1. “Conduta moral que se conforme com a ordem a ser recebida” — ou seja, virtude.
  2. “O conhecimento requerido”.[4]

Embora a Igreja tenha considerado as ordens conferidas pela maioria dos grupos cismáticos orientais como válidas, houve ao menos uma exceção.

O clero cismático etíope (abissínio) era amplamente considerado ignorante e quase analfabeto; o mesmo acontecia com os cismáticos coptas (egípcios) que forneciam aos etíopes o único bispo autorizado a ordenar sacerdotes em seu país. Esse bispo, chamado “Abuna”, era sempre um copta. Ele era, portanto, desconhecedor dos ritos etíopes e da língua litúrgica (o ge’ez), e sua prática era ordenar milhares de sacerdotes de uma só vez na mesma cerimônia.[23]

Diante disso, Roma decretou que qualquer sacerdote etíope que desejasse converter-se e atuar como sacerdote católico deveria atestar, antes de tudo, que o Abuna impôs as mãos sobre sua cabeça e recitou as orações prescritas. Caso contrário, deveria submeter-se a uma ordenação condicional.[24]

Portanto, quando o ministro da Sagrada Ordem parecia carecer do conhecimento devido e não podia ser confiável para realizar o rito prescrito corretamente, Roma não concedia nenhuma presunção geral de validade e insistia em uma investigação para cada caso particular.[25]

Apresento aqui diversas objeções que ouvi contra o exposto anteriormente, juntamente com minhas respostas:

1. Estudo privado: “Posso estudar por conta própria enquanto moro em casa e depois encontrar um bispo para me ordenar”.

“O curso de estudos teológicos deve ser feito, não de forma privada, mas em escolas instituídas para esse fim, de acordo com o programa de estudos prescrito no cânon 1365.”[44]

E a lei prescreve que se deve residir no seminário: “A obrigação relativa ao curso de teologia exige não apenas o estudo em um seminário, mas a residência efetiva nele, e tal obrigação é grave.”[45]

O propósito dessa lei não é apenas assegurar formação acadêmica adequada. Num seminário, os superiores observarão, formarão e julgarão o caráter e a conduta do seminarista, algo praticamente impossível de se fazer se ele não vive em comunidade com eles. Além disso, a teologia não é um curso de catecismo avançado, mas uma verdadeira ciência. São necessários professores qualificados que expliquem a matéria e examinem o aluno sobre ela.

2. Pio XII: “O Papa Pio XII não foi ao seminário, mas estudou em casa e depois foi ordenado. Se ele fez isso, qualquer um pode fazê-lo”.

Falso. Pio XII, por motivo de saúde debilitada, recebeu permissão especial do Cardeal Vigário de Roma para residir em casa enquanto se preparava para o sacerdócio.

Isso está em conformidade com a exceção prevista pelo Cânon 972.1, que permite ao Ordinário dispensar um seminarista da obrigação de residir no seminário “num caso particular e por motivo grave”.[46]

O jovem Pacelli não “estudou por conta própria”. Embora morasse em casa, frequentava aulas na Pontifícia Universidade Gregoriana, estudou filosofia, latim e grego na Universidade La Sapienza e cursou teologia no Ateneu Pontifício de Santo Apolinário, onde obteve o bacharelado e a licenciatura em teologia summa cum laude.

3. Cânones inaplicáveis: “Devido à situação atual da Igreja, os cânones que prescrevem longa formação espiritual e acadêmica para os sacerdotes já não se aplicam”.

Também falso. Canonistas como Cicognani[47] e Bouscaren-Ellis[48] estabelecem critérios específicos para a cessação de uma lei eclesiástica. Os comentadores concordam que a cessação intrínseca de uma lei eclesiástica ocorre apenas quando ela se torna inútil, nociva ou irrazoável.

À luz das muitas declarações papais sobre a grave obrigação de ordenar somente aqueles devidamente formados, ninguém pode sustentar que as leis acima citadas tenham caducado.

Nem se pode invocar aqui a epiqueia ou equidade aqui, pois ela deve ser regulada pelo que os moralistas chamam gnomé, isto é, prudência madura no juízo.[49] Os Papas advertiram repetidamente que é imprudente e perigoso ordenar os canonicamente inaptos.

4. Necessidade de sacerdotes: “Vivemos tempos extraordinários. Nossa maior necessidade é ter mais sacerdotes para celebrar a Missa tradicional. Que importa se não têm a formação adequada? Ter a Missa é tudo o que conta”.

Primeiro, ouçamos Pio XI: “Um sacerdote bem formado vale mais que muitos mal formados ou quase sem formação. Estes não seriam apenas pouco confiáveis, mas constituiriam provável fonte de dor para a Igreja”.[50]

Depois, São Tomás de Aquino: “Deus nunca abandona a Sua Igreja; e assim o número de sacerdotes será sempre suficiente para as necessidades dos fiéis, desde que os dignos sejam promovidos e os indignos afastados… Se acaso se tornar impossível manter o número atual, melhor é ter poucos bons sacerdotes que uma multidão de maus”.[51]

5. “Minha vocação”: “Um católico tradicionalista que persiste no desejo de ser sacerdote, mesmo depois de ter sido rejeitado por vários seminários tradicionalistas e de não ter recebido a formação adequada, estaria justificado em obter a ordenação assim mesmo”.

Tal pessoa é um “tipo” recorrente, tanto na história do movimento vetero-católico como em certos círculos tradicionalistas contemporâneos. É o católico que deseja ser padre, mas a quem vários superiores de seminários e comunidades religiosas repetidamente dizem que é inapto para o sacerdócio em razão de deficiências intelectuais, espirituais, morais ou psicológicas.

Em vez de aceitar tal juízo, ele decide que sabe mais que seus superiores; convence um bispo católico aposentado a ordená-lo, ou recorre a um cismático que não apenas o ordena, mas chega a consagrá-lo bispo. Sem provas, sem anos de formação em seminário para atestar sua “prova positiva de aptidão” e “o conhecimento requerido”.

Não lhe ocorre que seu próprio ato demonstra que lhe faltam ou as virtudes (prudência, humildade, etc.), ou os conhecimentos (de direito canônico, por exemplo) que um candidato ao sacerdócio deveria possuir.

Em outras palavras, o fato mesmo de ter recebido a Ordem Sagrada dessa maneira confirma o que os superiores já lhe haviam dito: ele não tem vocação e é inapto para o sacerdócio.

6. Maus resultados: “Muitos sacerdotes formados pelo sistema antigo antes do Concílio Vaticano II se revelaram maus, assim como muitos sacerdotes formados em seminários tradicionalistas após o Concílio. Por que insistir em tanta complicação?”.

A razão, em ambos os casos, é a natureza humana decaída. Sacerdotes bem formados podem, não obstante, cair em pecado ou abandonar a fé. Tais fracassos pessoais não invalidam o sistema estabelecido pelo Concílio de Trento e prescrito pelo direito canônico.

Assim como um pai pode educar os filhos fiel e cuidadosamente segundo os manuais de educação católica, e mesmo assim algum deles escolher se desviar, o dever cumprido permanece. Para a salvação do pai, conta que ele cumpriu sua obrigação.

7. Somos monges contemplativos: “Somos monges, portanto não precisamos de toda essa formação acadêmica rigorosa em latim, filosofia e teologia antes da ordenação. Além disso, o cultivo intelectual torna os padres mundanos e orgulhosos. Só buscamos a contemplação”.

Isso pode parecer plausível a leigos ou até a alguns sacerdotes, mas, como ex-monge cisterciense, não aceito tal raciocínio.

O mosteiro em que entrei, e outro para o qual fui enviado, eram ambos casas contemplativas com estritas observâncias monásticas. Contudo, em ambos os casos, os monges sempre foram obrigados a receber a mesma formação acadêmica antes da ordenação que os demais candidatos ao sacerdócio.

Pio XI, aliás, afirmou claramente a necessidade dos estudos: “O principal objeto desta Carta é exortar os religiosos, quer já ordenados, quer se preparando para o sacerdócio, ao estudo assíduo das ciências sagradas; se não conhecerem profundamente tais matérias, não serão capazes de desempenhar devidamente os deveres de sua vocação”.[52]

E, segundo o mesmo Pio XI, não se pode invocar a vida contemplativa como desculpa para a ignorância: “É um erro para eles [aqueles que levam a vida contemplativa do claustro] pensar que, se os estudos teológicos forem negligenciados antes da ordenação ou depois abandonados, será fácil habitar nas alturas da vida contemplativa e alcançar união interior com Deus, mesmo carecendo daquela abundante ciência de Deus e dos mistérios da fé que só provém da ciência sagrada”.[53]

8. Trabalho excessivo: “Fornecer toda a formação acadêmica tradicionalmente exigida é impossível. Não há professores nem sacerdotes suficientes para tanto”.

De fato, ensinar cursos de latim, filosofia e teologia demanda grande trabalho. Contudo, ainda hoje é possível oferecer aos seminaristas uma formação acadêmica completa e suficiente para o exercício sacerdotal. Há numerosos manuais básicos de seminário que cobrem todos os pontos necessários. É exigente, tanto para o professor que prepara as aulas, quanto para o seminarista que deve aprender a matéria. Mas o esforço vale a pena, porque forma um sacerdote devidamente preparado e digno de sua vocação.

9. Polêmica estéril: “Você está engajado em polêmicas intelectuais estéreis, sem interesse para nós. Seus comentários são carentes de caridade, de espiritualidade e são divisivos. Como padre, deveria guardá-los para si. Você é como o fariseu que se envaidecia de sua superioridade sobre a massa dos indignos deste mundo”.

Eis o que diz Pio XI sobre nossa responsabilidade de denunciar o clero malformado: “Que conta terrível, Veneráveis Irmãos, teremos de prestar ao Príncipe dos Pastores, ao Supremo Pastor das almas, se tivermos confiado tais almas a guias incompetentes e a líderes incapazes!”.[54]


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