INSTRUCTIONES 64: QUI DE MALO DONANT
Comodiano
Fonte: https://www.thelatinlibrary.com/commodianus/commodianus2.html
Tradutor do texto latino: Gustavo Petrônio Toledo.
Descrição: O poema denuncia aqueles que fazem caridade com bens adquiridos de modo injusto — por usura, exploração ou comércio desonesto — afirmando que tais “dons” não são aceitos por Deus. Comodiano expõe a hipocrisia de quem, para limpar a própria imagem, doa o que arrancou das lágrimas e da miséria alheia.
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64. AQUELES QUE DÃO DO MAL
Por que te finges bom com a ferida alheia, ó ímpio?
De onde tu esbanjas, outro chora diariamente.
Pensas que assim enganas o Senhor? Serás instruído.
O Altíssimo não aprova as ofertas dos iníquos, diz Ele.
Tu arrebatas dos miseráveis quando alcanças posição.
Um dá presentes para esvaziar outro,[1]
Ou, se emprestaste ao juro duplo de um centésimo,[2]
Queres doar disso, como se te purificasses do mal:
O Onipotente rejeita de todo tais obras.
Tu doas das lágrimas, sendo candidato;[3] ele, condenado,
Oprimido por usuras, lamenta-se, feito indigente.
Além disso, o inimigo, tendo encontrado ocasião,
Com discursos seduz, e tu, iníquo, corrompes os santos com presentes.
Se também queres expiar-te com ganhos ilícitos do comércio,
Feres a ti mesmo, não a outro, digo eu, ó injusto.
[1] No original latino: Munera dat alter, ut alterum reddat inanem. Esse verso é uma crítica direta a uma prática de “generosidade predatória”.
- Munera dat alter → “um dá presentes” (munera aqui são dádivas, esmolas, favores).
- ut alterum reddat inanem → “para tornar o outro vazio” (inanem significa vazio, esvaziado, destituído).
A imagem é irônica: o ato de “dar” não é para ajudar, mas para despojar. Comodiano coloca isso como exemplo de caridade hipócrita: quem dá, dá para esvaziar o outro, seja de bens, de liberdade ou de dignidade.
[2] No original latino: Aut si fenerasti duplicem centesima nummum. Esse verso usa uma expressão técnica de finanças romanas para indicar um tipo de usura especialmente pesada.
- fenerasti → “emprestaste a juros” (fenus significa juro, empréstimo oneroso).
- centesima → na contabilidade romana, a centesima era um juro mensal de 1% sobre o capital (100 centésimos → 100 meses para devolver o capital), equivalente a cerca de 12% ao ano.
- duplicem centesima → significa cobrar o dobro desse juro padrão, ou seja, 2% ao mês (aprox. 24% ao ano), considerado abusivo e moralmente condenável.
Comodiano, portanto, critica o usurário que pratica esse juro duplicado e depois usa o lucro ilícito para fazer doações, fingindo virtude.
[3] Candidatus (literalmente “vestido de branco”). Na Roma antiga, era o traje do candidato a magistratura. No uso cristão tardio, mantém o sentido de “pretendente a um cargo” (inclusive eclesiástico). Aqui, sugere que o doador está tentando comprar prestígio ou votos com esmolas.
