MUDANÇAS LITÚRGICAS PRÉ-VATICANO II: CAMINHO PARA A MISSA NOVA
Dom Daniel L. Dolan. The Roman Catholic, junho de 1983.
Tradutor do texto: Gustavo Petrônio Toledo.
Descrição: O artigo de Monsenhor Dolan argumenta que as reformas litúrgicas de Pio XII e João XXIII, orquestradas por Annibale Bugnini, foram etapas calculadas que desestabilizararam gradualmente a liturgia tradicional, pavimentando o caminho para o Novus Ordo. Ele critica veementemente a adoção dessas mudanças “provisórias” pelos tradicionalistas, visto que elas compartilham a mesma origem modernista e o método gradualista que levou à destruição da Missa Tridentina, corroendo a disciplina litúrgica e a formação sacerdotal.
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FOI PIO XII E JOÃO XXIII? OU FOI REALMENTE BUGNINI?
A recente tentativa do Arcebispo Marcel Lefebvre de impor a liturgia reformada de João XXIII ao clero e aos fiéis católicos fiéis à tradição não é nada menos que uma tragédia, como os eventos recentes demonstraram. Mas, apesar de tudo, isso contém certas ironias — ironias que ferem em vez de divertir.
A Sociedade dedicada a São Pio X, o grande inimigo do modernismo, tentou compelir seus membros a abandonar os livros litúrgicos que levam o nome de seu santo Patrono — uma garantia de ortodoxia —, em favor das reformas provisórias de João XXIII, um homem há muito suspeito de modernismo, como ele mesmo disse pessoalmente ao Arcebispo Lefebvre. As reformas de João XXIII foram intencionadas meramente para “manter a Igreja” até que o Vaticano II pudesse revisar tudo, e agora elas estão sendo usadas para dividir aqueles que tentam salvar as almas que restaram após a destruição em massa daquele Concílio.
A Sociedade resistiu corretamente aos abusos de autoridade da Igreja Conciliar. Mas agora tenta legislar em matéria litúrgica — um direito que não tem, pois tal poder pertence somente à Santa Sé (Cânon 1257). Em vez de seguir sua própria prática prudente de manter o costume de cada país (sancionado pelo Capítulo Geral de 1976 e nunca revogado), agora exige uma obediência cega em nome da “unidade litúrgica”. Padres que não estão dispostos a dar uma obediência inquestionável às demandas de “reformar” a maneira como celebram a Missa são primeiro submetidos a ameaças e, finalmente, se isso falhar, tornam-se objetos de amargas denúncias. É como se a história se repetisse diante de nossos olhos.
Outra ironia é que a Liturgia de João XXIII não é realmente dele, assim como a nova Semana Santa não pode ser atribuída ao Papa Pio XII. Essas mudanças interinas que pavimentaram o caminho para o Novus Ordo Missae foram preparadas sob a direção de dois homens: Rev. (mais tarde Cardeal) Ferdinando Antonelli, O.F.M., e Rev. (mais tarde Arcebispo) Annibale Bugnini, C.M. Em 1969, Antonelli assinaria o decreto que promulgou o Novus Ordo. E Bugnini, que supervisionou a reforma litúrgica desde seu início em 1948 até sua culminação em 1969 com o Novo Rito da Missa, é o prelado do Vaticano contra quem as acusações frequentemente levantadas de cumplicidade com a Maçonaria parecem realmente se sustentar. De fato, o próprio Arcebispo Lefebvre, baseado em sua experiência pessoal, considerava altamente provável que o Pe. Bugnini fosse um maçom. Mas agora nos pedem para aceitar toda a trapaça litúrgica feita durante os anos cinquenta e sessenta pelo Pe. Bugnini, rejeitando, contudo, o que ele produziu meramente oito anos depois! Talvez os católicos estejam certos em sentir que estão sendo “preparados” para um compromisso! Isso não é ironia, mas tragédia!
Quantas vezes você já ouviu alguém perguntar: “Como isso pôde acontecer?” A resposta é que não aconteceu da noite para o dia. Aqueles responsáveis por substituir nossa Santa Missa por uma celebração comunitária se contentaram por anos em trabalhar lentamente — muito lentamente. Um detetive que examinasse o que parece ser o cadáver do Catolicismo (como o mundo julga: verdadeiramente Ela ainda vive!) encontraria evidências irrefutáveis do modus operandi dos assassinos: seu método é o do gradualismo, o mesmo empregado por Satanás para matar almas. Isso foi admitido pelo Cardeal Heenan de Westminster, que disse que as mudanças tinham que ser feitas gradualmente, pois do contrário o povo jamais as aceitaria.
Vejamos, pois, a história dos “primeiros estágios da destruição da Liturgia Romana” — a expressão é retirada de um livro sobre as reformas pré-conciliares para o qual o próprio Arcebispo Lefebvre escreveu o prefácio. Veremos como, por projeto, as mudanças litúrgicas — aquelas mesmas que nos pedem agora para aceitar — seguiram-se umas às outras a cada poucos anos até que o clero se acostumou a viver em uma atmosfera de mudança constante, de modo que a maioria deles inevitavelmente cedeu à confusão. Eles não mais se consideravam obrigados a conhecer e aplicar corretamente o corpo de rubricas, nem mesmo se sentiam “em casa” no santuário. Em nome da “simplificação”, as regras e princípios que governaram a liturgia por séculos foram lentamente trocados pelo estado constante de fluxo que atualmente obtém na Igreja Conciliar.
Após estudar essa cronologia de mudanças astutamente concebida, não é de se estranhar que a maioria dos padres tenha ficado perplexa e confusa, sem mais nenhum princípio seguro ou imutável ao qual se agarrar, senão a obediência cega, expressa por uma aceitação pronta de quaisquer novas rubricas que fossem encontradas no correio da manhã.
I. A VIGÍLIA PASCAL “EXPERIMENTAL” (1950)
Esse trabalho de mudança gradual começou em 28 de maio de 1948 com a nomeação de uma Comissão para a Reforma Litúrgica com o Padre Antonelli como Diretor Geral e o Padre Bugnini como Secretário, os homens que respectivamente impuseram e compuseram o Novus Ordo Missae. Dois anos depois, em 22 de novembro de 1950, o Cardeal Liénart, em sua qualidade de chefe da assembleia de bispos franceses, petitionou formalmente à Santa Sé permissão para celebrar a Vigília Pascal à noite, em vez de pela manhã, por “razões pastorais”. Ele conseguiu mais do que esperava. Sob o disfarce de uma simples mudança de horário, um rito substancialmente reescrito foi introduzido sorrateiramente, assim como mais tarde a “Missa em inglês” foi imposta em nome do vernáculo, com pouca referência ao fato de que apenas trinta por cento do texto da Missa tradicional permanece.
Os primeiros acordes dissonantes e estridentes da “Sinfonia do Novo Rito” já foram ouvidos nessa nova Vigília Pascal:
1. O princípio de ritos opcionais usados experimentalmente foi introduzido.
2. Pela primeira vez, o vernáculo foi introduzido na liturgia própria. (Esse também foi o primeiro passo de Cranmer em 1548).
3. A rubrica que direciona o celebrante a “sentar e ouvir” (sedentes auscultant) as lições em vez de lê-las no altar é introduzida pela primeira vez e é imediatamente interpretada como justificando o uso exclusivo do vernáculo nesta parte da liturgia.
Em 1953, o imemorial jejum eucarístico da meia-noite foi mitigado para três horas sob certas condições como uma concessão à fraqueza moderna. Os liturgistas modernistas, no entanto, viram nisso o início da destruição gradual da disciplina sacramental da Igreja, que terminaria com os “15 minutos” de Paulo VI.
Já em 1954, os primeiros rumores de anarquia litúrgica foram ouvidos, e o Papa Pio XII advertiu os padres, em uma alocução, para não mudarem nada na liturgia por sua própria autoridade. Mas, ainda assim, as mudanças continuaram.
II. A NOVA SEMANA SANTA (1955)
Toda a venerável Semana Santa da Igreja foi destruída em 1955 com a publicação de Maxima Redemptionis. A mentira é repetida e estendida: trata-se meramente de uma mudança de horários. A drástica reformulação da maioria das cerimônias da semana mais sagrada da Igreja não recebe qualquer justificação. Como poderia?
A. Características principais:
A nova Semana Santa foi uma espécie de balão de ensaio para o Novus Ordo. Quais foram algumas das características principais?
1. Tudo deve ser curto e simples.
2. Ritos-chave devem ser realizados pelo padre de costas para o altar, de frente para o povo: a Bênção dos Ramos, a oração final da Procissão de Domingo de Ramos, a Bênção da Água Batismal no Sábado Santo, etc.
3. As Orações ao Pé do Altar e o Último Evangelho são suprimidos pela primeira vez.
4. Todos, padre e leigos, devem recitar juntos o Pai Nosso na Sexta-Feira Santa.
B. Domingo de Ramos:
Em particular, o serviço de Domingo de Ramos perdeu seu antigo rito de bênção que incorpora muitas orações da Missa, associando assim o ramo sacramental ao Santíssimo Sacramento. As sete coletas foram reduzidas a uma, a Ante-Missa da Bênção desapareceu inteiramente, assim como a cerimônia do Gloria Laus à porta da Igreja. O relato da Paixão foi encurtado, omitindo a Unção em Betânia e a Última Ceia.
C. O Tríduo:
Todo o equilíbrio do Triduum Sacrum, os últimos três dias da Semana Santa, foi perturbado. O belo Ofício de Trevas praticamente desapareceu, assim como a popular devoção das Tre Ore (“Três Horas de Agonia”).
1. A antiquíssima Missa dos Pré-Santificados na Sexta-Feira Santa foi abolida e substituída por um simples serviço de comunhão para o povo. Contrário ao costume imemorial, uma genuflexão foi prescrita na oração pelos judeus.
2. A Vigília do Sábado Santo foi totalmente alterada, com suas lições reduzidas de doze para quatro, e houve uma modificação drástica do rito tradicional da Bênção do Fogo Novo e do Círio Pascal. (Em 1955, também foi inteiramente suprimida a igualmente antiga Vigília para a Véspera de Pentecostes.)
Mesmo esse panorama necessariamente superficial do novo rito da Semana Santa nos permitirá entender como um conhecido modernista litúrgico, Pe. Duployé, pôde dizer: “Se conseguirmos restaurar a Vigília Pascal em seu valor original, o Movimento Litúrgico terá triunfado; dou a mim mesmo dez anos para fazer isso”. O teólogo modernista Pe. Chenu comenta: “Dez anos depois, estava feito”.
III. “REFORMA” DAS RUBRICAS (1955)
O ano de 1955 foi ruim para a Liturgia Romana; viu também uma reforma de orientação modernista das rubricas do Missal e do Breviário, com o decreto Cum Nostra Hac Aetate. Os chamados “acréscimos indesejáveis” foram removidos da Sagrada Liturgia “à luz da erudição moderna”, a saber:
1. As antigas categorias de festas de semi-dupla e simples foram abolidas.
2. A maioria das vigílias de dias de festa foi suprimida, deixando a celebração de vigílias “uma sombra do que era antes”. (Vigílias como a de Todos os Santos, dos Apóstolos, de Nossa Senhora, etc.)
3. O número de oitavas foi reduzido de quinze para três. Algumas das oitavas suprimidas remontavam ao século VII!
4. Pela primeira vez, uma distinção entre recitação “pública” e “privada” do Ofício Divino foi introduzida, embora a tradição nos ensine que o Ofício é por sua própria natureza uma oração pública. Isso prenuncia a distinção do Novus Ordo entre Missas “com” e “sem” povo.
5. Os Pai Nossos recitados no Ofício foram reduzidos de dezesseis para cinco, e as dez Ave Marias e três Credos foram totalmente omitidos, assim como certas outras orações antes e depois do ofício.
6. As orações feriais penitenciais foram abolidas, com duas exceções menores.
7. O Sufrágio dos Santos e a Comemoração da Cruz foram abolidos, e o belo Credo Atanasiano (datado do século VIII) era dito apenas uma vez por ano.
8. As coletas adicionais ditas na Missa durante as diferentes estações do ano (como as de Nossa Senhora e “Contra os Perseguidores da Igreja”) foram abolidas.
9. O Último Evangelho Próprio foi abolido.
Aqui, novamente, fomos obrigados a nos contentar com uma breve visão geral dessas mudanças que foram descritas como “provisórias” — mas que alteraram tanto a sagrada liturgia a ponto de desencorajar todos, exceto os padres mais dedicados, a aprendê-las. Por que ele se importaria, de qualquer maneira? Em cinco anos, as rubricas mudariam novamente.
Finalmente, em 1955, a Solenidade de São José, Patrono da Igreja Universal, foi suprimida. Foi substituída por uma espécie de Dia do Trabalho, São José Operário, no feriado socialista internacional do Primeiro de Maio.
Em 1957, outras mudanças na Semana Santa foram introduzidas, incluindo provisão para uma Missa Solene Alta sem um subdiácono.
IV. CONSULTA SOBRE MAIS MUDANÇAS (1957)
Em 1957 também, os bispos do mundo foram consultados sobre mais mudanças litúrgicas. A maioria pediu que a estrutura tradicional do Ofício Divino fosse preservada. Pe. Thomas Richstatter, em seu livro Liturgical Law: New Style, New Spirit, dá o seguinte relato: “Um bispo cita Santo Tomás (Suma, I–II, q. 97, art. 2) onde ele afirma que a modificação de qualquer lei positiva naturalmente trará consigo um certo enfraquecimento da disciplina. Consequentemente, se houver uma mudança, deve ser não apenas para algo ‘um pouco melhor’, mas para algo ‘muito melhor’ a fim de compensar essa queda de disciplina que necessariamente acompanha qualquer mudança na legislação. Portanto, o bispo afirma, devemos ser muito cautelosos nesta matéria. Não é fácil dizer ‘não’ a pedidos de mudança, mas essa é a ação adequada aqui. O bispo conclui afirmando que está entre aquele grande número que não apenas está satisfeito com a liturgia como ela é, mas que considera qualquer mudança não apenas indesejável, mas perigosa para a Igreja”.
V. MISSAS DIALOGADAS E COMENTADORES (1958)
Em 3 de setembro de 1958, um mês antes da morte do atribulado Pio XII, a Instrução sobre Música Sacra foi emitida. O uso da “Missa Dialogada”, primeiro concedido em 1922, foi estendido e encorajado, para que a congregação recitasse grande parte da Missa junto com o padre: o Introito, Kyrie, Glória, etc., assim como todas as respostas. Deve-se notar aqui que a forma tradicional de participação congregacional é o Canto Gregoriano. A recitação popular das orações da Missa nunca foi feita até que a “Missa Dialogada” foi introduzida.
Sob o pretexto da participação, os comentadores leigos fizeram sua aparição pela primeira vez. Seu papel era ler em vernáculo enquanto o padre lia em latim.
Em 28 de outubro do mesmo ano, João XXIII foi eleito. Ele não perdeu tempo em convocar um concílio geral que “consagraria o ecumenismo”. No ano seguinte, em junho de 1960, João XXIII nomeou o Pe. Bugnini para servir como secretário da Comissão Litúrgica Preparatória para o Concílio. Enquanto isso, o Pe. Bugnini continuou seu trabalho com a comissão para a reforma da liturgia, produzindo mais uma série de mudanças provisórias, para durar até as reformas conciliares. O Missal e o Breviário foram novamente alterados, assim como o Calendário, e, pela primeira vez, o Pontifical e o Ritual.
VI. AS MUDANÇAS DE JOÃO XXIII (1960–62)
Finalmente chegamos à “Liturgia de João XXIII”, mais propriamente chamada de “Bugnini do meio”. As seguintes mudanças foram instituídas na Missa, no Ofício Divino e no Calendário:
1. As vidas dos santos em Matinas foram reduzidas a breves resumos.
2. As lições dos Padres da Igreja foram reduzidas às passagens mais breves possíveis, com o desejo um tanto ingênuo de que o clero continuasse a nutrir por conta própria suas almas com escritos patrísticos.
3. A recitação solitária do Ofício Divino não era mais considerada oração pública e, assim, a saudação sagrada Dominus vobiscum foi suprimida.
4. O Último Evangelho foi suprimido em mais ocasiões.
5. A conclusão própria dos Hinos do Ofício foi suprimida.
6. Muitos dias de festa são abolidos, por serem redundantes ou não “históricos”, por exemplo:
(a) A Invenção da Santa Cruz.
(b) São João diante da Porta Latina.
(c) A Aparição de São Miguel.
(d) A Cátedra de São Pedro em Antioquia.
(e) As Correntes de São Pedro, etc.
7. Durante o Concílio, o princípio da invariabilidade do Cânon da Missa foi destruído com a adição do nome de São José.
8. O Confiteor antes da Comunhão foi suprimido.
É de se notar que a “Liturgia de João XXIII” esteve em vigor por apenas três anos, até chegar à sua conclusão lógica com a promulgação do Decreto Conciliar sobre a Liturgia — também obra de Bugnini.
VII. LITURGIA NA SOCIEDADE DE SÃO PIO X
Uma pergunta: “Esta Liturgia de João XXIII não é aquela na qual vocês, padres, foram formados e ordenados em Ecône?”.
A resposta é não. Não recebemos nenhuma formação litúrgica apreciável em Ecône, e até setembro de 1976 a Missa era a dos primeiros anos de Paulo VI. (Na verdade, a concelebração era permitida em nossos primeiros estatutos.) O celebrante sentava-se ao lado e ouvia as leituras, ou as realizava ele mesmo em estantes de frente para o povo. A única razão pela qual as leituras eram feitas em latim e não em francês, nos disseram, é que o seminário era internacional! (Curiosamente, as Ordenações da Sociedade, assinadas pelo Arcebispo Lefebvre e atualmente em vigor, permitem a leitura da Epístola e do Evangelho em vernáculo — sem necessidade de lê-las antes em latim.)
Seria difícil dizer qual liturgia era seguida em Ecône, porque as rubricas eram uma mistura confusa de diversos elementos, um padre dizendo Missa de maneira um pouco diferente do outro. Nenhum conjunto de rubricas era observado ou ensinado sistematicamente. Como questão de fato, nenhuma rubrica foi ensinada. O melhor que posso dizer é que, ao longo dos anos, uma certa mistura eclética de rubricas se desenvolveu baseada no duplo princípio de (a) o que o Arcebispo gostava, e (b) o que se fazia na França. Essas rubricas variam livremente desde a Liturgia de São Pio X até a de Paulo VI em 1968. É simplesmente o “Rito de Ecône”, uma lei em si mesma.
Até hoje seria impossível estudar um livro de rubricas e então funcionar, digamos, em uma Missa Pontifical em Ecône. Não há uniformidade, porque não há princípio de uniformidade — certamente não a “Liturgia de João XXIII”. Talvez um dia alguém codifique esse Rito de Ecône para a posteridade.
Quanto à nossa formação de seminário, nunca foi ensinado a nós como celebrar Missa. A preparação para essa parte tão importante da vida sacerdotal deveria ser vista em nosso tempo livre e por conta própria. A maioria dos seminaristas lá parece nunca ter se aplicado a um estudo rígido ou sistemático das rubricas, como pode ser visto pela maneira como celebram Missa hoje. A Missa tradicional é uma obra de disciplina e de arte — cada pequeno gesto é cuidadosamente prescrito e providenciado. É uma pena que hoje tantos padres formados em Ecône se contentem em dizer Missa “mais ou menos” corretamente. Mas sem formação e com o mau exemplo de padres mais velhos que foram submetidos a vinte anos de mudanças constantes e confusas, poder-se-ia esperar algo diferente?
Outro resultado mais feliz emergiu do caos litúrgico em Ecône. Alguns seminaristas simplesmente voltaram às rubricas não reformadas da Igreja. Afinal, não lhes disseram pelo próprio Arcebispo Lefebvre que este Bugnini era um maçom? E ele não tinha seu dedo na torta litúrgica desde 1948?
DIGA “NÃO” AOS REFORMADORES
Em um momento, fomos ensinados a rejeitar inteiramente o Vaticano II, já que, novamente de acordo com o Arcebispo, muitas de suas ações “começaram na heresia e terminaram na heresia”. Por que então seguir a liturgia provisória que pavimentou seu caminho? Por que, de fato?
O Arcebispo Lefebvre não viu necessidade em 1976 de tentar impor uma “reforma” litúrgica na Inglaterra, Alemanha e América, que seguiam a liturgia não reformada.
Não afirmo que a “Liturgia de João XXIII” seja herética ou ofensiva a Deus de alguma forma, como o Novus Ordo é. Sei que é um passo em direção ao Novus Ordo, autorizado pelos mesmos homens que produziram o Novus Ordo. Acredito, finalmente, que aceitar essas “reformas” hoje com o benefício de vinte anos de retrospectiva seria errado. Sei também — vi com meus próprios olhos — que o efeito cumulativo dessas mudanças graduais sobre os padres é desastroso.
A Igreja hoje deve ser reconstruída praticamente desde os alicerces. Olharemos para o homem brilhando com saúde ou para aquele morrendo lentamente como nosso modelo? Tomaremos como nosso princípio o mesmo adágio de São Vicente de Lerins: Quod semper, quod ubique, quod ab omnibus (“O que sempre, o que em toda parte, o que por todos foi feito”), ou as “leis” (se é que podem ser chamadas assim) que, na intenção comprovada de seus criadores, serviram apenas para pavimentar o caminho à destruição da “coisa mais bela deste lado do Céu”, o Santo Sacrifício da Missa?
