O GRANDE CULPADO
Joseph Bishop
Tradutor do texto: Gustavo Petrônio Toledo.
Descrição: Resenha do livro O Grande Culpado: O plano de Stálin para iniciar a Segunda Guerra Mundial, de Viktor Suvorov (Amarilys Editora, 2010, 456 páginas).

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Os julgamentos posteriores a 1945 por crimes de guerra estão sendo realizados em Nuremberg, e a imprensa internacional cobre os procedimentos com entusiasmo. O tribunal é composto por juízes que não provêm das potências vencedoras, mas de países neutros durante a guerra (Suíça, Tailândia, etc.), para garantir a imparcialidade e a justiça.
Os acusados são chamados…
A União Soviética é a primeira. Seus líderes políticos e militares enfrentam um sério processo judicial por conspirar e travar uma guerra de agressão contra a Finlândia, Letônia, Lituânia, Estônia, Romênia e Polônia. Enfrentam acusações de terem submetido a trabalhos forçados até a morte centenas de milhares, ou mesmo milhões, de prisioneiros de guerra alemães e japoneses capturados. É utilizado o novo termo do pós-guerra, “genocídio”, juntamente com crescentes acusações de haverem obrigado dezenas de milhões de seus próprios cidadãos a trabalhos forçados até a morte em seu sistema de campos de trabalho do GULAG — um verdadeiro holocausto dentro de suas próprias fronteiras. Também são acusados de serem responsáveis pelo genocídio no qual pereceram entre 6 e 12 milhões de civis alemães devido às transferências forçadas de populações de seus lares ancestrais para uma Alemanha do pós-guerra agora truncada; transferências nas quais o estupro, a tortura, o assassinato e o saque absoluto eram mais regra que exceção.
Em seguida, são acusados os britânicos, por assassinato em massa de civis alemães por meio de bombardeio aéreo contínuo e vingativo. Sua defesa, argumentando que o fizeram “… para quebrar o moral alemão”, rapidamente se desfaz, pois a acusação demonstra que se tratou de assassinato em massa puro e simples, motivado pelo ódio, e não de um ataque ao “moral” alemão, o qual, na realidade, só foi fortalecido junto com a vontade de resistência alemã. Os britânicos também enfrentam acusações de conspiração e de travar uma guerra de agressão contra a Noruega, em 1940, estendendo assim a guerra à neutra Escandinávia. Enfrentam então uma acusação furiosa por haverem atacado a frota francesa de Vichy, neutra, em 1940, ataque no qual morreram centenas de marinheiros franceses — outro crime de conspiração para travar guerra de agressão. Finalmente, são acusados de provocar deliberadamente a inanição de toda a população civil alemã da zona sob sua ocupação militar, área na qual milhares pereceram e outros sofreram sequelas permanentes de saúde.
Depois dos britânicos, são os franceses que comparecem perante a justiça. Enfrentam acusações de assassinato em massa de prisioneiros de guerra alemães após o fim da guerra, escravizando-os e obrigando-os a trabalhos forçados até a morte, bem como de execuções aleatórias e de privar deliberadamente os prisioneiros de alimento, abrigo e cuidados médicos. Também são acusados de introduzir deliberadamente tropas coloniais africanas na Alemanha ocupada, dando-lhes carta branca para estuprar, saquear e assassinar a população civil indefesa.
Por fim, os norte-americanos estão no banco dos réus. São acusados de haver realizado praticamente a mesma campanha de bombardeios genocidas que os britânicos, e também pelo crime muito mais grave de assassinato em massa de prisioneiros de guerra alemães, utilizando os mesmos métodos que os franceses empregaram contra seus prisioneiros: inanição, exposição às intempéries, negação de cuidados médicos, assassinato, etc. — e aqui o número de vítimas se aproxima de dois milhões. E isso não é tudo. Os norte-americanos também são acusados de estupros em massa, saques em grande escala, escravização ou semi-escravização de prisioneiros de guerra…
Além disso, são acusados a Grã-Bretanha, a França e, especialmente, os Estados Unidos, de “crimes contra a paz”, em relação a suas políticas clandestinas antes da guerra, que pressionaram os poloneses à intransigência em suas negociações com os alemães sobre Danzig e um corredor para a Prússia Oriental. Essa intransigência levou diretamente à guerra de 1939.
O número de pessoas assassinadas pelos aliados orientais e ocidentais chega a dezenas de milhões de vítimas, eclipsando de forma absurda o número atribuído aos alemães de “seis milhões” de mortos…
É claro que tais julgamentos nunca foram realizados. No entanto, essa é a justiça que deveria ter prevalecido após a guerra, se os julgamentos e as acusações tivessem sido conduzidos com imparcialidade. A questão é que as mesmas nações que se apresentaram como potências vitoriosas, e cujos representantes acusaram e julgaram a nação derrotada, a Alemanha, por cometer crimes contra a paz e planejar uma guerra de agressão, eram pelo menos tão culpadas — e muito possivelmente muito mais.
E ninguém é tão culpado quanto Joseph Stalin.
Viktor Suvorov, em seu último livro, O Grande Culpado, levanta a questão de por que Joseph Stalin e seus subordinados políticos e militares não foram processados por haver planejado uma guerra de agressão contra toda a Europa. Este livro representa uma síntese das obras publicadas pelo autor após seu emblemático livro Icebreaker, obras que não tiveram edição em inglês, mas foram publicadas em francês e russo. Icebreaker se concentrava principalmente nos preparativos militares que Stalin havia realizado antes de sua planejada invasão da Europa, em julho de 1942. Nesse livro, Suvorov demonstrou que o treinamento, o posicionamento e o armamento do Exército Vermelho estavam totalmente orientados para uma guerra de agressão. O Grande Culpado tem um enfoque mais político e estratégico. Suvorov mostra a estratégia fundamental leninista-stalinista de longo prazo de conquistar o mundo inteiro para a União Soviética, uma “república” de cada vez — algumas talvez pacificamente, mas a maioria por meio da guerra. Na terminologia marxista, as “guerras justas” seriam aquelas cujo objetivo fosse incorporar uma nação ao campo “socialista”, enquanto as “guerras injustas” seriam guerras de qualquer outro tipo.
No final da década de 1930, a economia soviética já estava em ruínas, pois seus recursos haviam sido consumidos por enormes gastos e preparativos militares. Suvorov apontou que a única maneira de a URSS e seu sistema marxista-leninista sobreviverem seria conquistando e absorvendo as prósperas nações capitalistas. A proposta de construção do magnífico “Palácio dos Sovietes” em Moscou pretendia ser uma espécie de estrutura de recepção para cada nova “república soviética” — isto é, Alemanha, França, Espanha, Suécia, Inglaterra e todas as demais — que seriam admitidas uma a uma após sua conquista pelos soviéticos. No entanto, após a invasão alemã de junho de 1941 e o rápido avanço dos exércitos de Hitler, a construção desse edifício foi abandonada.
Suvorov nos conduz à mente de Stalin e nos apresenta um mestre da grande estratégia, extremamente inteligente e astuto, mas também eminentemente criminoso. Herói para seus fiéis por ter transformado um país relativamente atrasado em um gigante industrial e militar semimoderno, teria se tornado um herói ainda maior se tivesse conseguido incorporar toda a Europa ao colosso soviético. Mas isso não aconteceu, pois a invasão de Hitler antecipou a de Stalin.
Os acusados alemães em Nuremberg apresentaram a invasão da URSS como uma guerra preventiva. Eles conheciam a concentração soviética próxima de suas fronteiras; e seus serviços de inteligência estavam perfeitamente cientes da iminente invasão do Exército Vermelho. Em 1945, ninguém lhes deu crédito. Ainda hoje, a tese de Suvorov é geralmente descartada como absurda, até mesmo extravagante, e persiste a mitologia herdada de uma União Soviética inocente, surpreendida pelo agressor nazista.
Suvorov mostra como a propaganda soviética transformou-se rapidamente nessa mitologia após a invasão alemã. As primeiras derrotas do Exército Vermelho foram destacadas e condenadas, e sua liderança foi abertamente retratada como inerte, irresponsável e fracassada. No entanto, as derrotas posteriores e os cercos maciços não foram mencionados, pois a ligação entre essas derrotas e cercos e uma invasão surpresa era insustentável. Na opinião de Suvorov, o próprio Stalin simplesmente não podia acreditar que os alemães invadiriam. Ele estava ciente, é claro, da concentração alemã, mas deve tê-la considerado uma medida defensiva. Os soviéticos eram tão superiores em armas, veículos, aviões e tropas — todos eles, naturalmente, treinados e mobilizados para um ataque agressivo — que uma invasão alemã era simplesmente impossível, uma loucura, até mesmo suicida.
Suvorov acredita firmemente que Hitler foi uma criação ou criatura de Stalin. Que Hitler só pôde chegar ao poder em 1933 devido à incapacidade do poderoso Partido Comunista Alemão de impedi-lo, e que esse fracasso teria sido planejado ou ordenado por Stalin. Por quê? Porque Stalin planejava usar Hitler como o homem que reestruturaria o exército alemão e, em última instância, o utilizaria para redesenhar as fronteiras da Europa e mergulhar o continente novamente na guerra — uma guerra na qual as potências capitalistas lutariam até a exaustão e, em seu estado final, seriam atropeladas pelo maciço Exército Vermelho. Suvorov demonstra de forma convincente a grande dependência da Alemanha do petróleo romeno, e a facilidade com que Stalin poderia ter se apoderado dos campos petrolíferos logo do outro lado da fronteira, estrangulando efetivamente a máquina de guerra alemã e pondo fim à guerra praticamente a qualquer momento. Mas não fez nada, de acordo com a estratégia já mencionada de esgotar o Ocidente capitalista mediante um conflito prolongado. Esse plano, naturalmente, também fracassou, já que os inimigos da Alemanha foram aniquilados em uma campanha relâmpago após outra. Os próprios campos petrolíferos acabariam capturados e assegurados pelas tropas alemãs.
Suvorov atribui a Stalin esses magistrais planos estratégicos de longo prazo, todos em consonância com o plano de Lenin de absorver o mundo no socialismo; mas não explica adequadamente como os alemães conseguiram frustrá-los com avanços rápidos e um comando tático superior. Suvorov, porém, sugere que Stalin foi habilmente superado por Hitler, pois, à medida que as vitórias nazistas na Rússia se acumulavam durante o verão e o outono de 1941, o próprio Stalin caiu em profunda depressão e praticamente desapareceu no Kremlin, sozinho, temendo sua prisão iminente por parte de seus companheiros de partido. Contudo, graças ao “culto à personalidade” que Stalin havia forjado na mente dos cidadãos, ele era necessário como símbolo de liderança, esperança e resistência. Assim, escapou da prisão e finalmente retornou ao seu papel de generalíssimo, herói e salvador da pátria.
Uma análise interessante do autor é o caso Tukachevski. Uma interpretação popular é que o serviço de inteligência alemão das SS teria plantado documentos para os soviéticos, sugerindo que o marechal Tukachevski e muitos outros em altos cargos militares estariam conspirando contra Stalin, o que provocou a paranoia natural de Stalin e levou a uma purga maciça do alto comando militar soviético, eliminando de fato a maior parte do pessoal de alta patente e enfraquecendo significativamente a capacidade da URSS de travar uma guerra. O autor apresenta um argumento convincente de que o marechal Tukachevski estava longe de ser o líder eficaz que a maioria dos historiadores descreve, e que o Exército Vermelho não carecia de oficiais experientes e de alto escalão em meados de 1941. As próprias purgas, argumenta o autor, foram medidas racionais, embora implacáveis, tomadas por Stalin para “domar” o Exército Vermelho e transformá-lo em uma força completamente obediente à sua vontade para a vindoura grande guerra contra a Europa. O Grande Culpado descreve uma União Soviética muito melhor preparada para grandes conflitos do que a Alemanha nazista. Suvorov assinala que as forças alemãs não estavam realmente preparadas para uma guerra na escala do conflito contra a URSS. As forças alemãs não possuíam tanques suficientes. A maior parte de seu transporte era realizado em antiquados carros puxados por cavalos; soldados e veículos estavam exaustos e desgastados por campanhas anteriores. Ainda assim, essas forças destruíram um exército soviético após outro, até que praticamente nada restou e chegaram às portas de Moscou, com a vitória praticamente ao alcance.
A explicação alemã padrão para o fracasso de 1941 é o inverno russo mais rigoroso em décadas, oceanos de lama, vastas extensões e a falta de estradas para percorrê-las. A isso soma-se a questão do atraso alemão de seis semanas na Operação Barbarossa, devido a campanhas imprevistas na Iugoslávia e na Grécia, bem como aos problemas militares italianos nesses países.
Suvorov descarta essas explicações, considerando-as úteis para a propaganda alemã da época, mas, em última instância, sem fundamento. Ele demonstra que as forças alemãs simplesmente não eram suficientes para derrotar a União Soviética. E, no entanto, a Alemanha não teve alternativa senão invadir, não apenas para frustrar os planos de invasão de Stalin e assim evitar que a Alemanha e a Europa caíssem em suas mãos, mas também porque o conflito era inevitável, dadas as crescentes exigências e agressividade da URSS. Em última instância, tudo se resumia à questão de quem atacaria primeiro. Enquanto Stalin tinha a opção, Hitler não. Assim, embora Suvorov apresente de forma convincente Hitler e Stalin como agressores, Stalin emerge claramente como o “grande culpado”.
Aceitarão os historiadores essa tese, ou continuarão escondendo-se atrás do mito de que Adolf Hitler foi o único agressor na Europa durante a Segunda Guerra Mundial? A verdade histórica parece ter pouco valor hoje em dia. Contudo, a obra de Suvorov lança luz sobre essa questão tão politizada.
