HOMILIA V: MATEUS 1,22–23 (EXCERTO)
São João Crisóstomo
Fonte: Philip Schaff, Nicene and Post-Nicene Fathers, First Series, Vol. 10. Buffalo, NY: Christian Literature Publishing Co., 1888. Revisado e editado para New Advent por Kevin Knight: <http://www.newadvent.org/fathers/200105.htm>.
Tradutor do texto: Gustavo Petrônio Toledo.
Descrição: São João Crisóstomo exorta a investir generosamente na caridade divina, prometendo retorno eterno e verdadeiro enriquecimento, ao contrário da usura mundana, que é vil, cruel e conduz à perdição.
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[Parágrafo final:]
9. Portanto, espalha, para que não percas; não guardes, para que possas reter; distribui, para que possas salvar; gasta, para que possas ganhar. Se teus tesouros devem ser armazenados, não os armazene contigo, pois certamente os perderás; mas confia-os a Deus, pois dali ninguém os saqueia. Não faças comércio, pois não sabes de modo algum como lucrar; mas empresta Àquele que dá um juro maior que o principal. Empresta onde não há inveja, nem acusação, nem malícia, nem temor. Empresta Àquele que de nada necessita, mas que, por tua causa, se fez necessitado; que alimenta todos os homens, mas tem fome, para que tu não padeças fome; que é pobre, para que tu sejas rico. Empresta lá onde o teu retorno não pode ser morte, mas vida em lugar de morte. Pois essa usura é a mensageira de um reino, aquela, do inferno; uma provém da cobiça, a outra da abnegação; uma da crueldade, a outra da humanidade.
Que desculpa, então, teremos nós, quando, tendo a possibilidade de receber mais — e isso com segurança, no tempo devido, e com grande liberdade, sem censuras, nem temores, nem perigos —, deixamos de lado tais ganhos e seguimos aquele outro tipo [de usura], tão vil e baixo quanto é, inseguro e perecível, e que nos agrava grandemente a fornalha [do castigo]? Pois nada, nada é mais vil do que a usura deste mundo, nada mais cruel. Com efeito, as calamidades alheias são o comércio de tal homem; ele faz do infortúnio de outrem seu próprio lucro e exige salário por um ato de bondade, como se temesse parecer misericordioso; e, sob o manto da bondade, cava a armadilha ainda mais fundo, ferindo a pobreza de um homem no próprio ato de ajudá-lo, e, ao estender-lhe a mão, empurrando-o para baixo; e, ao recebê-lo como num porto seguro, lançando-o ao naufrágio, como contra uma rocha, um banco de areia ou um recife.
Mas o que queres que eu faça? — diz alguém. — Que eu dê a outro, para seu uso, o dinheiro que juntei, e que para mim é útil, e não exija nenhuma recompensa? De modo algum! Não digo isso; ao contrário, desejo ardentemente que obtenhas recompensa — mas não uma recompensa mesquinha ou pequena, e sim muito maior; pois, em troca de ouro, quero que recebas o Céu por usura.
Por que, então, te encerras na pobreza, rastejando pela terra e pedindo pouco pelo muito? Não, isso é próprio de quem não sabe ser rico. Pois quando Deus, em troca de um pouco de dinheiro, te promete os bens que estão no Céu, e tu dizes: “Não me dês o Céu, mas, em vez do Céu, o ouro que perece” — isso é agir como quem deseja permanecer na pobreza. Assim como certamente aquele que deseja riqueza e abundância escolherá coisas duradouras em vez de coisas perecíveis; o que é inesgotável, em vez do que se consome; o muito, em vez do pouco; o incorruptível, em vez do corruptível. Pois se seguirá também o outro lado: assim como aquele que busca a terra antes do Céu certamente perderá também a terra, assim aquele que prefere o Céu à terra desfrutará de ambos com grande excelência.
E para que isso se dê conosco, desprezemos todas as coisas daqui e escolhamos os bens futuros. Pois assim obteremos tanto uns como os outros, pela graça e pelo amor aos homens de Nosso Senhor Jesus Cristo, a quem seja a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Amém.
