O FALSO PAPA E A FALSA IMAGEM
Carlos Alberto Disandro, La Hostería Volante, n° 25, 1970
Quando La Hostería Volante, há já mais de dez anos, começou a sublinhar, com linguagem incisiva, a surpreendente circunstância de que a maior “revolução cultural” do Ocidente se gestava nos bastidores da sacristia, nos seminários intelectualmente corrompidos e espiritualmente obsoletos; nas novíssimas tendências das “universidades católicas”, concebidas para perverter a Fé; enfim, nos mais altos escalões da hierarquia, muitos, atônitos, apenas deram atenção ao rigor de certas palavras duras, sem buscar compreendê-las; muitos outros, compungidos e inquietos, com gesto de fariseu pudico, rasgaram seus honrosos trajes doutorais e aconselharam os jovens a não ouvir, não ver, não entender.
Hoje, nestes sombrios começos de 1970 e de sua década “promissora”, o panorama é mais sinistro e, ao mesmo tempo, mais claro, se se quiser. Mas não faltam, como sempre, os pusilânimes, os desinformados, os falsos teólogos, os políticos de papelão ou de lata, os supostos “nacionalistas”, aliados com os mais nefastos inimigos do país e da cultura. Da nossa parte, cabe apenas prolongar aquelas linhas interpretativas, completá-las e corrigi-las: pudemos perceber, substancialmente, a radicalidade da mudança revolucionária, religiosa e política, e com isso articular as conotações da super-loja sinárquica, da qual Giovanni Battista Montini seria ao mesmo tempo o máximo “solvente” e o máximo “coagulante” (segundo a interpretação esotérica do solve et coagula alquímico).
O horizonte destrutivo abarca todas as instâncias possíveis dentro da Igreja: o Pontificado, a hierarquia; ou refere-se igualmente ao culto, à doutrina, à ética, à teologia… Tudo está subvertido, porque está subvertido desde cima, desde a cabeça. A Igreja, no entanto, perdura incólume no meio dessa satânica Babel, conduzida por um pseudo-pontífice crístico, alimentada, sim, por um autêntico pontífice dos poderes esotéricos e cabalísticos, que corrompem o mundo inteiro para sua fase extrema de dominação.
Essa Babel Romana se evidencia com nitidez nos últimos discursos do ex-papa reinante (reinante apenas por império do medo, da ignorância, da obsolescência espiritual, da aliança com o mundo, o demônio e a carne, para usar a linguagem da antiga mística). Dentre esses discursos, destacamos sobretudo os que precederam à abolição do culto católico romano (abolição que entrou em vigor ilicitamente em 30.11.1969), um de 19 de novembro de 1969, e outro de 26 de novembro do mesmo ano — este último uma verdadeira zombaria à venerável herança do gregoriano e do latim. Depois, o nefandíssimo discurso de Natal, verdadeira ladainha antropocêntrica, antropolátrica, e as sucessivas alocuções desta Semana Santa, tão estranhamente pungente para nós e para milhares de fiéis verdadeiros no mundo.
Foi precisamente em sua alocução da Quinta-feira Santa que Giovanni Battista Montini deslizou um sinistro fulgor judaizante que define o caráter anticrístico de seu reinado, a tendência sentimentalóide de sua religiosidade sem fundamento, seu compromisso inalterável com um humanismo intramundano e satânico. O falso Papa exalta a possibilidade (ou anseia, o que dá no mesmo) de termos uma “imagem” de Cristo que corresponda à sua carnalidade histórica e que possa ser transmitida pelos meios de comunicação audiovisual de massa — a televisão, por exemplo. Numa era em que a televisão e as rádio-fotos levam os rostos dos homens ao mundo inteiro em instantes, Montini declarou ser estranho e decepcionante que os seres humanos não saibam como era Jesus Cristo.
“Queríamos vê-lo — disse no Sermão da Quinta-feira Santa — em nossa imaginação como Ele era. Sua figura, Seu rosto, o timbre de sua voz, os gestos de suas mãos”. “Nenhuma Imagem visível d’Ele chegou até nós…”.
Justamente na Quinta-feira Santa, dedicada à adoração da única imagem válida teândrica, isto é, a Eucaristia, este servo dos judeus — judeu, talvez, ele mesmo — consagra sua autoridade a exaltar, com linguagem imperdoável à sólida doutrina recebida dos Padres e da Tradição, uma eventual imagem projetada na tela mais corruptora, pelos meios mais dessacralizados, pelas instâncias mais mercenárias e pornocráticas de que tenhamos memória ou ideia. Não é isso uma zombaria judaica ao inviolável segredo da simplicidade eucarística, que preanuncia, preludia e realiza o encontro face a face da transfiguração? Não é isso o mais claro testemunho de uma pseudomística do sentimento, que pretende aliar uma técnica objetivamente comprometida com a destruição da espiritualidade à imagem eterna do Deus Invisível (eikón tou theou aoratos)?
Da nossa parte, queremos apenas refletir sobre um aspecto misterioso dessa relação falso Papa/falsa imagem de Cristo, e projetar suas inevitáveis consequências a nível de todas as instâncias históricas que, neste ano dramático, se aprestam a consolidar ainda mais sua férrea condução luciferina. Nossa reflexão pretende recuperar o sentido deste tempo funesto, que nega a presença substancial intramundana eucarística e exalta uma possível imagem televisiva, cinematográfica, de revista — misticamente indesejável — confundida com as incontáveis imagens da pornografia mais refinada e sodomita. A imagem do Filho de Deus/Filho do homem rebaixada ao nível do mais tremendo satanismo da carne. Não é essa, acaso, a máxima paródia judaica do mistério da Encarnação e do mistério eucarístico?
Os verdadeiros pontífices vivem a mística da presença Trinitária na alma, na Igreja, nos sacramentos, na história, etc. Essa mística resume-se no vínculo com Cristo, como ícone do Deus Invisível, e no vínculo com a Eucaristia, que nos conduz, pela simplicidade de uma imagem não carnal (ainda que física, substancial), à própria substância do Deus-Homem. Por isso, a Eucaristia se come, porque a extrema materialidade do comer e do beber já está vencida na posse mística do pão consagrado. Esse vínculo profundo é característico em São Gregório Magno e em São Pio X. O apelo a uma imagem carnal do Deus-Homem reproduz o apelo judaico: Que desça da Cruz; é a abolição da Fé.
Ao mesmo tempo, aquela profunda relação entre o Vigário e a cabeça que representa produz no mundo uma multiplicação da graça e da santidade, na medida em que ambas derivam da habitação do Pontífice no mistério da humilhação no pão e no vinho, na vítima, na hóstia — supremo signo de todas as realidades existentes, suprema realidade da qual dependem todos os signos possíveis (presentes e futuros). Como, pois, desejar uma imagem à medida das imagens das vedettes, das prostitutas de luxo, dos homossexuais e drogados, etc., etc., difundidas com requintados matizes carnais pela pornocracia judaica? Não é isso, ao mesmo tempo, negar a Cristo, ícone do Deus vivo, e ao cristão, ícone do mistério trinitário?
Mas Paulo VI, pseudo-pontífice, contra a secular e venerável mística teândrica e eucarística da Igreja, contra uma tradição que remonta nada menos que a São João Evangelista, passa por grandes papas e doutores como São Gregório Magno e culmina em São Pio X, pretende também aqui inovar com uma linguagem contraditória à tradição; difundir um sentimentalismo da imagem que é, em si, pornocracia pseudoteológica, e promover um motivo de corrupção maior no horizonte debilitado da Igreja. Essa tendência de Paulo VI define com clareza uma teologia e uma mística contrárias à natureza da Igreja, à relação entre essa natureza e o universo dos signos, e em particular destrói a harmonia entre essa natureza teândrica e os signos sacramentais.
Gera, por outro lado, uma falsa piedade, que pode confundir-se com o sentimento massificado de admiração, de comoção ou de júbilo mundano, e que deixa, assim, de ser um estado de recolhimento, compunção e meditação esclarecedora. Essa piedade passa a ser uma paixão psicofísica, carnal, sem nenhuma ligação com o que até agora se entendeu por “piedade cristã” (em seus diversos e profundos sentidos teológicos).
Inscrevemos esta temática da falsa imagem e seu vínculo com o falso Papa entre os tópicos do assim chamado “humanismo de Montini”/Paulo VI: humanismo consagrado a construir precisamente uma falsa imagem do homem, baseada na premissa de uma total radicação evolutiva no mundo. Em nossa interpretação, portanto: “falso Papa”, “falsa imagem” e “falso humanismo de radicação intramundana” situam-se no extremo oposto das consequências que podemos deduzir da mística eucarística secular: o Pontífice sustentado não apenas por sua função, jurisdição ou autoridade, mas por um vínculo profundo com o signo-realidade, que denota e realiza o sacerdócio pontifical de Cristo (no mistério trinitário). Por isso mesmo, a frutificação da graça e da Fé, e por conseguinte a fome de santidade nos fiéis, alimentados e sublimados justamente pela imagem eucarística.
Propor, pois, o anseio por uma imagem tipográfica, televisiva ou de tela cinematográfica, implica renverser (subverter) a relação, implica destruir a harmonia entitativa da Igreja e trabalhar para extinguir a Fé.
Desde esse ponto de vista, impõe-se uma conclusão: Não será que Montini — ex-papa — perdeu a Fé? É isso possível na economia do mistério da Igreja? Creio que por esse caminho nos aproximamos da tremenda instância que vive este homem enigmático, do abismo tremendo deste tempo tenebroso. Nem Shakespeare imaginou tema tão profundo, tão trágico, tão dilacerante: o caso de um pontífice que perdesse a Fé. Mas Montini/Paulo VI é, de todo modo, um personagem e um caso digno do gênio shakespeariano, do Shakespeare do período das trevas: um “Macbeth do poder sacro”, que avançou tanto na via judaica que já não pode retroceder. Quem poderá prever então o que se prepara nas lojas, e quem poderá descrever como amadurece, no entanto, o mistério teândrico, traído por um pseudo-pontífice, mas vivido profundamente na vida mística da Igreja? Nós, simplesmente, confiamos em São Miguel Arcanjo.
