MIGUELEIDA: POEMA ÉPICO EM MEMÓRIA DE DOM MIGUEL I DE PORTUGAL
Augusto Fernandes Nunes Corrêa de Bacellar
Fonte: https://archive.org/details/4a-5da-176362c-41fc-9fbe-837e-24cf-412d
Nota do Padre Luan Guidoni: Virgílio escreveu para Augusto; Camões para Dom Sebastião; e o cavaleiro Bacellar para Dom Miguel, que lá do céu escutou os versos do fiel fidalgo miguelista. Dividida em três cantos, a Migueleida conta a história daquele soberano que lutou por Deus e pela pátria contra a perfídia brasileira e contra os traidores do Império Português.
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MIGUELEIDA DE BACELLAR
POEMA EM MEMÓRIA DO SENHOR DOM MIGUEL DE BRAGANÇA
Augusto Fernandes Nunes Corrêa de Bacellar
Lisboa: Typographia Universal, 1867
MIGUELEIDA
Canto Primeiro
Mas lá, no Ceo d’estrellas esmaltado
Entre os Anjos logar lhe será dado.
Eu canto excelso augusto nascimento
De Dom Miguel, e d’alta prophecia
D’illustrado barão, nobre talento;
E aquelle desastroso infausto dia
Que evadiu Portugal homem cruento;
A saida infeliz da Monarchia
Por Dom João, que lá do clima ardente
As victorias louvou da Lusa gente.
I
Cesse tudo que antiga Musa canta
De sublimes heroes que os sec’los deram;
Outro valor mais alto se alevanta;
Virtudes, que em mortal jámais houveram,
Uma alma pura, sublimada e santa
Onde Angelicos dotes se esconderam;
Eu canto Heroe sublime e sobrehumano
Sempre amado no Imperio Lusitano.
II
E vós Tagides minhas pois creado
Em meu debil e fraco pensamento,
Tendes desejo nobre e sublimado;
Vinde animar meu fraco entendimento
Já que tenho estes versos começado;
Eu vos supplico o vosso aprazimento,
E cantarei com elle alta victoria
Do Lusitano Heroe que jaz na gloria.
III
Invisiveis destinos do futuro
No Paço de Queluz se accumulavam,
Em tempo que não era prematuro
Alegres parabens alli se davam:
Um menino nasceu gentil e puro,
E mil votos d’amor se protestavam,
Tal era a sympathia em nobres peitos
Que só d’estranha força ha taes respeitos.
IV
Essa, de Dom José, Filha querida,
Ao berço do menino alegre corre,
E tendo alli ficado surprehendida,
Pelo Neto gentil alegre morre;
Dera por elle a sua propria vida?
Seu regio pensamento assim discorre;
Minha benção te dou, e o Ceo com ella
Te bemdiga e te dê ditosa estrella.
V
Dizendo estas palavras amorosas,
Emtanto que nobre peito arqueja,
Em suas regias mãos tão melindrosas
O menino tomou, que alegre beija:
Essas faces rosadas e mimosas
Com termo amor, tres vezes lhe bafeja,
E deixando o menino alli deitado,
Saudou Dona Carlota o Filho amado.
VI
Emtanto Dom João, a quem respeito
Por sua Augusta Mãe, jamais faltava,
Tendo o gosto, o prazer dentro do peito.
Aos cortezãos no rosto o demonstrava:
Era o seu coração assás estreito
Para guardar prazer que o consolava,
E portanto em seu rosto magestoso
O pranto lhe correu de gloria e goso.
VII
Já do canhão se escuta o ecco arteiro,
Pelas margens do Tejo o fumo vôa,
Canta o povo com gosto verdadeiro
O povo da leal fiel Lisboa:
Outro Filho barão era o primeiro
A quem por tal cabia o Sceptro e C’roa,
Mas decreto do Ceo n’outro hemispherio
Lhe aponta no futuro um novo Imperio.
VIII
Um cortezão d’antiga alta valia,
Que virtuoso credito gosava,
Porque em nobres acções tudo excedia;
Quando o menino então se baptisava
Com amor e respeito assim dizia
Á corte, que com elle alli se achava,
Apontando ao menino baptisado
Que desde então Miguel fôra chamado:
IX
« Esse que vês alli augusto Infante,
« Que todo o Portugal ora festeja,
« No futuro será sempre constante
« Ao culto divinal da nossa Egreja:
« A sorte lhe será sempre inconstante
« Por fatal, iracundia horrida Inveja,
« Mas lá, no Ceo d’estrellas esmaltado
« Entre os Anjos logar lhe será dado.
X
Razões de tal conceito e tal valia,
Não deixaram de pôr grande impressão
N’una côrte de tanta galhardia,
De tanto amor, de tanta gratidão:
Porém tudo que ouviram n’esse dia
Occulto lhe ficou no coração,
Para ninguém saber d’agros destinos
Que par’cendo fataes eram divinos.
XI
Pouco tempo passou, inda não tinha
Um lustro completado em sua edade,
Já sobre a capital da Lysia vinha
Horrivel evasão, feia maldade:
A medida maior que mais convinha,
No meio d’uma tal fatalidade,
Era salvar o Principe regente
Da usurpação do luso continente.
XII
Até mesmo o conselho d’estrangeiro,
Que correndo veloz, aviso dava,
Era passar para o Rio de Janeiro
A familia real que se embarcava:
Quando a Lisboa chega o forasteiro
Junot, que o portuguez reino assolava,
Já Dom João, além das nossas ilhas,
O mar via cortar por duras quilhas.
XIII
Em prospera viagem navegava
Resto d’antiga esquadra portugueza,
E do arctico polo então soprava
Um Zephyro feliz, subtil belleza:
Neptuno os rolos d’agua lhe aplainava
Contrafazendo as leis da natureza,
Por def’rencia aos Reaes navegadores
E d’esses que da Libia eram senhores.
XIV
Lá pois, nas brandas aguas do Oceano,
A familia real se transportava,
Quando a guerreira tropa d’um tyranno
O solo portuguez audaz pisava:
Lá onde o grande nome Lusitano
Com gosto e com respeito inda se amava,
Grandes náos ou soberbos galeões,
Ancoravam, salvando os seus canhões.
XV
Alli pois desembarca a augusta gente
Rodeada d’immensa fidalguia;
Com essa côrte mais do que excellente
Muita familia o principe seguia;
O Principe João, peito clemente,
Que a todas em seus braços recebia,
Alli salvo da França o seus grilhões
D’immenso povo escutas avoações.
XVI
Lá fica pois ao sul americano
Heroe, que os Céos protegem noite e dia,
Esse, guardado peito lusitano
A quem nobre missão por lei cabia;
Mas por lei que sómente um Deus sob’rano
Aos mesmos ceos e terra dar podia;
Lá fica Dom Miguel, o barão forte
Para cantado ser depois da morte.
XVII
Alli pois, da Bretanha o Rei famoso,
Ao Principe João saudar mandava;
Um almirante manda valoroso
Com esquadra que a Lysia navegava:
Já Portugal então mais animoso,
Com armas e valor se preparava,
E com Bretão, que a gloria só cobiça
O Francez derrotou junto a Roliça.
XVIII
Vencido general, foge aterrado,
Mandando illuminar toda a cidade
Para fingir que tinha triumphado,
Usando assim de negra falsidade:
Á rectaguarda o Anglo-Luso armado
Marchava com valor, com lealdade,
E como tropa amiga e vencedora
De Lisboa fiel se fez senhora.
XIX
Logo depois o barbaro inimigo,
Embarca temeroso em grande frota
Que para conquistar trouxe comsigo,
Mal pensando soffrer uma derrota:
Já da Bretanha o Rei de Lysia amigo,
Que contava do Gallo a dura róta,
Fóra da barra tem valente armada
Vindo a frota franceza envergonhada.
XX
Já retumbam no ar por toda a parte
Os vivas fraternaes á liberdade,
Das aguias o terrivel estandarte
Já longe se avistava da cidade:
Liberta da traição de Bonaparte,
D’essa nefanda e negra crueldade,
Mil cantos, mil festins faz a nação
Por tão justa e feliz restauração.
XXI
Nos valles da cidade ecco resoa
D’antiga lusitana artilheria,
Sobre a nobre e fiel, leal Lisboa
Revoava a mais candida alegria;
Victoria em toda a parte se apregoa
Com fraternal amor, com ufania,
Emquanto que na sé Te Deu’ se dava
Onde a propria Regencia um Deus louvava.
XXII
O povo immenso alii se accumulava,
Como em todas as outras freguezias,
Porque Te Deu’ em todas se cantava
Com sonorosas gratas harmonias:
Toda a cidade á noite illuminava
Com prazer que durou por muitos dias,
E n’esse da feliz restauração
Foi da Regencia officio a Dom João.
XXIII
Pouco tempo tardou que o Gallo ousado
Não voltasse de novo á lusa terra,
Não obstante o ser mal avisado,
Todavia vem prompto para guerra:
Com exercito forte e bem armado
Avança na planicie ou n’alta serra,
Mas vendo a capital fortificada
Grande força moral lhe foi cortada.
XXIV
Um chefe de milicias, que então era,
Com pouca infanteria e caçadores,
Inteira divisão em campo espera;
Com genio egual aos seus progenitores
O francez atacou, que o considera,
Que o’servando os paisanos vencedores,
Apesar de ter força, armas e brio
Para Almeida atterrado então partio.
XXV
Ao c’ronel d’Oliveira d’Azemeis
Unir-se outras milicias alii vinham,
Uniram dois valentes coroneis
Que ao nobre Bacellar respeito tinham:
Milicias pois e paisanos fieis
Áquella praça affoutos se encaminham,
Já Bacellar, que as forças commandava,
D’Almeida a praça forte sitiava.
XXVI
Depois do assedio ao Gallo offerecido,
Com arte militar tudo era feito;
Era arriscado o ataque, era atrevido,
Era p’rigo evidente ao luso peito:
Mas logo que no Porto é recebido
Do coronel officio escripto e feito,
Pelo Douro o canhão foi transportado
E na frente d’Almeida é collocado.
XXVII
O francez temeroso em vão tentava
A praça defender poupando a vida,
Uma brecha já feita, alli se achava,
E dentro em pouco a praça era perdida:
Uma enganosa esp’rança inda restava.
Da Gallia ao general esmorecido,
Esp’rança de soccorro, e n’esta esp’rança
A tomada da praça o luso alcança.
XXVIII
Muitos francezes ficam prisioneiros,
Pasmados do valor dos lusitanos;
Tratados são alii como estrangeiros,
Pois é gloria dos lusos ser humanos:
Pasmados ficam, vendo estes guerreiros
Sensiveis em logar d’homens tyrannos,
Pasmados por tão bello e nobre feito,
Por tanta compaixão, tanto respeito.
XXIX
N’aquella praça então se organisava
Pequena, mas guerreira divisão,
Com armas do francez o braço armava
O pobre, o rico, o clero, o cortezão:
Quando esta força alli se exercitava
Em fogo de fusil e de canhão,
Já Wellington, com tropa armada e boa,
Seu quartel general tinha era Lisboa.
XXX
O coronel que havia triumphado,
Que na praça d’Almeida affouto tinha,
Depois da brecha feita, audaz entrado;
Procurando o que mais então convinha,
Porque o Principe havia decretado
Os generaes de terra e de marinha,
Decidiu, consultando alguns amigos,
A patria defender dos inimigos.
XXXI
Pouco depois o Principe Regente
A Bacellar confer’um viscondado,
E no mesmo decreto uma patente
De general, por seu Real Agrado:
Premiando o coronel excellente,
Por feito singular e assignalado,
A milicia em geral fica honestada
Para ser conhecida e respeitada.
XXXII
Já pela Estremadura e Alemtejo
Marchava a pouca tropa portugueza,
Inda que pouca com valor sobejo;
Marcha com ella a boa tropa ingleza,
Que a da França bater arde em desejo,
Vão com valor guerreiro e com firmeza
Um B’resford, Aranchild, Wellington forte,
E mil outros bretões sem medo á morte.
XXXIII
Lá junto do Bussaco emfim se dava
Uma acção com valor, com galhardia,
Pelas vastas campinas resoava
Estrepitoso som d’artilheria;
Com terror o francez se retirava
De qualquer posição que achar podia,
Assim pois o rio Douro emfim passando
Muitos mortos no campo foi deixando.
XXXIV
D’Almeida marcha a tropa organisada,
Com garbo e com d’homens guerreiros,
Da fuga do francez sendo avisada
Quer de flanco atacar os estrangeiros:
Mas da fugida assim precipitada,
Por serras e fataes despenhadeiros,
Resultou ter o gallo ultrapassado
Antes d’isso o rio Douro sublimado.
XXXV
Bacellar, que do gallo entende o plano,
Que além rio defender-se pretendia,
De Lamego, marchando audaz e ufano,
De Coimbra a cidade defendia:
Massena, q’rendo usar de torpe engano,
Manda então reunir cavallaria,
Mas vendo Bacellar, que alli se achava,
Com pezar e rancor contramarchava.
XXXVI
Assim do Minho e povos transmontanos
Os francezes fugiram sem demora,
Na frente dos valentes lusitanos
Que os combatem no campo a toda a hora:
Em qualquer parte horriveis desenganos
Da portuguesa terra os lança fóra,
Era o panico tal na gallia gente
Que nem fome nem sede ou calor sente.
XXXVII
Emtanto que do norte era batido
O exercito francez em toda a parte,
Pelo sul egualmente perseguido
Se rasgava das aguias o estandarte:
Já distante de Lysia era off’recido
Em campo aberto um grande arduo combate,
Foi alli que os francezes destroçados
Deixaram centos mil de seus soldados.
XXXVIII
Uma pequena força lusitana
Á bayoneta rompeu franceza linha
Que fusilava com audacia insana,
Audacia, que alli foi logo mesquinha:
Era a lança de Marte, a lança ufana,
Que a victoria no cabo escripto tinha,
Era lança, que aos nobres lusitanos
A victoria lhe dá de longos annos.
XXXIX
O genio portuguez já conhecido,
Não somente na Europa bellicosa,
Mas n’aquelle que foi desconhecido
Clima ardento da India tão famosa;
Não soffrendo mais tempo ali perdido
Nas armas leva audacia estrepitosa;
De trinta batalhões que o campo marca
Ninguém soube a não ser a dura parca.
XL
O regimento numero setenta
Deixou ficar alli seus granadeiros,
Por tres vezes de balde audaz intenta
Salvar seus camaradas prisioneiros:
A retirada é mais do que violenta
Atravessando rios, subindo outeiros,
Á retaguarda o luso lhe fazia
Um fogo atterrador de noite e dia.
XLI
Assim marchava o nobre lusitano
Em valentes guerreiras divisões,
Levando da victoria o desengano
Ás da França soberbas legiões:
De tamanho valor no peito humano
Vão pasmados os generaes bretões,
Que a par de tanta gloria e valentia
Vão de Marte alcançando a sympathia.
XLII
Da Bretanha os illustres cavalleiros,
De profundo saber n’arte da guerra,
Não obstante o nome de estrangeiros
Defendem com valor a lusa terra:
Só fica Bacellar com seus guerreiros,
O Porto governando em vez da serra,
Fica em Mafra Velute encarregado
Das recrutas do exercito alliado.
XLIII
O soberbo francez assim cortado
Perde força moral e muita gente,
Mas sendo em pouco tempo reforçado
Pretende provas dar de que é valente:
Segunda vez na Iberia é derrotado
Por genio portuguez mais que excellente,
De tal sorte que lusos e bretões
Vão quebrando fataes duros grilhões.
XLIV
A bella capital d’essa nação,
Emtanto do francez se libertava,
Uma nobre e feliz revolução
Além do Ebro o rei José levava;
Bem como a numerosa divisão
Que elle mesmo em Madrid commandava;
O exercito francez era d’est’arte
Vencido e derrotado em toda a parte.
XLV
O valente hespanbol audaz cercava
Saragoça, que o gallo defendia,
Com firmeza e valor se conservava
No cerco que sómente elle fazia:
O momento do ataque se aguardava
Para provar-se a sua valentia,
Até que a praça toma finalmente
Da nobre Hespanha, a forte, a nobre gente.
XLVI
Assim Dupont famoso homem guerreiro,
Se entregou em Baylon capitulando,
Não foi preciso exercito estrangeiro.
De valente hespanhol era o commando:
De valente hespanhol, que sempre arteiro
Dava acções de valor de quando em quando,
Porém sorte adversa e nunca esp’rada
Essa gloria abateu tão sublimada.
XLVII
Nos campos de Reynosa e de Tudella,
Julgando ter a palma da victoria,
Perdendo brilho a sua augusta estrella
Bem fraca lhe ficou sua alta gloria:
Em Oçana tambem ficou sem ella,
Como d’Alba lhe ha sido ingrata a historia,
Obrigando uma bella divisão
Da C’runha a retirar por tal razão.
XLVIII
Comtudo o patrio amor da liberdade,
Em toda a nobre Hespanha se animava,
Sem se attender a muita ou pouca edade
Toda a gente hespanhola o braço armava:
Com armas, com valor, com lealdade
Pelas serras e bosques se ajuntava,
Com chuços, com cajados e forquilhas
Se formavam muitissimas guerrilhas.
XLIX
Um Cuevillas famoso e tão guerreiro,
Que o francez atacava em toda a parte;
Um Mina, tão sublime guerrilheiro
Por engenho, valor, talento e arte:
Como um duque del Parque, um cavalheiro
A quem nunca falhou um bacamarte,
Taes feitos na campanha praticaram
Que cem tubas da Fama os acclamaram.
L
Depois d’haver na C’runha a retirada
Que do lord mer’ceu grandes louvores,
Porque evitando acção mal arriscada
Illudia e cançava os aggressores:
Depois d’essa famosa retirada,
Sem p’rigo e sem desdouro aos vencedores,
Co’a divisão Moor em campo aberto
O triumpho lhe foi ditoso e certo.
LI
Assim depois os nobres alliados
Por Wellington na guerra dirigidos,
Corajosos o mais que sublimados
Vencendo vão sem nunca ser vencidos:
Os lusitanos sempre abalisados
De seu grande valor são protegidos,
De seu grande valor que em toda a parte
A egide os vem cobrir do proprio Marte.
LII
Massena, que o exercito mandava,
Qual outro Hippocentauro parecia,
Horrivel desespero lhe sobrava
Porém seu coração lhe esmorecia:
Quando convulso e tremulo buscava
Seu destino na falsa hydromancia,
Briario vê, de infausta catadura,
Vê cem braços que apontam desventura.
LIII
Então recorre á negra protecção
De Proserpina, só no inferno amada,
Off’rece no holocausto um coração
Em signal de sua alma desesp’rada;
Off’rece eterna e pura gratidão
Ás Furias d’infernal, negra morada,
Para ter uma vez uma só gloria,
Para ter uma vez uma victoria.
LIV
Ante o throne infernal então curvada
Negra Inveja se vê, d’inveja louca,
Com olhar scintillante e desgrenhada
Lhe pendem serpes mil com que se touca:
Tendo a fronte das cobras separada,
Como uivando, com voz tardia e rouca,
Na ignita morada onde rolava
Aos sob’ranos do inferno assim fallava:
LV
« Sinto dentro do peito um fogo ardente,
« Fogo devorador que me arruina,
« O Styge o sabe, a todos é patente
« O pedido francez a Proserpina:
« Se o deus Marte é nos ceos omnipotente,
« Vós sois no inferno egual porção divina,
« Se póde dar valor, vencer na guerra,
« Vós podeis decretar, dispôr na terra.
LVI
« Aqui n’este logar gemi n’outra hora,
« Quando vim supplicar contra os troianos,
« Aqui volto de novo, eu venho agora
« Pedir força contraria aos lusitanos:
« Não haja pois a minima demora
« Porque excedem na guerra o ser d’humanos;
« Podes tudo fazer, ó Proserpina?
« E teu pae que dos ceos raios fulmina!
LVII
« Se por desgraça ou má ventura minha,
« Me não fôr concedido o que pretendo,
« Eu vos supplico ó Diva, alta rainha,
« Permissão de sair do monstro horrendo:
« Quero subir á terra e lá sósinha,
« Na Iberia praticar tudo que entendo;
« Alli pois disfarçada em cavalleiro
« De Lysia vencerei genio guerreiro.
LVIll
« Essas def’rencias sempre immerecidas,
« Como a d’Hercules foi junto a Lernéa
« Dão sempre as minhas preces destruidas
« Pela deusa fatal soberba Astréa:
« Não vedes estas faces denegridas?!…
« Não me vedes rolar na ardente areia?!…
« Tem compaixão da Inveja, ó deus do averno,
« Concedei-me o sair do negro inferno.
LIX
Eepois de ter d’est’arte e assim fallado
Esse monstro horroroso, inveja feia,
Esse monstro infeliz, peito malvado,
Que inveja tem da mesma inveja alheia:
Um semblante mostrou mais que exasperado,
Uma vista fatal, de furor cheia;
Com iracundia face attenta espera,
Negação como outr’ora alli tivera.
LX
« Não te posso valer, ó filha amada?
« Platão lhe diz com voz tremenda e forte
« Aqui d’esta infernal triste morada
« Sómente vôa a negra horrida morte:
« Os que habitam na esphera sublimada
« Tem melhor do que nós divina sorte,
« E Jupiter que dizes póde tanto
« Quo no Cocito faz medonho espanto.
LXI
« Os d’Artabros felizes descendentes
« Por Jupiter são sempre protegidos,
« De Juventa e Minerva, assim potentes,
« São nos campos de Marte dirigidos:
« Contra divino ser d’omnipotentes
« Esses desejos teus ficam perdidos;
« Não posso conceder-te o teu pedido
« Pois temo em ser dos deuses aggredido.
LXII
Subterraneo trovão bramiu furioso,
D’um ai terrível por Inveja dado;
O inferno estremeceu como medroso,
E d’espanto Platão ficou turvado:
O monstro Styge em gesto doloroso
Por tres vezes rolou solo abrazado,
E tomando a bramir como um trovão
Á Blaspbemia se uniu na escuridão.
LXIII
Emtanto que raivosa a negra Inveja,
Cobre de serpes mil o negro collo,
O peito lusitano emfim deseja
D’ir na França pisar imigo solo:
Esse grande valor que lhe sobeja,
Que respeito mer’ceu de polo a polo,
Vae na Iberia vencendo e derrotando
Qual Argos sobre as ondas navegando.
LXIV
Vae d’est’arte provando á Europa inteira,
Com seu grande valor, genio guerreiro;
Não era n’esta guerra a vez primeira
Que nullo toma o vil jugo estrangeiro:
Que s’inda houvesse em Lysia uma terceira,
Uma epoca infeliz por genio arteiro,
Provaria de novo a todo o mundo
Que é d’antigos heroes povo oriundo:
LXV
D’esses, que o reino luso conquistaram
Aos antigos guerreiros mauritanos,
Que ás margens do Salado derrotaram
Multidão de terríveis africanos:
D’esses que em novos mares navegaram
Por ver os nunca vistos indianos,
Que do jugo hespanhol Lysia salvando
O quarto Dom João vão proclamando.
LXVI
Que por armas e feitos excellentes
De nunca ter pavor mil provas deram,
Que são d’antigos lusos descendentes,
Que da morte o terror jámais tiveram:
Da França vem generaes eminentes
Com tropas que até alli jámais houveram,
Mas d’estas só ficou negra memoria
Perdendo sempre a palma da victoria.
LXVII
Um Ney sublime e sempre abalisado,
Que em campanhas seu nome acreditára,
A Massena censura, pois cortado
O exercito vê, que tanto amára:
Então Massena, mais do que indignado,
Porque nunca o valor n’elle faltára,
O commando tirou n’ordem do dia
Ao general de tanta sympathia.
LXVIII
Retira Ney para Valhadolide
Por tão louca estupenda demissão,
E passando bem perto de Madride
Se encaminha a Paris de má tenção:
Das faltas de Massena então decide
As provas dar á franceza nação,
Fazendo conhecer em toda a parte
O mau serviço feito a Bonaparte.
LXIX
Da França marcha Soulte em continente,
Ligeiras tropas vem d’infantaria,
Com guerreiro esplendor, com genio ardente
Vem com Soulte a melhor cavallaria:
Já fogo de canhão a Iberia sente,
Porque Soulte vem cheio de ufania,
Porém deixando o campo emfim retira
Por ver na guerra acções que nunca vira.
LXX
Quer na serra, no bosque ou campo aberto
Vão sempre escarmentados os francezes,
Quer seja na distancia, ou seja perto
Vão sempre perseguidos por inglezes:
O coração francez palpita incerto
Quando em fogo descobre os portuguezes,
De tal sorte que mais que esmorecidos
Em logar de vencer ficam vencidos.
LXXI
Já Soulte além do Ebro organisava
O exercito francez por divisões,
Occultamente a todas flanqueava
Com ligeiros soberbos esquadrões:
O momento do ataque se aguardava
Para em campo provar nobres acções,
São mais de cento e trinta mil soldados
Em guerras e valor exp’rimentados.
LXXII
Era em Fontes d’honor, que Soulte q’ria
Dos laureis da victoria a palma augusta,
Vencer os lusitanos pretendia
Sem recordar da guerra a causa injusta:
Valente general em fogo ardia
Por gloria vã, que alli tanto Ihe custa,
Sem recordar que contra os lusitanos
Nada pódem valer peitos humanos?
LXXIII
Lá resoam por montes e campinas
Descargas sem cessar d’infantaria,
Reteniam no campo espadas finas
Da portugueza audaz cavallaria:
Um Barbacena, um Bresford, um Salinas,
Atacavam com garbo e valentia,
E massacrando as gallias divisões
Lhe tomaram muitissimos canhões.
LXXIV
Um Gatinar, um Lemos excellente,
De seu grande valor mil provas deram;
Um Jorge d’Avelez, sempre na frente
De lusos, que em vencer só consideram;
De lusos, cuja força e genio ardente
Os francezes em pouco alli venceram,
De tal sorte que immensos fugitivos
Entre mortos deixaram muitos vivos.
LXXV
Esse Soulte, famoso em toda a França,
Que d’entre os generaes era o primeiro,
E que tinha nutrido a doce esp’rança
De vencer e provar que era guerreiro;
Se não previne a propria segurança
Com muitos mil ficara prisioneiro;
Tal foi de Soulte a triste retirada,
Que muita tropa foge em debandada.
LXXVI
Os nobres e valentes generaes
Da Bretanha alli vão como assombrados,
Pois nas armas dos lusos immortaes
Os francezes vão sempre escarmentados:
Ficam f’ridos no campo alguns mar’chaes,
Commandantes de corpos e soldados,
Foi tamanha a derrota alli soffrida
Que a França se julgou como perdida.
LXXVII
Seguiram-se nos campos de Victoria
Outros feitos não menos bellicosos,
Uma dama alli fica por memoria,
Prisioneira de lusos valorosos:
Sem abuso ou soberba em tanta gloria
Cumprimentos se fazem respeitosos,
Era de Bonaparte a esposa q’rida
Que por lusos á França é conduzida.
LXXVIII
Um batalhão de lusos caçadores
Essa dama escoltava com respeito;
Um batalhão de lusos vencedores
Sem temer o francez viu peito a peito:
Encontra em França um cento d’amadores,
Mil festins por tão nobre illustre feito,
O mesmo Bonaparte os agasalha
Té seu regresso ao campo da batalha.
LXXIX
Na Biscaya egualmente a illustre Fama
A tuba levantou alti e sonante,
A gente lusitana ao mundo acclama
Por feito singular, acção brilhante:
Já portuguez valor o peito inflamma
Por São Sebastião, praça elegante,
Até quem sem da morte haver receio
A praça vae tomando em campo alheio.
LXXX
Lá sobre os Pyrineos branca bandeira
Com as aguias no centro fluctuava,
Acção foi dada alli por derradeira,
Foi vencido o francez, como se esp’rava:
Bretanha divisão foi a primeira
Que a meia serra ao fogo as costas dava,
Mas avançando os lusos caçadores
Nos altos Pyrineos são vencedores.
LXXXI
Mas inda alli não fica satisfeito
De perder tanta gente, o gallo ousado,
De José Bonaparte o arduo peito
Quer ser inda uma vez aventurado:
Voluvel sempre, e sempre á sorte afeito
Em Tolouse quer outro ataque dado,
Mas vendo tanta gente alli perdida
Se retira com alma arrependida.
LXXXII
Já no solo francez o francez dava
Parabens d’escapar da lusa gente,
Para Bayonne emfim se encaminhava
Um Soulte apaixonado e descontente:
Pouco depois o anglo-luso entrava
Na franceza cidade alegremente,
Recebido com arcos e com flores
Como da França heroes libertadores.
LXXXIII
As armas e os barões assignalados
Tinham na França os nomes esquecidos,
Seu valor e seus feitos sublimados
D’intruso imperador não foram lidos:
Chegaram novos tempos malfadados,
São de Lysia seus povos aggredidos,
Porém tendo o valor por alta horança
Vão quebrar os grilhões á propria França.
LXXXIV
Em Bayonne, bellissima cidade
A tropa descançou noventa dias,
Um tratado se fez com lealdade,
Toda a Europa lhe deu suas g’rantias:
Napoleão, talvez por falsidade,
Julgando achar em Londres sympathias,
Á Bretanha se entrega em paz serena
Mas lá moire afinal em Santa Helena.
LXXXV
Voltava pois o exercito alliado
Cantando acções e feitos singulares,
Do anglo o luso em pouco separado
Chegava finalmente aos patrios lares;
Ao nosso Portugal sempre affamado
Em campos de batalha, em longos mares,
Ao nosso Portugal, que em ser pequeno
Na guerra é sempre grande, em paz ameno.
LXXXVI
Os arcos triumphaes d’espaço a espaço,
Os veludos e sedas de mil côres,
As damas conservando em seu regaço
Multidão de diversas lindas flôres;
Seus bandós de brilhantes, d’ouro e d’aço,
Novo brilho lhe dão, novos fulgores,
O povo de Lisboa, o povo inteiro
Espera assim o exercito guerreiro.
LXXXVII
Já finalmente as portas da cidade
Mavorcia divisão em c’lumna entrava,
A cordeal, a candida amizade
C’roas de louro e flores lhe lançava:
Uma ascética e sã fraternidade
Ao ceo mil ovações então mandava,
Por longo tempo dura o gosto alado,
Sendo o luso valor sempre cantado.
LXXXVIII
Exaltavam-se os lusos corações
Vendo os patricios seus cantar victoria,
Alegres, fraternaes acclamações
Resoavam por tão ditosa gloria:
Eram taes em Lisboa as ovaçães,
Que eguaes não consta haver na lusa historia,
Nas praças de Lisboa e nas janellas
Prendiam corações gentis donzellas.
LXXXIX
Depois de insana guerra de seis annos,
Depois d’uma tamanha e ardua guerra,
Era justo aos guerreiros lusitanos
Venturas desfructar que a paz acêrra:
O amor, que já tinha em seus arcanos
Os guerreiros vencer na patria terra,
Como hercolea lança a espada troca
Por vestes feminis, toucado e roca.
XC
Emtanto que na lusa terra havia
Da liberdade o gozo verdadeiro,
Excelso Dom João, durante o dia
Em louvar Portugal era o primeiro:
Amava ternamente a monarchia,
Mas costumado no Rio de Janeiro,
Em logar de voltar á lusa terra
Mil premios decretou ganhos na guerra.
XCI
Apar de muitos nobres cavalleiros
Vem titulos ao merito só dados,
E distinguindo a classe dos guerreiros
Com habito premeia a mil soldados:
Com genio e sentimentos verdadeiros,
Fallando dos barões assignalados
Dizia, que ser rei d’uma tal gente
Era ter immortal nome excellente.
Canto Segundo
A entrar no paço, ao rei sempre acclamando
Real, real, por Dom João chamando.
Descobre-se no Porto uma revolta,
Vem do Brazil o Rei do povo amado;
Pouco depois de sua augusta volta
Novo codigo em Lysia é despresado:
Ímpia traição veneno e ferros solta
Trazendo o reino sempre sublevado;
Emtanto no Brazil Pedro primeiro
Renega a patria e faz-se brazileiro.
I
Consegue a negra e fera revol’ção
Sair do averno, aonde a Inveja chora,
Reunindo no Porto uma facção
Alli se manifesta em fatal hora:
Percorrendo depois toda a nação
Na capital contente se demora,
Com vivas pois immenso povo atroa
A cidade fiel nobre Lisboa.
II
Uma nova regencia appareceu
Por magnetica força, engenho e arte,
Legitimo govemo assim morreu
Porque em tal revol’ção não tomou parte;
Discute-se qual era o corifeu
Á vista de punhaes e bacamarte;
D’aquella confusão, pura anarchia
O povo portuguez nada sabia.
III
Na praça do Rocio se accumulava
O povo, que a regencia ver pretende,
Uma guarda que em linha alli se achava
Á voz do capitão bayoneta estende:
O povo foge, e quasi se esmagava,
Pois de tudo que vê, nada se entende;
Vem finalmente alli grande vivorio,
Illusão fraternal, jogo irrisorio.
IV
Emtanto que este povo amotinado
Pelas praças e ruas percorria,
Por ordem do governo, assim formado,
Muita gente no reino se prendia:
O nobre, o clero, o luso assignalado
Nas cadeias de Lysia em vão gemia,
Eram presos politicos que haviam
Que em torres e prisões já mal cabiam.
V
Um Saldanha, que as armas governava
No Porto, onde apparecera a revol’ção,
Que por dever e honra protestava
Em contrario de tal sublevação?
Entre outros no castello então se achava
Com corajosa audaz resignação;
Um Paiva, um Bacellar e mil guerreiros
Com Saldanha se achavam prisioneiros.
VI
Já se elegem no reino os deputados
Que hão de vir discutir leis previdentes;
Já não valem as leis dos tres estados
Que organisaram nossos ascendentes?
Já se escutam debates aturados
Dos eruditos, homens eminentes;
Já temos bem ditosa esta nação
Pois vigora a feliz constitução!…
VII
Os decretos d’um Deus omnipotente
Começam seu vigor na lusa terra,
E por isso a discordia em fogo ardente
Semeia em toda a parte a civil guerra:
Á revolução se oppunha muita gente
Que armada a campo sae, e que se acerra,
Nas provincias um conde d’Amarante
Acclamava o legitimo reinante.
VIII
Do Brazil portuguez el-rei partia
Para a saudosa terra lusitana,
Mal pensando na fatal anarchia
Que Portugal, de sua origem damna:
O principe da lusa monarquia
Fica regendo em terra americana,
Vem Dom Miguel, augusto e nobre infante
Par a seu tempo em Lysia ser reinante.
IX
Já Dom João no largo Tejo entrava,
Com fraternal e candida alegria,
E quando em terra então desembarcava
D’alegre povo as saudações ouvia:
Ao paço da Bemposta el-rei chegava
Por entre acclamações de sympathia,
Por toda a parte os vivas resoavam
Que os cortezãos, a tropa e povo davam.
X
Tinha el-rei Dom João por excellencia
Um peito cordial, sempre clemente,
Com carinho e assás benevolencia
Recebeu no palacio a toda a gente:
Deu graças mil aos homens da regencia,
Por decreto que a todos foi patente;
Do governo assumindo altas funções
Carpia haver politicas prisões.
XI
Com luzido esplendor, em regio assento,
N’uma cam’ra, chamada da Nação,
De boa fé prestou seu juramento
Á luminar, feliz constituição?…
Nas provincias tomava um novo alento
Formal e decidida reacção,
De tal sorte que a gente revoltosa
A carta luminar julgou p’rigosa.
XII
Em tanto que estas scenas se passavam,
A facção em Grómon as sombras via,
Já na Iberia os francezes proclamavam
O ligitimo rei da monarchia:
Como a Lysia tambem se aproximavam,
O que a facçao melhor que o rei sabia,
Qual crocodillo astuto e disfarçado,
Ao reinante chamava el-rei amado.
XIII
Decidiram por fim lançar por terra
A Carta luminar tão bella e q’rida,
Não foi por evitar a civil guerra
Mas para ter no rei feliz guarida:
De principios formaes um pouco aberra
A facção, para não ficar perdida,
Lançando as vistas sobre o nobre infante
Por ser fiel vassallo e filho amante.
XIV
Assim pois Dom Miguel attento ouvia
A gente que seu pae tanto escutava,
A gente que sómente pretendia
Illudir quem respeito lhe mostrava:
Do infante a juventude se illudia
Com a traição que alli se mascarava,
Que pouco a pouco alcança do reinante
Do exercito ser chefe o nobre infante.
XV
Inda que moço e falto d’esp’riencia
O nosso heroe o exercito commanda,
Era o Cynthio dos homens da imprudencia
Vencendo n’elle o que a má fé demanda:
Levaram pois á mais alta evidencia
Que para honrar seu nome e augusta banda,
Como chefe a auctor da reacção
Deprimisse a fatal constituição.
XVI
Sae pois da capital o infante amado
Com gosto, que alma pura lho fascina,
Fica em Lisboa o partido exaltado
Que em vão procura oppor-lhe a contra mina:
A’ simples voz de audaz porta-machado
Divisão militar se determina
A entrar no paço, ao rei sempre acclamando
Real, real, por Dom João chamando.
XVII
Immensa gente alli se accumulava
Proclamando João, livre reinante,
A varanda do paço então chegava
Dona Isabel, a respeitada infante:
Com decoro e silencio o povo esp’rava
Ouvir a feminil voz int’ressante,
Que perguntava ao povo, então calado,
Que q’ria de seu pae, d’el-rei amado?
XVIII
Viva el-rei Dom João por muitos annos,
O povo e tropa então lhe respondeu;
A respeitada infante, aos luzitanos
Inclinando a cabeça agradeceu:
Logo depois, por officios sob’ranos,
A tropa e povo á estrada se metteu,
Fez alto em Villa Franca a força armada,
E Dom Miguel ao rei off’rece a espada.
XIX
Regressa logo o rei d’esta nação
De tropa e cortezãos acompanhado,
E Dom Miguel com propria devoção
Ao castello correu com gesto alado:
Por esta fraternal sublime acção
Para sempre ficou do povo amado,
Aos presos, dando a justa liberdade
Dava provas da sua integridade.
XX
Em tanto que estes casos se passavam
Na Luzitana augusta monarchia,
Os brazileiros guerra declaravam,
E contra Portugal o corso havia:
Renegados que o reino separavam
D’esse imperio que a Lysia pertencia,
Já tinham pois no solo brazileiro
Por crucifero a Dom Pedro primeiro:
XXI
Que não só renegou da patria terra,
Declarando deixar a lusa c’rôa,
Mas ao tempo que faz a insana guerra,
De mau nome de filho o mundo atrôa:
Que dos principios seus affouto aberra,
Injuriando a côrte de Lisboa,
A côrte, que na sua joventude
Mil exemplos lhe dera de virtude.
XXII
Assim pois Portugal tinha perdido
A melhor d’entre as suas possessões,
Dom Pedro fôra alli reconheeido
Imperador, por todas as nações:
Do throno portuguez tinha descido
Por principios, por leis, por mil razões,
Nem podia ser lá Pedro primeiro
E quarto em Portugal sendo estrangeiro.
XXIII
E como a Dom Miguel, a lei vigente
Os direitos ao sceptro e c’rôa dava,
Essa lei portugueza e previdente
Que a monarchia Luso regulava?
A facção portuense era contente
Porque a carta outra vez em Lysia esp’rava,
A Dom Miguel, que tinha esse direito,
Encaminha com arte e com respeito.
XXIV
Os negocios do reino caminhavam
Com regular e feliz direcção,
Os tratados de paz se respeitavam
Com vantagens e gosto da nação:
O fabril e commercio prosperavam,
Prosperava a melhor navegação,
O mesmo lavrador vive contente
Pois tinha em seu favor rei previdente.
XXV
Assim marchava a Lusa monarchia,
O respeitado reino do occidente,
Não goza só da Europa a sympathia,
Mas dos remotos reinos do oriente:
A terrível, feroz, impia anarchia
Com sorriso a facção tinha contente,
Até que o non plus ultra é decidido
Para mesmo no paço o rei ser f’rido.
XXVI
Era o tempo chegado — em noite escura
Grande incendio a cidade aclarecia,
O sinistro se dava em grande altura
Pois lavareda immensa ao ar subia:
Quiz n’essa mesma noite a má ventura,
Que Dom Miguel, por sã philantropia,
Fosse acudir, como sempre fizera,
Mal pensando a traição, que mal se espera.
XXVII
Mas todavia, alli sendo avisado
Ao paço da Bemposta então correu,
Sómente d’um fidalgo acompanhado,
Mas fidalgo, que azar nunca temeu!
Em toda a parte o paço era fechado,
Uma janella aberta é que esqueceu,
Por ella entrou Miguel e companheiro,
Mas não sei qual dos dois entrou primeiro.
XXVIII
Era grande escuridão, porta fechada
Os dois embaraçou, mas por momento,
Porque a porta por elles arrombada
Chegaram logo ao regio pavimento:
Archeiro, que uma cam’ra tem guardada,
Com garbo, com valor e acatamento
A entrada embaraçava ao nobre infante,
Cumprindo assim as ordens do reinante.
XXIX
A voz de Dom Miguel, foi conhecida,
Do gabinete a porta então se abrio,
Desculpa, pelo archeiro, foi pedida,
Um habito seu peito alli cobrio:
A familia real surpreendida,
Achando em D. Miguel, respeito e brio,
Novo alento tomou, pois n’elle encara
O anjo que da morte el-rei salvara.
XXX
Lá quando Dom Miguel, foi baptisado
Houve no paço augusta prophecia,
O tempo que o Ceo tinha decretado
Seu vigor começou n’aquelle dia:
Era el-rei Dom João pouco animado
Para então castigar, como devia,
Entrega tudo ao filho e força armada
E ordena em sua casa o ser vedada.
XXXI
O infante Dom Miguel, a quem por certo
A revol’ção no throno pretendia,
Conhecendo a traição talvez de perto,
Pretende o ser Lernêo n’aquelle dia:
Com jovenil valor inda inesperto,
Do palacio real audaz sahia,
Para, em frente da tropa da cidade
Dar castigo á nocturna falsidade.
XXXII
Já livre o paço e rei dos conjurados,
Intuitivo saber o infante alcança,
Da capital os corpos são chamados,
Para então proceder com segurança:
Emtanto os revoltosos avisados
Conceberam sagaz fagueira esp’rança,
Pois conhecendo o rei que os acredita
Intriga vão formar agra e maldita.
XXXIII
Eu mesmo, que estes versos aqui faço,
Por respeito e amor que ao rei votava,
Pela manhã marchei, porque no paço
Como seu morador, affouto entrava:
Surpreso alli fiquei, porque embaraço
D’entrar, a toda a gente então se dava,
O capitão, que tem ordem guardada
Declara que d’el-rei lhe fôra dada.
XXXIV
Ministros estrangeiros e nobreza
No patamar do paço se ajuntaram;
Chega depois a nobre alta princeza
A quem todos alli cumprimentaram:
« Respeito e reconheço a vossa alteza,
Do capitão taes, expressões soaram;
« Eu tenho ordem verbal, por el-rei dada
« Para que ninguém suba aquella escada. »
XXXV
« Sendo as ordens d’el-rei, louvo e respeito,
« Approvo até que sejam bem guardadas;
« Se em dar parte não cabe algum defeito,
« Entendo que outras ordens serão dadas: »
A princeza fallou, mas em seu peito,
Mil outras expressões são reservadas;
O capitão partio, logo voltando
Fallou d’esta arte, a todos respeitando.
XXXVI
« O monarcha, senhora, determina
« Que vossa alteza só entre no paço;
« A nobre lei da pura disciplina
« Me ordena o ser fiel, como aqui faço:
E tirando depois a barretina
Á princeza off’receu guerreiro braço,
Assim conduz a nobre alta viuva,
Beijando-lhe depois a regia luva.
XXXVII
Afflicto camarista alli soltava
Com bastante razão, más expressões,
O nobre veador também fallava
Vocif’rando bastantes arguições:
Alguma gente os nobres censurava
Por agras serem taes accusações,
São as ordens d’el-rei, mas muita gente
Não sabia a razão d’este incidente.
XXXVIII
Pouco depois o capitão chamado,
Novas ordens recebe do sob’rano;
O paço deixa pois de ser vedado,
Já Dom João não é rei deshumano?…
Qual rio d’immensas agoas inundado,
Correndo sobre as ondas do Oceano,
Assim tropel de gente alli subindo
Quanto q’ria do rei foi conseguindo.
XXXIX
Respeitoso melindre aqui me obriga
A deixar na medonha escuridão,
Alguns casos fataes que a torpe intriga
Praticou com nefanda ingratidão:
Ao reinante se diz que afoito siga
O illustre embaixador, nobre bretão,
El-rei tudo acredita, e segue ao lado
Esse, que mais que o rei fora enganado?
XL
Esse ministro inglez, d’honrado porte,
Julgando certo, um genio aventureiro,
Se apressava em salvar da negra morte
O rei de que era amigo verdadeiro:
As razões do ministro, em seu transporte
Não obstante o nome d’estrangeiro,
São taes, que Dom João, em pouco espaço
De britannica náo, fez nobre paço.
XLI
O infante Dom Miguel, que então se achava
Com general bretão d’el-rei amigo,
Bem como um portuguez, que muito amava
O rei, a quem só quer salvar do p’rigo:
Recebe ordem d’el-rei, que mal se esp’rava,
Como se o filho ao pae fôra inimigo?!
Que a tropa desfilasse, e n’um momento
Fosse a bordo com nobre acatamento.
XLII
Foi logo conhecida alta traição
Pelos dois generaes, e pelo infante,
Mas antes de marchar a divisão
Os vivas foram dados ao reinante:
E tendo Dom Miguel consid’raçâo
Ás ordens de seu pae, de que era amante,
Á nào subiu tristonho, pois sentia
Um futuro fatal, que el-rei não via.
XLIII
D’aquella náo, o infante foi mandado
Por seu pae, para Lusa embarcação;
Para fóra do reino foi levado
Esse amigo d’el-rei e da nação:
Ao povo de Lisboa então foi dado,
N’uma regia e leal proclamação,
O gosto de saber que el-rei se dava
Por contente do heroe, que deportava:
XLIV
Que tudo que seu filho tinha feito,
Por seu real agrado, elle approvava;
Talvez que então já pouco satisfeito
Ao general bretão meigo fallava:
Conhecendo depois que era defeito
Dormir n’aquella náo, onde se achava,
Ao palacio voltou, mas pouca gente
No transito provou que era contente.
XLV
Ascetico valor ao nobre infante
Na Perola fragata conduzia,
E perola mais bella e radiante
Sobre as ondas, do lenho transluzia:
Um civil militar que lhe era amante
Apar de Dom Miguel, se comprazia,
Era Bartolomeu, que o consolava,
E que durante o somno álerta estava.
XLVI
E sem que possa dar-se a transição,
No decurso da historia aqui seguida,
O meu sublime heroe sae da nação
Só por obediencia ao rei devida:
Os accessorios d’esta nobre acção
Envoltos vem com sua augusta vida;
Eu canto pois o heroe de Lysia amado
Sem d’Hyppocrene as aguas ter tomado.
XLVII
Eu canto aquelle heroe sublime peito
Onde a virtude candida morava,
Onde augusta virtude em regio leito
Na placidez da vida descansava:
Como os Tropicos circulos tem feito
Ao sol retroceder, quando acabava,
Assim do nosso heroe valor sublime
O fogo das paixões audaz reprime.
XLVIII
Assim pois a bellissima fragata
Do vento em pôpa o largo mar sulcava,
E Dom Miguel, que tudo em si recata
Com saudades da patria ao longo olhava;
Com saudades do pae que tanto acata,
D’aquelle pae, que tanto respeitava,
D’el-rei de Portugal, que atomo escuro
Augurava talvez triste futuro:
XLIX
Emtanto que seu peito reprimia
Um suspiro de candida saudade,
Da patria o mal futuro em vão carpia
Em Vienna, bellissima cidade:
Alli mesmo a terrivel anarchia
Com veneno tentou feia maldade;
Esse ardiloso e féro coração
Alli mesmo pagou tão vil traição.
L
Pouco depois no reino lusitano
De triste luto o povo se cobria,
Pela morte inesp’rada d’um sob’rano
Que tanto amor a Portugal devia:
Foi voz geral, que só peito tyranno
A Dom João, veneno dar podia;
Já d’este povo as preces não serviam,
Já da morte do rei muitos sabiam…
LI
Com Dom João, em Lysia se perdeu
Cordeal coração do povo amigo;
Pouco depois que o monarcha morreu,
E de levado ser ao seu jazigo,
Providente decreto appareceu
Que a paz da capital trouxe comsigo;
Nomeava Isabel nobre regente,
Era justo o decreto e providente.
LII
Aquelle a quem direito então cabia
Era longe do reino Lusitano,
Emtanto a revol’ção só peterndia
Valer-se de fatal, atroz engano:
Uma deputação emfim partia,
Para Dom Pedro dar, como sob’rano,
A c’rôa, o sceptro e manto da nação
Apar d’uma feliz constituição.
LIII
Como dispor da c’rôa Lusitana
Que d’herança a seu filho pertencia!
E poderá caber na idéa humana
Que Pedro, a c’rôa Luso dar podia!
E pois assim que o portuguez se engana
Acclamando por fim Dona Maria!
Sem primeiro seu pae ser acclamado!
Sem ser reconhecido e ser c’roado!
LIV
Se a Dom Pedro, cabia esse direito
Porque era hereditaria a c’rôa Luso,
Abdicar seria agro defeito,
Era leis transgredir, costume e uso?
Se ao Brazil, Portugal fôra sujeito,
Era contra razão, só fôra abuso;
Se tal direito então pôde ser dado
Deve seguido ser e ser guardado?
LV
Dom Pedro imperador, tinha perdido
Direito á Lusitana monarchia,
Pois sendo no Brazil reconhecido
Ser rei de Portugal já não podia:
Mas sendo o Luso solo offerecido
A Dom Pedro, que nada d’elle q’ria,
Como se fôra dote á filha o dava
Com carta, que a facção contente esp’rava.
LVI
Mas esses, que a Miguel eram contrarios,
Q’rendo evitar futura reacção,
Affectando não ser adversarios
Áquelle que era amado da nação:
Esse pequeno num’ro de sectarios
Amantes da discordia e revol’ção,
Do Gram-Pará princeza Ihe convinha
Com Dom Miguel casada e ser rainha.
LVII
São finalmente os esponsaes tratados,
Conforme era a vontade da facção,
Dom Miguel, deixa n’elles reservados
Os direitos que á c’rôa as leis Ihe dão;
Depois d’estes negocios contratados,
Como logar-tenente da nação,
Vem Dom Miguel á patria que elle amava,
Á patria que por elle então chorava.
LVIII
A facção, que de perto conhecia,
O muito amor do povo ao nobre infante,
Com traiçoeira masc’ra se cobria
Para dar-lhe fatal nome aviltante:
Pouco tempo tardou, em pleno dia,
A lusa côrte, á lei sempre constante,
A Dom Miguel, rei luso proclamava,
A Dom Miguel, que o povo então chamava.
LIX
Com banda marcial a côrte e pôvo
Os vivas a Miguel, aos ceos mandava,
Era talvez em Lysia um caso novo
Pois toda a capital, Miguel chamava:
Á cam’ra de Lisboa, inda hora lô’vo,
Com bandeira, que em frente fluctuava,
Auto formar de pura acclamação,
Onde assigna o melhor d’esta nação.
LX
Emtanto pelas ruas da cidade
Corria immenso povo alegremente,
Era a voz da razão, da sã verdade
Que animava o sentir da lusa gente:
A lusitana e pura lealdade
Á camara corria em continente,
Era o auto por todos assignado
Indo na frente os nomes do senado.
LXI
Aterrada facção em vão carpia
Ver do povo a fatal acclamação,
Horrivel, desastroso, infausto dia
Destruiu luminar constituição:
Essa triste phalange em raiva ardia
Por Dom Miguel, ser rei d’esta nação,
E portanto em nefanda noite escura
Determina de Lysia a desventura.
LXII
O nobre Dom Miguel, ao povo grato,
Convocando conselho as côrtes chama;
Por este portuguez sublime acto
De novo a Dom Miguel o povo acclama:
A decisão das côrtes não relato,
Pois mesmo além da historia o diz a fama,
Fica pois Dom Miguel, o nobre infante
Por direitos e lei sendo reinante.
LXIII
Alguns homens, talvez mal avisados,
A quem Lysia deveu largos serviços,
Reunindo no Porto alguns soldados
Os levam muito além dos compromissos:
Proclamam contra a lei dos tres estados,
Dão vivas ao papel dos seus feitiços,
Era a carta de lei, era ambição
A quem convinha o ter constituição.
LXIV
Da capital de Lysia então marchava
A força militar, que a razão guia,
Na ponte da Murcella emfim se dava
Uma fatal acção d’antipathia:
A sedição d’um lado se encontrava,
D’outro lado a justiça e valentia;
Vencida pois facção teimosa e feia
Emigra alguma gente em terra alheia.
LXV
Ó triste e bem fatal negra ambição!
Que tuitiva haverá que te suspenda?
Dominas sempre afflicto coração
Na sua mais fatal, ou feliz senda?
És flagello immortal, és um vulcão;
Não ha força que o teu poder suspenda!
Dominas sempre a pobre humanidade
Sem respeito, sem dó, sem ter piedade.
LXVI
Desarmado lá fica em terra estranha
Guerreiro portuguez da patria amado,
Que achando protecção na antiga Hespanha,
A’ Terceira passou, pouco animado:
Como se fôra em barbara campanha
Alli foi recebido e maltratado,
Ao castello retira em continente
Onde livre se viu d’aquella gente.
LXVII
Mas faltando o melhor, o pão da vida,
Sem recurso nenhum, sem protecção;
Esp’rança de soccorro era perdida
No triste e sempre afflicto coração:
Do castello tentou nobre saida
Sómente por fatal desesp’ração;
E fosse por acaso ou maravilha,
É certo que ficou senhor da ilha.
LXVIII
A fatal revol’ção sempre ardilosa
Com vestidos de gala se cobria,
Como nunca feroz impia e teimosa
O reino destruir só pertendia:
Ousada sempre, audaz, sempre teimosa
Enganos e traições só promovia;
Assim beijando a mão do heroe sob’rano
Se conserva em traidor horrido engano.
LXIX
Emvolta no governo em grande parte,
Escondida facção se mascarava;
Com terrível astucia engenho e arte
Descredito do Rei só procurava:
Com iracundo astuto baluarte
Anarchicas acções sómente armava;
Para o ódio chamar-lhe no estrangeiro
Tudo é feito por Dom Miguel primeiro.
LXX
Haviam pois políticas prisões
Em todo o triste reino Lusitano,
Engajavam-se immensas revol’ções
Para odiar-se o mais bello sob’rano:
Perseguem-se estrangeiros pavilhões
Com genio traiçoeiro e deshumano,
De tal sorte que o rei compromettido
O reino viu d’estranhos aggredido.
LXXI
Aggressões d’antemão premeditadas
Para extrahir as forças da nação,
Assim pois as navaes são desfalcadas
Com vergonha do luso pavilhão;
Porque indo embarcações bem artilhadas
No largo mar dar uma nobre acção,
A traiçoeira, atroz, vil cobardia
Estragando os navios se comprazia.
LXXII
O sob’rano de Lysia era enganado
Por horrida traição constantemente,
Quando só desejava o bem do estado
A fortuna e prazer de toda a gente?
Seu regio coração mortificado
Mil vezes evocava um Deus clemente,
Um Deus, que lá nos ceos lhe reservava
Melhor c’rôa que aquella que o c’roava.
LXXIII
Banido então do imperio brazileiro
Dom Pedro, que da patria renegara,
Talvez por ser um pouco justiceiro!
Porque a morte d’alguem não perdoara?…
Não obstante o nome d’estrangeiro
Como a facção nas côrtes lhe chamára!…
Tendo n’elle a melhor, mais bella esp’rança
Lhe chama o nobre duque de Bragança!
LXXIV
A traiçoeira mão na lusa terra
Com soberba e rancor então se armava,
E para começar a civil guerra
Dom Pedro em Portugal desembarcava:
Entra no Porto, aonde vendo a serra
Que em frente da cidade lhe ficava,
Avisa logo a sua illustre gente
Para a serra occupar em continente.
LXXV
Foi d’est’arte, que os homens da facção
Praticaram no reino lusitano,
Era assim que vencia a revol’ção
A forças do legitimo sob’rano:
Com manifesta atroz ingratidão
Se ostenta em toda a parte o vil engano,
E mesmo assim, não tendo segurança
Se organisa uma quadrupla alliança.
LXXVI
São tres grandes nações que se conspiram
Contra o nobre valor da lusa gente,
Mas todavia os lusos conseguiram
No Porto entrar inopinadamente:
Levando tres canhões alli subiram
Soldados de valor, de genio ardente;
A traição, que a cidade vê tomada,
Ordena logo astuta retirada.
LXXVII
Na capital acção d’egual valia
Se viu na bella tropa lusitana;
No Porto entrou famosa artilheria
Com garbo militar, e força humana;
Na capital entrou cavallaria
Com sublime valor de que se ufana;
Se o Porto assim deixou de ser tomado
Em Lisboa o valor foi mallogrado!…
LXXVIII
Já Dom Miguel, no reino tem perdido
Muita força moral, muitos guerreiros,
Mas sendo, apezar d’isso inda temido
Vem tropa regular dos estrangeiros:
O nosso Portugal era aggredido
Por estranhos barões, homens grosseiros,
Pois na Asseiceira um pouco incivilmente
As costas foram dando á lusa gente!
LXXIX
Mas como um Deus havia decretado
Em seus justos e divinaes arcanos,
Que de Lysia Miguel, fosse esbulhado
Para um dia subir aos céos sob’ranos:
Os lusos, como sempre, atraiçoados
Por impios corações, mais que tyrannos,
Soffrem na capital alemtejana
Derradeira traição, mais que inhumana.
LXXX
Accumula-se em Evora-Cidade
Das classes d’este reino immensa gente,
Era o dever, a sã fidelidade
Que a sorte ia seguindo alegremente:
A tropa com valor, com lealdade
No campo se reúne em continente,
A tropa, que a não ser a vil traição
Vencera os corifeos da revol’ção.
LXXXI
A facção Bacchanaes festas fazia,
Pois dominar o reino em pouco esp’rava,
Com essa esp’rança então se comprazia,
E com festins nocturnos se alegrava:
Com prazer inaudito o templo abria,
Pois da ordem sómente se tratava;
Já de gozar o tempo era imminente,
Ditosa condição, ditosa gente?…
LXXXII
É finalmente o rei sacrificado,
Conforme era o desejo da facção,
E depois de ser tudo alli tratado
Apparece a fingida convenção:
Alli mesmo Miguel era enganado
Pela furia infernal, negra traição,
Pela furia infernal, que pertendia
Entregar a Dom Pedro a monarchia.
LXXXIII
Já Dom Miguel em Sines embarcava
Levando só, da patria agra saudade;
Da lusitana terra se affastava,
Ficando em Portugal negra maldade:
Á capital de Roma emfim chegava
Sem prazer, sem soberba e sem vaidade,
A Roma, onde viveu por longos dias
Gozando sempre as lusas sympathias.
LXXXIV
N’essa nobre cidade onde os romanos
Contra os gregos mil feitos proclamaram!
N’esse berço d’heroes que tantos annos
Innumeras cidades dominaram:
Que em sciencias e artes sempre ufanos
Escola sublimada alli deixaram,
Que litt’ratura e codigo excellente
Ham dado como herança á humana gente.
LXXXV
Era alli que Miguel, então prantêa
De tanto portuguez a desventura,
Era alli que banhava a terra alhêa
Com pranto de saudade e de ternura;
Era alli que sua alma inda premêa,
Com suspiros d’amor, d’uma alma pura,
Os amigos, que a fera revol’ção
Perseguia a punhal com vil traição.
LXXXVI
Qual horrivel Medêa onde os feitiços
Os proprios filhos seus em grilhões prende,
Que depois de prestarem mil serviços
Com a morte fatal em terra estende;
Assim peitos heroes, já mais omissos
Ao patrio amor, que amor só comprehende,
As mãos d’outra Medêa, em fogo ardente
Recebem negra morte impunemente.
LXXXVII
O coração do heroe, nobre proscrito
Suspiros mil a Portugal mandava,
Coração convulsivo e sempre afflicto
Pois desgostos sómente accummulava:
Porém mão divinal já tinha escripto
Um futuro feliz, que mal se esp’rava,
Um futuro immortal, divina sorte,
Que só póde gozar-se além da morte.
LXXXVIII
N’esse livro celeste onde o destino
Variavel jámais o ser tivera;
N’esse templo sagrado e diamantino
Onde a virtude angelica prospera;
Já tinha decretado a ser divino
A progenie feliz, que não se espera,
Dando a Miguel a esposa de valia
A princeza gentil, nobre Sophia.
LXXXIX
Essa augusta princeza, anjo da terra,
Que Dom Miguel amava ternamente;
Essa que á proscripção males desterra,
Cumprindo assim as leis do Omnipotente:
Como o fogo que o ferro ao aço acerra
Formando um corpo mais do que excelente,
Assim, por santa e justa Providencia
Do luso heroe nos fica a descendencia.
XC
Descendencia dos lusos respeitada
Dos amigos do heroe, d’esse que eu canto;
Descendencia feliz e sublimada
A quem meu coração respeita tanto;
Essa progenie, que antes de gerada
Da proscripção cobria occulto manto,
Mas progenie feliz, cujo destino
immutavel será por ser divino.
Canto Terceiro
Quanto é grande o Divino Omnipotente?!
Quanto é fraca a mortal humana gente?!
Eu canto agora aquelle infausto dia
Que uma parte da Europa surprendeu,
O que foi rei da lusa monarchia
Abraçado a Jesus, na cruz morreu:
É Dom Miguel o heroe d’alta valia,
Que para sempre aos homens se escondeu;
Assim na infancia o foi prophetisado,
Tal como o Eterno o havia decretado.
I
De que serve d’Apollo a doce lyra,
De Minerva o saber, d’Astrêa o justo?
O seu poder bem pouco hoje m’inspira
Para o nobre cantar, Miguel augusto:
Essa alma, que ao ethereo emfim subira,
Deixando peito seu dos máos adusto,
Foi longe dos ingratos e tyrannos
A gloria disfructar nos céos sob’ranos.
II
Mas como difinir a dôr violenta
Nos corações da lusitana gente?
Essa dôr, que inda boje os atormenta,
Que ha de seguir o amigo eternamente?
A noticia da morte se apresenta
Talvez um pouco inopinadamente;
Fôra melhor dispor o grato amigo
Para o golpe que a dôr trouxe comsigo.
III
Em toda a parte um nobre sentimento
Se descobre na lusitana terra,
Lugubre e respeitoso acatamento
Afflicto coração gemendo cerra:
E do ser immortal, divino alento
Que um parcial sentir d’alma desterra,
Pois mesmo os de Miguel pouco amadores,
Lhe teceram justíssimos louvores.
IV
Talvez d’ingrata gente arrependida
A c’rôa do louvor fosse a primeira?
Talvez que a má vontade immerecida
Do heroe fosse na campa a companheira?
Que os tormentos d’aquella augusta vida
Déssem no peito a dôr mais verdadeira?
Talvez? e se da culpa a dôr sentira
Aos céos e terra o santo amor inspira.
V
Essas puras celestes commoções,
Que n’alma dão sublime, alta grandeza,
Essas justas e santas affecções
Que excedem muito a humana natureza;
Santificando os nobres corações,
Que ostentam da verdade a sã riqueza,
Dão sempre á nobre, á pura humanidade
Escolhido logar na eternidade.
VI
Consulte o coração, quem não me entende,
Que n’elle encontrará latria pura,
Consulte o coração, que aos céos se estende
Com respeito e amor, gosto e candura:
É pois alli que bem se comprehende
Quanto difer’ um Deos da creatura;
Quanto é grande o Divino Omnipotente?!
Quanto é fraca a mortal humana gente ?!
VII
Aqui n’este logar onde a verdade
E divina razão sómente impera,
De que serve a fingida divindade
Que sempre a musa ufana considera!
Aqui, n’este logar, que a eternidade
Como heliâco sente a nova esphera,
O martyr mortal, Miguel eu canto
Se é possivel em verso o caber tanto?
VIII
Em canticos da morte e da tristeza,
Será possivel dar valor devido
Áquella alma tão cheia de pureza,
Áquelle peito aos céos sempre rendido?
Áquelle peito aonde a natureza
Tinha sublimes dotes escondido?
Áquella alma por Deos santificada
Para nos céos gozar santa morada?
IX
Mas como suavisar a dôr pungente
No coração que geme de saudade
D’esse candido heroe, sempre clemente,
Sempre prompto em valer á humanidade:
Integro sempre e sempre providente,
Cumpria as leis da humana sociedade;
Bom amigo, bom pae, foi bom reinante,
Da justiça e razão foi sempre amante.
X
Alma nobre, e de nobres sentimentos
Sempre angelica e cheia de candura,
Onde os fataes, os mais agros tormentos
Sómente deram triste desventura:
Seus immortaes augustos pensamentos,
Conformando-se á divina escriptura,
De longo tempo em si tinha gravado
Teme o teu Deos observa o seu mandado.
XI
Impenetráveis são, ó Deos Bemdito,
Teus mysterios á pobre humana gente?
Já tinhas decretado que o proscripto
Fosse a vida gozar eternamente:
Aquelle coração gemendo afflicto
Apertava Jesus Omnipotente,
Que de Miguel a cruz á sua unira
E por tanto da terra, aos ceos subira.
XII
Que ficou de Miguel depois da morte?!
O nome sim, o mais é pó, é nada?!
Já desde o berço a sua augusta sorte
Foi d’illustre barão prophetisada:
Por decreto immortal, divino e forte
É que sua alma aos ceos fora chamada;
Finalmente morreu!… fatal destino!…
Mas sua alma lá jaz no ceo divino.
XIII
No luso sólo, illustres redactores
De jornaes pelo mundo acreditados,
Como do heroe sensiveis amadores
Artigos publicaram sublimados:
Dos eruditos lusos taes louvores
Dentro do peito meu serão guardados,
N’este nobre e leal n’este meu peito
Que á verdade só dá culto e respeito.
XIV
Não só de Portugal o verdadeiro
Sentimento na imprensa se apregôa,
Té mesmo imparcial, nobre estrangeiro
Nas folhas, com bem magoa o mundo atrôa:
Qual redactor mais sabio e mais fagueiro,
D’entre todos que temos em Lisboa,
Não se póde saber, porque á profia
Panegyrico sabio em todos lia.
XV
Aquella morte, ó morte inopinada!
Grande parte da Europa estremeceu;
Uma fatal noticia mal esp’rada
Té mesmo a estranha gente enterneceu:
E a patria, que do heroe foi sempre amada,
Em pranto e luto então se converteu,
O triste Portugal, que de saudade
Acompanha Miguel na Eternidade.
XVI
A nobre antiga côrte lusitana
Suas crepes com lagrimas regava,
O povo portuguez com dôr insana
Essa côrte com pranto acompanhava:
Esse que da vital carreira humana
Ao ethereo celeste, aos ceos voava,
As saudades levou do povo amado,
O respeito e amor mais sublimado.
XVII
Em toda a parte, em templo magestoso,
Ataúde se vê sublime, e novo,
Negro veludo só, ouro mimoso
Inundado com lagrimas do povo:
Alli, cantor sublime, harmonioso,
Que tanto apreciei, que tanto louvo,
Meu triste coração aos ceos levava,
Lá onde, por Miguel a Deos rogava.
XVIII
Esse, que foi talvez o heroe primeiro,
Não só na patria terra sofregado,
Mas no santo e christão, templo estrangeiro
D’elegias sublimes tão louvado!
Em Londres, em Paris, Rio de Janeiro;
Em Roma, onde Miguel foi sempre amado,
Onde o povo o saudou por muitos annos
Como sublime rei dos lusitanos.
XIX
Qual principe da terra houve o respeito
Dos estranhos, dos seus, de toda a gente?…
Suffragio universal por Miguel feito
É d’heroico valor prova evidente:
Assim, da christandade é satifeito
O sagrado dever, dever pungente,
Esse dever aonde agra saudade
Dava provas da mais santa amizade.
XX
Lá jaz no ethereo e sempre diamantino,
Logar só dado á mesma santidade;
Lá jaz na santa gloria, em ceo divino,
Alma ascelica, emblema da verdade:
O sacrosanto, o teu digno destino,
Por lei da eterna e pura divindade,
Era subir tua alma ao ceo sob’rano
Com saudades do imperio lusitano.
Por
Augusto Fernandes Nunes Corrêa de Bacellar
Fidalgo cavalleiro
da casa d’el-rei o Senhor Dom João VI

Belíssimo.