália muito antes de o nacional-socialismo assumir o governo na Alemanha. Em 1936 houve o acordo Berlim-Roma de cooperação política. Em novembro de 1936, Alemanha e Japão assinaram o pacto contra o comunismo internacional (Anti-Komintern), ao qual se juntou a Itália um ano depois. No ano seguinte, em maio de 38, Roma e Berlim firmaram o tratado militar. Só em 22 de setembro de 1940, portanto já em plena guerra, firmou-se o Pacto das Três Potências, constituindo o famoso Eixo Roma-Berlim-Tóquio. “Eixo” ao qual se juntaram depois Hungria, Romênia, Eslováquia, Iugoslávia e Croácia.
Pois bem, era muita gente boa então formando o que seria hoje visto como um “eixo do mal”. Assim não foi surpresa ver poucas semanas atrás o atual presidente da República Federal da Alemanha viajar à Itália, a fim de participar de uma cerimônia em memória às “vitimas do nazismo”. Engraçado, nunca se soube de cerimônia em memória às vitimas italianas do general francês Alphonse Juin, que, para incentivar suas tropas a conquistar um território difícil, prometeu e concedeu aos seus soldados 50 horas de plena liberdade para usufruir das mulheres italianas e do vinho da região. Até padre foi estuprado.[1]
O que também nunca chega ao conhecimento do grande público, em especial da colônia italiana no Brasil, é que entre setembro de 1943 — quando o Marechal Badoglio e o Rei Humberto viraram a casaca — e abril de 1945, a Itália foi palco de uma guerra civil. Constituíra-se a República Social Italiana (RSI), que continuou a aliança com a Alemanha. Talvez também tenha sido esse o real motivo para que os alemães tivessem se empenhado na libertação de Mussolini. Libertado, ele assumiu o comando do país, que também era chamado de República de Salò. E não era pouca coisa, não. Somando os que vieram das forças armadas regulares, as unidades policiais e as “Brigadas Negras” (milícia do partido), chegava-se a 550 mil homens. Ao mesmo tempo, os alemães não tinham mais que 450 mil no território. A RSI se dedicava sobretudo ao combate atrás das linhas, onde enfrentavam os partisans recrutados entre o apreciável contingente de comunistas italianos. Mas também os americanos não tiveram vida fácil diante das quatro divisões do exército regular, da divisão MAS (marinha italiana) e do contingente da força aérea italiana. As perdas registradas pela RSI chegam a 30.000 homens. Do outro lado, conforme registra a Enciclopédia dell’ Antifascismo e della Resistenza, 44.720 membros da guerrilha perderam a vida. Fica mais que evidente o fato de ter havido uma sangrenta guerra civil em solo itálico.
Isso talvez tenha contribuído para que na Itália o pós-guerra tivesse sofrido uma evolução bem diferente do da Alemanha. As discussões sobre crimes de guerra foram amenizadas por uma série de anistias. Os veteranos da RSI, entre os quais se encontram nomes como o de Marcelo Mastroiani, vêm exigindo sua reabilitação e até há importante partido político que não esconde sua tendência fascista.
Para enfrentar ou contrabalançar essa evolução natural, certas áreas buscam periodicamente reativar a questão dos “crimes de guerra” e, para que seja mais palatável, talvez até por outras razões, fazem-se de vítimas, valendo-se do generalizado estigma de autores dos alemães.
[1] Cf. O que é verdade?, p. 115.
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Retirado de: Pobre mundo novo! Sangue, suor, lágrimas e muita mentira. Curitiba: Editora e Livraria do Chain, 2015, p. 35–37.
