HISTÓRIA ECLESIÁSTICA, LIVRO V, CAPÍTULO XXII
Sozomeno de Gaza
Fonte: (a) A history of the Church in nine books, from A.D. 324 to A.D. 440, p. 245–247. Samuel Bagster and Sons, 1846. (b) Histoire ecclésiastique, livres V-VI, p. 215–225. Les Éditions du Cerf, 2005 (Sources Chrétiennes, n. 495).
Tradutor do texto: Gustavo Petrônio Toledo.
Descrição: Movido por ódio aos cristãos, Juliano, o Apóstata, concede permissão aos judeus para reconstruir o templo em Jerusalém; sua tentativa é frustrada pelo fogo do céu e pela aparição do sinal da cruz em suas vestes.
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Embora o imperador odiasse e oprimisse os cristãos, manifestava benevolência e humanidade para com os judeus. Escreveu aos patriarcas e chefes judaicos,[1] assim como ao povo, pedindo que orassem por ele e pela prosperidade do império. Não foi movido, estou convencido, por qualquer respeito à religião deles: pois ele estava ciente de que ela é, por assim dizer, a mãe da religião cristã, e que ambas se fundamentam na autoridade dos patriarcas e dos profetas; mas julgava afligir os cristãos favorecendo os judeus, que são seus inimigos mais inveterados. Calculava também persuadir os judeus a abraçar o paganismo, pois eles estavam familiarizados apenas com a letra da Escritura, e não podiam, como os cristãos e alguns dos mais sábios dentre a sua própria nação, discernir o sentido oculto. Os acontecimentos provaram que esse era seu verdadeiro motivo, pois mandou chamar alguns de seus exarcas[2] e os exortou a retornar à observância das leis de Moisés e dos costumes de seus pais. Respondendo eles que só lhes era permitido oferecer sacrifícios no templo de Jerusalém, ordenou-lhes que reconstruíssem o templo[3] e deu-lhes dinheiro para esse fim.[4]
Os judeus empenharam-se na tarefa, sem refletir que, segundo a predição dos santos profetas, não poderia ser realizada. Procuraram os mais hábeis artesãos, reuniram materiais, limparam o terreno e se dedicaram com tanto ardor à tarefa, que até as mulheres carregavam montes de terra e vendiam seus ornamentos para ajudar nas despesas.[5] O imperador, os demais pagãos e todos os judeus consideravam qualquer outro empreendimento de importância secundária em comparação a este. Embora os pagãos não fossem bem-dispostos para com os judeus, ainda assim os auxiliaram nesse empreendimento, porque contavam com seu êxito final e esperavam, por esse meio, desmentir as profecias de Cristo. Além desse motivo, os próprios judeus se sentiam impelidos pela convicção de que havia chegado o tempo de reconstruir o seu templo.
Quando removeram os escombros do antigo edifício e prepararam o terreno para lançar os alicerces do novo, sobreveio um terremoto,[6] e pedras foram lançadas da terra, ferindo tanto os que trabalhavam quanto os que apenas observavam. As casas e pórticos públicos próximos ao local do templo ruíram; muitos perderam a vida e outros ficaram horrivelmente mutilados.[7] Cessado o terremoto, os operários voltaram à tarefa, em parte porque assim ordenava o édito do imperador, em parte porque eles mesmos tinham interesse na obra. Muitas vezes, procurando satisfazer suas próprias paixões, os homens buscam aquilo que lhes é nocivo, rejeitam o que lhes seria verdadeiramente proveitoso e se deixam iludir pela ideia de que nada é útil senão o que lhes agrada. Uma vez enredados por esse erro, já não conseguem agir em benefício próprio, nem tomar advertência das calamidades que os atingem. Creio que os judeus estavam exatamente nesse estado, pois, em vez de considerar aquele inesperado terremoto como indicação manifesta de que Deus se opunha à reedificação do templo, eles prosseguiram para recomeçar o trabalho.
Mas todos relatam que mal haviam retomado o empreendimento, quando fogo irrompeu dos alicerces do templo e consumiu vários operários.[8] Esse fato é afirmado sem receio e acreditado por todos; a única discrepância no relato é que alguns sustentam que o fogo brotou do interior do templo, quando os trabalhadores tentavam forçar uma entrada; outros, porém, dizem que o fogo saiu diretamente das entranhas da terra.[9] De qualquer modo que o fenômeno tenha ocorrido, é igualmente maravilhoso.[10]
Seguiu-se um prodígio mais tangível e ainda mais extraordinário: de súbito, o sinal da cruz apareceu nas vestes das pessoas envolvidas no empreendimento. Essas cruzes estavam dispostas como estrelas e pareciam obra de arte.[11] Muitos, então, foram levados a confessar que Cristo é Deus e que a reconstrução do templo não lhe era agradável; outros se apresentaram na Igreja, foram batizados e suplicaram a Cristo, com lágrimas e preces, que perdoasse sua transgressão.[12]
Se alguém não se sentir inclinado a acreditar em meu relato, que vá e se convença junto àqueles que ouviram os fatos da boca das próprias testemunhas oculares, pois ainda estão vivos. Que pergunte também aos judeus e pagãos que deixaram a obra inacabada ou, para falar com mais precisão, que não foram capazes sequer de iniciá-la.
[1] No favor de Juliano ao judaísmo, o ódio ao cristianismo desempenhou um papel, talvez o principal. Mas ele também compadecia-se da situação dos judeus e admirava sua fidelidade ao seu Deus (carta 89a 453d), ao “etnarca”, legítimo aos seus olhos, e aos seus costumes ancestrais, nomeadamente a prática dos sacrifícios. Ele também admirava a sua solidariedade caritativa: “Os judeus não têm um único mendigo” (carta 84 430 b-d, ed. J. Bidez I, 2, p. 145). No seu Contra os Galileus 306 B, ele escreve: “Todo o resto” — exceto o seu monoteísmo — “é-nos comum, a eles e a nós, os templos, os recintos sagrados, os altares, as purificações e certas observâncias sobre as quais não diferimos entre nós ou nada ou quase nada”. No quadro de uma política geral de restauração dos templos, intenções pragmáticas ligadas à atualidade — apoiar-se nos judeus de Antioquia para contrariar os cristãos dessa cidade, reforçar o lealismo dos judeus do Império, desarmar a resistência dos judeus da Mesopotâmia que viviam em paz na Pérsia que ele se preparava para invadir — não são excluídas; ver C. Aziza, “Julien et le judaïsme”, em Braun-Richer, p. 141-158 e R. A. Freund, “Which Christians, Pagans and Jews?”, em Journal of Religious Studies, 18, 1992, p. 67–93, nomeadamente p. 79–80.
[2] “Exarca” não tem o sentido técnico de um título ou de uma função própria aos judeus, ao contrário de exilarca, etnarca, patriarca(s), arconte, apóstolo. A palavra é aqui empregue no sentido geral de “chefe”, de “autoridade”, como foi usada em História Eclesiástica IV, 23, 3 para designar os chefes do Senado de Constantinopla. Sozomeno não poderia aplicar sem anacronismo nem impropriedade aos judeus o sentido que o título de exarca toma a partir do século V nas igrejas orientais, o de dignitário religioso intermédio entre o patriarca e o arcebispo (ou metropolita).
[3] Esta resolução é atestada não apenas pela conclusão da muito discutida Carta 204 (“Quando tiver concluído vitoriosamente a guerra com a Pérsia, reconstruirei com os meus próprios esforços a cidade sagrada de Jerusalém… e convosco, poderei glorificar o Deus Altíssimo”), mas pelo fragmento da carta, escrita durante a expedição na Pérsia (abril de 363?), conservado por Jean Lydus, de mens. 4, ed. Wünsch, p. 110, 4, reproduzido por J. Bidez, I, 2, p. 197: “Ponho todo o meu zelo em reerguer o templo do Deus Altíssimo”.
[4] Juliano não se contentou em fazer destaxar os judeus pelo patriarca da Palestina (talvez Iulos, mencionado numa inscrição de Tiberíades datada do século IV), para lhes permitir consagrar a quantia não desembolsada à reconstrução do Templo. Ele próprio retirou largamente do tesouro público (cf. Amm. 23, 1, 2: ambitiosum quondam apud Hierosolyma templum… instaurare sumptibus cogitabat immodicis — “Ele pensava restaurar com despesas imoderadas o outrora magnífico templo de Jerusalém”), afetou trabalhadores à obra, fez com que fosse supervisionada por uma alta personalidade de Antioquia, Alípio, secundado pelo governador da Palestina (Amm. 23, 1, 3). No mesmo sentido, João Crisóstomo, Contra os judeus, V, 11: “Juliano não poupou dinheiro; colocou à frente dessa empresa as personalidades mais distintas; reuniu os trabalhadores de todos os lados”.
[5] A fonte é Gregório [de Nazianzo], disc. 5, 4, ed. J. Bernardi, SC 309, p. 298–303: “Conta-se — são os seus admiradores que o dizem — que não apenas as mulheres fizeram imediatamente o sacrifício de todas as suas jóias… mas que chegaram a carregar a terra nas pregas das suas robes”. Os trabalhos de desaterro e de fundação do novo templo são também descritos ou evocados por João Crisóstomo, Contra os judeus, V, 11; Discurso sobre Babylas, 119; Rufino, História Eclesiástica X, 38-39; Filostórgio, História Eclesiástica VII 9 e 9a; Sócrates, História Eclesiástica III, 20, 3-6; Teodoreto, História Eclesiástica III, 20, 1–3.
[6] Em maio de 363, no dia seguinte ao início dos trabalhos de reconstrução, e quando Juliano estava no meio da expedição à Pérsia (J. Matthews, The Roman Empire of Ammianus, p. 495, nota 5, crê poder datar o sismo precisamente de 19 de maio, apesar da opinião reservada de Bowersock, Appendix I, p. 120–122). A partir do relato de Rufino, História Eclesiástica X, 38-40 (ed. Schwartz-Mommsen-Winkelmann, GCS, p. 997-998), F. Thelamon, p. 306, admite a mesma data e constata, p. 304: “A realidade dos fenômenos físicos não é contestável”; o sismo teria desencadeado uma ou várias explosões de gás acumulados num local subterrâneo, as “estrebarias de Salomão”, no ângulo sudeste da Esplanada do Templo. O testemunho de Amm. (23, 1, 3) é, no essencial, concordante.
[7] Cf. Gregório, disc. 5,4, ed. J. Bernardi, SC 309, p. 300–301: “Um fogo vindo do templo deteve-os, consumiu e destruiu uns… e deixou outros amputados como um monumento vivo da ameaça que os movimentos de Deus fazem pairar sobre os pecadores”.
[8] Nem Gregório, nem João Crisóstomo, nem Rufino nem Sócrates falam de uma segunda tentativa caracterizada, sinal do entrincheiramento sacrílego dos judeus. Para eles — e estão mais próximos da verdade —, primeiro produziu-se um tremor de terra, na noite que precedeu o início dos trabalhos, depois, no dia seguinte, quando começaram os trabalhos, o jorrar de globos de fogo interrompeu-os de forma definitiva.
[9] Rufino distingue bem também, em História Eclesiástica X, 39, o sismo que projetou para todos os lados os blocos das fundações e demoliu todos os edifícios, em particular dois pórticos sob os quais se encontravam os judeus que foram esmagados, e, em História Eclesiástica X, 40, um globo de fogo que, jorrado de um armazém onde se encontravam as ferramentas e todo o necessário para a construção, queimou os judeus que se encontravam na praça, não cessando o fogo durante todo o dia.
[10] Outro prodígio é acrescentado por Gregório, disc. 5, 4, ed. J. Bernardi, SC 309, p. 300–301: os judeus tentaram refugiar-se num dos templos, mas a porta deste foi-lhes fechada “por uma força invisível”.
[11] Cf. Gregório, disc. 5, 4 (aparição no céu do sinal da Cruz) e 7 (constelação de cruzes aparecidas nas vestes): “Que os espectadores e as testemunhas deste milagre mostrem ainda hoje as suas vestes que foram então consteladas de cruzes. No momento em que alguém contava estes acontecimentos…, via o prodígio cumprir-se sobre si próprio ou sobre o seu vizinho, ele próprio ficava coberto de sinais ou via-os sobre as vestes do outro com cores cuja variedade desafiava o que pode produzir qualquer trabalho de tecelão ou de pintor” (ed. J. Bernardi, SC 309, p. 304–305). Sozomeno reteve dos dois sinais (um no céu, outro na terra) apenas o segundo, mais próprio a uma descrição marcante de onde ele emprestou os próprios termos (a comparação com o trabalho dos tecelões) a Gregório. Teodoreto, História Eclesiástica III, 20, (ed. Parmentier-Hansen, GCS, p. 198–200), supera: as cruzes aparecidas nas vestes dos judeus não eram brilhantes, mas de cor sombria!
[12] Gregório, disc. 5, 7: “Pouco faltou para que todos sem exceção, como se obedecessem a uma mesma palavra de ordem… não invocassem o Deus dos cristãos, não se esforçassem por o aplacar cumulando-o de louvores e de súplicas. Muitos, sem demorar mais, correram para junto dos nossos sacerdotes: entraram na Igreja… salvos pelo medo” (ed. J. Bernardi, SC 309, p. 304–307). Rufino, História Eclesiástica X, 40: “O medo imenso e o tremor fizeram com que todos os assistentes, apavorados, fossem forçados a confessar que só Jesus Cristo era o verdadeiro Deus” (ver o comentário de F. Thelamon, p. 294–309, particularmente as p. 304–309: “Os sinais do poder de Deus”).
