O CIDADÃO COMUM ALEMÃO
Norberto Toedter
Em publicação anterior já falei das minhas impressões sobre o clima que reinava na população alemã sob o governo nacional-socialista. De fato, ninguém podia dizer que vivia sob um regime de terror. Isso foi confirmado recentemente pelo psicólogo social Fritz Süllwold em seu livro Deutsche Normalbürger 1933–1945: Erfahrungen, Einstellungen, Reaktionen: Eine geschichtspsychologische Untersuchung (“Cidadãos Comuns Alemães 1933–1945: Experiências, Atitudes, Reações: Um Estudo Histórico-Psicológico”) (Herbig, 2001). Através de cuidadosa pesquisa, ele procurou saber o que o cidadão comum da época do nacional-socialismo pensava e como encarava a situação em diversas áreas. Para tanto, ele arguiu pessoas selecionadas e qualificadas que àquele tempo viveram, não lhes perguntando sobre seus próprios sentimentos e pareceres, mas sim pedindo que se colocassem na posição de observadores contemporâneos do seu entorno. Conseguiu, assim, apesar de ter mantido o respeito ao politicamente correto, um quadro de opiniões razoavelmente próximo da realidade. Procuro aqui sintetizar algumas dessas conclusões.

Quase todos estavam convencidos de que o pleno emprego e a boa situação econômica (antes da guerra) eram conseqüência da ação governamental. A confiança no Reichsmark era total (98%). O funcionalismo público era considerado correto e solícito. Salários, preços, contribuições sociais, cuidados previdenciários e assistência aos pobres e carentes pareciam apropriados. A maioria se considerava bem protegida pela polícia. A justiça era vista como correta e independente, porém oportunista quando a ação tinha conotação política. O princípio comunitarista era amplamente dominante — o bem comum prevalecia perante o particular. O convívio social era marcado pela consideração e pelo respeito ao próximo. Os valores morais eram razoavelmente rigorosos. Em caso de consequências de relações pré-conjugais, o casamento tempestivo era norma. Ressalta-se que a hierarquia calcada em valores e virtudes não era atribuída especificamente ao nacional-socialismo vigente, pois provinha de antigas tradições.
O Ditado (Tratado) de Versalhes de 1919 tinha junto à população o conceito de injustiça gritante, e a política revisionista de Hitler era bem recebida. O mesmo valia para os esforços de recuperação de terras alemãs perdidas. O Anschluss da Áustria e a libertação dos Sudetos foram recebidos com orgulho e alegria. A opressão e mau tratamento que a população alemã vinha sofrendo na Polônia e na Tchecoslováquia provocavam indignação e raiva.
Não houve exaltação patriótica quando da eclosão da guerra em 1939, mas desânimo e depressão. Poucos acreditavam que fosse uma iniciativa do governo do Reich. Em geral se dava crédito ao noticiário oficial. Apesar de severamente proibido, escutava-se transmissão de rádios estrangeiras. A população se surpreendeu diante da rapidez com que se conquistaram as vitórias na Polônia, na França e nos Bálcãs. A guerra contra a União Soviética foi recebida com grande preocupação. O mesmo se deu quando os Estados Unidos entraram no conflito.
A guerra aérea era vista como terrorismo praticado contra a população civil, uma vez que atingia principalmente áreas residenciais. Contudo, segundo opinião de dois terços dos entrevistados, ela não conseguiu quebrar o moral das pessoas. A invasão da Normandia pelos Aliados foi considerada “o começo do fim”.
Perguntados sobre se havia medidas que pudessem ter sido consideradas para terminar uma guerra que aparentemente não mais poderia ser vencida, 52% dos consultados responderam “não”. Obstáculos principais seriam a exigência de rendimento incondicional e o medo de se entregar a um adversário inescrupuloso, principalmente aos soviéticos.
Em contradição com o que se pensa hoje, judeus ou assuntos judaicos não ocupavam espaço no pensamento do cidadão comum alemão, por representarem uma minoria inferior a 1% da população. Também deve se considerar que o cidadão comum tinha outros problemas existenciais que o exigiam em alto grau espiritual e emocionalmente. Hoje se esquece da preocupação e do medo que assoberbavam aqueles que tinham marido, filho, pai, irmão ou amigo nas linhas de frente. Acrescente-se a isso o aumento das tarefas que cabiam a cada um devido à ausência daqueles que foram chamados para o serviço armado. Com os bombardeios aéreos, o cidadão comum estava constantemente exposto à perda da moradia ou da própria vida. Tais condições ambientais e emocionais costumam ser hoje desprezadas ou marginalizadas quando se conjectura sobre a vida naqueles tempos.
Obras como essa de Fritz Süllwold constituem importante contribuição para que se recupere a imagem de um povo submetida a uma permanente deturpação.
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Retirado de: A paz que não houve. O outro lado da história. Curitiba: Editora e Livraria do Chain, 2010, p. 149–150.
