HOMILIA II SOBRE O SALMO 14 (EXCERTO)
São Basílio Magno
Fonte: https://lendhopingnothing.wordpress.com/basil-homily-on-psalm-14/
Tradutor do texto: Gustavo Petrônio Toledo.
Descrição: São Basílio Magno descreve a usura como uma forma extrema de desumanidade, explorando a miséria do pobre para lucro próprio, em flagrante oposição à lei de Deus.
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O profeta, ao pintar o caráter do homem perfeito — isto é, daquele que está destinado a subir à vida de eterna paz —, conta entre as suas boas obras o nunca ter emprestado o seu dinheiro com usura. Esse pecado particular é condenado em muitos lugares da Escritura. Ezequiel coloca o receber usura e acréscimos entre os maiores crimes (cf. Ez 22,12). A Lei proíbe expressamente: “Não emprestarás com usura a teu irmão” (Dt 23,19), e também “nem a teu próximo”. E ainda se diz: “Usura sobre usura, dolo sobre dolo” (Jr 9,6). E da cidade repleta de iniquidades, que diz o Salmo? “A usura e o engano não se apartam de suas ruas” (Sl 54,12). Ora, o profeta aponta justamente esta virtude como própria do homem perfeito, dizendo: “O que não dá o seu dinheiro com usura” (Sl 14,5). E com razão, porque é o último grau da crueldade que um homem, necessitado até do pão de cada dia, seja constrangido a pedir emprestado, e outro, não satisfeito com o capital, queira tirar lucro e vantagem da miséria do pobre.
O Senhor ordenou claramente: “Não voltes as costas àquele que te pede emprestado” (Mt 5,42). Mas que faz o avarento? Vê diante de si um homem em extrema necessidade, curvado em humilde súplica. Vê-o pronto a qualquer humilhação, a qualquer palavra de rogo. Vê-o aflito por desgraça imerecida — e não se enternece. Não se lembra de que é seu irmão. Não cede às suas lágrimas. Mantém-se duro e inflexível. Nem orações o comovem, nem gemidos o dobram. Ele persiste na recusa, invocando maldições sobre si mesmo se tiver algum dinheiro consigo, e jurando que ele próprio está à procura de um amigo para lhe emprestar. Depois, confirma a mentira com juramento, acrescentando assim o perjúrio à sua desumanidade.
Mas, quando o infeliz lhe fala em juros e lhe oferece “penhores”, tudo muda. O rosto carregado se ilumina; um sorriso afável aparece, e recorda antigas amizades, antigos vínculos familiares. Agora chama-lhe “meu amigo” e diz: “Verei se tenho algum dinheiro à mão. Ah! Eis aqui uma quantia que um homem de minha confiança depositou em minhas mãos para lucrar. Pediu-me juros pesados. Mas, para ti, abrirei mão de alguma coisa e te emprestarei em melhores condições”. Com tais artifícios e palavras, lisonjeia o mísero e o leva a engolir o anzol. Depois, ata-o com escrituras, acrescenta à sua pobreza opressora a perda da liberdade, e então vai embora. O homem que se obrigou a pagar juros, que nunca poderá satisfazer, aceitou uma escravidão voluntária para toda a vida.
Dize-me: esperas tirar dinheiro e lucro de um pobre? Se ele tivesse de onde aumentar a tua riqueza, por que viria mendigar à tua porta? Veio buscar um amigo, e encontrou um tirano. Procurava remédio, e deparou-se com veneno. Devias ter aliviado a sua miséria, mas, em vez disso, como quem semeia em terreno estéril, só agravas o seu desespero. Seria o mesmo que um médico, em vez de curar os enfermos, lhes roubasse as poucas forças que lhes restam. É assim que procuras lucrar com a desgraça dos infelizes. Assim como os lavradores desejam a chuva para fertilizar os campos, assim tu desejas a indigência e a penúria dos homens, para que o teu dinheiro cresça. Mas não repara que o aumento que dás aos teus pecados é maior do que o lucro que esperas da usura. O que pede o empréstimo está perdido de qualquer modo: pensa na sua pobreza e, na pressa da necessidade, aceita o contrato, já sem esperança de pagar. O devedor curva-se à força da miséria e é esmagado. O usurário retira-se, protegido por escrituras e penhores.
