HITCHCOCK E AS ATROCIDADES
Norberto Toedter, dezembro de 2010
Todos já ouviram falar de Alfred Hitchcock, famoso diretor de cinema. Famoso principalmente pelos filmes de terror que produzia. Um dos mais badalados, Psicose, fez com que eu, jovem de vinte ou trinta anos, abandonasse enojado a sala de espetáculos em meio à apresentação. Hoje, talvez, a cena em que a mulher é assassinada no chuveiro pareça normal e corriqueira, mas na época foi repugnante, escatológica. Abriu o caminho para a fama de Hitchcock.
O que muitos não sabem é que este homem contribuiu decisivamente para a difamação do alemão. Fez em Hollywood muitos filmes com tal propósito, e contribuiu para que se criasse a sempre repetida expressão “está mais que provado”. Pois tenho aqui um depoimento estarrecedor e que diz como foi aproveitado o questionável talento dele.
Vou resumir o documento. Em meados de junho de 1945, portanto um mês depois da capitulação do exército alemão, um dos seus soldados, que acabara de ser desmobilizado, procurava trabalho em Weimar (Alemanha). Não encontrando, pegou carona num trem de carga (era o meio de viagem na época, eu mesmo fiz então viagens dessa forma). O trem parou próximo a Erfurt e o deponente resolveu prosseguir a pé até a cidade.
Em linha de trem paralela encontrou outro comboio constituído por cerca de 20 vagões de transporte de gado. De dentro deles se ouviam gemidos e gritos desesperados de gente pedindo água. Arame farpado impedia que se abrissem as portas, ou que alguém pudesse sair pelas ventarolas. Havia um cheiro de morte, excrementos e urina no ar.
Não tendo como conseguir água, lembrou-se de algumas maçãs que tinha na mochila, subiu até o teto de um vagão e tentou jogá-las pela abertura da ventilação. Isto foi percebido pelos soldados americanos que patrulhavam a área. Aos socos e pontadas de baioneta foi expulso do local.
Em 1977, tendo o mundo voltado à normalidade (?), este deponente esteve em visita aos Estados Unidos, onde conheceu dois ex-oficiais americanos, com os quais comentou a situação dramática que assistiu em Erfurt. Soube então que a unidade deles naquela época esteve estacionada em Heidelberg e que eles tinham conhecimento do que aconteceu com o citado comboio ferroviário.
Ambos confirmaram que aqueles vagões estavam lotados de soldados alemães, prisioneiros de guerra. Teriam sido eles contaminados propositadamente com tifo e disenteria. O destino do comboio seria Buchenwald, próximo dali, e outros campos de concentração, onde os mortos e semivivos serviriam de “figurantes” para os filmes documentários que Hitchcock estava fazendo para apresentação nos processos de Nuremberg. Visitações obrigatórias faziam com que moradores das cidades próximas vissem pessoalmente as montanhas de cadáveres.
Foi assim que os dois oficiais americanos explicaram para o que serviu aquele transporte ferroviário. Um dos oficiais chamava-se William Allison (124–10, 115th Avenue, South Ozone Park, 11420 Nova York). Era funcionário da Pan American Airlines. Depois de aposentado mudou-se para Cap May.
O nome e endereço do declarante foram registrados em Vrij Historisch Onderzoek, Postbus 46, B–2600 Berchem 1, Flandres, Bélgica.
Fonte: Germar Rudolf (ed.), Vierteljahreshefte für freie Geschichtsforschung (“Cadernos Trimestrais de Livre Pesquisa em História”), 1. Jahrgang, Heft 4, Dezember 1997, p. 263–264.[1]
Pergunta-se por que tal declaração não foi apresentada antes? Pois acredito que por muito menos já sumiu gente. Os mais ameaçados seriam os dois oficiais americanos. E na época não existia WikiLeaks.
[1] Também encontramos a seguinte referência: Vierteljahreshefte für freie Geschichtsforschung, 7. Jahrgang, Heft 2, Juli 2003, p. 236, que traz o seguinte depoimento na seção “Cartas ao editor”: “Eu mesmo fui soldado de blindados por quatro anos e meio. Como integrante da 4ª Companhia do Regimento de Blindados 5, combati durante dois anos (1941–43) no Norte da África (Panzer IV). Como integrante do Regimento de Blindados ‘Großdeutschland’, vivi quatro dias da invasão na França, na costa do Canal (Panzer V, Panther). Em 10 de junho de 1944, minha unidade e algumas outras foram transferidas para a Frente Oriental. Lá presenciamos horrores imensos cometidos pelo Exército Vermelho. De fevereiro de 1945 até 10 de maio de 1945, protegemos as caravanas de refugiados dos bandos de blindados russos. Em 10 de maio de 1945, entregamo-nos à custódia dos americanos em Maienhofen, depois em Hof. Em 31 de maio de 1945, fomos libertados do cativeiro americano. Eu estive nos campos de concentração de Birkenau, Auschwitz e Buchenwald. Não havia nada sobre tudo isso que é relatado hoje. Em 16 de junho de 1945, experienciei o trem do campo de concentração americano perto de Erfurt: 20 vagões de gado com soldados alemães mortos e semi-mortos capturados; foram os figurantes de Hitchcock, com os quais ele fez filmes de campos de concentração para o julgamento de Nuremberg.” — Heinz Kilanowski, Burgplatz 5, D-51427 Bergisch Gladbach. (N.E.)
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Retirado de: Outra face da notícia. O que os jornais não disseram. Curitiba: Editora e Livraria do Chain, 2012, p. 52–54.
