MITOS SOBRE A “MELHOR HORA” DA GRÃ-BRETANHA
Alexander Cockburn
Fonte: Trecho do ensaio “Remembrances of War and Summer”, Los Angeles Times, 28 de maio de 2000, reimpresso no The Journal of Historical Review, março-abril de 2002 (vol. 21, n.º 2), p. 34. Link 1: https://ihr.org/journal/v21n2p34_cockburn.html. Link 2: https://worldtraditionalfront.blogspot.com/2025/09/segunda-guerra-mundial-e-os-mitos-sobre.html.
Tradutor do texto: Gustavo Petrônio Toledo.
Descrição: Neste excerto o autor desmistifica a ideia da “melhor hora” (“the finest hour”) britânica na Segunda Guerra, mostrando que o moral da população era baixo, o governo era visto como incompetente e até os discursos de Churchill eram dublados por um ator. Revela pessimismo generalizado, descontentamento social e até simpatias pró-germânicas em alguns setores.
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Há hoje um mito sobre a união dos britânicos naqueles dias sombrios [de 1939-1941]. “Londres aguenta firme”, dizia Ed Murrow aos Estados Unidos em suas transmissões pela CBS. Na realidade, o moral era péssimo. A maioria das pessoas, com razão, tinha pouca confiança na competência do governo e acreditava que a Alemanha iria vencer. Nas Ilhas do Canal, que os alemães de fato ocuparam, a população os recebeu de forma hospitaleira e entregou judeus com entusiasmo. O Ministério da Informação britânico empregava 10.000 pessoas para ler secretamente a correspondência alheia, interceptando cerca de 200.000 cartas por semana, e descobriu que as pessoas estavam profundamente pessimistas e achavam que Churchill já estava “acabado”.
Um relatório secreto do governo deixou claro o colapso do ânimo popular: “Portsmouth — de todos os lados, ouvimos que saques e destruição gratuita atingiram proporções alarmantes. A polícia parece incapaz de exercer controle… O efeito sobre o moral é ruim e há um sentimento geral de desespero… perderam os nervos”.
Os famosos discursos de Churchill sobre o “melhor momento” e afins também não surtiram grande efeito. Ele os pronunciava na Câmara dos Comuns e, quando a BBC lhe pediu para retransmiti-los no rádio, ele recusou. Então a BBC secretamente recorreu a um ator chamado Norman Shelley para lê-los, fingindo ser Churchill. O papel habitual de Shelley era interpretar Larry the Lamb no programa Children’s Hour. A maioria das pessoas sequer sabia como era a voz de Churchill e, aqueles que sabiam, achavam-na estranha. Cartas inundaram o n.º 10 da Downing Street perguntando o que havia de errado com o primeiro-ministro.
Muitos tentaram excluir a guerra de suas vidas tanto quanto possível. No fim de 1940, quase um terço da população admitia não acompanhar as notícias da guerra. Quando se perguntava o que mais os deprimia, as pessoas colocavam o clima em primeiro lugar, depois as notícias da guerra e, só então, os bombardeios aéreos. A vida já era miserável de qualquer modo para uma grande parcela da população, desnutrida, mal alojada, pouco instruída e profundamente descontente. Quando visitaram o East End [de Londres], o rei e a rainha foram recebidos com sonoras vaias. No verão de 1941, uma mulher foi condenada a cinco anos de prisão por dizer: “Hitler é um homem bom, melhor do que o sr. Churchill”.
