JULIO FLEICHMAN E O TRADICIONALISMO BRASILEIRO
Lúcio Guimarães, 22 de outubro de 2025

INTRODUÇÃO
O dualismo regional rege a tradição no Brasil: São Paulo e Rio de Janeiro. Os paulistas são descendentes de Plinio Corrêa de Oliveira, e os cariocas são filhos de Julio Fleichman: ambos irmãos em Abraão. Julio Fleichman é um personagem peculiar, muito peculiar. Vejamos tais peculiaridades.
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ESTÓRIAS DE JULIO FLEICHMAN

JULIO FLEICHMAN (1928–2005)
Editorial Permanência
Nossa Permanência se veste de luto pela morte de um dos seus fundadores, principal colaborador de Gustavo Corção durante mais de trinta anos, Presidente da Editora Permanência de 1969 (um ano depois de sua fundação) até 2003, quando deixou a direção do movimento.
Nascido no Rio de Janeiro em 6 de janeiro de 1928, de pais judeus fugidos da fome provocada pelas loucuras de Stálin, converteu-se ao catolicismo pelas aulas de Gustavo Corção, no Centro Dom Vital, sendo batizado no Mosteiro de São Bento na festa de São Basílio, em 14 de junho de 1952. Já estava formado em Direito.
No Centro Dom Vital, onde se encontrava a nata da inteligência católica do Rio de Janeiro da época, conheceu Anna Luiza de Siqueira Menezes, com quem se casou em 28 de julho de 1956, também no Mosteiro de São Bento, presidindo a cerimônia o amigo Dom Marcos Barbosa. Deste casamento nasceram quatro filhos: Maria, Pedro, Gustavo e Ana.
Em 1963, foi contratado pela Coca-Cola para chefiar o [setor] jurídico, cargo que exerceu até 1988, quando se aposentou. Marcou este tempo de 25 anos de fidelidade ao trabalho com eficácia, honestidade e inúmeros feitos relevantes para a empresa. Deixou ali muitos amigos aos quais continuou ajudando depois de aposentado, dando consultoria aos funcionários em seus problemas particulares.
Na Presidência do movimento Permanência, Julio Fleichman foi incansável. Manteve sozinho a edição da Revista Permanência durante longos 22 anos. Era praticamente a única fonte de formação e informação católica em defesa da Tradição no Brasil, principalmente depois da morte de Gustavo Corção, em 1978, quando os católicos perderam as duas colunas semanais de O Globo (que apareciam também em outras capitais do país). Um dia publicaremos cartas dos leitores da Revista Permanência, comoventes e belas, dando testemunho do papel relevante deste pequena revista. Pequena no tamanho, pois o acervo que nela se encontra é de alto nível, pelo labor e pela exigência de qualidade intelectual que sempre marcaram a gestão de Julio Fleichman.
Ainda no âmbito do apostolado escrito, deixou-nos dois livros: O Itinerário Espiritual da Igreja Católica, onde busca, numa análise original e profunda, nas principais etapas da História da Igreja, sinais precursores da atual crise sem precedentes que atravessamos há mais de quarenta anos. Este livro foi lindamente reeditado, no ano de 2004. Escreveu também um livro de memórias: A Crise é de Fé e é Grave (esgotado), escrito para contar a seus netos tudo o que viveu e conheceu ao lado de Gustavo Corção, de Mons. Lefebvre, de Dom Antônio de Castro Mayer, neste combate sem tréguas que foi sua vida católica. Colaborou também, durante alguns anos, na Revista Itinéraires, de Paris, falando sobre a política da América Latina.
Depois da morte de Gustavo Corção, a Divina Providência não o abandonou. Aproximou-se de nós ninguém menos do que Mons. Marcel Lefebvre. Em 1979, recebeu em sua casa, ainda em Laranjeiras, o bispo de Écône. A partir desta data, por seis vezes, hospedou Mons. Lefebvre, o qual lhe demonstrava grande amizade. Como conseqüência, os padres da Fraternidade São Pio X passaram a visitar nosso pequeno grupo no Rio, celebrando para nós a Missa tridentina, numa época em que não tínhamos padres fiéis à Tradição. E esses padres encontravam ali, em sua residência, um grupo fiel, bem formado por tantos anos junto a Gustavo Corção, e se encantavam com as vibrantes conversas do anfitrião. Política, filosofia, teologia, Julio Fleichman era um grande estudioso e gostava muito de conversar sobre suas leituras. E Dom Antônio, igualmente, não deixava de tomar um cafezinho em sua casa quando vinha ao Rio de Janeiro.
Dava também aula de catecismo para os jovens, seus filhos e os amigos de seus filhos. Muitos foram formados nas primeiras armas por ele e se mantém até hoje fiéis à Tradição graças a essa formação. Dessas aulas, muitas vocações sacerdotais saíram. Do total de seis padres saídos da Permanência, cinco foram formados por ele. Sua casa era o lugar onde tudo isso acontecia e onde, até hoje, se reúnem os amigos para a Missa, na Capela São Miguel.
Porque Julio Fleichman foi também um construtor de “catedrais”. Construiu em 1980, na sede da nossa Editora, no Jardim Botânico, uma primeira Capela São Miguel, que mais tarde foi transferida para sua residência, no Cosme Velho. Esta primeira capela foi montada quando Dom Tomás de Aquino, então monge do mosteiro Sainte Madeleine, do Barroux, veio ao Rio visitar sua família. Era a primeira vocação saída da Permanência, o Miguel Ferreira da Costa. A transferência da Capela para a sua residência deu-se após uma visita dos dois bispos fiéis: Dom Marcel Lefebvre e Dom Antônio de Castro Mayer reuniram-se juntamente com outros padres, na residência de Julio Fleichman, em 1983, onde redigiram o Manifesto Episcopal, enviado ao Papa João Paulo II. Nesta reunião, mostraram-se os bispos interessados em ajudar mais o grupo de fiéis do Rio. Julio Fleichman conseguiu comprar uma casa em ruínas no Cosme Velho e montou ali sua residência e a Capela São Miguel. No meio da obra, quando só as paredes externas estavam de pé, Mons. Lefebvre a visitou e disse a Julio Fleichman: “C’est votre petite cathédrale” (“É sua pequena catedral”). Em seguida, ajudou na instalação do Mosteiro da Santa Cruz, em Nova Friburgo, dando apoio material de diversos modos, inclusive jurídico. A terceira “catedral” foi a Capela de Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Nasceu pelas mãos de um leitor da Revista Permanência, um benfeitor da Revista, que recebeu de Julio Fleichman as indicações para procurar os padres de Campos, para que lhes dessem assistência espiritual. Hoje, graças ao sr. Otero, há um Priorato da Fraternidade de São Pio X em Santa Maria, com uma linda igreja. E por fim, pode-se dizer que Julio Fleichman foi fundador e grande benfeitor da Capela Nossa Senhora da Conceição, em Niterói, onde seu próprio filho, Dom Lourenço Fleichman, com a ajuda de seu pai, construiu outra linda igreja para a Tradição. Poucos leigos, ao longo desses quarenta anos, tiveram a chance de trabalhar tanto pela defesa da Santa Missa.
Não temos nesta hora como deixar de sentir a perda do pai, do amigo, do mestre. Porém, é com o espírito em paz que o acompanhamos ao seu repouso, guardando em nossas almas, em nossas vidas, os reflexos de sua vida, tão cheia de frutos. Que a Virgem Maria e nosso padroeiro, São Miguel, o recebam no Paraíso, e que nós, aqui na terra, estejamos à altura do seu exemplo.
Fonte: https://web.archive.org/web/20060904075044/http://www.permanencia.org.br/rapidas/juliofleichman.htm
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JULIO FLEICHMAN HA MUERTO
Rafael Castela Santos
Es con dolor que recibimos ayer mismo la noticia de la muerte de Julio Fleichman. Ya en A Casa de Sarto nos habíamos hecho eco hace tiempo de este insigne pensador y habíamos reproducido una entrevista realizada a él.
Julio Fleichman (1928–2005) ha sido un bastión impresionante de la Tradición en Brasil. Judío converso al catolicismo por influencia de Gustavo Corção, se distinguió siempre por la solidez de su trabajo. En todos ellos (en su propio trabajo, en su labor al frente de la editorial Permanencia, en su defensa de la Tradición, etc.) permaneció siempre fiel. Sin él la Tradición no hubiera sido posible en la Patria hermana brasileña.
A modo de un mínimo testimonio personal tuvimos un intercambio epistolar hace unos años. No hacía mucho que había leído su libro O Itinerário Espiritual da Igreja Católica y me contestó con una gran amabilidad enviándome su libro de memorias, ya agotado. Sus cartas, manuscritas, destilaban una amabilidad fuera de lo común y su caligrafía era ya la de alguien herido por la edad. Luego, debido a su ya precario estado de salud, era su hijo, Dom Lourenço Fleichman, OSB, quien me contestaba en nombre de su padre. En el primer libro que menciono Julio Fleichman hacía un conciso pero profundísimo análisis de la historia eclesiástica a vista de águila. Acostumbrado a leer libros de historia de la Iglesia tan antropocéntricos su perspectiva teocéntrica, confieso, me maravilló. Invito a nuestros lectores a que se hagan con un ejemplar de este libro, que bien merece la pena ser leído.
Cuando la Misa Tridentina prácticamente cesó en Brasil, una nación afligida por la teología de la liberación como pocas, Julio Fleichman llegó a instalar una Capilla en Río de Janeiro en su propia casa. Su voluntad constante de preservar la Misa de siempre fue patente.
Descanse en paz este hombre que luchó el buen combate.
Dios, a quien nadie gana en generosidad, dará el ciento por uno a quien ya dio mucho en esta vida.
Desde A Casa de Sarto enviamos nuestro más sentido pésame a Dom Lourenço Fleichman y al resto de la familia Fleichman y sus amigos y allegados.
Que el ejemplo y la lección vital de Julio Fleichman sea un motivo de inspiración para todos nosotros.
[Nota: un obituario más extenso puede encontrarse aquí]
Fonte: https://casadesarto.blogspot.com/2005/05/julio-fleichman-ha-muerto.html
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UM JUDEU ACERCA DOS CERTOS JUDEUS MODERNOS
Rafael Castela Santos
El gran autor judío brasileño converso al catolicismo, el Profesor Julio Fleichman — uno de los principales discípulos de Gustavo Corção — nos deleita nuevamente con su trabajo sobre la salvación para los judíos que se puede encontrar completo aquí. En él arranca comentando sobre la película La Pasión, de Mel Gibson, y sus implicaciones. A Casa de Sarto habló sobre Julio Fleichman aquí, haciéndonos eco de la muerte del insigne autor y retornaremos, sin duda, al Dr. Julio Fleichman, portador de una interesante visión de los acontecimientos modernos.
Julio Fleichman es un hombre inolvidable. Yo fui muy influenciado por su libro O Itinerário Espiritual da Igreja Católica, un análisis escatológico en profundidad, una destilación de alta potencia espiritual, de la Historia de la Iglesia, obra penetrante y sabia que vivamente recomiendo.
Me acuerdo con mucha nostalgia de nuestro comentador Jacobo San Miguel, también judío converso al catolicismo, que falleció el día de Epifanía del 2005. Su muerte ejemplar, como la vida ejemplar del Profesor Julio Fleichman, son pruebas de la excelencia de la raza electa, de la raza hebraica, cuando son conversos al catolicismo.
Extractamos un fragmento sobre sus apreciaciones sobre La Pasión, de Gibson:
“Mais ainda, preocupado com a imediata e agressiva reação da B’nai B’rith, Mel Gibson procurou fazer-lhes concessões eliminando do filme uma passagem em que os judeus que pressionaram Pôncio Pilatos a mandar crucificar Jesus gritam: “Que o seu sangue tombe sobre nós e os nossos filhos”, embora este grito esteja reportado nos Evangelhos. Logo, evidentemente, o que os grupos de judeus que se voltam contra o filme querem é, mais uma vez, repudiar o Cristo e a sua Igreja. Isto é uma pena, sobretudo para os próprios judeus aos quais gostaria de procurar ajudar a limpar sua alma e seu coração de tanta acrimônia, para que pudessem ouvir a pregação do Cristo em toda a sua mansidão e considerar os argumentos que lhes podemos oferecer em sua simples racionalidade, digna de aceitação se for verdadeira, para que se coloquem de um modo feliz diante da pregação em questão.”
En el siguiente párrafo el Profesor Julio Fleichman analiza el problema de ciertos judíos modernos (que ciertamente no todos, como él bien nos recuerda). Se refiere a su desprecio o rencor contra Cristo o contra la Esposa Mística de Nuestro Señor, la Santa Madre Iglesia Católica, motivado por una falta de conocimiento de la verdadera historia de los acontecimientos pasados y a veces anegados en la mentira políticamente correcta. El verdadero hecho es que los judíos fueron respetados por los católicos, pero no por musulmanes, protestantes u ortodoxos.
“Os judeus modernos costumam explicar a si mesmos, quando se lhes pergunta alguma coisa a respeito disso, que a raiz mais profunda desse ressentimento vem da lembrança das perseguições que os judeus sofreram no passado, mas proponho aos judeus honestos esta pergunta: é verdade ou não que esse ressentimento volta-se mais contra a Igreja Católica do que contra os países não católicos, onde a perseguição e os massacres efetivamente se deram? Nunca houve perseguição sangrenta aos judeus na Polônia, na Áustria, na Hungria, na Itália. Houve na Rússia ortodoxa do século 19 e começo do século 20, houve na Alemanha protestante no século 20. Costumam citar a Espanha dos reis católicos Fernando e Isabel, que nunca massacraram judeus, mas, sim, mandaram expulsá-los do seu reino por razões políticas. Esta expulsão foi efetivada pelo famoso Decreto de Alhambra, admirável na sua retidão e até na delicadeza com que explica a necessidade de expulsá-los. Nenhum judeu conhece esse texto e os detalhes do fato histórico. Querer inculcar a idéia de que a Inquisição forçava judeus a se converterem não coincide com a natureza dela. A única verdade que realmente ocorreu e, creio eu, ocorre ainda hoje em paises católicos ou ex-católicos é, me parece, um certo mau humor dos gentios para com os judeus, um mau humor em que os judeus não são inocentes porque ele resulta, pelo menos em parte, da maneira pela qual os judeus, em todos os países onde vivem, constituem uma espécie de fraternidade separada que atribui ajuda e até privilégios aos seus correligionários e olha os demais como adversários. Sem falar na usura com que, no passado, muitos judeus eram mal vistos, sobretudo pela dureza na cobrança de empréstimos.
A verdade (que eu conheci no fundo de minha alma) é que o ressentimento judeu é mais antigo do que as perseguições e o perigo que ronda as almas dos judeus é que esse ressentimento se dirija realmente e antes de qualquer pretexto, contra o Cristo e contra a sua Igreja, que seja uma manifestação do ‘ódio sem motivo’ a que se refere Nosso Senhor (João 15,25).”
Su análisis implacable y cierto sobre la situación de la Iglesia Católica en nuestros días se ilustra a continuación:
“A verdade é que os atuais dirigentes da Igreja Católica, que traumatizaram a Igreja e até hoje a mantêm sob flagelação desfigurando-a pelos atentados cometidos contra a sua doutrina, seus procedimentos e entendimentos de 20 séculos, produziram uma nova religião, a religião da Igreja pós-conciliar de inspiração maçônica, demagógica, revolucionária, para a qual não é difícil alterar também textos bíblicos ou modificar normas litúrgicas milenares. Fizeram concessões demagógicas, por pressão de organizações tipo B’nai B’rith, mas, sobretudo, abandonaram definitivamente sua atividade missionária em favor de um chamado ecumenismo que pretende legitimar todas as religiões e até declarar salvos quem não tem nenhuma. Aqueles que se recusam a acompanhá-los nisso tudo — um dos quais é precisamente o sr. Mel Gibson — são chamados pela imprensa de ‘católicos tradicionalistas’, ultraconservadores, e até, caluniosamente, de fundamentalistas. Na verdade somos, nós e ele, católicos simplesmente que querem ser apenas aquilo que a Igreja sempre foi.”
Uno de los comentarios finales de Julio Fleichman, enraizado siempre en la Escatología católica, no puede ser olvidado:
“No Evangelho de São Lucas cap. 21,24 há uma curiosa profecia que tem passado desapercebida. Ali se relata que ‘Jerusalém será calcada pelo pé dos gentios até que se complete o tempo das nações’. Depois de 2000 anos em que Jerusalém esteve dominada por povos diversos, todos não judeus, os judeus tomaram Jerusalém integralmente em 1967, mas só em 1980 é que a proclamaram capital do Estado de Israel. Esta proclamação foi recebida por urros de furor do mundo inteiro, não apenas dos países árabes, da União Soviética mas também da União Européia e dos Estados Unidos, que apoiavam Israel, mas ficaram contra a retirada de Jerusalém de sob os pés dos gentios. Até a pequena Costa Rica, único país que tinha sua embaixada em Jerusalém e não em Tel-Aviv, tratou de fazer as malas e mudar-se apressadamente para não reconhecer implicitamente a nova capital de Israel. Esse furor do mundo inteiro, mundo apóstata, incrédulo, inimigo da fé me dá a mim a impressão de estar assistindo a coisas maravilhosas que me mostram que é Deus, Ele mesmo, que dirige em última análise os acontecimentos e que Ele se ri do furor das nações como diz o salmo 2. Ora, se Jerusalém deixou de estar sob os pés dos gentios em 1980, então o ‘tempo das nações’ acabou. Dez anos depois é que o mundo começou a ouvir falar em ‘globalização’. Mas estes acontecimentos deveriam ser bem compreendidos pelos judeus também. O tempo das nações acabou para todos. Para eles também. Não há mais distinção entre judeu e grego como diz São Paulo. Muitas razões existem hoje, além desta última, para se supor que vivemos em tempos terminais e nestes tempos a distinção real é entre os que servem ao Cristo e os inimigos dele, os quais, apesar de lutarem entre si, irão juntar-se em Armagedom para a batalha final contra Deus. Que Deus nos guarde no bom lado para este combate.”
Nuestro valiente autor, penetrante con el verbo y sus ideas, habla con claridad meridiana del doble rasero de ciertos judíos modernos llamando a las cosas por su nombre. Se trata de los inconsecuencia de ciertos judíos, quienes hablan y se quejan de los crímenes de los alemanes en la Segunda Guerra Mundial, pero no ven que ellos comenten errores y hasta crímenes abominables en el tratamiento que dispensan a los palestinos. Y sigue habiendo quien se preocupa de censurar estos hechos.
“Uma coisa os judeus da B’nai B’rith podem alegar e alegaram contra o filme de Mel Gibson: as autoridades atuais do Vaticano, tanto em pronunciamentos de cardeais, teólogos quanto do Papa atual e do Concílio Vaticano II, modificaram o entendimento e a pregação da Igreja Católica, que, por 20 séculos, desde os pronunciamentos de São Pedro e São João Evangelista, por diversos e grandes santos teólogos, São Justino, São João Crisóstomo, São Jerônimo, Santo Agostinho e tantos outros sempre afirmou duas coisas bem claras a respeito da morte de Nosso Senhor Jesus Cristo: o motivo pelo qual a segunda Pessoa da Santíssima Trindade se encarnou como verdadeiro homem, sofreu a Paixão e morte na cruz foi o pecado de todos os homens em todos os tempos, inclusive os futuros, até o fim do mundo, para sua remissão. E, por sua vez, que o Cristo encarnou-se no seio de uma virgem judia, nasceu, cresceu e viveu entre os judeus aos quais se dirigiu em sua pregação, mas que não foi por eles recebido. Embora muitos judeus se tenham feito seus discípulos — cerca de 120, entre apóstolos e outros seguidores, estavam presentes no dia de Pentecostes, e cerca de 3.000 receberam o batismo nesse dia — a maioria da população de judeus não o recebeu e deixou-se incitar pelos sacerdotes e membros do Sinédrio a pedir a Pilatos a condenação de Jesus, preferindo que soltasse Barrabás, o qual era um ladrão. Jesus veio para os seus, e os seus não o receberam. É portanto normal se dizer de um modo geral que ‘os judeus crucificaram Jesus’. Evidentemente, ninguém pode dizer quais judeus no meio da multidão que pedia a morte de Jesus eram interiormente culpados disso, realmente. Deus é que sabe. Porém, com que direito os judeus de hoje pretendem chamar de racista quem simplesmente diz, generalizando, que ‘os judeus mataram o Cristo’, quando eles efetivamente o mataram? E que dizer da aversão que inúmeros judeus, até hoje, guardam contra ‘os alemães’, de um modo geral, recusando ir à Alemanha, comprar qualquer produto alemão, até mesmo CDs da Deutche Gramophon? Durante mais de 40 anos era proibido Wagner em Israel, e só começaram a tocar porque o maestro judeu Daniel Barenboim arriscou sua vida impondo isso à orquestra que dirigia em Israel. Todos os alemães são culpados das atrocidades nazistas?”
Fonte: https://casadesarto.blogspot.com/2005/10/um-judeu-acerca-dos-certos-judeus.html
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A SALVAÇÃO PARA OS JUDEUS
Julio Fleichman

Este filme despertou enorme atenção pública por três razões: primeiro, por ter sido feito por um grande ator como produtor, Mel Gibson; segundo, por ser uma filmagem da vida de Cristo, numa obra cinematográfica de nível artístico admirável, em tempos de total indiferença, para não dizer desprezo ou rancor, pela pessoa de Jesus Cristo ou por qualquer aspecto de vida religiosa católica; e terceiro, pela imediata reação agressiva de grupos judeus nos Estados Unidos, onde rabinos ligados à organização maçônica judaica B’nai B’rith iniciaram campanha contra o produtor e seu filme, acusando-o de ser anti-semita. Esta última razão funcionou como o que os gregos chamavam “estentoreio”, isto é, alto-falantes que atraíram a atenção dos jornais e televisões e provocaram debates acirrados sobre o assunto.
Meu propósito aqui é o de dirigir-me aos judeus que porventura cheguem a ler ou a ouvir o que lhes tenho a dizer, com a intenção de tentar eliminar o que possa impedir ou dificultar a devida apreciação do filme, não porque tenha procuração do autor do filme, que evidentemente nem conheço, nem a mim conhece ele, mas porque estou convencido de que, por uma série de circunstâncias, este filme é um portentoso sinal da graça de Deus em favor dos judeus e meu desejo é o de que os judeus, como os demais, possam contemplar o filme no que ele realmente é, uma espécie nova, moderna, da pregação missionária da Igreja que os judeus, durante tantos séculos, recusaram-se a ouvir, mais ainda, sequer a considerar como uma realidade a que pudessem dirigir o olhar. Isto porque ergueram barreiras psicológicas com as quais desviam os olhos e os ouvidos de tudo o que lhes recorda este assunto: a pessoa do Cristo, a Igreja Católica. A discussão pública que hoje se armou em torno do filme fará, certamente, com que muitos judeus tomem conhecimento do assunto com a intenção não de ver o filme, mas de agredi-lo ou mesmo procurar impedir sua exibição. Ora, a intenção do autor do filme não é, evidentemente, tratar de judeus, para começo de conversa, e sim do Cristo. Não existe nenhum motivo, nem atual nem antigo, que permita supor que o sr. Mel Gibson tenha má-vontade com os judeus. Seu filme se atém estritamente a fatos históricos tais como reportados nos Evangelhos e tais como a Igreja Católica sempre interpretou e ensinou até 1958. Mais ainda, preocupado com a imediata e agressiva reação da B’nai B’rith, Mel Gibson procurou fazer-lhes concessões, eliminando do filme uma passagem em que os judeus que pressionaram Pôncio Pilatos a mandar crucificar Jesus gritam: “Que o seu sangue tombe sobre nós e os nossos filhos”, embora este grito esteja reportado nos Evangelhos. Logo, evidentemente, o que os grupos de judeus que se voltam contra o filme querem é, mais uma vez, repudiar o Cristo e a sua Igreja. Isto é uma pena, sobretudo para os próprios judeus, aos quais gostaria de procurar ajudar a limpar sua alma e seu coração de tanta acrimônia, para que pudessem ouvir a pregação do Cristo em toda a sua mansidão e considerar os argumentos que lhes podemos oferecer em sua simples racionalidade, digna de aceitação se for verdadeira, para que se coloquem de um modo feliz diante da pregação em questão.
Se perguntarmos a um judeu qualquer, hoje, de que tribo sua família é, ele terá que, obrigatoriamente, responder que não sabe, pois a destruição de Jerusalém pelos romanos, no ano 70 de nossa era, acarretando a destruição de toda a nação judaica e o êxodo quase total da população para fora da Palestina, destruiu também todos os registros que, até então, eram cuidadosamente guardados, registros cuja importância ia muito além da simples identificação das famílias, mas era também a fonte da designação daqueles aos quais incumbia o serviço do Templo, os da tribo de Levi, dentre os quais saíam os designados para o sacerdócio, honra assinalada única e exclusivamente aos descendentes da família de Aarão, irmão de Moisés. E ainda mais, somente com tais registros seria possível conferir se o Messias, quando viesse, atendia ao que os profetas haviam predito dele, que seria da tribo e da família de Davi, rei de Judá. O próprio rei Davi, no salmo 109, profetiza que o seu descendente será o seu Senhor (“Disse o Senhor ao meu Senhor…”), mas como certificar-se disso hoje se o Messias ainda estivesse por vir?
Depois da dispersão resultante da destruição de Jerusalém e da tomada da Palestina pelos romanos, os rabinos judeus mais importantes reuniram-se na cidade de Jamnia, no ano 90 da nossa era, onde selecionaram os textos hebreus do Antigo Testamento que admitiram como sagrados, rejeitando vários livros componentes da famosa versão grega chamada “dos 70” (tradução do texto bíblico feito ao longo do século III antes de Cristo por judeus de língua grega). Eles rejeitaram diversos livros utilizados pelos cristãos nas suas disputas com os judeus, livros considerados “inconvenientes”, tais como Judite, Tobias, Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico e Baruch, chamados por isso deuterocanônicos. Assim a Bíblia hebraica, que foi nesta reunião fixada como um cânon com exclusão de tudo o mais, ficou constituída em três partes: 1) a Lei, ou Torá, que corresponde ao nosso Pentateuco, os cinco primeiros livros do Antigo Testamento; 2) os Profetas (Neviim), com os livros históricos e os proféticos propriamente ditos; e 3) os Escritos (Ketouvim), com os livros sapienciais, Ruth, Lamentações, Ester, Daniel, Esdras e as Crônicas. Mais tarde outros rabinos destacados, em Babilônia e na Galiléia, promoveram uma revisão gráfica do texto do ano 90 sem alterações na sua substância, daí resultando a versão chamada “massorética” utilizada até hoje. O parecer dos mais importantes teólogos católicos sobre esses textos é o de que na sua versão em hebraico eles não sofreram adulterações a não ser pequenas divergências de grafia ou de disparidades de copistas. Essa é a opinião de São Jerônimo, que se baseia nisso na opinião de Orígenes. É também a opinião de Santo Agostinho. Porém varias adulterações foram assinaladas por São Justino, Santo Irineu, o próprio Orígenes e São João Crisóstomo nas versões em grego de textos bíblicos, sobretudo os da lavra de um certo Theodocium de Éfeso e um outro chamado Áquila, do Ponto. Porém a maioria dos judeus, mesmo religiosos, sobretudo religiosos, não tomam muito conhecimento desses textos bíblicos, por mais sagrados que sejam, preferindo utilizar coletâneas de interpretações deturpadas e insultuosas para os cristãos chamadas Mishná e o Talmude (isto é a “tradição”). Essas interpretações tendenciosas criaram barreiras intencionais que induzem os ouvintes a nem tomar conhecimento da existência dos pregadores católicos. Mas esse fenômeno atesta também que, na prática, os judeus sem Templo, sem sacerdotes, sem sacrifício, não têm mais, realmente, o uso espiritual dos seus próprios textos sagrados.
No final do capítulo 9 das profecias de Daniel está predito que um povo viria com seu capitão para destruir o Templo e a nação, que produziria uma ruína total fazendo cessar “a hóstia e o sacrifício” e que esta desolação duraria até o fim do mundo. Essa profecia é muito diferente das profecias que, antes de Daniel, anunciavam castigos divinos. Com efeito, as outras profecias referiam-se sempre a castigos por um tempo limitado, anunciavam a reconstrução do Templo ou a retomada dos sacrifícios nele, bem como a reconstrução da cidade de Jerusalém. Mas essa diz claramente que nunca mais haverá Templo nem a retomada de sacrifícios.
Os judeus modernos têm, por outro lado, a terrível responsabilidade de responder pela sua atitude pessoal diante do seguinte espetáculo que a história do mundo lhes apresenta.
Durante os tempos da antiga Lei, antes da vinda de Jesus Cristo, os judeus, ainda que muitas vezes prevaricadores diante de Deus, tinham consciência de que possuíam um patrimônio, digamos, místico, um universo religioso que conservava a memória de manifestações misteriosas, maravilhosas de um Deus invisível cujo poder eles bem sabiam ser incomensurável e que intervinha sempre na vida do povo judeu, quer por anúncios dos profetas, quer por milagres com que salvava este povo de seus inimigos, como no tempo dos Juízes, ou por castigos com que os entregava aos seus inimigos. Os judeus sempre souberam ver nos acontecimentos preditos pelos profetas ou nas intervenções divinas na vida deles a manifestação da vontade de Deus. Ora, além da profecia de Daniel acima referida, como podem os judeus deixar de considerar atônitos este espetáculo inaudito: ao lado de sua situação que realiza a profecia de Daniel, que os manteve dispersos pelo mundo inteiro durante vinte séculos, reduzidos a uma população desprezada, sem magistrados notáveis, nem sacerdotes de verdade, nem Templo nem sacrifício, sem soldados nem força, nem unidade política nem território, sujeitos ao arbítrio dos reis dos países onde viviam e, às vezes, ao massacre como ocorreu muitas vezes na Rússia ortodoxa ou na Alemanha protestante; ao lado disso, a religião cristã levada a nações não judias por um grupo de doze judeus pescadores ignorantes, sem influência política nem força militar, perseguidos os cristãos e massacrados pelos romanos durante quase três séculos, no início de sua história, cambaleantes depois ao longo de lutas terríveis contra heresias quase vitoriosas por força de influências políticas, sujeitos em seguida à devastação causada pelas seguidas invasões de bárbaros durante séculos também, com tudo isso, esta religião chegou a dominar todo o mundo ocidental (na verdade o mundo que realmente fez a história da humanidade desse período em diante e, num certo sentido, faz ainda até hoje) e, mais ainda os mais nobres espíritos e as mais notáveis inteligências que o mundo já viu?
Um professor universitário brasileiro, hoje falecido, foi um dia interpelado por um aluno durante a aula quando, por acaso, Jesus Cristo foi mencionado. “Professor, Renan diz que Jesus foi apenas um grande homem…”. O professor respondeu: “De alguém que diz de si mesmo ‘Eu sou o caminho, a verdade e a vida’ e ‘Quem come a minha carne e bebe o meu sangue viverá eternamente’ só se pode dizer ou que é louco ou que é Deus. Grande homem é Renan, por exemplo”. E se alguém pode pensar que um louco conseguiu impressionar os milhões de homens e as notáveis inteligências que o cristianismo formou e realizar a obra esplêndida de uma civilização própria que durou intacta em seus valores durante mil anos, então o problema é outro, é um problema de sensatez. Mas, o que importa aqui ponderar é: por que os judeus não olham essa ocorrência simultânea de fatos ao longo de 20 séculos com o mesmo olhar espiritual, com a mesma piedade filial com que os antigos se lembravam do braço poderoso que os havia tirado do Egito e os tinha salvo do exército de Faraó e de sua cavalaria?
Há ainda outros aspectos a considerar aqui. Há o aspecto do ressentimento judeu que conheço por experiência própria. Esse ressentimento é curioso. Os judeus modernos costumam explicar a si mesmos, quando se lhes pergunta alguma coisa a respeito disso, que a raiz mais profunda desse ressentimento vem da lembrança das perseguições que os judeus sofreram no passado, mas proponho aos judeus honestos esta pergunta: é verdade ou não é que esse ressentimento volta-se mais contra a Igreja Católica do que contra os países não católicos, onde a perseguição e os massacres efetivamente se deram? Nunca houve perseguição sangrenta aos judeus na Polônia, na Áustria, na Hungria, na Itália. Houve na Rússia ortodoxa do século 19 e começo do século 20, houve na Alemanha protestante no século 20. Costumam citar a Espanha dos reis católicos Fernando e Isabel, que nunca massacraram judeus, mas, sim, mandaram expulsá-los do seu reino por razões políticas. Essa expulsão foi efetivada pelo famoso Decreto de Alhambra, admirável na sua retidão e até na delicadeza com que explica a necessidade de expulsá-los. Nenhum judeu conhece esse texto e os detalhes do fato histórico. Querer inculcar a idéia de que a Inquisição forçava judeus a se converterem não coincide com a natureza dela. A única verdade que realmente ocorreu e, creio eu, ocorre ainda hoje em paises católicos ou ex-católicos é, me parece, um certo mau humor dos gentios para com os judeus, um mau humor em que os judeus não são inocentes porque ele resulta, pelo menos em parte, da maneira pela qual os judeus, em todos os países onde vivem, constituem uma espécie de fraternidade separada que atribui ajuda e até privilégios aos seus correligionários e olha os demais como adversários. Sem falar na usura com que, no passado, muitos judeus eram mal vistos, sobretudo pela dureza na cobrança de empréstimos.
A verdade (que eu conheci no fundo de minha alma) é que o ressentimento judeu é mais antigo do que as perseguições e o perigo que ronda as almas dos judeus é que esse ressentimento se dirija realmente e, antes de qualquer pretexto, contra o Cristo e contra a sua Igreja, que seja uma manifestação do “ódio sem motivo” a que se refere Nosso Senhor (João 15,25). Minha esperança, mencionando aqui este assunto, é a de que algum judeu que por acaso leia ou ouça o que escrevi possa, pelo menos, suspender seu ressentimento e olhar o filme naquilo que ele realmente quer ser: um testemunho em imagens que recordam em toda a sua crueza a morte de Deus encarnado, que assumiu uma natureza humana para poder sofrer a fim de, pela grandeza infinita da personalidade divina dessa natureza, poder pagar, expiar o pecado, e assim oferecer aos homens a salvação de Deus, inclusive aos judeus.
Uma coisa os judeus da B’nai B’rith podem alegar e alegaram contra o filme de Mel Gibson: as autoridades atuais do Vaticano, em pronunciamentos tanto de cardeais e teólogos quanto do Papa atual e do Concilio Vaticano II, modificaram o entendimento e a pregação da Igreja Católica que, por 20 séculos, desde os pronunciamentos de São Pedro e São João Evangelista, por diversos e grandes santos teólogos, São Justino, São João Crisóstomo, São Jerônimo, Santo Agostinho e tantos outros sempre afirmou duas coisas bem claras a respeito da morte de Nosso Senhor Jesus Cristo: o motivo pelo qual a segunda Pessoa da Santíssima Trindade se encarnou como verdadeiro homem, sofreu a Paixão e morte na cruz foi o pecado de todos os homens em todos os tempos, inclusive os futuros, até o fim do mundo, para sua remissão. E, por sua vez, que o Cristo encarnou-se no seio de uma virgem judia, nasceu, cresceu e viveu entre os judeus aos quais se dirigiu em sua pregação, mas que não foi por eles recebido. Embora muitos judeus se tenham feito seus discípulos — cerca de 120, entre apóstolos e outros seguidores, estavam presentes no dia de Pentecostes, e cerca de 3.000 receberam o batismo nesse dia — a maioria da população de judeus não o recebeu e deixou-se incitar pelos sacerdotes e membros do Sinédrio a pedir a Pilatos a condenação de Jesus, preferindo que soltasse Barrabás, o qual era um ladrão. Jesus veio para os seus, e os seus não o receberam. É portanto normal se dizer de um modo geral que “os judeus crucificaram Jesus”. Evidentemente, ninguém pode dizer quais judeus no meio da multidão que pedia a morte de Jesus eram interiormente culpados disso, realmente. Deus é que sabe. Porém, com que direito os judeus de hoje pretendem chamar de racista quem simplesmente diz, generalizando, que “os judeus mataram o Cristo” quando eles efetivamente o mataram? E que dizer da aversão que inúmeros judeus, até hoje, guardam contra “os alemães”, de um modo geral, recusando ir à Alemanha, comprar qualquer produto alemão, até mesmo CDs da Deutsh Gramophon. Durante mais de 40 anos era proibido tocar Wagner em Israel, e só começaram a tocar porque o maestro judeu Daniel Barenboim arriscou sua vida impondo isso à orquestra que dirigia em Israel. Todos os alemães são culpados das atrocidades nazistas?
A verdade é que os atuais dirigentes da Igreja Católica, que traumatizaram a Igreja e até hoje a mantêm sob flagelação desfigurando-a pelos atentados cometidos contra a sua doutrina, seus procedimentos e entendimentos de 20 séculos, produziram uma nova religião, a religião da Igreja pós-conciliar de inspiração maçônica, demagógica, revolucionária, para a qual não é difícil alterar também textos bíblicos ou modificar normas litúrgicas milenares. Fizeram concessões demagógicas, por pressão de organizações tipo B’nai B’rith; mas, sobretudo, abandonaram definitivamente sua atividade missionária em favor de um chamado ecumenismo que pretende legitimar todas as religiões e até declarar salvos quem não tem nenhuma. Aqueles que se recusam a acompanhá-los nisso tudo — um dos quais é precisamente o sr. Mel Gibson — são chamados pela imprensa de “católicos tradicionalistas”, ultraconservadores, e até, caluniosamente, de fundamentalistas. Na verdade somos, nós e ele, católicos simplesmente que querem ser apenas aquilo que a Igreja sempre foi.
Para os judeus comuns, que não tenham a índole de membros da B’nai B’rith, o filme de Mel Gibson pode ser uma bênção dos céus mostrando que Deus não se esquece deles e os persegue no fundo de suas almas com “gemidos inenarráveis”, procurando enternecer seus corações para que possam atender às evidências acima descritas e se disponham a contemplar o espetáculo terrível da morte de Jesus Cristo com o espírito livre de preconceitos e ressentimentos. Tenho a convicção de que nossos tempos favorecem isto de um certo modo. Explico por quê. Embora os judeus da B’nai B’rith não gostem disso, a verdade histórica é que os judeus que pediram a condenação de Jesus efetivamente clamaram “que seu sangue tombe sobre nós e nossos filhos”. Ora, a história dos judeus depois da dispersão em massa por causa das duas guerras contra os romanos parece confirmar que, realmente, caiu sobre eles uma maldição milenar. Os judeus tornaram-se — vê-se pela literatura de todos os tempos — objeto de desprezo, ridicularizados, enxotados, impedidos de terem terras durante séculos, impedidos de seguir a carreira das armas, de ascender a posições políticas ou na magistratura e, finalmente, já em nossos dias, massacrados aos milhões. Ora, como escrevi em um livro que publiquei, parece que esta maldição acabou. Não apenas porque circunstâncias históricas possibilitaram a formação do Estado de Israel (que, se Deus não quisesse, não se teriam concretizado), mas porque este Estado constituiu-se em plena guerra contra 100 milhões de árabes e se manteve com outras guerras contra eles, mesmo depois que estes árabes se tornaram super-ricos pelo petróleo. Para isso, aquele povo judeu, pequeno, com figuras que, até um passado recente, eram vergonhosas, odiosas, ridículas, viu aparecerem em seu meio notáveis estadistas, grandes chefes militares de uma coragem extraordinária, de uma eficiência técnica militar inacreditável, grandes estrategistas, cientistas, pensadores, inventores que mostraram claramente que o braço de Deus os ajuda agora, depois de 2000 anos de abandono. Ou será que os judeus pensam que é apenas a excelência deles mesmos que produziu tudo isso? Evidentemente, isso não possibilitou nem pode possibilitar uma revivescência do judaísmo como religião pelos motivos acima explicados. O verdadeiro motivo para essa assistência divina parece ser o de preparar os judeus para a conversão em massa deles, no fim do mundo, que está predita por São Paulo (Romanos 11,25 e segs.). Se esta suposição tem fundamento, ainda que a conversão em massa possa estar longe, a suspensão do castigo milenar dos judeus torna propícia a conversão pessoal aos judeus de nossos tempos. A graça de Deus está no ar à espera e, assim como São Paulo assinala que a queda de Israel favoreceu o ingresso dos gentios na Igreja, assim também os tempos apocalípticos em que vivemos, com a corrupção generalizada do clero católico, pode facilitar o aparecimento de judeus que aspirem a uma verdadeira (e única) Religião dotada de valores transcendentes, mais altos do que este universo de direitos humanos, fraternidades sem pai, gozo de bens materiais, em que vivemos. Nós aspiramos a um universo de obrigações humanas, piedade filial voltada para o Pai, em primeiro lugar, e esperança de um gozo eterno na pátria verdadeira que não é aqui. Ora, sabemos que é a graça de Deus que no-lo pode dar. E essa graça, é só pedir.
No Evangelho de São Lucas cap. 21,24 há uma curiosa profecia que tem passado desapercebida. Ali se relata que “Jerusalém será calcada pelo pé dos gentios até que se complete o tempo das nações”. Depois de 2000 anos em que Jerusalém esteve dominada por povos diversos, todos não judeus, os judeus tomaram Jerusalém integralmente em 1967, mas só em 1980 é que a proclamaram capital do Estado de Israel. Esta proclamação foi recebida por urros de furor do mundo inteiro, não apenas dos países árabes, da União Soviética, mas também da União Européia e dos Estados Unidos, que apoiavam Israel mas ficaram contra a retirada de Jerusalém de sob os pés dos gentios. Até a pequena Costa Rica, único país que tinha sua embaixada em Jerusalém, e não em Tel-Aviv, tratou de fazer as malas e mudar-se apressadamente para não reconhecer implicitamente a nova capital de Israel. Esse furor do mundo inteiro, mundo apóstata, incrédulo, inimigo da fé, me dá a mim a impressão de estar assistindo a coisas maravilhosas que me mostram que é Deus, Ele mesmo, que dirige em última análise os acontecimentos e que Ele se ri do furor das nações como diz o salmo 2. Ora, se Jerusalém deixou de estar sob os pés dos gentios em 1980, então o “tempo das nações” acabou. Dez anos depois é que o mundo começou a ouvir falar em “globalização”. Mas estes acontecimentos deveriam ser bem compreendidos pelos judeus também. O tempo das nações acabou para todos. Para eles também. Não há mais distinção entre judeu e grego como diz São Paulo. Muitas razões existem hoje, além desta última, para se supor que vivemos em tempos terminais e nestes tempos a distinção real é entre os que servem ao Cristo e os inimigos dele, os quais, apesar de lutarem entre si, irão juntar-se em Armagedom para a batalha final contra Deus. Que Deus nos guarde no bom lado para este combate.
Um derradeiro comentário. Nem todos os judeus, mesmo americanos, são do tipo B’nai B’rith. Recebi de amigos o texto que um rabino judeu ortodoxo americano de Seattle, Estados Unidos, colocou na internet, criticando os ataques das organizações judaicas que se levantaram contra o filme. Cito alguns dos seus pronunciamentos:
“Estas organizações judaicas que dissiparam tempo e dinheiro futilmente, protestando contra o filme A Paixão ostensivamente, pretendendo (diz ele com ironia) evitar pogroms em Pittsburgh (chamavam-se pogroms os massacres de judeus na Rússia no século 19 e 20) dificilmente se podem orgulhar de seu desempenho. Esperavam arruinar Gibson, e não enriquecê-lo; queriam suprimir o filme, e não promovê-lo, e, finalmente, pretendiam ajudar os judeus, e não prejudicá-los… Ao invés de ajudar a comunidade judaica, eles lhe infligiram danos duradouros. Selecionando para descarregar sua fúria apenas um entretenimento que descreve o cristianismo de um modo positivo, eles arriscaram produzir raiva, mágoa e ressentimento… Considero importante que os cristãos saibam que nem todos os judeus estão de acordo com seus auto-designados representantes… Muitos judeus, individualmente, me exprimiram seu embaraço com que grupos, ostensivamente representando-os, ataquem A Paixão, mas se calem diante de entretenimentos depravados que encorajam matar policiais e brutalizar mulheres… Tenho encontrado amargura para com organizações judaicas que insistem em que acreditar no Novo Testamento é, de fato, evidência de antissemitismo. Cristãos ouviram líderes judeus denunciar Gibson por ter feito um filme que segue o relato dos Evangelhos muito antes de qualquer deles ter visto o filme. Mais ainda, cristãos ficam ofendidos com grupos judeus que estão pretendendo ensinar-lhes o que as Escrituras cristãs “realmente significam”… Organizações judaicas procurando ajudar mas falhando tão espetacularmente, refutam todos os mitos sobre a inteligência dos judeus. Como é possível que seus planos tenham sido tão equivocados e sua execução tão inepta?”
O autor dessas palavras chama-se Rabino Daniel Lapin, que é presidente de uma organização judaica de nome Toward Tradition (“Pela Tradição”) e tem um programa de rádio.
Fonte: https://permanencia.org.br/drupal/node/869
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ENTREVISTA COM JULIO FLEICHMAN
Alguns anos antes de falecer, após 35 anos de militância como presidente da Permanência, Júlio Fleichman narrou sua trajetória ao lado de Gustavo Corção — o mais firme de nossos polemistas católicos — os eventos decisivos na formação de seu posicionamento diante desta terrível crise de nosso tempo, e de seu combate aos inimigos da Igreja.
Hoje, os membros de Permanência e os novos católicos que vão se convertendo à defesa da Tradição reúnem-se na Capela S. Miguel Arcanjo, às sextas e domingos, no Cosme Velho, para assistir à “Missa de sempre” — a Missa Tridentina, celebrada por D. Lourenço Fleichman, OSB — e prosseguir no combate.
E.: Como foi o seu encontro com Gustavo Corção? Como o senhor chegou a conhecê-lo?
Eu era um judeu já adulto e tinha um amigo chamado Frederico de Carvalho. Éramos um grupo de três ou quatro amigos, e nos encontrávamos à noite para andar pelas ruas discutindo tudo. Discutíamos cultura, arte, filosofia, política — tudo provavelmente na base da opinião. O Frederico de Carvalho, que era mais velho e não participava muito das discussões, costumava sediar as conversas em sua casa, pois era o único casado. Ele conhecia um lugar chamado “Resistência Democrática”, que havia sido fundado por escritores e políticos católicos, e por um socialista de tipo raro, chamado Hílcar Leite, de um tipo que hoje em dia não existe mais, por ser de uma idoneidade intelectual fora do comum. Essa instituição tinha grandes personalidades, como Fernando Carneiro, Barreto Filho e Gustavo Corção, e lá aconteciam debates freqüentemente muito engraçados.
O fato é que o Frederico nos levou a esse ambiente e nos falava de Corção, que então havia lançado seu primeiro livro, A Descoberta do Outro, saudado pela crítica como uma verdadeira revelação — chegou a ser comparado a Machado de Assis. Comecei a freqüentar esse grupo e me encantei. Na época, não era religioso, não era judeu praticante. Também nunca tinha me envolvido diretamente com política; tivera simpatias pelo comunismo, mas só. No entanto, eu estava então muito interessado no assunto. Nos debates, Gustavo Corção ganhava sempre, porque era muito vivo, muito culto, muito engraçado, e logo atraía a atenção de todos. Interessei-me muito por ele e ouvi dizer que ele tinha um curso, que dava aulas de religião no Centro Dom Vital, que naquele tempo era na Praça Quinze. Era um prédio que pertencia ou era emprestado à Cúria, e tinha lá os cursos religiosos, entre os quais o do Corção. E eu fui para lá.
Embora não fosse religioso, me interessava particularmente pela sua inteligência. Havia nessas aulas umas dez ou doze pessoas. Eram todos moços, mas, em geral, casados e mais velhos do que eu. Naturalmente, como católicos, olhavam-me como uma presa a ser capturada, com interesse por minha conversão; discutíamos muito fora das aulas, sobretudo política. Eu ficava furioso, porque ainda nutria simpatias pelo comunismo e eles eram amigos de Carlos Lacerda, que, nessa época — isso foi em fins de 1949 — estava fundando a Tribuna da Imprensa. Carlos Lacerda era cronista do Correio da Manhã; eu não o lia e não gostava dele. Fiquei irritado com sua campanha contra o candidato comunista nas eleições de 1950, que se chamava Fiúza, e ele apelidara de “Rato Fiúza”.
No Tribuna da Imprensa, Corção escrevia uma pequena crônica, sempre muito engraçada, e me encantei por sua personalidade e inteligência.
Naquela época, eu era um leitor ávido, lia tudo que me caía nas mãos. Li um livro de um escritor inglês chamado G. K. Chesterton, um católico polemista muito vivo, amigo, mas oponente, de Bernard Shaw, e um livro de São Tomás. Fiquei furioso com aqueles livros.
Um dia, um amigo meu virou-se para mim e perguntou por que eu tinha toda aquela gana. Por que essa raiva toda? Eu olhei para ele e não soube o que responder.
Depois, caiu-me nas mãos um livro de S. Kierkegaard, A Angústia Humana. Eu gostava de andar na rua pensando nas coisas que lia, até que um dia, de repente, me aconteceu uma espécie de ajuste. Foi como se dentro da minha alma alguma coisa que estava distorcida, contorcida, se colocasse no lugar. E me deu um vento interior de sanidade — não tive nenhuma revelação, mas senti uma espécie de alívio, como se eu, enfim, entendesse certas coisas. Até então eu tinha uma reputação de doutor-sabe-tudo junto a meus amigos. O fato é que tudo que me aparecia, inclusive o catolicismo, que eu desprezava, eu enquadrava numas certas colocações que, no fundo, significavam que eu julgava que sabia tudo, que tinha o mundo todo mais ou menos equacionado.
Com esse livro do Kierkegaard, e com esse ajuste, eu de repente me dei conta de um universo que eu simplesmente não sabia que existia, que era o da minha alma, do meu eu interior. A minha vida interior era angustiada, sem que eu o percebesse. Era a angústia de uma distorção espiritual em que as pessoas vivem sem nem perceber. Era o meu caso.
As coisas que eu estava lendo começaram a fazer sentido. Comecei a ver que a tal cultura, a tal mentalidade que eu tinha, dentro da qual pensava caber o mundo inteiro, era uma caixinha de fósforos pequenina e errada; e o universo, uma coisa muito mais ampla, complexa e rica do que a minha caixinha.
Com isso, com a freqüência ao Centro Dom Vital, e depois ao mosteiro de São Bento, eu acabei pedindo a dom Marcos Barbosa que me batizasse. Na primeira vez que ele marcou, eu não fui, fugi, mas depois fui finalmente batizado. Frederico de Carvalho foi o meu padrinho. Apareceram três freiras do Colégio Sion a quem Corção tinha pedido que rezassem pela minha conversão. Afinal, me converti e nunca mais deixei o Corção e segui firme no caminho que tinha que seguir.
Comecei a ajudar Corção na medida do possível. O Centro Dom Vital fôra fundado por Jackson de Figueiredo no princípio do século. Era uma organização que reunia escritores católicos, e cujo presidente, então, era o Alceu Amoroso Lima. Quando comecei a freqüentar o Centro, procurei assistir às aulas dele, mas logo me enchi. Vi que tudo aquilo era meio sumário, apesar de sua grande fama de scholar. Um esquerdista da época, Joaquim Pimenta, dizia que a cultura do Alceu era uma cultura de fichário — e devia ser mesmo. Ele dividia todos os problemas em três e então tratava deles. Para um novato, no princípio, era muito interessante, porque ele simplificava os problemas e os resolvia, mas logo descobríamos que não era assim, que aquilo era muito simplório.
Em 1963, o Alceu começou a tomar posições esquerdistas e entrou em conflito com Corção, que era o vice-presidente. Então, saímos do Centro Dom Vital e, mais tarde, em 1968, fundamos a Permanência.
A Permanência foi fundada com todo o apoio do episcopado da época, o cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro celebrou a missa de fundação. Alugamos um espaço na casa de umas polonesas, e lá tínhamos nossas conferências e missas.
Com a missa do cardeal, foi fundada religiosamente a Permanência. A fundação jurídica foi feita por mim, a fundação política foi feita por uma conferência de Corção no auditório do Ministério da Educação, que ficou completamente lotado.
E.: A fundação da Permanência acontece apenas por causa da divergência com o dr. Alceu, ou já tem em vista o Concílio?
Não, nessa época ainda não nos dávamos conta do que acontecia na Igreja. Ainda não tínhamos em vista o Concílio.
Uma das finalidades do Centro Dom Vital era o apostolado católico no plano da inteligência. Nós fundamos a Permanência para prosseguir com esse objetivo e também para combater os comunistas, como já fazíamos no Centro Dom Vital. Quando perdemos o Centro, fundamos a Permanência para prosseguir com as aulas de Corção e publicar a Revista Permanência, que durou 22 anos.
E.: A respeito das divergências entre o Corção e o doutor Alceu, uma visão superficial leva muitos a acreditar que se tratava de um problema meramente político — mas o problema era mais profundo.
Justamente. Escrevi um livro chamado A Crise é de Fé e é Grave. Essas palavras do título foram, para mim, bênçãos do céu e me socorreram diante desse debate e diante do caráter que tentavam atribuir a ele. Naquele tempo nós ainda não avaliávamos bem as coisas. Ninguém pensaria que um dia o Papa iria desonrar a Igreja ou pôr a Igreja em risco de perder a fé. Ninguém imaginaria uma coisa dessas e nos consideraríamos pecadores se fôssemos ter essa idéia e tentar expô-la.
O que víamos nesse tempo, aqui no Brasil, quando tínhamos muito pouca notícia do que se passava no mundo, era que uma porção de personalidades católicas começara de repente a tomar partido a favor da esquerda. Isso nos deixava indignados. E víamos que, além disso, escreviam coisas estranhas.
O Alceu, em 63, escreveu um artigo de página inteira no Jornal do Brasil sobre o problema do Concílio, que, como Corção veio a dizer depois, era uma espécie de “Encíclica do Alceu”; nela defendia que a Igreja das condenações tinha morrido para ceder lugar à Igreja do diálogo, à Igreja da compreensão fraterna. E o Alceu honrava Dom Hélder Câmara, que honrava os terroristas; e veio o Leonardo Boff, com a teologia da libertação.
Nós víamos que isto não era só um problema político. Diziam-nos que não podíamos “agredir” o Alceu, pois éramos irmãos católicos, e não devíamos dar essas demonstrações públicas de divergências entre irmãos, e que a nossa divergência era meramente política. Nós sabíamos que não era. Mas não tínhamos nem apoio, pois os bispos já estavam calados e não nos ajudavam, nem uma compreensão mais profunda do problema, que, para nós, era muito difícil de investigar a fundo. E nos perguntávamos: E Roma, por que é que não fala? E os bispos?
O cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Jaime Câmara, gostava de nós, e nos convidou para um encontro quando da discussão com Alceu a respeito do Centro Dom Vital. Ele nos disse: vocês fiquem, quem vai sair é ele. Mas passou o tempo e ele não saiu.
Dom Jaime tinha mandado uma carta para o Alceu pedindo a ele que renunciasse, mas ele respondeu: não renuncio; o senhor que me demita. O que é uma atitude de insubordinação; mas eles podem fazer isso, nós é que não podemos…
Um dia, Dom Jaime estava na Igreja do Cristo Redentor, que era nossa igreja paroquial nesse tempo. Logo depois entrou o Sobral Pinto com um papel na mão, e brandiu o papel no nariz do cardeal. O cardeal ficou receoso de tomar uma atitude pública e recuou.
Mas tarde, ele nos renovou o convite para um encontro pessoal. E lá fomos, Corção, Gladstone Chaves de Melo e eu. Ele começou dizendo que devíamos estar desapontados com ele, e fez uma pausa. Corção disse: “Senhor Cardeal, eu não creio que o senhor queira que comecemos esta entrevista mentindo. Devo dizer, com toda franqueza, que nós estamos realmente decepcionados”.
O encontro, enfim, ficou na conversa, e o cardeal não fez nada. Ele se sentia tolhido, e mais tarde ficamos sabendo que Roma não deixava que os cardeais tomassem certas atitudes. O fato é que, então, saímos nós do Centro Dom Vital e fundamos a Permanência.
Foi neste momento que corremos nós o mais grave risco de perder a fé, de entrar nessa onda de lama e matéria fecal, que mistura os tons, os matizes e torna as pessoas prontas a acreditar em tudo, aceitar todas as mudanças, e encontrar fraternidade com os pulhas.
Tivemos a ajuda preciosa de um autor que não era católico, mas a quem repugnava essa miscigenação, essa falta de nitidez no combate, o Nelson Rodrigues. Ele escreveu uma série de artigos ironizando o Alceu, o Dom Hélder, e honrando o Corção. Chegou a escrever um artigo chamado “Carta a um milionário paulista”, onde dizia que era preciso manter a Permanência. Foi numa época em que estávamos praticamente sem dinheiro.
O fato é que quase não tínhamos ajuda. O risco que corremos nesse tempo foi o da tentação de pensar: “Será que é mesmo só um debate político e estamos faltando com um dever de caridade?”. Mas caridade não é isso que eles dizem. Caridade começa com a verdade. E às vezes começa com o bastão, com o vergaste, com o chicote. No Antigo Testamento está escrito que o pai que poupa seu filho da vara tem ódio à sua alma. Poupar aí se refere a não castigar o filho que agiu mal.
Nessa época eu andava muito aflito com essa situação. Eu sabia que era um problema religioso. Nessa hora, por uma misericórdia do Céu, o cardeal-arcebispo de Buenos Aires, Dom [Antonio] Caggiano, diferentemente do cardeal do Rio, disse publicamente as palavras: Não, a crise é de fé e é grave! Bendito seja Deus! Se é assim, tudo mais eu entendo. Agora está tudo claro. Agora eu sei o que eu tenho de fazer, quem é o inimigo, e como eu devo conduzir-me na guerra que concerne a mim.
E sei também qual é a pérola preciosa que precisa ser preservada acima de tudo. Pérola a respeito da qual Nosso Senhor Jesus Cristo usou a mais violenta linguagem que já se ouviu até hoje. E note que ele não fala assim por causa de qualquer pecado: não é por causa do pecado da carne, não é pelo pecado de roubo, não é por nada disso que ele usa esta linguagem. É por causa do que se chama em teologia de “escândalo”. E escândalo quer dizer “pôr outrem ou você mesmo em risco de perder a fé”. É por causa da fé. Se a tua mão te escandaliza, corta-a; se o teu olho te escandaliza, mete o dedo no globo ocular e arranca-o. Você já viu alguém usar uma linguagem tão violenta assim? Arranca o olho com o dedo, porque é melhor entrar no reino dos céus com um olho só do que ir com os dois para o inferno.
Isso Nosso Senhor disse por causa da fé. E quem conhece um pouco a doutrina católica sabe que essa é a pérola escondida, esse é o fermento que leveda a massa, essa é a jóia pela qual é preciso dar a vida. Tudo o mais decorre dela.
Então, se alguém mexeu com a fé, já sabemos o que fazer. Não é possível aceitar nada que venha nesse sentido.
E.: E o Corção, nisso tudo?
Esse livro que eu escrevi é sobretudo a história do combate do Corção: a história de como a crise da Igreja foi chegando ao Brasil. Porque, com essas palavras de Dom Caggiano, eu compreendi que o problema não era só aqui; a crise era mundial. Já tínhamos alguns indícios disso por alguns outros problemas que ocorreram. Íamos tomando conhecimento das coisas que aconteciam aqui e lá fora, e íamos resistindo.
Houve uma famosa séance no Centro Dom Vital, ainda quando estávamos lá, com o Alceu presidindo, em que dois franceses, um homem e uma mulher, da equipe do Cardeal [Augustin] Bea, iam nos falar. O Cardeal Bea tinha sido confessor do Papa e o homem mais influente da corte de Roma no tempo de Pio XII. É a figura mais sinistra da transição; provavelmente foi o grande responsável por ela — porque Pio XII é o fim da Igreja, tal como ela foi durante vinte séculos. A partir de João XXIII — e nós ainda não sabíamos disso — estava começando uma nova era, o que, em 63, o Alceu compreendeu, pois tinha informações que nós não tínhamos. Foi quando escreveu a sua famosa “encíclica”, que, de fato, era verdadeira num certo ponto: Roma tinha mudado. Nessa sessão, com os dois franceses do Cardeal Bea, estavam presentes muitos religiosos, inclusive Dom Lucas Moreira Neves, além de Corção, Alceu, etc. Em resumo, os franceses disseram o seguinte: nós estivemos numa favela, e vimos os comunistas lá em ação. Eles são muito mais caridosos que vocês, são muito melhores que vocês! Quer dizer, nós, para eles, éramos apenas uns burgueses. Ficamos todos ali estupefatos; eu apenas pensava: Como é que eles podem dizer isso, se não nos conhecem? Claro que eram cretinos. Mas como eles tinham vindo do Cardeal Bea e falavam em francês, nós ficamos paralisados.
Mas não ficamos indiferentes por dentro. Aquilo criou um certo constrangimento. De repente, duas senhoras francesas, lá atrás, se levantaram e berraram: “Salauds! Vous êtes des communistes, nous vous connaissons déjà!” (“Bastardos! Vocês são comunistas, nós já os conhecemos!”). E aí fechou o tempo, o Alceu ficou irritadíssimo, nós começamos a rir e a respirar aliviados.
Por esse incidente, começamos a saber que as coisas estavam ficando estranhas. Mas o parto foi longo e doloroso. Foi só em 1970, provavelmente em 72, já perto da morte de Corção, que ele escreveu um artigo contra o Vaticano. Foi a primeira vez que nós, realmente, dissemos que não era possível mais acompanhar o Papa.
Até então, com João XXIII, não conhecíamos as palavras mais significativas do pensamento do Papa. As que conhecíamos procurávamos interpretar de modo benéfico, fazíamos alguns malabarismos intelectuais, como era próprio de um católico fiel e dócil à autoridade, que não tem nem quer ter espírito revolucionário. Não é que procurássemos tapar o sol com a peneira, mas procurávamos interpretar as coisas, inclusive as coisas do Concílio, de modo benéfico. Gustavo Corção escreveu vários artigos benéficos sobre o Concílio, sobre Paulo VI, que é o grande responsável pela ruptura da Igreja. Quando o Papa veio a usar a palavra transignificação ao invés de transubstanciação, que é de São Tomás, nós procuramos achar que havia algum problema de tradução, etc. Procurávamos aceitar tudo. Mas chegou uma hora em que ficou claro que aquilo que o Papa estava dizendo não podia ser católico, embora Corção não tivesse ousado sequer pensar nisto tão claramente.
A primeira atitude do Papa contra o Brasil foi após a Revolução militar de 64. O Papa disse que o Brasil era contra os pobres, e Corção disse que não podia aceitar aquilo. Então, ele começou a gemer, a rezar, a chorar, e se perguntava: O que é que vou fazer? Eu não posso me calar. Ele não podia deixar de escrever, estava claro que havia uma espécie de conspiração palaciana, com os Hélder Câmara, daqui e de lá, querendo colocar o Papado contra o governo militar, que tinha salvo o Brasil de uma ameaça comunista iminente. João Goulart tivera os comissários do povo organizados e incitara os marinheiros e soldados contra os oficiais — a revolução, enfim, chegara a estar em marcha.
Corção continuou a escrever gemendo, cheio de cuidados. Ele se pegou com Santa Catarina de Sena, que, no século XIV, não só tinha clamado contra os bispos ruins, que chamou de demônios encarnados, mas também, como naquele tempo o Papado estava dividido; ela, que era uma mulher de fogo, foi ao Papa que ela sabia ser o verdadeiro dos três, e disse: Sê homem! Levanta-te daí, volta para Roma, Roma é a sede da Igreja. Levanta-te! Eu vejo aqui demônios encarnados na tua corte! Corção, então, se pegou com ela, e começou a usar palavras dela para dizer o que ele tinha de dizer ao Papa e pedia a “mamma Caterina”, como ele a chamava, que o ajudasse. Ele usou palavras dela e fórmulas dela para dizer ao Papa que não era possível admitir um pronunciamento como aquele.
E foi um escândalo. Corção estava atacando o Papa! E depois, tudo foi ficando cada vez pior e ele cada vez mais rígido porque, com o tempo, nós começamos a ver que uma série de coisas não era aceitável. Houve um momento em que na URSS fuzilaram cinco pessoas que queriam fugir da Rússia, e o Papa não disse nada. Um mês depois, na Espanha de Franco, cinco terroristas foram condenados à morte por terem jogado bombas em algum lugar, e o Papa foi suplicar que não os fuzilasse. Corção perdeu a cerimônia e escreveu “eu não posso crer que isto que vem de Roma seja coisa de um Papa”.
Depois começou a estudar os textos do Concílio, sobretudo o número 55 da constituição Gaudium et Spes, um documento do Concílio, que dizia “o homem hoje é responsável perante os seus irmãos…” e o quê, Deus? Não. E a “História”.
Nessa ocasião, o cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, então Dom Eugênio Sales, mandou distribuir em todas as igrejas do Rio um documento dizendo que Corção não falava pela Igreja, que ele não podia ser seguido nem lido; ou seja, colocou Corção praticamente no ostracismo. O combate foi ficando cada vez mais claro, cada vez mais nítido, até que, em 76, ele descobriu Monsenhor Marcel Lefebvre.
No começo da Permanência, nós tínhamos como redator e colaborador Alfredo Lage, que era um dos mais inteligentes, mais cultos e mais finos de nossos companheiros. E, no primeiro número de Permanência, ele incluiu um artigo de um certo monsenhor Lefebvre, que então não conhecíamos. Parecia apenas um bispo europeu, muito interessante, muito animado com o encontro de jovens que se interessavam pelos assuntos católicos e queriam ser padres. Era um artigo nesse sentido. Mas somente cerca de quinze anos depois viemos realmente a conhecer Mons. Lefebvre. Corção morreu um pouco depois e a nossa relação passou a ser com Mons. Lefebvre e com uns franceses combatentes, sobretudo um muito inteligente, chamado Jean Madiran, que dirigia uma revista chamada Itinéraires.

No início não sabíamos quase nada do Concílio. Só vinte anos depois do Concílio é que li o principal depoimento a respeito, um livro escrito por um jesuíta americano, também jornalista, que tinha participado do Concílio e que se chamava Ralph Wiltgen, Le Rhin se jettedansle Tibre (“O Reno se lança no Tibre”). Nesse livro, ele conta como é que o Concílio foi manipulado.
Na primeira sessão, os bispos alemães e franceses se uniram, se levantaram, fizeram uma espécie de sublevação e disseram que não queriam os esquemas para discutir os assuntos tais como preparados pela Cúria, mas queriam discutir os assuntos democraticamente, com voto, etc. O Papa aceitou. E aí quebraram a ingerência da Cúria, cujo dirigente principal era o Cardeal Alfredo Ottaviani, um homem muito preparado, muito fiel, mas que foi derrubado, sobretudo pela cumplicidade secreta do Papa João XXIII contra ele.
Só depois nós fomos conhecer o discurso de abertura do Concílio, já muito significativo, e as palavras com que o Papa disse, ele mesmo, como teve a idéia de convocar o Concílio — uma coisa muito estranha, muito esquisita, que não se enquadrava na tradição da Igreja; enfim, tudo isso nós fomos aprender depois.
Este livro, que só fui ler vinte anos depois, relata incidentes muito interessantes. Por exemplo, o papel de monsenhor Lefebvre e de dois bispos brasileiros, mais trezentos e tantos bispos que os ajudaram numa organização para resistir aos progressistas e tentar obter uma condenação do comunismo, o que o Concílio recusou. Mais tarde, viemos a saber que tinha havido um acordo de um delegado do Papa com dirigentes da União Soviética.
E.: Sabe-se de alguma informação a respeito da influência da maçonaria sobre o Concílio?
Da maçonaria não sei. Na década de 70, houve uma denúncia, na França, de que inúmeros cardeais e bispos franceses eram membros da maçonaria. Aqui no Brasil houve um escândalo com o cardeal-arcebispo da Bahia, na época, Dom Avellar Brandão, que celebrou missa num templo maçônico e usou os paramentos maçons.
Quando essa denúncia surgiu na Europa, e a denúncia incluía o cardeal secretário de Estado da Cúria Romana na época, os acusados negaram indignados. Mas as publicações davam até o número de inscrição deles.
Em 1980, houve o escândalo do banco Ambrosiano com o banco do Vaticano, e por aí se viu que o banco do Vaticano era cúmplice e sócio do banco que sustentava a principal loja maçônica do mundo, chamada P2, dirigida por Lucio Gelli, preso pela polícia por causa do escândalo. Lucio Gelli tinha manobras e relações com deputados, generais e políticos do mundo inteiro, comandava uma rede de grandes empresas e levou o banco Ambrosiano à falência com um rombo de 1 bilhão e 200 milhões de dólares. Isso mostrou que as relações do Vaticano com a maçonaria italiana não eram nenhuma brincadeira.
Sobre a influência da maçonaria no Concílio Vaticano II não tenho dados, mas dos protestantes sim. Existe uma famosa fotografia do Papa Paulo VI com seis representantes protestantes. Corção chamou a atenção para o fato de que, atrás do Papa e dos protestantes, pode-se ver uma porção muito grande de bispos participantes do Concílio, todos rindo às gargalhadas; o Papa e seus convidados, não, mas os participantes estavam. E Corção escreveu um artigo perguntando: Mas de que é que eles se riem? Por que estão rindo? E aí fazia uma série de considerações a respeito.
Mais tarde, foi confirmada a influência desses representantes protestantes. Eles não tinham voto, mas participavam das discussões, prestavam esclarecimentos, distribuíam material, entravam nos assuntos todos, enfim, como se fossem membros do Concílio para expor suas idéias. E assim foi sendo feita a subversão da Igreja…
O ecumenismo e a revolução litúrgica já estavam sendo preparados mesmo antes do Concílio. Um monge beneditino belga, Dom Lambert Beaudouin, dera sinais inquietantes de querer mudar a liturgia e fôra censurado por Roma. Ele gostava muito da liturgia oriental, ortodoxa, e quase virou ortodoxo. Ele fundou um movimento litúrgico que, no início, nós recebemos de braços abertos. Até hoje, nossa missa é dialogada em voz alta. O catolicismo, no início do século, era mais praticado pelas mulheres, as beatas. Os homens, quando iam à igreja, ficavam atrás conversando. Sobral Pinto, em seu tempo, causava comoção porque freqüentava a missa, comungava, ajoelhava-se, e isso não era costume masculino. Mas mesmo as pessoas que iam à igreja não sabiam bem o que estava acontecendo. Algumas rezavam o terço, que é algo que realmente se pode fazer, desde que se reze com a devida intenção, caso contrário não se está assistindo a missa nenhuma. Nas missas, as pessoas têm de saber o que está acontecendo, o que é aquilo, e participar pelo menos no sentido de oferecer a Deus o Cristo imolado, porque a missa é a reiteração, a apresentação hoje da mesma realidade que aconteceu dois mil anos atrás, a saber, a morte do Cristo na cruz, em que Se oferece ao Pai em remissão dos pecados dos homens. É o mesmo Cristo que está ali presente, o mesmo Cristo que consagra a hóstia e que Se oferece ao Pai. Os fiéis estão presentes para oferecer o sacrifício de Cristo a Deus junto com o sacerdote, e é por isso que, na hora do oferecimento, o acólito segura a casula do sacerdote, significando que estamos ali para isso, para oferecer a Deus um sacrifício pelos nossos pecados e pelos pecados dos outros.
Ora, o movimento litúrgico fôra instituído justamente para fazer com que as pessoas tomassem consciência do que estava acontecendo na missa e participassem verdadeiramente dela, mas depois ele extrapolou. Começou-se a estudar a liturgia e os sacramentos, e, em seguida, a fazer elucubrações sobre o sacramento da Eucaristia e sobre o papel do sacerdote, e a sustentar que o povo também é sacerdote, e começaram alguns bispos e cardeais a dizer besteiras.
Essas besteiras se prolongaram e acabaram gerando, nos meios intelectualíssimos da Cúria Romana, compostos de muitos progressistas, um desejo de simplificar a missa, mudar a missa, corrigir a missa — coisa que os católicos jansenistas tinham feito na França no século XVIII. De fato, foi exatamente isto o que fizeram: colocaram as mãos na missa para usar as palavras das Escrituras para ensinar isso e aquilo. Não tem nada que usar a missa para ensinar. A missa é o resultado místico de uma obra mística, de grandes místicos. Primeiro, do próprio Jesus, e depois os ritos surgiram de grandes místicos da Igreja, que foram, primeiro, os apóstolos, todos santos, depois grandes Papas santos e grandes doutores santos — com isso foi se formando a missa que tem, se não na sua integridade, pelo menos na sua essência, dois mil anos. E quando começaram a aparecer variações que punham em risco a pureza daquele ato litúrgico, o Concílio de Trento, no século XVI, estabeleceu as normas que a missa devia seguir e o Papa, São Pio V, publicou uma encíclica famosa, chamada Quo primum tempore, proibindo que se tocasse na missa, e estabelecendo as únicas exceções, que eram certos ritos, variantes do rito romano, com mais de 200 anos, mas admissíveis. O Papa proibia que se fizessem modificações na missa dali para a frente, coisa que os progressistas de Roma de nosso tempo não admitiram, e disseram que, se um Papa proibiu, o outro Papa, que tem poder igual, pode “desproibir”, e então fabricaram a missa de Paulo VI, que é essa que está aí.
Quando surgiu essa missa, nós, inicialmente, íamos a ela. Claro que procurávamos sempre padres sérios, comedidos, não esses que ficam distribuindo as hóstias na mão como se as tirassem de uma caixa de biscoitos; mas, mesmo com um padre sério, eu me sentia mal. Eu descobri, sem querer, que se esquecesse o padre e fixasse os olhos no Sacrário, eu me sentiria melhor. Passei a fazer isso e voltei a usar o missal antigo. Eu rezava minha missa ali sozinho, fixando os olhos no sacrário, sem tomar conhecimento do que o padre fazia no altar.
Depois que Corção morreu, que monsenhor Lefebvre morreu e que acabou a revista Permanência, eu quis deixar uma lembrança disso tudo para meus filhos e netos. Tinha um instrumento precioso, os artigos que Corção escrevia duas vezes por semana nos jornais, em que ele foi cada vez mais deixando a política de lado e se concentrando no debate espiritual e religioso. Eu tinha então um registro, duas vezes por semana, do que acontecia no mundo católico: o que o Papa disse, o que disseram os bispos, fatos que aconteciam e que Corção comentava. Peguei a coleção e o fui seguindo, contando esta história no meu livro, muitas vezes usando trechos do que Corção escrevia, muitas vezes mesclando o tema da crise da Igreja com assuntos políticos. E contei também a divisão que ocorreu no grupo da Permanência depois que Corção morreu.
Quando compreendemos que a missa nova era insuportável, começamos a procurar padres que nos dissessem a missa tradicional. Primeiro, encontramos um franciscano, que depois ficou doido, foi para a Europa e se ligou a outro doido que acreditava ser o Papa Gregório XVII. Depois surgiu um padre jesuíta, que nos disse a missa tradicional por algum tempo, mas acabou sendo proibido pelo superior dele, quando soube do que se tratava. Enfim, andávamos atrás de padres que nos dissessem a missa de sempre, inequivocamente católica.
Até que descobrimos um padre holandês com quem fui conversar. Sentei-me ao seu lado no banco da Igreja e perguntei: Padre, me diga uma coisa, o senhor acha que está proibido dizer a missa tradicional da Igreja? E ele me respondeu que não, que não podiam proibir essa missa. Eu disse: O senhor concorda que não pode ser proibida a missa que a Igreja santificou durante vinte séculos? Ele concordou. Nesse tempo, não era proibida. Isso não interessava ao diabo, porque exoneraria as pessoas de sua responsabilidade pessoal. O diabo quer levar as pessoas para o inferno o mais que puder; ele quer que as pessoas sejam cada vez mais enredadas, até que elas também prefiram ficar com a missa nova. Então, eu pedi ao padre que dissesse a missa para nós e ele aceitou. Tínhamos a missa na capela de umas freiras carmelitas, ao meio dia. Depois apareceu um rapaz que conhecia música e tocava gregoriano. A missa ficou uma beleza, as freiras ficaram deslumbradas conosco, com a nossa missa, com a música e com o padre holandês, que fazia sermões muito ingênuos, mas muito bons — sermões de padre de verdade. E nós passamos cerca de quatro anos de felicidade tranqüila, porque para nós isso era o principal da nossa vida.
Depois, perdemos a missa, porque a família de uma das freiras nos denunciou e o cardeal mandou proibir. O padre holandês recebeu a proibição e ficou apavorado, com medo de o cardeal mandá-lo de volta para a Holanda, e se recusou a continuar com aquela missa.
Encontramos um outro jesuíta. Meu filho foi pedir a ele que rezasse a missa para nós; ele aceitou, rezou uma vez. Nós entramos pelos fundos, escondidos, para ter a missa. E esse padre, daí em diante, quando eu aparecia na sacristia, ficava apavorado, com medo de ser punido pelo superior. Por isso, quando me via, começava a ficar nervoso.
Outra vez ficamos nós sem missa, e voltamos a correr atrás de padres. Surgiu então um franciscano, depois, um padre de Campos, que vinha de avião dizer a missa para nós na sede da Permanência.
Até que Corção morreu e foi quando nós perdemos a missa definitivamente e eu resolvi não ir mais à missa de Paulo VI. Metade de nosso pessoal ficou contra nós, porque há uma obrigação de ir à missa aos domingos. Mas eu tomei a decisão de não ir. Muita gente hesitou, mas acabaram tomando a decisão de também não ir.
No domingo, me fechava no meu quarto e rezava meu missal sozinho. Na hora da consagração, eu fazia uma espécie de comunhão espiritual e rezava a missa todinha, de cabo a rabo. Passamos assim algum tempo.
E.: Quando Corção fez 70 anos, houve grandes comemorações, isso saiu em todos os jornais, etc.; quando ele fez 80, ninguém falou mais nada. E hoje também ninguém fala mais nada. A que o senhor atribuiria isso? E como o senhor responderia às críticas que fazem ao Corção, principalmente depois de “O século do nada” e ao senhor de serem desobedientes?
Há uma conhecida tática de esquerda, que consiste em “não fazer marola”. Eles não querem barulho, não querem debate. Eles não gostam de discutir, fazem uma conspiração de silêncio, e fizeram isso contra o Corção.
Por outro lado, muita gente deixou de ler o Corção porque ele, cada vez mais, foi tomando uma posição marcadamente católica. Ele foi cada vez mais se voltando para assuntos católicos. Mesmo quando discutia alguma coisa que tinha implicações políticas, ele punha naquilo a marca da fé, da defesa de valores católicos, e foi ficando, então, com uma posição muito marcada. Daquelas pessoas que saudaram a fundação da Permanência, que lotaram o auditório no Ministério da Educação, a maioria, ou pelo menos uma grande parte, se entusiasmava com o debate político ou com o debate intelectual, filosófico, mas o debate religioso não interessava muito. Muitas das pessoas não estavam interessadas no assunto, que era o principal, como Corção compreendeu, e como procurou apresentar na sua coluna. De forma que à medida que ele ia marcando uma posição cada vez mais nitidamente católica, menos pessoas se interessavam.
Muitos diziam, então, que ele era católico demais. Ora, ninguém é católico demais, essas pessoas é que não estavam interessadas na fé, nem na religião, e nós estávamos.
Se o mundo está transviado, como a gente tem razões para temer, o que vai acontecer é que as pessoas vão cada vez mais se desinteressar dos assuntos religiosos e querer novidades. Agora mesmo há um número de movimentos que estão pululando por aí, como Foccolari, Comunhão e Libertação, movimentos novidadeiros que, após analisados, revelam-se não-católicos. Considere a Renovação Carismática, por exemplo, em que querem chamar o Espírito Santo outra vez, e a que até instituições muito sérias, como o Mosteiro de São Bento, deu abrigo. O cardeal do Rio chegou a publicar um documento oficial, dizendo que aquilo é uma coisa respeitável, que pode ser seguida; ora, aquilo não é respeitável e não é para ser seguido de maneira alguma.
Nosso Senhor diz em passagem relativa ao fim do mundo que, nesta hora, aparecerão muitos que dirão: Eis, aqui está o Cristo! E recomenda: Não saiais para ver. Ei-lo acolá. Não ide ver. Aqui está o Cristo, vem ver. Não ide atrás. É isso que esses movimentos me lembram. O Cristo está aqui, o Cristo está ali, e vêm versões novas do cristianismo, como se não fosse a Igreja que tem o ensino da Verdade, como se não fosse ela que sabe o que está dizendo, que tem o segredo do Cristo. Não, são eles. Essas novidades. “O Cristo está aqui, o Cristo está lá” — Nosso Senhor nos alertou: não dêem atenção.
Ora, quem disse que nós estamos em tempos apocalípticos não fui eu. Grandes pensadores, grandes filósofos já o disseram, principalmente por causa dessas crises, por causa de coisas como o abalo que a Igreja está sofrendo. Evidentemente, nós estamos em tempos apocalípticos, resta saber quanto tempo vai durar. Nosso Senhor disse que seria breve. Porque se não, diz Ele, nem os santos agüentariam. E disse que Deus ia abreviar esses dias.
Por um lado, nos espantamos de como os tempos passam depressa. Por outro, de como a crise está durando. Já são trinta anos — e olha que não é brincadeira.
Um amigo meu, de São Paulo, chamou a atenção para uma coisa muito interessante. Uma das sete cartas do Apocalipse, a sexta, é a da Igreja de Filadélfia. A impressão que eu tenho é que é para nós. Porque Ele diz assim: Eu sei que vocês não têm força, por isso eu vos ajudo, mas guardai a coroa da vossa fé. Não deixeis que outros tomem essa coroa ou a estraguem. Guardai a vossa posição, eis que Eu venho depressa. Esperai. E Ele ainda diz que os “falsos judeus” serão postos a vossos pés. Ora, os falsos judeus, hoje, têm outro sentido: trata-se dos falsos fiéis.
E na carta seguinte, destinada a outra igreja, Ele diz as famosas palavras a respeito daqueles não são nem quentes nem frios: já estou a vomitá-los da minha boca. Isso é para a sétima Igreja, é a sétima carta, para este mundo, creio eu, que está engolindo tudo e pensa que é católico.
Eles reclamam de nós, que somos desobedientes ao Papa. E nós respondemos que a obediência é uma grande virtude, mas não é a principal. A principal é a fé, junto da esperança e da caridade. Por estas é que nós temos que meter o dedo no olho e arrancá-lo fora, e cortar a mão e o pé se for o caso. Não importa. E cortar com pai, mãe, filho, seja com quem for, que Ele também o exigiu. Cortar com todo mundo, com tudo. A obediência é uma virtude que nós queríamos aceitar, mas se a fé está em jogo, não venham cobrar obediência.
Ao passo que a eles, seria o caso de lhes perguntar: Quando vêem as declarações do Papa João Paulo II, quando vêem as mudanças no Credo, isso não os comovem?
E.: Muitos vêem o pontificado de João Paulo II como conservador. O que é que o senhor acha?
Conservador coisa nenhuma. O Papa João Paulo II, usando uma astúcia muito conhecida, dá uma no cravo e outra na ferradura. Paulo VI fazia a mesma coisa: tomava posições aparentemente boas para depois adotar outras contrárias à Igreja de sempre.
João Paulo II, por exemplo, disse que devia voltar a haver a confissão no confessionário e não confissão coletiva. Todo mundo então acha formidável. Mas logo em seguida ele vai pedir desculpas a Galileu, vai pedir desculpa aos judeus, para não sei mais quem, até para os cantores de rock — e isso é o de menos. Ele vai receber bênção de sacerdotisa hindu. Sua pior obra é Assis, que se renova todos os anos. Assis é uma coisa muito séria. A reunião foi feita na cidade-berço da obra de São Francisco, cidade cheia de evocações católicas.
Um grande bispo católico francês, depois cardeal Pio, um dos grandes nomes do Concílio Vaticano I, tem um sermão impressionante sobre a santa intolerância católica, que me lembra uma declaração de Chesterton. Ele conta que os romanos eram muito ecumênicos, muito acolhedores dos deuses dos povos que eles venciam e costumavam honrar os deuses dos outros. No Pantheon, em Roma, eles tinham estátuas dos deuses do mundo inteiro. E, uma vez, propuseram botar lá uma estátua de Jesus, mas os cristãos recusaram.
Essa atitude dos cristãos, de não admitir paridade entre sua religião e a dos pagãos irritou grandes espíritos romanos que defendiam os cristãos, que tinham pena dos cristãos, como Plínio, que ficou indignado com essa atitude. Então, Chesterton diz algo assim: as pessoas não se dão conta de que o mais grave risco que já correu a fé de Jesus Cristo sobre a face da Terra, o mais grave risco de desaparecimento da fé cristã sobre a face da Terra, foi corrido num mar de boa acolhida, de boa vontade, de boa disposição, quando, às margens do Adriático, foi oferecido aos cristãos colocar lá sua estátua de Jesus no meio das outras, para ser mais uma entre as outras. Esse foi o mais grave risco que a religião cristã correu de desaparecer, porque foi para não admitir isso que os mártires morreram, que os mártires deram o sangue.
Foi para não admitir isso que eles fazem hoje, com esse ecumenismo da alta hierarquia oficial da Igreja. Isso é que é inaceitável, isso é que é insuportável. E não venham dizer que não é sincretismo; pouco importa. Isso que fizeram em Assis foi uma amorfa e repugnante coabitação de coisas díspares como a do Catolicismo com o Dalai Lama, que nem sequer pretende ser um Papa, e sim um deus. Ele estava sentado na frente de um altar, onde a lâmpada acesa (diz o jornal Avvenire, jornal oficial da Conferência dos Bispos Italianos) indicava a presença do Santíssimo no sacrário e ele, de costas para o sacrário, recebia a adoração dos seus seguidores, numa das igrejas mais veneráveis de Assis. Fora os peles vermelhas, protestantes, etc., todos eles com uma igreja à sua disposição para fazer essa coabitação repugnante, pela qual o sangue dos mártires fica sem sentido.
Santa Perpétua era filha de um senador e o juiz que a julgava pelo crime de ser católica era amigo do pai dela. Ele lhe dizia: Olha, você não tem que fazer nada, você pode continuar como cristã. Faz só um gesto de incensação da estátua do imperador e eu te libero. Dê atenção às lágrimas de seu pai, lembre-se do seu filhinho, que você teve na prisão. E ela dizia não posso. E morreu. Foi entregue às feras, foi posta no Coliseu.
“Não posso”. O que é que custava incensar a estátua do imperador? Ela não o fez.
Os jesuítas que foram à China no século XVIII queriam aceitar a veneração popular à estátua de Confúcio. O Papa disse que isso era inaceitável. Os jesuítas eram muito inteligentes, fizeram um apostolado muito grande na China, mas não podiam dizer aos fiéis que cortassem todos os laços com a religião de Confúcio, ou seriam condenados à morte. Então, foram a Roma pedir ao Papa permissão para aceitar essa “devoção cívica” a Confúcio. E o Papa negou, porque a devoção não era cívica, mas religiosa. E uma religião falsa não pode conviver com outra verdadeira. O Papa negou a permissão ainda que isso significasse arruinar a obra dos jesuítas. É por essas e outras que também nós, que queremos ficar fiéis à nossa Fé, não podemos aceitar o Vaticano II.
(Versão Revisada pelo Autor. Originalmente publicado em “O Indivíduo”)
Fonte: https://www.permanencia.org.br/drupal/node/996
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JULIO FLEICHMAN E OLAVO DE CARVALHO

DA NABUCO #1: ALGUMAS MEMÓRIAS DA DÉCADA DE 1990
Pedro Sette-Câmara
Numa sexta-feira Olavo de Carvalho me falou: “Você não queria ver a missa tradicional? Vamos então à casa do dr. Júlio Fleichman”. Eu nunca tinha ouvido falar do dr. Júlio. Logo estávamos numa casa no Cosme Velho, e dentro da casa havia uma capela. Pequena, mas nem tanto — dr. Júlio abriu mão de parte significativa da casa para construí-la. O filho dele, dom Lourenço Fleichman, era quem oficiava a missa, a primeira missa tridentina a que assisti. Eu não sabia nada, não sabia responder, tinha caído de paraquedas ali. Logo após a missa conversamos um pouco com o dr. Júlio e combinamos de fazer uma entrevista para O Indivíduo, que acabou sendo feita essencialmente pelo Alvaro. Dr. Júlio tinha sido discípulo e amigo de Gustavo Corção, tinha conhecido d. Antônio de Castro Mayer e foi um dos fundadores do Mosteiro da Santa Cruz, que hoje existe na Janela das Andorinhas.
Mais do que tudo, o dr. Júlio Fleichman foi um grande homem. Ninguém transmitia a firmeza e a dignidade dele. E, ao mesmo tempo, o bom humor e a normalidade. Nos meios mais reacionários, digamos, o que não faltam são desajustados sociais, gente cujas pretensões intelectuais não levam nem a um trabalho intelectual que permita alguma inserção. Dr. Júlio tinha sido diretor jurídico da Coca-Cola no Brasil. Judeu, converteu-se ao cristianismo e foi expulso de casa. Passou muito tempo vivendo numa pensão e comendo um prato de comida por dia. Após sua conversão, viu as mudanças litúrgicas e tentou resistir como pôde. Conheceu o monsenhor Lefebvre — “um grande homem da Igreja”, segundo o papa Bento XVI. Com o avanço do progressismo católico e da missa nova, com a morte de Corção, dr. Júlio foi pouco a pouco ficando intelectualmente isolado, mas nunca pareceu amargo. Enquanto bestas como eu reclamavam do estado de coisas, dr. Júlio fez uma capela na própria casa e assumiu inúmeros custos.
Hoje eu discordaria do dr. Júlio, pois acho que os tradicionalistas deveriam ter aceito o acordo proposto pelo papa João Paulo II. (Aquele acordo que os tradicionalistas de Campos aceitaram.) Mas discordar de uma pessoa nada tem a ver com respeitá-la e admirá-la. De todo modo, de que vale a minha opinião sobre qualquer coisa diante do dr. Júlio? Penso nele quando leio o marcante versículo de Deuteronômio 8,2: “E te lembrarás de todo o caminho, pelo qual o Senhor teu Deus te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar, e te provar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias os seus mandamentos, ou não”. Em seu enterro, a família me pediu que transportasse por alguns metros sua coroa de flores, e talvez essa tenha sido a maior honra que jamais receberei em toda a minha vida terrena. Provavelmente só me pediram porque eu estava por perto. Mas, se as coisas têm algum sentido maior, só espero não ter sido excessivamente indigno.
E um dos grandes legados do dr. Júlio Fleichman é seu filho dom Lourenço Fleichman. Juntos, com o apoio de uma pequena comunidade de tradicionalistas, eles construíram uma linda igreja numa parte mais isolada de Niterói. Construíram com as próprias mãos. (Sim, literalmente.) Além disso, jamais vi alguém celebrar uma missa com a dignidade natural e com a voz fantástica de dom Lourenço. Ele é a liturgia.

Fonte: https://sumateologica.wordpress.com/2014/01/16/sto-tomas-a-vaca-voadora-e-nos-por-olavo-de-carvalho/

Fonte: https://olavodecarvalhofb.wordpress.com/2014/03/09/debate-e-elefantes/

Fonte: https://olavodecarvalhofb.wordpress.com/2016/02/23/livros-mencionados-por-olavo-de-carvalho/

Fonte: https://olavodecarvalhofb.wordpress.com/2016/02/23/livros-mencionados-por-olavo-de-carvalho/

Fonte: https://olavodecarvalhofb.wordpress.com/2016/12/01/01122016/

Fonte: https://olavodecarvalhofb.wordpress.com/2017/07/23/22-7-2017/

Fonte: https://olavodecarvalhofb.wordpress.com/2018/02/01/1-2-2018/

Fonte: https://kdfrases.com/usuario/suenaga/frase/6784f

08 True Outspeak – 05/02/07 – Olavo de Carvalho: https://www.youtube.com/watch?v=eQ7-le3RDRk&t=2477s
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OS BENEDITINOS E A LUTA PELA NARRATIVA HISTÓRICA

SUPLEMENTO 7
No Brasil o Padre Fernando [Rifan] fôra solicitado pelos fiéis de Permanência para rezar a missa no Rio. Num simpático diálogo entre o Padre Fernando Rifan e o Dr. Júlio Fleichman, foi selada uma cooperação entre Campos e a Permanência.
— “Não podemos tirar o pão dos nossos fiéis de Campos para dar aos do Rio”, argumentou o Pe. Rifan, que queria evitar este apostolado fora da diocese de Campos. Campos sempre se ressentirá de um certo legalismo que limitará a ação de Dom Antônio de Castro Mayer e de seus padres.
— “Mas os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos filhos”, respondeu o Dr. Júlio, que, com esta bela resposta, ganhou a partida.
Fonte: https://www.mosteirodasantacruz.org/post/suplemento-7
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SUPLEMENTO 12
Eis como Dom Lefebvre via a situação. Nós seguimos os seus conselhos. Fizemos uma declaração pública, e nos separamos de Dom Gérard [Calvet]. Esta declaração foi feita com a ajuda do Rev. Padre Fernando Rifan, do Rev. Padre Tam e do Dr. Júlio Fleichman, pai de Dom Lourenço. Dom Lefebvre queria que esta declaração fosse conhecida dos monges do Barroux e que estes depusessem Dom Gérard “se ele não quiser romper com Roma”.
Fonte: https://www.mosteirodasantacruz.org/post/suplemento-n%C2%BA-12
*
PRÉSENTATION DU PÈRE THOMAS D’AQUIN O.S.B.
J’y suis revenu pendant sept années, encouragé par ma mère qui ne manquait presque jamais à ces conférences. Mon père y allait toutes les fois que son travail le permettait. C’est là que j’ai fait connaissance avec Maître Julio Fleichman et sa femme etc [1].
[1] — Père Thomas d’Aquin, Bulletin des amis du Monastère de la Sainte Croix, supplément n° 4.
Fonte: https://www.dominicainsavrille.fr/presentation-du-pere-thomas-daquin-o-s-b/
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A ESCANDALOSA VINDA DE DOM WILLIAMSON AO BRASIL: O DIA EM QUE A TERRA PAROU
Dom Lourenço Fleichman OSB
Nosso Brasil é um país curioso. Mistura certa ingenuidade com uma capacidade de estar sempre envolvido em discussões tolas. Somos, de um modo geral, superficiais, metidos sempre em curiosidades, em busca desenfreada de informações, constantemente deixadas para trás na medida em que novas notícias vão sendo publicadas em toda parte. Conta-se nos dedos os brasileiros que conseguem recuar diante de uma notícia, meditar, ponderar, e aguardar o melhor momento para falar, se for o caso.
Não sei se é um castigo de Deus, o fato é que estamos metidos em um turbilhão de fofocas e atitudes escandalosas que só servem para dividir a débil Tradição brasileira. Que eu saiba, o único lugar no mundo em que está ocorrendo uma divisão semelhante é na Coréia. Esta é, pois, a nossa realidade. Somos tão importantes para a Tradição quanto a Coréia! Tão fofoqueiros quanto os asiáticos.
Em toda parte, os padres e fiéis da Tradição souberam abaixar as armas e descansar um pouco do rude combate, no momento em que o Capítulo da Fraternidade de São Pio X trouxe de volta a calma. Os franceses são conhecidos pelo vigor no combate e profundidade dos estudos, mas souberam se reagrupar em torno da ordem restabelecida, em torno do Superior do Distrito. Por sua vez, na Argentina, que é o centro mais forte da Tradição na América do Sul, os fogosos platinos, eles também, mesmo sendo em sua maioria contra qualquer acordo prático, souberam interpretar pacificamente o resultado do Capítulo.
Mas aqui, entre nós, surgiu um tragicômico Exército de Brancaleone, para salvar a Igreja. O que devemos pensar de um grupo de soldados que sairia a guerrear sem ordens dos seus superiores, quando uma trégua lhes permitisse descansar e refazer suas forças? Temos a impressão de que os mansos brasileiros não souberam perceber que houve uma trégua, que houve um recuo; ele é real, ele é percebido e difundido pelos generais do nosso exército, que seja um Dom Tissier de Mallerais ou Dom Galarreta. É um fato que o Capítulo da Fraternidade mudou o rumo dos acontecimentos e conseguiu reagrupar a Fraternidade dividida.
O Critério da Fé
Eu poderia continuar no meu silêncio. Ele é cômodo para mim e para os fiéis que estão sob minha orientação. Durante todo o tempo dessa crise procurei orientá-los, transmitindo-lhes os critérios próprios para que cada um pudesse julgar, por si mesmo, qual o caminho que devia ser tomado. O mais importante para eles era saber que a oração e a penitência tinham mais importância do que ficar correndo de blogs a facebooks, ávidos das últimas notícias.
Não pensem que eu dizia a eles para rezarem, porque só eu, enquanto cura das almas, devia tratar desse assunto. Ao contrário. Procurei mostrar, ao longo desses últimos meses, que o critério sobrenatural exigia de todos um posicionamento quanto à questão de fé que nos estava sendo imposta mais uma vez: fazer acordo com Roma é uma questão que envolve de perto a fé sobrenatural de cada um, por isso cada um devia, como continua devendo, responder de modo pessoal, diante de Deus, quanto aos seus atos.
Os fiéis que abraçarem a Roma modernista, e errarem de modo grosseiro, após quarenta anos de perseguição, unindo-se às autoridades modernistas, não poderão alegar obediência ao seu cura, dizendo a Nosso Senhor: foi meu pároco quem me induziu ao erro, eu apenas obedeci. Cada um deverá prestar contas de modo pessoal. Nem a graça de estado do superior, nem o juízo prudencial que lhe é próprio, podem substituir a responsabilidade exclusiva e pessoal de cada subordinado, quando se trata da preservação da fé. Assim foram formados os fiéis das Capelas sob minha responsabilidade: Rio de Janeiro, Niterói, Fortaleza e Parnaíba.
Assim, pois, quando o Capítulo reunificou a quase totalidade da Fraternidade, mudando de modo tão forte, como veremos, as cautelas contra Roma, quando o foco já não é mais o perigo contra a fé, então cada um deve obedecer ao seu chefe em todas as ordens próprias de um superior de um instituto religioso. Ou seja, a vida continua. Talvez tenha sido nesse ponto que o diabo encontrou o nervo exposto do orgulho, e colocou no coração de alguns padres a revolta contra as legítimas ordens do Superior Geral ou dos Superiores de Distrito.
Hora de agir, hora de calar
Porém, a crise alimentada pelo grupo de Dom Tomás de Aquino, do Mosteiro da Santa Cruz, além de me atingir com insultos pessoais, atinge também a ordem e o bem, pois causa não pequeno escândalo e perturba os fiéis. Aparentemente Dom Tomás e os três ou quatro padres que pregam a mesma posição também não querem acordos com a Roma modernista. Mas o destempero de suas atitudes tenta impor, pela força do grito, sua opinião pessoal, pondo em risco a salvação das almas que a eles escutam. Por mais protegidos que estejam os meus fiéis, o escândalo causado por esses padres está por toda parte e deve ser reparado.
A situação tornou-se difícil, é verdade, a partir de setembro de 2011. Sofremos, vendo mais uma vez a divisão tomando conta de nossas fileiras, pela tentação de uma regularização que continua impossível. Mas enquanto não houvesse um ato oficial e definido, jogando a Fraternidade nas garras dos nossos inimigos, não era prudente tomar nenhuma atitude ostensiva. Nossas Capelas rezavam por duas intenções muito precisas: a) para que o papa mostrasse, antes de qualquer regularização, até onde ia sua exigência quanto à nossa aceitação do Concílio Vaticano II. b) para que o Capítulo da Fraternidade servisse para reunificá-la, acalmar os ânimos, e nos devolver a essência do nosso combate.
Ora, essas duas coisas aconteceram. Ambas aconteceram de modo impressionante, talvez deva dizer: espetacular. Mas nessa altura vai ser preciso fazer uma análise mais detalhada da situação da Fraternidade após o Capítulo. Isso porque o barulhento grêmio de três ou quatro padres, e nesse ponto é preciso incluir os dizeres de Dom Williamson, fez uma análise dessa situação, a meu ver, irreal, agressiva e escandalosa.
O Capítulo Geral
O primeiro erro dessa gente é insistir em tratar o Capítulo como se fosse um ato de governo pessoal de Dom Fellay. Falam do Capítulo com a mesma gana com que atacam o Superior Geral, afirmando que este teria manipulado as coisas, feito um recuo tático para ter tempo de convencer os que reagiam contra a aceitação. O próprio Dom Williamson manifestou sua desconfiança:
“Honra aos bons homens do Capítulo que por todos os meios fizeram o melhor que puderam para limitar o dano, mas, se a Declaração e as condições nos dão a atual mentalidade dos líderes da Fraternidade em conjunto, então há motivos para preocupação.”
Porém, na Declaração feita após esta reunião, aparece desde logo uma situação nova, uma mudança significativa em um ponto claro dos Estatutos da Fraternidade:
“Foi estabelecido que, nesse caso [de uma eventual normalização canônica] um Capítulo Extraordinário deliberativo seria convocado previamente.”
Antes que os mais afoitos venham me dizer que, justamente, o Capítulo contempla a continuação de uma normalização canônica, aviso aos navegantes que isso será tratado ali adiante; agora não.
Aqui estou tratando da importante mudança aprovada pelo Capítulo que desmonta os temores e críticas do grupo dissidente. Quando a li, compreendi uma coisa que me foi confirmada mais tarde, e muito me espanta que os afoitos e agitados não a tenham percebido, ou não quiseram perceber: só Dom Fellay podia propor tal mudança. Só dele podia partir essa necessária convocação de um Capítulo deliberativo, ou seja, não apenas consultivo, mas levado ao voto. Isso porque os Estatutos davam ao Superior Geral, e só a ele, a responsabilidade de sentar-se com as autoridades romanas. Portanto, senhores, cai por terra a tese de que Dom Fellay teria manipulado o Capítulo e seus membros, pois seria um tiro no pé furtar-se da prerrogativa que já possuía.
Vejamos agora essa objeção dos que se arrepiam todo quando ouvem falar de “eventual reconhecimento canônico”, como se isso significasse a continuidade das conversas anteriores ao Capítulo. Alegam que a Fraternidade contraria as palavras do seu venerável fundador, o qual afirmou não confiar em Roma. Ora, por mais que o acordo ou reconhecimento proposto nesses últimos meses por Dom Fellay tenha nos causado aborrecimentos, temores e sofrimentos, por mais que o critério de fé sobrenatural nos obrigasse a discordar desse reconhecimento, uma vez a paz tendo sido reencontrada, torna-se ridículo os padres, e mesmo os leigos desse mundo estranho de blogs e facebooks, quererem determinar o que a Fraternidade de São Pio X deve ou não fazer.
As afirmações fortes de Mons. Lefebvre não o impediam de ir a Roma quando achava que a Divina Providência exigia isso dele. Não foi uma ou duas vezes que ele manifestou seu horror diante da revolução causada pelos papas pós-conciliares e seus bispos, e depois voltou a Roma. Afinal de contas, todos ensinam, inclusive Dom Williamson, que o retorno da Igreja à Tradição só poderá ocorrer de cima para baixo, do papa para os demais. E se assim é, então é preciso estudar os princípios que regem nossas relações com Roma, não podendo os fiéis se escandalizar porque o Capítulo trata desse assunto. Se uma próxima ocasião se apresentar, e estando resguardadas as nossas posições, essas considerações do Capítulo permitirão que nossos superiores “auscultem” o organismo doente para ver se há sinais de verdadeira melhora. Não digo que assim aconteceu nesses meses do início de 2012; o que digo é que não se pode exigir da Fraternidade de nunca mais pisar em Roma, isso nunca foi assim e não poderá ser. Imaginar o contrário é dar provas de um desconhecimento total da verdadeira situação da crise da Igreja e de como poderemos alcançar a conversão do papa e dos bispos.
Mais uma vez afirmo, para que os afoitos não me mandem e-mails inúteis: não sou nem um pouco inclinado a acordo prático com Roma. Toda a história da Permanência prova a linha de fé que sempre foi seguida por Gustavo Corção e Julio Fleichman. De minha parte, por motivos de formação, e por causa de tudo o que vivi no Barroux e em Campos, mantenho a mesma linha de conduta. Porém, para ser contra o acordo não é preciso sair batendo e chutando, como fazem os Cardozo, Chazal e Dom Tomás. Eles não são representantes de nada, apenas cegos furiosos que encontraram um meio de descarregar seus rancores. Voltaremos a tratar dessa questão.
As condições
Após esses dois comentários sobre o que há de diferente na Declaração do Capítulo, cabe refletirmos sobre as famosas condições reveladas ilicitamente na internet pela publicação da carta do Padre Thouvenot, Secretário geral da Fraternidade.
Mais uma vez vejo-me na obrigação de dar-lhes a leitura que eu tive quando a li, e que me foi confirmada em seguida. O texto em francês é forte. Ele começa afirmando a existência de três condições sine qua non:
“Três condições sine qua non que a Fraternidade impõe a si mesma e exige das autoridades romanas antes de pensar em uma regularização canônica…”. Eis um posicionamento forte. Vejamos seus elementos:
– três condições sine qua non. Não basta explicar que elas são essenciais. É preciso ainda lembrar que não basta uma ou duas existirem. As três devem estar presentes juntas.
– não apenas a Fraternidade impõe a si mesma, como exige de Roma. Lembro que o verbo “reclamer”, em francês, tem essa tradução, no contexto presente. Diz-se, por exemplo, que alguém vai ao tribunal “reclamer” uma indenização.
– essas condições são anteriores, prévias, antes de se pensar (“envisager”) num reconhecimento canônico.
Antes mesmo de se saber quais seriam essas três condições, era possível respirar aliviado. Mas o ódio já dominava os corações dos poucos, e nesse caso, nenhum argumento serviria.
— Primeira condição sine qua non:
“Liberdade de conservar, transmitir e ensinar a sã doutrina do Magistério constante da Igreja e da Verdade imutável da Tradição divina;
liberdade de defender, corrigir e repreender, mesmo em público, os fautores de erros ou novidades do modernismo, do liberalismo, do Concílio Vaticano II e de suas consequências”.
— Segunda condição sine qua non:
“Usar exclusivamente a liturgia de 1962. Guardar a prática sacramental que temos atualmente (incluindo sacramento da ordem, crismas e casamentos)”.
— Terceira condição sine qua non:
“Garantia de pelo menos um bispo”.
Salta aos olhos de qualquer fiel medianamente conhecedor da crise da Igreja que essas condições evitam, previamente, as armadilhas postas contra os institutos que já fizeram acordos. A estes foi permitido o melado açucarado da “crítica construtiva do concílio”, evidentemente inócua e frágil, característica de qualquer neo-conservador atual. Não! A crítica exigida é objetiva, clara, não apenas contra os erros, mas também contra os fautores de erros, papas, bispos, quem for. Não apenas contra o pós-concílio, mas denunciando o próprio texto conciliar, com toda a gama de heresias que provocaram na prática; ou seja, não serviria a alegação de que o concílio foi bom, mas mal interpretado; e isso tudo podendo ser feito publicamente, sem receios de retaliação.
A segunda condição exige o uso exclusivo da liturgia da missa e dos sacramentos de 1962, no sentido de escapar, igualmente, da armadilha imposta aos demais, quando o Vaticano, após 3, 7 ou 10 anos de acordo, exigiu a missa nova e o bi-ritualismo. Não! A Fraternidade não aceita a nova liturgia, como não aceita a nova teologia.
A terceira condição foi criticada por alguns corvos que gralharam nas soleiras e umbrais: “Só um?! Porque só um?!”. Não percebem as negras e soturnas aves de rapina que não é a quantidade que importa, mas o princípio admitido.
Em seu “Comentário Eléison 268”, Dom Williamson deturpa o texto dessas condições. Para o leitor distraído, o bispo parece ter razão, pois os verbos usados por ele, junto com suas explicações, tornam o texto das condições inaceitáveis.
“No longer “Rome must convert because Truth is absolute”, but now merely “The SSPX demands freedom for itself to tell the Truth”. Instead of attacking the Conciliar treachery, the SSPX now wants the traitors to give it permission to tell the Truth? “O, what a fall was there!”
O advérbio “merely” obriga a tradução de “demands” por “pede”. Isso porque, se a tradução de Mons. Williamson fosse “exige”, não caberia dizer que a Fraternidade “apenas” exige. Isso vem confirmado pelo “wants the traitors”. Em português, ficaria assim:
“Já não é mais “Roma que deve converter-se porque a Verdade é absoluta”. Mas agora apenas a Fraternidade pede a liberdade para ela mesma dizer a Verdade. Em vez de atacar a traição Conciliar, a Fraternidade de São Pio X solicita agora aos traidores que deem permissão de dizer a Verdade. Ah! Que queda foi essa?”
Ora, o texto francês da carta não diz isso! É diferente dizer “s’impose… reclame”, de dizer “pede, solicita”. Francamente, o pior cego é o que não quer ver. A malícia do texto é patente!
Quando Dom Williamson escreve seus textos, gosta de impressionar, de usar expressões engraçadas e polêmicas, de dizer que em Roma só há crocodilos e jacarés, e que os bispos têm miolos de queijo, e todos riem do seu jeito original e cativante. Mas seus textos não são textos de um Capítulo Geral da Fraternidade de São Pio X. A solenidade e o respeito se impõem num texto oficial de uma ordem religiosa, que precisa proclamar a fé sem faltar com o respeito, sem deixar de ser uma luz no fim do túnel para a conversão dos nossos inimigos. Além disso, é preciso lembrar que as seis condições estão num texto interno, que deveria ser lido apenas pelos membros do Capítulo. Ele servia, pois, de um lembrete, uma ata, não sendo, de modo algum, uma Declaração formal, um Ato de Fé.
É preciso gritar pelos telhados a essas “estrelas novas” em explosão e, sem falsos romantismos, perguntar aos astros fugitivos: quando, ó “buracos negros”, quando Roma poderia sequer pensar em aceitar essas condições? Digam-me, senhores das trevas, acham realmente que um papa modernista poderia aceitar que seu nome seja criticado publicamente, que o seu amado concílio do Bar-Jona e da Aliança Européia seja posto em derrisão, dissecado, e cuspido como um bagaço? Quando aceitarão que sua querida missa protestantizada seja largada de lado e mostrada na sua pobreza total, no seu vazio teológico e litúrgico? Quando essas autoridades aceitarão o princípio de nos dar novos bispos? Não percebem que essas condições significam exatamente o que os senhores ficam repetindo como papagaios, que só poderá haver acordo com a conversão das autoridades romanas? A realidade está na ponta dos seus narizes, mas os senhores não quiseram ver.
Perdão pela exaltação! Mas a luz que aparece da verdade é para ser vista, e quando essa gente faz questão da cegueira, sinto vontade de gritar, como de fato gritei! Recuperemos o sangue-frio e continuemos nossa análise.
As três condições souhaitables, ou seja, desejáveis, a se esperar, abrangem a questão propriamente canônica. São importantes e também afastam os entraves encontrados pela Fraternidade São Pedro, IBP, Campos etc., nas relações com os bispos diocesanos e com as congregações romanas. São elas: a aceitação do Tribunal canônico de 1ª instância próprio; isenção das casas da Fraternidade quanto à dependência canônica ao bispo diocesano; e uma Comissão dependendo diretamente do papa, com presidência e maioria da Tradição, para tratar dos assuntos relativos à Tradição. Parece-me evidente que essas últimas supõem as três primeiras, sendo elas também impossíveis, ou quase, de serem aceitas por Roma sem uma verdadeira conversão das autoridades.
O escândalo brasileiro
Aconteceu, então, a vinda de Dom Williamson ao Brasil. Estranho acontecimento. Dom Tomás organizou uma série de Crismas, em locais afetados pelo seu apostolado anárquico que, ao longo dos anos e muito antes dessa crise interna, foi trazendo problemas para a Tradição no Brasil, em particular para a Fraternidade de São Pio X. Por outro lado, o comunicado do Pe. Bouchacourt mostra que essa viagem foi realizada sem o consentimento de Dom Fellay. Não sei se o bispo realmente quis afrontar seu superior ou se, mais uma vez, não percebeu que estava sendo usado.
Além de organizar cerimônias religiosas marginais, Dom Tomás resolveu manifestar um elogio a Dom Williamson. Confesso que fiquei estarrecido com o texto.
O artigo chama-se “Honra e Glória a Dom Williamson”, e está equilibrado numa corda bamba. Por um lado, enaltece o vício da desobediência e da rebeldia do bispo inglês; por outro lado, considera que só o bispo inglês merece elogios, só ele teria sido fiel. A descrição que faz da crise é tão ampla que não caberia tal elogio só para um dos bispos, sem que houvesse uma exclusão voluntária dos demais e da Fraternidade no seu conjunto. Supõe de modo velado uma queda definitiva da Fraternidade e, a partir dessa ideia, pretende justificar todos os seus atos de revolta, desobediência e calúnias. Além disso, Dom Tomás descreve Dom Williamson como um paladino da justiça que se teria erguido diante de um mundo destruído. Tal figura poderia caber para Mons. Lefebvre, no início dos anos 1970, quando o fundador de Écône realmente levantou-se como tal. Mas falar desse modo quarenta anos depois, tendo a Fraternidade quase 600 padres espalhados pelo mundo é, no mínimo, estranho, soa falso. A única coisa verdadeira é que, de fato, Dom Williamson parece considerar-se um paladino da justiça, único e especial.
Diante da situação, o Pe. Bouchacourt, Superior do Distrito da América do Sul, reagiu com o comunicado que publicamos na Permanência. Defende a ordem contra a anarquia, e exige de Dom Tomás que respeite a Fraternidade. Algumas pessoas criticaram esse texto, acusando-o de mentir ao afirmar que foi por motivos doutrinários que a Fraternidade recuou na assinatura do reconhecimento canônico. Falam como se a Fraternidade tivesse, efetivamente, traído, assinado, concordado, aceito Vaticano II e todo o resto. Essas pessoas fecharam a cabeça, não aceitam mais encarar a realidade, a tal ponto que deixam a impressão de que preferiam que a Fraternidade tivesse caído, para poder afagar, sorridentes, o orgulho inflamado. Com isso, a suposta grande defesa da fé que eles pretendem apresentar aos leitores lhes serve de manto para esconder seus rancores e desobediências.
O dia em que a Terra parou
Esta é a situação após o Capítulo: todos os revoltados, partindo de Dom Williamson, passando por Dom Tomás e os três ou quatro padres iluminados, falam dos acontecimentos atuais como se o tempo tivesse parado em julho de 2012. Quando criticam o texto do Capítulo, são obrigados a manipular as palavras para que caibam na estreiteza de suas mentes; quando criticam as pessoas, falam das coisas ditas e feitas ANTES do Capítulo. Apesar da internet estar repleta de pessoas que mal conheceram a Tradição e se acham doutores da Igreja, é na Declaração de Dom Tomás de Aquino, resposta ao Pe. Bouchacourt, que gostaria de tomar o exemplo mais claro disso.
1º parágrafo:
“Diante do comunicado do Rev. Pe. Bouchacourt, o Mosteiro da Santa Cruz declara que chamou a Sua Ex. Dom Richard Williamson ao Brasil por considerá-lo um digno defensor da fé católica, capaz de confirmar na fé não só os monges de Santa Cruz, mas também as comunidades religiosas e os fiéis que veem com grande apreensão a nefasta política dos acordos práticos com Roma antes que Roma se converta de seus erros liberais e modernistas.”
Dom Tomás tem esse mau costume de querer esconder-se, quando lhe convém. O Pe. Bouchacourt não dirigiu seu comunicado às atitudes de mosteiro algum, mas precisamente de Dom Tomás de Aquino. Teria sido, pois, mais corajoso, dizer: eu, Dom Tomás, assumo o que fiz. Além disso, é querer enganar os outros dar como razão que, sendo Dom Williamson “digno defensor da fé”, Dom Tomás podia passar por cima da ordem das coisas e fazer Crismas marginais. Foi assim nos outros anos em que houve Crisma no Mosteiro? Foi assim quando organizou a patética Consagração das Virgens de duas religiosas desenganadas? Quando lhe convinha, Dom Tomás sabia muito bem usar a ordem normal das coisas, na Fraternidade.
E no final desse parágrafo entra a crítica atrasada, o tempo parado, ao iludir o seu leitor dando a entender que a Fraternidade continua com sua política de fazer acordos com Roma. Vimos pelo texto honestamente traduzido do Capítulo que não se pode continuar falando assim.
2º parágrafo:
“Por que os capuchinhos, os dominicanos e mesmo os beneditinos de Bellaigue tiveram seus candidatos afastados ou ameaçados de afastamento da recepção das ordens, senão por causa de sua oposição à política dos acordos? E isto quando Roma já não queria mais os acordos, ao menos por hora.”
Quando Dom Tomás escreveu isso, já era de conhecimento público a realização das ordenações desses capuchinhos e dominicanos, em Bellaigue, no próximo dia 11 de outubro. Mais uma vez, o tempo parou em Nova Friburgo, e Dom Tomás continua a fazer críticas atrasadas.
3º parágrafo:
“É faltar com a verdade calar as verdadeiras razões do que estamos vivendo. Por que a Dom Williamson se pediu que encerrasse seus ‘Comentários Eleison’ senão por causa da doutrina aí exposta?”
Do que fala Dom Tomás? De que doutrina se trata? Dos verbos mal traduzidos do texto do Capítulo? Ou do tempo parado (também em Londres) do comentário 270, também ele desconsiderando as mudanças ocorridas no Capitulo? Além disso, é do conhecimento público que o Superior Geral vem ordenando a Dom Williamson de fechar o seu blog bem antes de começar essa crise atual. Mas soa bem, para quem prefere ver a Fraternidade quebrada, dar a impressão de que Dom Fellay tem má doutrina.
“Por que Dom Tissier de Mallerais teve de interromper suas pregações nos USA senão porque ele era contra a política dos acordos? Por que o Pe. Koller foi ameaçado de punição senão porque pregou contra esta mesma política? Por que os Reverendos Padres Cardozo, Chazal, Pfeiffer e outros foram ou punidos ou expulsos senão por causa da sua oposição a esta mesma política?”
Primeiro, é preciso sacudir o leitor adormecido e mostrar que Dom Tomás evoca tanto Dom Tissier de Mallerais quanto Dom Galarreta, mas omite que esses dois bispos (que não entram nos seus elogios pomposos) estão pacificamente dentro da Fraternidade, saíram do Capítulo dando o exemplo de fidelidade, de fortaleza, de sabedoria, bem diferente das atitudes de Dom Williamson, como também das atitudes dos padres citados nesse parágrafo.
Dom Tissier dirigiu uma carta aos fiéis da Ásia, conclamando-os a permanecerem unidos aos seus superiores, pois não há possibilidade da Fraternidade se unir à Roma modernista. Ele é um bispo muito fiel, tão merecedor de elogios quanto Dom Williamson, mas Dom Tomás só usa suas palavras no que lhe serve.
O que Dom Tomás diria, o que Dom Tomás faria, se um dos seus monges fosse à internet fazer críticas exageradas, caluniosas e irresponsáveis, contra o seu governo e contra a sua pessoa? Esses padres citados podiam não concordar com acordos, mas não podiam usar os meios que usaram. O mesmo Dom Tissier deixou isso claro ao rebater afirmações do Pe. Chazal, como foi divulgado no site da Fraternidade da Ásia:
“Concordo com suas preocupações sobre um acordo com a Roma modernista. Eu também não concordo, e todos sabem que eu manifestei com força meu desacordo… Mas não concordo com suas expressões e seus caminhos. No pequeno Exército da Fraternidade de São Pio X, o senhor é um simples soldado, não um capitão. Por favor, volte ao seu lugar. Existem capitães para agir em nome do General.”
Quanto a Dom Galarreta, também usado ilicitamente por Dom Tomás, qual a sua atitude após o Capítulo? Está guerreando contra seu superior? Está fazendo profecias sobre a próxima queda de Dom Fellay? Não, ao contrário. Está de viagem marcada ao Brasil para fazer as Crismas previstas desde o ano passado, como convém à ordem e ao bem.
E após citar Mons. Lefebvre, Dom Tomás envereda por análises equivocadas sobre o Capítulo, propondo como critério de avaliação aqueles textos errados, aquelas traduções maldosas, feitas por Dom Williamson em seus Comentários. Levanta as objeções que, de fato, existem, mas está cego demais para perceber que suas respostas são todas elas baseadas no que aconteceu antes do Capítulo… “leiam a carta dos três bispos”… Eu tinha vontade de sacudi-lo, de mostrar que está em transe, que já não consegue mais raciocinar e ler o que realmente está escrito.
O resto do texto é um conjunto de justificativas e explicações, todas baseadas nessa espécie de monstro que essa gente continua enxergando, sem poder sentir o alívio de ver a Fraternidade novamente pacificada e fortalecida.
O que acontecerá amanhã nós não sabemos. Devemos estar atentos, firmes, mas em paz, porque o que aconteceu agora, isso nós podemos saber, se tivermos um mínimo de bom senso na leitura dos textos fundamentais.
Os padres dissidentes continuarão a falar mal da Fraternidade, pois esse é o único combustível que os anima. Mesmo alguns que já saíram batendo a porta antes, Meramo, Ceriani, etc., estão sempre a tratar dela, o que prova uma atitude intempestiva e movida pela opinião própria. Alguns, como o próprio Dom Williamson, Dom Tomás ou o Pe. Cardozo, já tinham problemas graves com a Fraternidade antes dessa crise iniciada no ano passado. A crise serviu-lhes de estopim, de alimento para seus rancores, e teria lhes dado a oportunidade de se sentirem vingados, se a Fraternidade tivesse caído. Como isso não aconteceu, o orgulho os levou por caminhos tortuosos e se perderam no meio da floresta.
Para terminar, gostaria de mostrar aos fiéis da Tradição no Brasil que não é a Fraternidade quem faz as vontades de Roma. São os dissidentes. Como sabemos que Roma queria a divisão da Fraternidade, o Capítulo foi uma derrota imensa para a Roma modernista. Se o capítulo tivesse determinado nova eleição e a destituição de Dom Fellay, como pretendia Dom Williamson, a Fraternidade não teria subsistido e estaria quebrada em duas partes. Era necessário que a reunificação fosse realizada na paz, e só assim Roma foi derrotada. Por isso, posso afirmar com toda a certeza: quem hoje faz a vontade de Roma são os que dividem a Tradição, quer se chamem Dom Williamson, Dom Tomás, Pe. Cardozo ou Chazal.
Permaneçamos, pois, unidos em torno da obra de Mons. Lefebvre, demos graças ao bom Deus por nos ter sacudido, por nos ter acordado, e peçamos à Virgem Maria que nos conserve sempre na fé sobrenatural, mas vivida na Sabedoria e no bom senso.
Fonte: https://permanencia.org.br/drupal/node/3310
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SOBRE A SAGRAÇÃO EPISCOPAL
Dom Lourenço Fleichman OSB
O anúncio da Sagração episcopal que será realizada no Mosteiro da Santa Cruz, em Nova Friburgo, nesta quinta-feira 19 de março, tomou de surpresa os católicos da Tradição. Há certo tempo que se especulava sobre a possibilidade dos dissidentes da Fraternidade de São Pio X, comandados por Dom Williamson, chegarem a esse extremo, mas a coisa ia sempre se perdendo no tempo. Agora parece que se tornou realidade.
Não poderia deixar de escrever algumas linhas que expressem a tristeza e a preocupação que tal atitude provoca nas almas. Não dizemos que estejam fazendo cisma, ou um ato cismático, como o Vaticano afirmou na época da sagração de 1988. Uma sagração episcopal pode ser uma necessidade para o bem da Igreja, como coube a Dom Lefebvre fazer, com toda prudência e propriedade. O que incomoda é a falta de prudência, a falta de peso de um grupo de dissidentes sem expressão e sem futuro; e a falta de argumentos válidos para que seguissem um rumo acéfalo.
Impressiona o tom ufanista, de salvadores da Igreja, que adotam em seus escritos, mesmo com a Divina Providência dando mostras de que erraram em suas constantes imprudências.
Impressiona a argumentação vazia de fundamentos, baseada em falsas interpretações, como repetir incansavelmente que a Fraternidade de São Pio X já teria feito um acordo com o Vaticano.
Impressiona o orgulho de jamais reconhecerem que erraram em suas avaliações.
Não são capazes de esperar, de sofrer uma situação desfavorável; querem resolver seu problema particular, querem impor à Divina Providência seus pensamentos particulares; são incapazes de perceber que Deus não agiu assim, em nenhum momento da vida de Dom Marcel Lefebvre. O uso do nome do fundador da Fraternidade é, por isso, mais um abuso realizado por aqueles que Dom Williamson arrastou.
Agora assumem uma atitude grave, que só pode trazer um prejuízo imenso à causa da Tradição.
Nossos leitores sabem muito bem que jamais consideramos como sendo uma possibilidade fazermos algum tipo de acordo ou reconhecimento com o Vaticano, enquanto perdurar em Roma o espírito do Concílio, essa Outra igreja protestantizada. Mas afirmar que a Fraternidade de São Pio X pactua com essa Roma modernista é falso, injusto, e descabido.
Perdemos mais uma vez.
Se o orgulho já tornava difícil o retorno dos dissidentes ao combate em torno da Fraternidade, com essa sagração cava-se um abismo muito maior.
Perdemos nossos bons companheiros de combate, padres amigos de longa data. E nesse desalento e tristeza só nos sobrou São José. No dia da sua festa, pedimos e suplicamos ao esposo da Virgem Maria, ao pai adotivo de Jesus, ao padroeiro da Santa Igreja que tantas provas já deu de proteção à causa da Tradição, que interceda junto ao trono de Deus para que essas almas sejam esclarecidas, saiam da sua cegueira, do seu orgulho, abandonem esse combate menor por suas causas pessoais, para abraçarem novamente o bom e verdadeiro combate pela Santa Igreja.
Fonte: https://permanencia.org.br/drupal/node/5167
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A VERDADE OCULTADA, OU A RECUSA DE VER
Alguns afirmam, como Dom Lourenço Fleichman, que a Resistência apresenta uma “argumentação vazia de fundamentos, baseada em falsas informações” (cf. “Sobre a Sagração Episcopal”).
Fonte: https://www.mosteirodasantacruz.org/post/a-verdade-ocultada-ou-a-recusa-de-ver
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QUEM É DOM TOMÁS DE AQUINO FERREIRA DA COSTA, NOSSO NOVO BISPO: UM TESTEMUNHO
Carlos Nougué
(professor laico da Casa de Estudos Santo Anselmo, do Mosteiro da Santa Cruz)
Miguel Ferreira da Costa nasceu no Rio de Janeiro, Brasil, em 1954. Até a Faculdade de Advocacia, fez seus estudos no Colégio de São Bento do Rio de Janeiro, onde tive a oportunidade de ser por um breve tempo seu colega de classe. Fez parte do movimento tradicionalista e antimodernista organizado em torno de Gustavo Corção e da revista Permanência; teve início então sua vida de “fiel guerreiro da guerra pós-conciliar pela Fé”, como escreve Dom Williamson. Começou, como dito, a cursar Advocacia, mas abandonou-a para tornar-se monge beneditino, com o nome de Tomás de Aquino, no mosteiro francês do Barroux, que tinha então por superior a Dom Gérard [Calvet]; e foi ordenado sacerdote em 1980, em Écône, por Dom Marcel Lefebvre. Pôde então privar da amizade, do exemplo, dos ensinamentos do fundador da FSSPX.
Veio ao Brasil com um grupo de monges do Barroux para fundar o Mosteiro da Santa Cruz, em Nova Friburgo, Rio de Janeiro/Brasil. Nesse ínterim, porém, Dom Gérard, contra a instância de Dom Lefebvre, marchou para um acordo com a Roma conciliar, contra o que se opôs também Dom Tomás de Aquino. A separação foi então inevitável. O Mosteiro da Santa Cruz, com total apoio e incentivo de Dom Lefebvre, tornou-se assim independente, ainda que amigo da FSSPX. Com efeito, escreveu pouco mais ou menos Dom Lefebvre a Dom Tomás em carta que tive o privilégio de ler: O senhor deve reverência e consulta aos bispos da FSSPX, mas estes não têm jurisdição sobre o senhor, que, como prior do Mosteiro, há de ter autonomia.
Mas foi-se tornando difícil a relação de Dom Tomás e seu Mosteiro com a FSSPX, sobretudo com a aproximação desta à Roma neomodernista. Quando Bento XVI publicou seu motu proprio sobre o “rito extraordinário”, Dom Tomás de Aquino negou-se a cantar na Missa de domingo o Te Deum pedido por Dom [Bernard] Fellay para comemorar o documento papal, e, especialmente pela “suspensão das excomunhões” pelo mesmo papa, escreveu Dom Tomás a Dom Fellay uma carta em que dizia que não seguiria seus passos rumo a um acordo com a Roma conciliar. Um tempo depois, aparecem no Mosteiro (sou testemunha presencial disto) Dom [Alfonso] de Galarreta e o Padre [Christian] Bouchacourt para dizer a Dom Tomás que ele teria quinze dias para deixá-lo; se não o fizesse, o Mosteiro deixaria de receber ajuda e sacramentos (incluído o da ordem) da FSSPX.
Escrevi a Dom Fellay para queixar-me de tal injustiça, e recebi por resposta o seguinte: “O problema de Dom Tomás é mental. Enquanto não deixar o Mosteiro, este não receberá nossa ajuda”. Respondi-lhe: “Devo ter eu também o mesmo problema mental, porque convivo há doze anos com Dom Tomás e nunca o percebi nele”. Tratava-se em verdade de algo similar ao stalinismo e seus hospitais psiquiátricos para opositores.
Hesitou então Dom Tomás: se deixasse o Mosteiro, seria a ruína deste com respeito à Fé; se porém permanecesse, privá-lo-ia de toda a ajuda de que necessitava. Foi então que veio em seu socorro Dom [Richard] Williamson: o nosso Bispo inglês escreveu uma carta a Dom Tomás em que assegurava ao Mosteiro todos os sacramentos; poderia assim Dom Tomás permanecer nele. Foi o suficiente para que todos aqui reagíssemos: foi o começo do que hoje se conhece por Resistência, e que teve por órgão primeiro a página web chamada SPES, hoje desativada por ter cumprido já o papel a que se destinava. O Mosteiro passou a ser então centro de acolhimento para os sacerdotes que, querendo deixar a FSSPX pela traição de seus superiores, hesitavam porém em sair justo por não ter onde viver fora dela. Foi o lugar da sagração de Dom [Jean-Michel] Faure, e será agora o lugar da sagração do mesmo Dom Tomás de Aquino Ferreira da Costa, meu pai espiritual e o amigo mais entranhável que Deus me poderia haver dado. Sim, sou filho seu e do Mosteiro da Santa Cruz, e foi aqui, neste cantinho do céu, que pude sentir pela primeira vez o tão agradável odor da santidade.
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BIOGRAFIA, BIÓGRAFOS, DORES-DE-COTOVELO…
Giulia d’Amore
Bom, me refiro, obviamente, ao post do maior tomista de todos os tempos, maior até que o próprio Aquinate, visto que o “ilustre” se deu ao desfrute de “reinterpretá-lo” para fazê-lo caber certinho nas lorotas de Dom Williamson sobre os “milagres” na missa bastarda do cismático CVII. E por que me reporto a este post? Porque quero deixar um registro honesto a respeito da escolha do prior (?) do Mosteiro da Santa Cruz.
Volto ao tema, primeiro quero compartilhar o comentário de uma pessoa que conhece muito bem o futuro Monsenhor (família, história de vida, cidade natal), que reagiu com perplexidade à notícia jubilosa e disse: “Ele não tem os três ‘s’ para ser bispo!”. E explicou detalhadamente quais seriam os três “s”. Por uma questão de caridade, omitirei o significado aqui. O que posso dizer dos três “s” é: o segundo, ele mesmo já reconheceu não possuir; o terceiro, todo mundo sabe que ele não possui; quanto ao primeiro, é coisa entre ele e Deus, e mais não digo.
Digo, contudo, a respeito da “biografia” do monge feita por um testemunho obviamente parcialíssimo: o que, de per si, já detona a biografia do monge e a do biógrafo. Uma biografia honesta é completa. Mas como poderiam nos dar uma biografia completa do monge sem calar boa parte da história?
E o que mais grita nesta biografia, além de ser rasa como uma poça d’água, são as “grandes ausências”. As lacunas que ficaram e que eles podem até varrer para debaixo do tapete, mas são indeléveis, como aquelas marcas que a polícia técnica faz ao redor de um cadáver na cena de um crime de homicídio. As têm em mente? Não? Vide a imagem acima…
Pois bem, a primeira “grande ausência” é de um dos maiores benfeitores do Mosteiro, o que denota também uma grande ingratidão. Falo do “Fleichman pai”. Júlio Fleichman foi benfeitor em sentido material, mas, muito mais, em sentido moral. Graças a ele, os monges têm hoje um teto sobre suas cabeças. Ao citar o antigo superior e pai espiritual do prior, Dom Gérard, limitou-se o biógrafo a contar parte da história, a que mais convinha ao futuro Bispo e o faz posar de herói. Esqueceu-se o preclaro e finíssimo tomista de mencionar a “visita” de Dom Gérard ao Brasil, para tomar “na mão grande” o Mosteiro da Santa Cruz e, por conseguinte, omitiu também o papel preponderante e indiscutível do sr. Júlio em impedi-lo de o fazer, inclusive postando-se fisicamente contra Dom Gérard, e capaz até de chegar às vias de fato para proteger quem hoje premeditadamente o esquece de sua biografia. Foi épico! Uma das mais belas páginas da história da Tradição! Peçam ao monge para narrá-la!
Enfatizo a ingratidão e o premeditado esquecimento porque, ainda que o preclaro tomista não soubesse disto (e como poderia não saber, vistos os clamorosos protestos de tão longa e profunda amizade?), por que o monge se cala sobre esta grande injustiça e ingratidão?
O porquê, a grande maioria dos que estavam na Tradição em 2012 o sabem muito bem, mas resumo aqui: ao mencionar o “Fleichman pai”, seria obrigado a mencionar o “Fleichman filho”, e isto é a grande pedra (Pedro… rsrs) no sapato dele.
“Fleichman filho” é Dom Lourenço Fleichman, da capela de Niterói, e que agora está com Dom Fellay indo, contente ou a contragosto, rumo à plena comunhão com Roma Apóstata. Deus o guarde!
Mas não é exatamente por isso que Dom Lourenço é “esquecido” da biografia. É esquecido porque é uma figura inconveniente, como uma espada de Dâmocles, pois mostra (ou prova) que o primeiro “s” também lhe falta.
Há, por trás, uma história que dividiu a Tradição bem antes da necessidade de uma resistência às loucuras de Fellay — que, agora, Dom Williamson e companhia também repetem. E essa divisão na Tradição se deu porque, tendo havido uma questão absolutamente pessoal entre pai e filho espirituais, acabaram por se formar duas panelas: a panela “tomasina” e a panela “lourencina”. Não sem uma grande dose de paixão e falta de bom senso, é claro! Contudo, as razões dessa disputa vão ficar do conhecimento dos que já as conhecem, porque não pretendo alimentar a curiosidade mórbida de ninguém. Fato é que, quanto à questão pessoal, eu, com as informações de que dispunha (porque não presenciei pessoalmente os fatos), me senti confortável com a posição que tomei à época nessa disputa, pois me parecia mais verossímil a versão “lourencina”. E mais não digo.
Portanto, sim, confesso, nunca nutri muita simpatia pelo monge prior (?), e parece que sou acompanhada nisso por boa parte da família, dos amigos e conhecidos de Nova Friburgo. Então, assunto encerrado.
Voltemos ao que interessa. A biografia, no mais, é só lengalenga sentimental e voltada a engrandecer quem não soube ser grande. É inegável o papel que o futuro bispo teve na Tradição — e quem seria leviano de negar? — mas não nos esqueçamos de que Dom Fellay e os outros dois Bispos ralliés também tiveram um grande, senão maior, papel na história da Tradição. Até a traírem. Dom Lefebvre vivo… não havia muita escapatória, ou você era herói da Fé ou você pegava sua malinha e ia para casa! E até por isso que as tão propaladas cartas de Mons. Lefebvre ao monge perderam a tinta, sobretudo depois que ele perdeu a garra do combate e se acomoda à mitra. Agora, ele pode se abanar com elas…
Assim, com base nesses grandes silêncios, na “profundidade de uma rasa poça d’água” da biografia e na questão dos três “s”, e deixando HONESTAMENTE de lado simpatias ou antipatias, o que sobra é desastroso. Refutem isso…
Sobre a escolha do monge para futuro bispo de Romana Igreja (?), já coloco como premissa que não me corresponde decidir pela escolha de um bispo, nem sagrar bispos — somente um imbecil diria isso! —, mas posso (como todos fazem hipocritamente, ainda que me condenem), me manifestar a respeito.
E não erro em afirmar que a escolha foi imprudente. Mas vindo do Dom Williamson dos últimos tempos… o que esperar? Se até mesmo os seus ferrenhos defensores reconhecem sua imprudência atrás da covarde proteção da confidencialidade dos e-mails… o que dizer? Só digo o que digo para mim todo santo dia: “Giulia, Deus é Onipresente e Onisciente, faça sempre a coisa certa, pois é apenas a Ele, que tudo sabe e tudo vê, que você deve prestar contas naquele dia fatídico”. E o que diria eu a Ele naquele dia? Que apenas obedecia a meu Superior enquanto ele traía a Fé? Well, sou mulher, uma simples mulher, mas não sou idiota. Se os “grandes” não compreendem o 4º Mandamento, ou se para eles funciona diferente do que ensinam… não é problema meu.
Fonte: https://farfalline.blogspot.com/2016/03/biografia-biografo-dordecotovelo.html
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OS BENEDITINOS DA TRADIÇÃO
[6] NdTª.: Tomás de Aquino Ferreira da Costa é um monge beneditino brasileiro egresso do Mosteiro Le Barroux e fundador do Mosteiro da Santa Cruz, em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, em 3 de maio de 1987. Havia ingressado em Bédoin em 1974. Quando Dom Gérard decidiu se separar de Mons. Lefebvre, Dom Tomás resolveu deixá-lo. Dom Gérard tentou retomar o mosteiro, mas foi impedido pelos monges e por fiéis, entre os quais Júlio Fleichman (vide nota abaixo).
[7] NdTª.: Lourenço Fleichman é um monge beneditino brasileiro também egresso do Mosteiro Le Barroux. É responsável pela comunidade católica tradicionalista do Rio de Janeiro/Niterói e pela editora Permanência, que foi fundada, em 1968, por Gustavo Corção (1896–1978), escritor e pensador católico brasileiro, um dos expoentes da Tradição Católica no Brasil. O nome da revista provém da revista francesa Permanences, criada por Jean Ousset, o fundador da Cité catholique (ICHTUS). Biografia de Corção. No Rio de Janeiro, a Missa é celebrada na casa de família de Dom Lourenço, a Capela São Miguel, no Cosme Velho. Em Niterói, na Capela Nossa Senhora da Conceição, onde é auxiliado pelo padre Rodolfo Eccard Vieira, da FSSPX. História da Capela de Niterói. Dom Lourenço é filho de Júlio Fleichman (1928–2005), brasileiro de origens russas, judeu convertido ao catolicismo e próximo de Gustavo Corção, com o qual participou do Centro Dom Vital. De 1963 a 1988, trabalhou no departamento jurídico da Coca-Cola. Casou-se, em 1956, com Anna Luiza de Siqueira Menezes, no Mosteiro São Bento, no Rio de Janeiro, onde também foi batizado; tiveram quatro filhos. Assumiu a presidência da Permanência por 22 anos. Foi um grande colaborador da Tradição. Biografia de Júlio Fleichman (em francês).
Fonte: https://farfalline.blogspot.com/2011/11/os-beneditinos-da-tradicao.html
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CONCLUSÃO

Concluímos como começamos: Julio Fleichman é um personagem peculiar, muito peculiar.
Confira o artigo seguinte: Julio Fleichman e “o mistério de Israel”.
