JULIO FLEICHMAN E “O MISTÉRIO DE ISRAEL”
Lúcio Guimarães, 23 de outubro de 2025
Excerto de O Itinerário Espiritual da Igreja Católica (Permanência, 3 ed., 2013), p. 144–146.

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EM TEMPOS APOCALÍPTICOS
O Reinado de Maria, como explicamos, parece-nos ter ocorrido e dura até hoje. Que falta ainda? Falta a conversão dos judeus, milagre que será de tal modo espantoso que, tudo indica, ocorrerá juntamente com o Advento de Cristo na sua segunda vinda.
Mesmo assim, podemos notar algumas indicações de uma espécie de preparação para isso. Com efeito, a partir da movimentação de judeus para formarem sua pátria na Palestina, pátria da qual estiveram privados durante dois mil anos, vimos sinais de que esse castigo sobre o povo eleito da antiga lei estava para terminar. Durante o nazismo na Europa, os judeus conheceram a maior humilhação e o maior morticínio que sofreram durante esses dois mil anos e tiveram cerca da metade de sua população no mundo inteiro massacrada. Durante os dois mil anos, sempre viveram sem pátria, como estrangeiros mal vistos nos países que os acolhiam (e em parte essa antipatia por eles era devida ao seu modo de viver e à esperteza com que tratavam os vizinhos). Não podiam possuir terras, nem seguir a profissão das armas, nem estudar em universidades, nem ocupar cargos públicos. Eram desprezados e odiados por muitos e os que se entregaram a atividades de uma espécie de feitiçaria, chamada “cabala”, viram-se perseguidos pela Inquisição. Mas, como assinalaram vários autores católicos, desde São Paulo, os dons de Nosso Senhor são sem arrependimento, as promessas de volta dos judeus ao redil santo da Igreja teriam que ser cumpridas e o chamado “mistério de Israel” mostrava que, perseguida ou odiada, sem os instrumentos de sobrevivência dos povos comuns, a nação judaica não desaparecia.
Quando do restabelecimento do Estado de Israel, esse povo, que até então fôra desprezível e desprezado, mostrou-se de uma grandeza, de uma enorme capacidade não apenas intelectual, mas também com estadistas, generais de grande capacidade militar, inventores e estrategistas, administradores públicos e diplomatas, de tal sorte que se tornava visível que a mão de Deus que pesara sobre eles se havia abrandado e o grande castigo de dois mil anos parecia ter chegado ao seu fim. Os feitos heróicos e os grandes sucessos militares desse pequeno povo, desde 1948, são de encher os olhos de admiração. Como supor que seja obra de seu braço, apenas, tudo isso? Uma população de judeus que soma, em todo Israel, a metade da população do Rio de Janeiro e, além disso, espiritualmente dividida em dois blocos, como poderiam fazer face e vencer cem milhões de árabes, super-ricos com os dólares do petróleo, e ainda arrostar as iras dos seus próprios aliados, Estados Unidos e mais de quebra a União Soviética e a Europa do Mercado Comum? Ora, isso, que vemos com espanto, é o que nos leva à convicção de que o braço que os sustenta e fortalece é o de Nosso Senhor.
Em 1980, o Estado de Israel proclamou Jerusalém sua capital, oficialmente. O universo inteiro urrou de fúria, Estados Unidos, União Soviética, Europa, sem falar, é claro, nos países árabes. Até a pequena Costa Rica, único país que tinha embaixada em Jerusalém, fez as malas e saiu correndo para não dar a impressão de que estava reconhecendo indiretamente a situação. Ora, o prof. Pacheco Salles nos chamou a atenção para a passagem de Lucas 21,24 em que Nosso Senhor diz, em texto relativo ao fim do mundo: “(…) e Jerusalém será calcada pelos Gentios até que se completem os tempos das nações”. Ficamos pois sabendo, uma vez que Jerusalém, pela primeira vez desde os tempos de Jesus, ficou livre do pé dos Gentios, que “o tempo das nações” acabou. Que quer dizer isso? Parece que o sonho de certas nações com relação ao seu poderio sobre as demais não se realizará mais porque acabou o seu tempo. E que essa predição tem, evidentemente, aspectos apocalípticos, parece indiscutível. Nesse contexto, o urro de fúria do mundo mundano inteiro, de Leste a Oeste, de amigos e inimigos, parece mostrar com evidência que o braço do Senhor, que é odiado pelo mundo, está exercendo seu poder. Louvado seja Deus.
Que nos resta, enquanto esperamos o dia de Nosso Senhor? É ainda Pacheco Salles quem nos ajuda a compreender. Ele nos chamou a atenção para a Carta à Igreja da Filadélfia, a sexta carta às Igrejas, que consta do Apocalipse (3,7). Esta carta é, parece-nos evidente, dirigida para nós, os rejeitados que sofrem pela Fé e que são oprimidos pelas mais altas autoridades da Igreja, que nos negam socorro e sacramentos. Diz a carta:
“Isto diz o Santo e o Verdadeiro, que tem a chave de Davi, que abre e ninguém fecha, que fecha e ninguém abre: Conheço as tuas obras. Eis que pus diante de ti uma porta aberta que ninguém pode fechar; porque tu tens pouca força e guardaste a minha palavra e não negaste o meu nome. Eis que eu (te) darei da sinagoga de Satanás os que dizem que são Judeus e não o são, mas mentem; eis que farei com que eles venham e se prostrem aos teus pés e conhecerão que te amei. Porque guardaste a palavra da minha paciência, também eu te guardarei na hora da tentação que virá a todo o mundo para provar os habitantes da terra. Eis que venho brevemente. Guarda o (tesouro da fé) que tens para que ninguém tome a tua coroa.” (Os textos entre parênteses, são da versão da Vulgata).
Aqui está. A nós que somos fracos e procuramos defender a Fé, Nosso Senhor nos fala assim. Esperemos, pois, firmes na paciência e na oração e digamos, com o Apocalipse: “Maranatha, vinde Senhor Jesus”.
