NOSSO SENHOR É JUDEU?
Padre Roland Hamel
Eis um texto do padre Roland Hamel intitulado “Nosso Senhor é Judeu?”. Esse documento foi difundido pela Paróquia de São Barnabé Apóstolo no bispado de Montreal em 16 de abril de 1962 e citado em “Mon Livre d’heures” de Adrien Arcand, reeditado em 2006 pelas edições Béluga. Sacerdote tradicionalista, recusando os compromissos do neomodernismo e dotado de uma erudição surpreendente, opôs-se às reformas conciliares. Falecido há alguns anos, o padre Roland Hamel viveu na mais completa indigência, vítima da perseguição dos apóstolos do liberalismo católico, e, antes disso, de um dos mais fiéis apoiadores do Concílio Vaticano II, o Cardeal Paul-Émile Léger.
Padre Olivier Rioult, 23 de dezembro de 2015.
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O Verbo, segunda pessoa da Santíssima Trindade, que é eterno, não quis encarnar-se para idealizar ou sublimar um grupo específico de homens, como se esses homens — os judeus — fossem semideuses, um grupo de super-homens participantes da divindade. Jesus veio ao mundo entre o povo judeu; mas o que importa para Ele é salvar todos os homens, não divinizar a raça judaica. O Verbo não quis assumir carne entre os judeus, com um corpo de sangue judeu, para participar do atavismo da raça judaica — nem desta, nem de qualquer outra; isso não lhe interessa: Ele é Deus, possui todas as perfeições.
Enquanto Deus, o Verbo nada tem a receber de uma criatura. Por que então falar de “judeu”, de “raça judaica”, a propósito do Verbo, como se isso indicasse que Deus tivesse preferência pela raça judaica mais que pelas outras, apenas porque o Verbo se encarnou em carne de sangue humano oriundo de antepassados judeus? Jesus jamais declarou explicitamente ser judeu — o que quer dizer que não insistiu em ser proclamado como tal. Disse, porém, que “a salvação vem dos judeus” (Jo 4,22), para mostrar que os judeus — que Ele chama de “filhos do reino” — foram os primeiros a receber o depósito da Revelação e o Salvador do mundo, já que Ele nasceu entre eles e era descendente de Abraão, de Isaac e Jacó, de Judá, de Davi, etc. Jesus nasceu, de fato, de antepassados judeus, como afirma o Evangelho: “O Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai; Ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e o seu reino não terá fim.” (Lc 1,32–33).
Ora, se o Espírito Santo afirma que Davi é seu pai, então Ele é de fato descendente de Davi, pelo sangue imaculado de Maria, sua Mãe. O Evangelho de São João diz: “E o Verbo se fez carne”, ou seja, fez-se homem: para a salvação de todos os homens, e não “fez-se judeu”, como se fosse apenas para a salvação dos judeus. “E o Verbo se fez judeu” — tal expressão é contrária ao Corpo Místico de Cristo.
O Cristo total não é judeu, nem inglês, nem alemão, nem belga, nem chinês, etc. Ele é de todas as raças. Ou melhor: as raças não contam para o Cristo total — o Corpo Místico de Cristo. E como não se pode atribuir ao Verbo nenhuma imperfeição, nenhum defeito — e quando se fala de raça, fala-se de defeitos hereditários, de traços, de hábitos, de conhecimentos ou modos de julgar viciados pelo pecado original —, pode-se afirmar seguramente que nem mesmo a natureza humana de Jesus é judaica.
Evidentemente, sua natureza divina não o é. Nada em Jesus é, pois, judeu. Pode-se dizer que o sangue imaculado de Maria foi apenas o veículo de sua vinda ao mundo. O Pai de Jesus, segundo a carne, é Deus — o Espírito Santo, que não pertence a nenhuma raça.[1] Ele é infinitamente perfeito. Quanto à Mãe de Jesus, Maria, foi criada sem mancha, desde o primeiro instante de sua vida, no seio de sua mãe Ana, sem sequer a mancha do pecado original. Desde o início de sua existência, foi criada num estado de inocência e pureza, em corpo e alma, mais perfeito que o da primeira mulher, Eva, antes da queda. É, pois, uma injúria afirmar que Jesus é judeu — não apenas porque é falso, mas porque cobre-se o Homem-Deus, Nosso Senhor, com o manto dos crimes da raça judaica, que, em sua quase totalidade, é um povo de cerviz dura, merecedor do juízo da Sagrada Escritura: “Vosso pai é o diabo.” (Jo 8,44).
“Serpentes! Raça de víboras! Como escapareis da condenação ao inferno? Vede, eu vos envio profetas, sábios e escribas. Matareis e crucificareis uns, açoitareis outros nas vossas sinagogas, e os perseguireis de cidade em cidade, para que recaia sobre vós todo o sangue inocente derramado sobre a terra, desde o sangue do justo Abel até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem matastes entre o templo e o altar.” (Mt 23,33–35).
Todos os judeus segundo o sangue, que não creem em Jesus e não o reconhecem como o Filho do único Deus vivo e verdadeiro, são, para Ele, uma “sinagoga de Satanás”: “Conheço tua tribulação (…) e as blasfêmias dos que se dizem judeus e não o são, mas são sinagoga de Satanás.” (Ap 2,9). A palavra “sinagoga”, empregada pelo Espírito Santo nesse trecho das Escrituras, mostra que se trata dos judeus segundo o sangue, pois é o termo usual para designar uma assembleia particular à raça judaica. Isso quer dizer, mais uma vez, que ser judeu segundo o sangue apenas é, aos olhos de Deus, algo mau. Para que isso se torne bom, é preciso acrescentar: ser descendente de Abraão segundo o espírito, ou seja, crer em Jesus Cristo e amá-lo com uma fé verdadeira.
Espero que a Igreja, responsável por conservar fielmente o depósito da fé em Jesus, condene os erros inventados pelo pai da mentira — o demônio — mesmo quando esses erros são muito sutis, muito habilmente dissimulados. Não é só Deus que vê que muitos judeus se dizem judeus, mas não o são verdadeiramente (segundo o sentido que Ele dá à palavra “judeu”).
A Enciclopédia Judaica reconhece e publica que 88% dos judeus modernos são turco-mongóis (khazares), sem uma gota de sangue judeu nas veias.
Os judeus sempre chamaram Jesus com desprezo de “o Galileu”, “o Nazareno”. Galileia significa terra dos gentios, terra dos estrangeiros. Os judeus acreditavam que os habitantes da Galileia, mesmo praticando a fé mosaica, não descendiam do sangue de Abraão. A maioria dos nomes dos primeiros apóstolos são nomes gregos, como Bartolomeu, Lucas, André. Os judeus deviam celebrar a Páscoa no sábado — do crepúsculo de sexta ao crepúsculo de sábado. Aos não-judeus praticantes da Lei de Moisés, o racismo judaico concedia permissão para celebrar a Páscoa na quinta-feira anterior — do crepúsculo de quinta ao crepúsculo de sexta. Por isso, Nosso Senhor, que não era considerado judeu de sangue e que não tinha os preconceitos racistas do judaísmo, celebrou a Páscoa mosaica na Quinta-feira Santa com seus discípulos, todos galileus, exceto Judas, da Judeia, que se retirou antes do fim. “Tu também estavas com o Nazareno, Jesus” (Mc 14,68). “Tu também estavas com Jesus, o Galileu!” (Mt 26,69). Os galileus tinham um modo de falar peculiar: “Certamente és um deles, pois até teu modo de falar te denuncia.” (Mt 26,73). Jesus tinha prazer de dizer que não era judeu, mas “Filho do Homem” — ou seja, vindo do gênero humano, descendente de Adão, não apenas dos judeus. Esse mistério de Deus Verbo feito Homem-Deus está acima de todas as raças e nacionalidades. Além disso, há dois Testamentos. Como em todos os lugares e sempre, uma segunda vontade anula a primeira. Assim, o que conta para Jesus não é o Antigo Testamento — voltado apenas aos judeus —, mas o Novo Testamento, que anula o Antigo, voltando-se para todos os homens sem exceção, desde que aceitem sua Redenção pelo verdadeiro Redentor: Jesus.
O Antigo Testamento teve seu mérito: preparou o Novo Testamento. Mas Jesus não pode ser judeu, pois é o Rei de todos os homens, de todas as raças que quiserem fazer parte de seu reino espiritual. Um rei pertence à raça de seus súditos. Ora, todos os homens de todas as raças são súditos do nosso Rei, Jesus. Logo, Jesus pertence a todas as raças; ou melhor, não pertence a nenhuma. Por isso, todas as raças podem reclamá-lo como seu Rei.
Quem diz “raça” diz hereditariedade ou atavismo de família, tribo ou nação. Maria e Jesus nada receberam do atavismo da raça judaica, de seus antepassados judeus.[2] Não pertencem, de fato, a nenhuma raça. São descendentes judaicos apenas pelo sangue, mas não herdaram os traços, ideias ou características da raça judaica. Maria recebeu seu sangue de seus pais, mas sem nenhuma marca do povo judeu. Pode-se, pois, dizer que ela não é judia de raça, que não pertence propriamente ao povo judeu. Se isso é verdade para Maria, também o é para Jesus. É como se eles precedessem seus próprios ancestrais em todos os aspectos, exceto no sangue — e esse sangue é virginal, livre de qualquer traço do pecado original ou do racismo judaico: é o sangue de Maria, a Virgem Mãe Imaculada.
Por que insistir tanto em respeitar o erro — os judeus atuais que praticariam, dizem, a religião mosaica? Que se diga a verdade. Jamais os converteremos com a mentira, encorajando-os em seus erros e falsidades. É pela Verdade que se destrói a mentira, e não pela mentira.
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“Pois estamos convencidos de que o homem é justificado pela fé, sem as obras da Lei. Ou será que Deus é só Deus dos judeus? Não é também dos gentios? Sim, também dos gentios, já que há um só Deus, que justificará os circuncisos pela fé e os incircuncisos pela fé.” (Rm 3,28–30)
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“Isaías foi tão ousado a ponto de dizer: ‘Fui encontrado por aqueles que não me buscavam, revelei-me àqueles que não perguntavam por mim’. Quanto a Israel, porém, diz: ‘Estendi as mãos o dia inteiro a um povo desobediente e rebelde.’” (Rm 10,20–21)
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“Digo a verdade em Cristo, não minto — minha consciência o confirma pelo Espírito Santo: sinto grande tristeza e dor incessante no coração. Pois eu desejaria ser anátema, separado de Cristo, por amor de meus irmãos, os da minha raça segundo a carne, que são israelitas, a quem pertencem a adoção, a glória, as alianças, a Lei, o culto, as promessas, os patriarcas, e de quem, quanto à carne, descende o Cristo, que é sobre todas as coisas, Deus bendito eternamente. Amém! (…) Pois nem todos os que são de Israel são o verdadeiro Israel; nem todos os descendentes de Abraão são seus filhos. (…) Que diremos, então? Haveria injustiça da parte de Deus? De modo algum! Pois Ele disse a Moisés: ‘Terei misericórdia de quem eu quiser ter misericórdia, e me compadecerei de quem eu quiser me compadecer’. Assim, pois, depende não do querer, nem do esforço, mas da misericórdia de Deus. (…) O oleiro não tem poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra? E se Deus, querendo mostrar sua ira e dar a conhecer seu poder, suportou com muita paciência vasos de ira preparados para a perdição, e quis dar a conhecer as riquezas de sua glória para com os vasos de misericórdia, que de antemão preparou para a glória, para nós, a quem chamou — não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios —, onde está a injustiça?” (Rm 9,1–24)
[1] Rezamos no Credo: “Jesus Cristo foi concebido pelo poder do Espírito Santo”. (N.T.)
[2] Mais ainda, em todas as passagens do Evangelho que tratam de questões desse gênero, a família (biológica) é apresentada como um obstáculo recorrente — uma pedra de tropeço no caminho do progresso espiritual. (N.T.)
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Artigo original: https://www.lasapiniere.info/archives/2353
