MULTIPLICES INTER
Papa Pio IX (†1878)
Tradutor do texto: Gustavo Petrônio Toledo.
Descrição: Pio IX reafirma que a maçonaria e outras sociedades secretas constituem, desde o século anterior, uma ameaça direta à Igreja e à ordem civil, razão pela qual sucessivos pontífices — de Clemente XII a Leão XII — as condenaram com severas penas canônicas; lamenta-se que autoridades civis e eclesiásticas tenham sido negligentes, permitindo sua expansão e os males daí decorrentes; declara que tais condenações continuam plenamente vigentes, independentemente da tolerância dos poderes seculares; renova, com autoridade apostólica, a proscrição dessas associações em todo o mundo; e finalmente exorta os fiéis a abandoná-las, resistir às suas seduções e pedir a proteção divina, da Virgem Maria e dos Apóstolos, para a defesa da Igreja. Sétima condenação à Maçonaria.
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O Papa Pio IX. Veneráveis Irmãos…
Entre as múltiplas maquinações e astúcias com as quais os inimigos do nome cristão ousaram assaltar a Igreja de Deus, e se esforçaram, ainda que inutilmente, para arruiná-la e destruí-la, deve-se incluir sem dúvida, veneráveis irmãos, aquela perversa sociedade de homens que comumente se chama Maçonaria, a qual primeiro se uniu nos esconderijos e nas trevas e depois saiu para fora com ímpeto, em prejuízo comum da religião e da sociedade humana.
Os Romanos Pontífices nossos predecessores, lembrados de seu ofício pastoral, mal descobriram as ciladas e fraudes dela, julgaram oportuno não tardar em detê-la com sua autoridade, feri-la com sentença de condenação, como com uma lança, e dispersar aquela seita que exalava maldade e fabricava muitos e nefandos males contra as coisas sagradas e públicas.
Com efeito, Clemente XII Nosso Predecessor, com sua carta apostólica proscreveu e reprovou a mesma seita, e, sob pena de excomunhão a incorrer-se ipso facto e a ser absolvida somente pelo Romano Pontífice, proibiu a todos os fiéis não só de nela se inscrever, mas também de promovê-la e ajudá-la de qualquer modo. Bento XIV confirmou depois, em sua constituição, essa justa e devida sentença de condenação e não deixou de excitar os sumos príncipes católicos a fim de que contribuíssem com todas as forças e cuidados para extirpar essa perdidíssima seita e para afastá-la para a salvação comum. E prouvera a Deus que os ditos supremos príncipes tivessem dado ouvidos às vozes do nosso predecessor! Prouvera a Deus que se tivessem comportado com menor negligência em um assunto tão grave! Certamente não se teriam deplorado por nossos pais, e não deploraríamos Nós tantos movimentos de sedições, tantos incêndios de guerras, com os quais toda a Europa ardia, e enfim tanta amargura de desgraças com que foi e ainda é afligida a Igreja.
Além disso, não depondo os maus o seu furor, Pio VII, nosso predecessor, fulminou com anátema a seita dos carbonários, recentemente nascida e difundida por toda parte, especialmente na Itália; e Leão XII, aceso de igual amor pela salvação das almas, com sua carta apostólica condenou e proibiu a todos os fiéis, sob gravíssima pena de excomunhão, tanto aquelas primeiras sociedades clandestinas que mencionamos, quanto as outras, quaisquer que sejam e como quer que se chamem, que conspiram contra a Igreja e o poder civil. Contudo, esses cuidados praticados pela Sé Apostólica não obtiveram o resultado que era de esperar.
De fato, essa seita maçônica, da qual falamos, nunca foi domada e detida, mas, ao contrário, difundiu-se por todas as partes, tanto que neste tempo cheio de calamidades ela se exerce impunemente em toda parte e se manifesta mais audaciosamente. E isso Nós estimamos que se deva em grande parte ao fato de que muitos, talvez porque ignoram os propósitos iníquos que se agitam em tais reuniões clandestinas, acreditam falsamente que esse gênero e instituição de sociedade é inofensivo, pois se ocuparia unicamente de ajudar os homens, de aliviá-los de suas misérias, e por isso não se deva temer nenhum dano para a Igreja de Deus.
Mas quem não pode facilmente compreender como essa avaliação se afasta da verdade? Que significa, com efeito, aquela reunião de homens de qualquer religião e de qualquer fé? Que significam aquelas reuniões clandestinas, que significa o severíssimo juramento feito por aqueles que são iniciados em tal seita de jamais manifestar coisa alguma que possa pertencer a ela? Enfim, a que visa a inaudita atrocidade das penas às quais se obrigam a sujeitar-se se porventura faltar ao dever do juramento? Deve ser certamente ímpia e nefanda aquela sociedade que tem excessivo horror ao dia e à luz: pois, como escreveu o Apóstolo, “quem pratica o mal odeia a luz”. É preciso dizer quão diferentes dessas são as piedosas sociedades dos fiéis que florescem na Igreja Católica! Nessas nada há de oculto ou escondido; são manifestas a todos as leis pelas quais se regem; são manifestas as obras de caridade que se exercem segundo a doutrina do Evangelho. E todavia vemos não sem dor, em alguns lugares, essas associações católicas tão salutares, tão oportunas para excitar a piedade e consolar os pobres, serem hostilizadas e em outros até suprimidas; enquanto ao contrário é favorecida ou ao menos tolerada a tenebrosa seita maçônica, tão inimiga da Igreja de Deus, tão perigosa para a segurança dos reinos. E é para Nós, veneráveis irmãos, coisa grave e dolorosa suportar ver que, reprovando tal seita segundo as constituições de nossos predecessores, alguns mostrem-se descuidados e quase sonolentos, enquanto numa obra de tanta importância a razão do ministério e do ofício a eles confiado requer que sejam vigilantíssimos.
E se há alguns que acreditam que as constituições apostólicas, publicadas com a pena de anátema, não têm vigor algum nas regiões onde as ditas seitas são toleradas pelo poder civil, esses certamente se enganam grandemente; e Nós, outra vez, como sabeis, veneráveis irmãos, condenamos o pressuposto dessa doutrina perversa, e novamente hoje a reprovamos e a condenamos. Aquele supremo poder de apascentar e reger todo o rebanho do Senhor, que, na pessoa do Beatíssimo Pedro, tiveram de Jesus Cristo os Romanos Pontífices, e o supremo magistério que devem consequentemente exercer na Igreja, dependem porventura do poder civil, ou podem de algum modo ser por este impedidos e restringidos? Por tais coisas, para que todos os simples, e principalmente os jovens, não sejam enganados, e para que do nosso silêncio não se tome ocasião de defender o erro, estabelecemos levantar a voz apostólica, veneráveis irmãos, e aqui neste vosso consesso, confirmando as lembradas constituições de nossos predecessores, com nossa autoridade apostólica reprovamos e condenamos aquela seita maçônica e as outras sociedades do mesmo gênero, que com a diversidade somente das aparências se constituem dia a dia e conspiram contra a Igreja e as legítimas potestades, tanto em público como em privado; queremos que por todos os fiéis de Cristo de qualquer condição, grau e dignidade, e em qualquer lugar da terra onde se encontrem, elas sejam tidas como proscritas e como reprovadas com as mesmas penas que estão contidas nas acima citadas constituições de nossos predecessores.
Agora, concluindo, com afeto paterno de Nosso ânimo admoestamos e excitamos os fiéis que por acaso se tenham inscrito em tais seitas que venham a conselhos mais sãos e abandonem aqueles grupos funestos e aqueles conventículos, para que não precipitem no abismo da ruína eterna; igualmente, pela solícita cura das almas pela qual somos estimulados, exortamos todos os outros fiéis para que se guardem das palavras enganosas dos sectários, que mostrando certa aparência de honestidade, com ódio aceso são movidos contra a religião de Cristo e contra os legítimos principados, e a isto somente tendem e operam: subverter todos os direitos, tanto divinos quanto humanos. Deem-se conta de que esses seguidores das seitas são como lobos que, cobertos com pele de cordeiros, como predisse Jesus Cristo, virão para o extermínio do rebanho; entendam que devem ser tidos no número daqueles cuja convivência e companhia o Apóstolo nos proíbe de tal modo que abertamente ordenou que nem sequer os saudássemos.
Deus, que é rico em misericórdia, movido pelas preces de todos nós, faça que, ajudados pela sua graça, os insipientes recuperem o bom senso e os errantes sejam reconduzidos ao caminho da justiça; faça que, comprimido o furor dos homens perdidos, que por meio das citadas sociedades operam ações ímpias e nefandas, a Igreja, como a sociedade humana, possa finalmente recuperar-se de tão numerosas e tão inveteradas calamidades.
Para que tais coisas resultem conforme desejamos, interponhamos como postuladora junto ao clementíssimo Deus a Santíssima Virgem, Mãe do mesmo Deus, Imaculada desde sua origem, à qual foi dado esmagar os inimigos da Igreja e os monstros dos erros; ainda imploramos o patrocínio dos Beatos Pedro e Paulo, pelo cujo glorioso sangue esta alma Cidade foi consagrada.
Com o favor e com a ajuda deles, Nós confiamos que mais facilmente obteremos o que pedimos com insistência da bondade divina.
25 de setembro de 1865
